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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

13.07.21

Vomitava anualmente resmas de sermões bem-intencionados e insípidos. Incapazes de sair da órbita da obviedade, não passavam de um misto de raiva e patetice enformada em mandamento. Basta, disse uma voz saída da mansarda, bastidor ermo deste século. Um dia os pensadores hão-de cair-lhe em cima sem a burocracia das boas maneiras e levar um pontapé no rabo do pensamento. A profecia não tardou a cumprir-se. Não teve outro remédio senão rolar escada abaixo qual cena de acção. Há quem interprete este episódio como cruel, outros como cirurgia estética. Seja como for, a crista baixou consideravelmente. Podia ter feito melhor? Creio que sim,  bastar-lhe-ia o silêncio robusto. Mas não será pedir muito a uma personagem tão desejosa de estrelato?
Não saiu incólume à descida. Hoje vagabundeia na rua sem mestres nem pupilos com uma cabeça de metal. Cabeça dura, cabeça blindada ao pensamento. Enfim, desgraças que nos deixam na mesma, comentava a velha.

Por pouco não dava com a língua nos dentes e arranjava uma forma bárbara de se expressar. O sangue romperia bravamente pelos interstícios da mão posicionada à frente da boca.
Mas sobre este assunto o melhor é ficarmos calados. Não consintamos que a suposição se transforme em ópio.

Esse cutelo é o orgulho, a menina dos olhos da empatia. Eis a legenda que o acompanhava no museu das certezas.

Todos fingem acreditar na vida, perpetuando assim a fraude. Os abutres discutem por estes dias se há diferença de maior entre o Homem vivo e o Homem morto. Dessa discussão sairá, inevitavelmente, um novo mundo.

Pedaços de carne vadiam à mercê do acaso, experimentado rotas de colisão. Um estrangeiro do costume, bastante legível. Uma cascata de partículas elementares. Oh, meus queridos cabrões, grita vadiamente a vizinha do segundo andar, receio bem já ter registado esta experiência — as colisões — demasiadas vezes. A vossa vida há muito foi expressa em fórmula. Nada do que possam levar a cabo, sóbria ou ebriamente, será catalogado de imprevisível.

Ao passar pela mulher que o conduziria sem problema à loucura, espreme-se todo, com o fito de lhe oferecer o sumo da sua existência; porém umas míseras gotas não serão suficientes de molde a abrandar tamanha sede.

Estou-me borrifando para as convenções da sociedade. A partir de hoje sou um candeeiro malabarista. Puto iluminado, és incapaz de manter os malabares no ar!, comenta um amigo. Sou um candeeiro, diz o candeeiro. És uma inspiração, diz o amigo do candeeiro, que é como quem diz, o bêbedo.

— À medida que envelhecem, os homens vêem com mais nitidez os seus deveres.
— Essa é a razão pela qual passas as tardes sentado no banco a inventariar mamas?
— Sim, é a minha vocação: biólogo especializado na observação de tetas selvagens.
— Mas isso não te pode trazer problemas?
— Pode, todavia ninguém pode pôr um travão na ciência.

Logo que os víveres começam a ser distribuídos, o saco de pichas do outro alegra-se. Só passamos fome se formos tortos, alega o assediador. Detalhes muito...bem, não vamos entrar em detalhes. Não há consentimento para tal, diz o meta-assediador. Meta-meta-tragédia, declara o juiz boçal.

Findo o fricandó, a língua liberta providencia-me uma certeza: de uma forma ou de outra, estamos fodidos.

Queiram desculpar-me, todos estes comportamentos de machão fazem com que sejamos populares junto de certos círculos. Penitencio-me prontamente, gostava de pertencer a este novo círculo de snobs. Será que dá para entrar? Exímio no xadrez da hipocrisia, a personagem brilhava na mesa da boçalidade e do puritanismo com grande à-vontade. De facto, estávamos diante de um prodigioso invertebrado, o maior da sua geração.

prodigioso invertebrado, Roberto Gamito

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