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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

24.06.21

A domesticação torna-nos previsíveis. No entanto, o animal manso é tão-somente uma ficção. Atingido o pino da cólera, o selvagem romperá o casulo da etiqueta e ensinar-nos-á o eclipse da pose.

O passado caiu-me aos pés na rua apinhada. Os peões evaporaram-se, dando lugar à encenação teatral da memória. Há personagens desfigurados, há personagens que não deviam lá estar, personagens secundárias que ascenderam a principais e vice-versa. A memória há-de saber conduzir-nos até ao último acto. Então era este o fito do Homem desde o início: semear recordações para mais tarde serem colhidas.

Ambicionar a leveza ou o seu contrário? Não tenciono ser um mero joguete da tempestade. A fama percorre a estrada do embuste do zero ao infinito, todavia é incapaz de encontrar o que procura.

Nas redes sociais, ficamos com a sensação de que há ninguém. Melhor dizendo, não há ninguém fora do eu. Um desfile de eus insuflados pela patranha.

Presentemente, aproximamo-nos do outro com cautela redobrada. As relações são guionadas, não vá a conversa resvalar no imprevisível. É preciso expurgar o animal do discurso. O filósofo ri-se quando o Homem tenta domar a paixão. O fogo é aquilo que não controlamos.

Depois disto acabar — diz um profeta no coração da catástrofe —, as ruas apinhar-se-ão de loucos ou salvadores — dou-vos a escolher o epíteto —, inventores de mundos paralelos.

O viajante do tempo comunicou-me que a verdade fora banida do mundo. Temia-se que o confronto com ela pudesse ferir o Homem.
Provavelmente outra mentira.

A única coisa que nos fez continuar foi o facto de acreditarmos que há por aí uns lábios que nos sirvam, qual sapato na Cinderela.

Ateu em queda. Reza a lenda que, a certa altura, houve uma conversão. Um precipício e um empurrão, eis a fórmula: não necessitamos de mais nada para transformar um incréu num crente.

Se somarmos os crimes e as virtudes, obtemos sempre o mesmo Homem.

Segundo Orwell, o importante não é mantermo-nos vivos, é mantermo-nos humanos. Percebo a pertinência da frase, comenta o mundo cada vez mais desumano. Na orla do vulcão, a dança intensifica-se, há que escolher bem onde pôr os pés. Um passo em falso e é o fim. Acrescente-se esta informação preciosa do vulcanólogo: atenção ao que vem da terra, todavia nunca descurem o que vem do céu — pode ser a vossa perdição.

Dá-me, livro, um pitéu para o cérebro. Algo aveludado com que entreter a língua.
O poeta — desculpem o devaneio — é um camarão recalcitrante numa cataplana de lérias. Quero muito ressuscitar, cogitou o depressivo, mas até para isso é preciso coragem.

O boom de Jesus postiços é a resposta ao boom de Lázaros. O ideal seria levantarmo-nos da morte pelo nosso próprio pé.

Mesmo que grite aos ouvidos de Deus, o futuro não começa mais cedo. Só podes gritar segundo os trends. Só te podes emocionar segundo os trends. Só podes ser imprevisível segundos os trends.
Esta hipocrisia faz quantos aos cem?, pergunta um aspirante a influencer ao vendedor de uma vida nova.

O século XXI como mão que desliga a máquina ao pensamento.

ao contrário de cummings, a minha especialidade não é viver — em minúsculas, para piscar o olho aos exegetas.

É preciso soterrar os muros em poemas. Falta tinta? Tragam os polvos e espremam-nos como limões. Não é tempo para atirar a toalha ao chão, ainda não tentamos tudo o que está ao alcance da mão.

É preciso encomendar novos deuses ao futuro. É uma questão de estatura do Homem, não de salvação.

Não é momento para deixar de regar a rosa. Nesta altura, uma flor murcha pode ser suficiente para o mundo ruir.

O passado caiu-me aos pés, Roberto Gamito

 

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