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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

04.02.22

O Homem do século XXI abarca o mundo pela rama, é um Leonardo da Vinci de fugida e em tudo tem êxito. Como Terêncio, nada do que é humano lhe é estranho. Em suma, é contemporâneo de um sem-número de delírios.

Nas redes sociais ou na televisão, é vê-lo a injectar vigor em raciocínios mancos, a ornamentar com artifícios ideias rombas com o à-vontade de um sábio. O seu palavreado é magnífico, grandes construções positivas — mas sem sal.
Em chegando perto dos arquivos do sangue, não descansa enquanto não os diluir em contradições. Não compreende a cólera, não compreende o Homem.

A tragédia é sistematizada, é-lhe retirada a cabeça e as patas de molde a tornar-se mais mastigável, ou mesmo passada em revista, emendada, as dores arredondadas por defeito ou por excesso consoante as vontades. O objectivo é tornar a mágoa num post de circulação corrente. Ao dar-se conta do sucesso, é acometido por uma epifania. Da manufactura da ansiedade até à indústria do grito é um tirinho. Inesperadamente, sobe na vida graças à escada de lágrimas de crocodilo.

O público ciclópico (dinastia do literal) engrandece-o, resgata-o da invisibilidade, a pior maldição deste século e eleva-o aos píncaros da genialidade. Este cadáver esquisito nascido da necessidade da turba passa a oscilar entre o positivismo mastodôntico e o niilismo de pacotilha. Mais: alimenta-se disso.

O influencer — figura central destes últimos anos — é um pensador desnorteado, necrófago de citações franzinas, infinitamente coxo e maravilhosamente cego. Explora a sua cabeça com medo de encontrar alguma réstia de lâmina. Sorri para tudo como se fosse apresentadora de um programa da manhã. Coligiu os ecos e chamou-lhe obra, apropriou-se daquilo que todos fazem e envernizou-o, passou o antigo para outro formato. Retira prazer em liquidar o duplo sentido ao transplantá-lo para imagens. Não muda o urinol de sítio, se está aqui é por alguma razão, comenta. Maneja Deus e o Diabo como um rico os talheres: com gestos calculados sem pingo de humanidade.

A cobardia é o seu modus operandi, nunca ataca um problema de frente; inspirado em danças populares, anda às voltas e voltas e é incapaz de entrar no seu âmago.

Profundamente apoético, crê ver nas marcas um verso, num anúncio um poema. Nada o estremece verdadeiramente. Os seus suspiros são reflectidos, bem enquadrados e fotografáveis. Os seus ódios são elogios mascarados; as suas exasperações, birras de crianças bigodudas. Não tem preferências nem preconceitos, vai ao sabor da corrente, qual salmão após a desova. É um santo fabricado pelos holofotes e pelos números. Diz-se um espírito livre e, sem se deixar abater pela contradição, aproveita todos os segundos para pregar a xaropada mais em voga. Agarra-se a todas as verdades estrangeiras, preferencialmente aquelas frases curtas repletas de palavras da moda. É o cu manso de todos os ventríloquos. Os seus passos, assim como o ‘pensamento’ e o sorriso, são oportunidades de negócio.
O seu maior sonho é monetizar cada canto da sua Odisseia em frangalhos.

Homem do século XXI, roberto gamito

 

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