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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.10.21

A vida não está para grandes festas. Coloquemo-nos então no estado necessário para a celebrar, isto é, estreitemos laços com uma boa garrafa de vinho. Para citar Paul Valéry, a razão é uma deusa que julgamos vigilante, mas que na verdade dorme, numa qualquer gruta do nosso espírito. Concordo, nem vale a pena pensar mais. Com efeito, a obra nascente das mãos do Homem é um casamento de acasos e tropelias, somos personagens provisórias num teatrinho de marionetas sob o comando de um Homem dos Robertos desconhecido. Se bem se lembram, os bonequinhos terminam quase sempre à cacetada e aos gritos. O diálogo é como que um preâmbulo da sessão de pancadaria. Se aprofundarmos o nosso entendimento da cena, mas sem pedir ao cérebro mais do que ele pode oferecer, concluiremos que o diálogo é inútil e que só a rixa tem o condão de desatar os nós da ira. Mas como pensar o episódio — pensei agora, sem pretensões de alcançar um raciocínio. No público, como em todos os redutos, haverá facções. Haverá os adeptos da refrega, os quais deliram quando se dão conta da pancadaria, os exegetas da sarrafusca, os quais tentam injectar razões e espessura no caldo do desaguisado e, quem sabe, um terceiro grupo: os que não percebem peva e por conseguinte encolhem os ombros — não confundir com os neutros.

Com mais calma, e com o auxílio da razão remelenta, poderíamos equacionar o seguinte: aonde param os diplomatas? Se este quadro pintado às três pancadas representa o mundo dos Homens, será que a não existência de conciliadores põe a nu a farsa da diplomacia? Tentem responder a esta questiúncula, é o trabalho de casa.

Feliz ou infelizmente, temos as nossas incertezas como algo de passageiro. Como a ambição é ingressar no grupo dos fixes, engraçado como ninguém cresce realmente e Freud perdeu esta oportunidade de brilhar, fazemos de conta, táctica que aperfeiçoamos quando dominávamos meia dúzia de vocábulos e defecávamos onde calhava, que dinamitamos as dúvidas. O grupo dos fixes é quem, no parecer dos não-fixes, detém a verdade. Uma infantilidade do género “os adultos sabem tudo o que há a saber”. E nada parece perturbar a soberania do umbigo. O ingresso no grupo dos fixes tende a dispensar-nos da bela experiência de pôr os miolos a laborar.

Regressemos mais maduros à diplomacia e à mocada. Por que motivo a diplomacia não singra no teatro de marionetas? Pela simples razão que é um espectáculo e a diplomacia é entediante. Nunca ninguém se expressou deste modo: Matias, hoje vi uma coisa memorável. Vi duas pessoas a apertar a mão após um debate mais aceso. A cena marcou-me. Passei a tarde toda a chorar. Acrescento do narrador. Provavelmente foram acicatados pela turba: “Apertem a mão, apertem a mão.”

Imaginem um filme de acção em que as cenas de porrada eram interrompidas por um diplomata.

— Meus amigos, a violência não resolve nada, vamos sentar-nos e falar um pouco como adultos. Proponho a calma e a reflexão.
— Estou demasiado enervado para conversar. Propostas? Proponho que vás para a cona da tua mãe.
— Beba um chá, respire e já falo consigo. Não faça nada que se arrependa. O meu conselho: não aja de cabeça quente.
— Só sei agir de cabeça quente. Aliás, devo a minha reputação de durão pelo facto de agir de cabeça quente. Se começar a ponderar as minhas acções, vou para o desemprego.
— Nada tema, tem em mim um amigo, pode abrir o coração: tem problemas em casa? Como foi a sua infância?
— É assim tão claro?!
— Pode desabafar.

E acabavam os três, os potenciais barraqueiros e o diplomata, aos abraços e beijos, provando que há outras formas de dar vazão à testosterona. E morriam os três no fim. A seguir à porrada, seguia-se o desmantelamento da bomba — aspecto que a diplomacia descurou.

Teatrinho da Testosterona

 

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