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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

25.06.21

Estou meio tonto: a cabeça a andar à roda qual compasso incendeia a folha branca.

A depressão é como um petroleiro naufragado. A maioria das tentativas de conter o derramamento revelam-se infrutíferas. Sou uma mancha de Rorschach se visto cara a cara, a noite, se visto do céu.

Todos calados, não liquidem o silêncio, vem aí o poeta. Não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar mais nenhuma oportunidade de o ouvir simular o voo com a língua.

Ao contrário do rio, a vida raramente corre bem. Não negligencies os sentidos mais obnóxios da jornada. Não descartar a hipótese de alcançar o Céu traçando uma diagonal desinteressada.

Ao lado dos mortos, na página ao lado, o nome dos ressuscitados. Uma página a que regressamos hora a hora, como o animal ao bebedouro. A cenoura subiu ao palco, desdobrando-se numa chuva meteórica de ideias, mas ninguém a aplaudiu. No dia seguinte, chegou a crítica avassaladora: não é carne, nem é peixe.

A pessoa com quem jurei partilhar a vida, comenta a mulher, está a transformar-se num pisa-papéis rabugento — passa os dias a lamuriar-se sentado numa pilha de facturas.

Salvar os incansáveis, os que perseguem dia e noite uma obra.
Eis os imprescindíveis. Condenar à pira do esquecimento os papagaios. É vital alimentarmo-nos das sobras, porém sem alarde. Resistir à tentação de entoar o refrão da tragédia, se a intenção for massacrar o silêncio.

O amputado diz estar confiante na desforra. Desta vez, a lâmina não tem hipótese.

Vi nos círculos de Dante um bosque onde, em tempos, fui colher mãos. Aos saltos, segui, como uma criança desconhecedora da tragédia, com a cesta pejada de mãos canoras. No seio dessas mãos, a mão-mor — a do Diabo. A mão ousada e castigada.

Não há mal nenhum em supor a existência de um gesto idêntico ao que nos escorraçou do Paraíso. Que gesto ousado nos pode expulsar deste inferno?
O meu sonho é este: encetar o poema com a mão de Lúcifer, aquele que desafiou Deus, aceitar a queda, ir por aí abaixo aos tombos pelos socalcos da existência e eis que, de supetão, arrancando Deus do transe da omnisciência, colher do nada uma outra maçã. Principiar Diabo e acabar Eva. Tem de ser isto ou nada: não me sacio com diluições desta ideia.

É preciso ter ideias maduras, grita o louco mascarado de árvore.
O pintor, pouco confiante, lega à parede a tarefa de amadurecer os quadros.

Levar uma ideia ao limite, sair dela como uma cobra sai da sua antiga pele. Ainda não foi esta a ideia que me salvou, porém estou maior.

Faz hoje 45 anos que regressei do nada, comunica o louco enfarpelado de árvore. Há quem lhe chame aniversário, continua.
Isto não é biográfico, é uma ficção.

Sei que queres ser alguém, ó leitor, mas primeiro deves afeiçoar-te ao Ninguém. Ser Ninguém, como nos ensinou Ulisses, pode ser a nossa safa. Hoje durmo no anonimato, bramou o Diabo, está muito calor, não consigo habitar o meu nome.

Nesse mesmo dia, do ângulo morto de um poema de amor, apareceram novos Deuses. Agradecidos que ficámos pelas ideias frescas, comentaram, até nos esquecemos da nossa sede de sangue.

E eis que os antigos surgem com outros nomes. Entretanto, mais cauteloso, arquitecto um passaporte para entrar na vida dos outros.

Alguém fala sobre superar Dante sem nunca ter escrito uma única linha. O louco feito árvore postula: és louco.

Quadros a amadurecer nas paredes

 

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