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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.02.21

Não haverá obstáculos morais, legais ou de outra natureza quando o assunto é vistoriar com fins pedagógicos uma mulher bem posicionada no espectro da beleza e analisar o comportamento alheio para fins humorísticos. A mulher bonita em vias de se descascar nunca causou engulhos a nenhum ser vivo pensante.
Os cientistas do engajamento anunciaram a morte ao culto do sexo e do corpo demasiado cedo. Se há coisa que permanece rijo é o culto do sexo,  perdoem-se a laracha.
Há dias escutei, perplexo, uma figura de proa da internet a sair-se como uma frase do género: a política, na internet, é um tema muito mais atraente que o sexo e seus derivados. As coisas que se dizem hoje em dia para manter a suposta aura de superioridade. Ou seja: quem nunca fornicou enquanto dissertava sobre política internacional ainda fode como um bárbaro. Quem não se masturba a olhar para uma folha de Excel é um selvagem.

Ontem, na twitch, a casa dos directos e do improviso, sucedeu mais um episódio da telenovela conteúdo. Uma moça com os seus vinte e muitos ou trinta e poucos pavoneava-se num jacuzzi de um motel enquanto ensaiava uma bebedeira com uma zurrapa qualquer, que também podia ser um champanhe de renome, enquanto se queixava da atmosfera tóxica da plataforma, ao mesmo tempo que era abençoada por uma saraivada de insultos no chat. Para terem uma ideia do que sucedeu em matéria de intensidade. Se os moderadores forem pagos ao ban, creio que podemos estar diante das pessoas mais ricas de Portugal. Mais um dia na twitch, dirá aquele que vagabundeia sem ideia de ficar pelos canais sugeridos pela plataforma. Numa plataforma que censura uma lista infinda de palavras independentemente do contexto, passando a ideia que o plano a longo prazo é transformar os streamers numa de três coisas: mimos, máquinas de gritinhos ou caixas de música de dizer obviedades, é de estranhar ver mulheres que passam horas a gerir o vestido, sem dizer uma única palavra, friso, sem dizer uma única palavra, descendo e subindo a roupa coreografando a tusa de um rebanho de piças adolescentes com ânsias de serem espicaçadas. A província encantada onde o pau feito se cruza com o gaming. Ainda há coisas bem feitas nestes arrabaldes da internet.

Que isto já não nos pareça espantoso, nem sequer digno de menção, evidencia o torpor psíquico que nos deixa apardalados face às transformações ousadas e inéditas de uma criatura calorenta numa plataforma que, para alguns, era rodeada de um halo de pureza. Guardem as explicações e as desculpas, o mundo é um sítio estranho, repleto de idiotas, e não me parece que vá melhorar tão cedo.

Mais do mesmo, sendo que o mesmo atingiu um cume.
Mas se nada de novo aconteceu o que motivou o tamanho fervilhar de indignações e consequente chorrilho de insultos? Essas causas foram, e continuam a ser, inescrutáveis a todos. O mais que posso é aventar uma hipótese grosseira, a qual, com boa vontade, servir-nos-á como ponto de partida para o entendimento do que é estar nas redes sociais por alturas da pandemia.

Podia afirmar, sem exagero, que a causa do tumulto foi o número de pessoas a assitir à live em questão— número astronómico para quem está habituado àquelas lides. O padrão está bem oleado nas redes sociais. Não gostamos, ficamos frustrados, de seguida insultamos e, se isso não for suficiente para diminuir o alvo, organizamos matilhas cuja incumbência é reportar a pessoa com vista ao banimento. Neste ambiente de vale tudo onde a hipocrisia mutante se adapta a um ritmo vertiginoso, e onde os frustrados se organizam de molde a mandar abater tudo o que mexe e onde saltamos de desculpa em desculpa para não irmos ao fundo, onde traçar a linha?

Seja como for, este é o século em que a superficialidade — o vácuo — pode prosperar sem obstáculos de maior. O espírito crítico há muito foi exorcizado pela velocidade destes anos bárbaros. E uma frase fora do contexto, como é apanágio por estes dias: As novas ideias para mudar o mundo já nasceram velhas e cansadas.

 

O peão da twitch, roberto gamito

 

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