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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

13.11.22

O mundo não desconfia que se move conforme o meu plano. Fantoche assíduo nas mãos de Deus. O mentecapto explica:
a capacidade de alfabetizar o público com o fogo pertence ao passado. Contentem-se com esse refrão de aleijados.
 
Se não vos inquieta nem um pouco este bloco de gelo feito crisálida, apelidados por uns por outros de século XXI, dentro do qual mamutes e bichos cacaquéticos catequizam as cabeças em flor, cérebros empanturrados de factos cuja mão emperra a ponto da catástrofe diante da necessidade de dar o salto. O poeta explica: as Sibérias caseiras satirizam o dia em que o Diabo não se conseguiu efectivar diante Deus.
O inferno é tão-somente uma paródia de uma gaiola.
 
O gigante que lutava contra o alfabeto assassino calou-se. Romantizámos os pequeninos. Cada um é tanto Liliputiano quanto Gulliver. Tens medo da escuridão? Nada temas, basta um homem para iluminar o mundo. Do Paraíso não colhi nada a não ser o desespero de Botticelli ao dar-se conta que lhe faltava talento para pintar a salvação no abismo de Dante.
 
Falemos antes do dia em que omnipotência de Deus foi posta em causa. Temos de recuar bastante até um tempo em que o Narciso era uma figura patusca e marginal. Houve um momento em que o riso cilindrou a cólera divina. Quando, no inferno, Luciano e Diógenes riam sem entraves: eis o pesadelo dos deuses, poetas de perna curta e comediantes acagaçados. Urge recuperar um riso capaz abalar os pilares da criação, um riso qual seta envenenada rumo ao coração da ordem postiça.
 
*
 
Ó meu animal sem direito a nada, desdenhando uns e divinizando outros à queima-roupa, atulhando o teu desnorte com notas de rodapé, teimoso até mesmo com olheiras, aguentemos a porrada, os insultos e os aplausos, o sabor da vida passou-se para o lado da lendas; risos enlatados, textos enlatados, personagens e deuses enlatados, artistas que mais valia estarem numa lata, eis o miolo afadigado do homem contemporâneo.
 
Ridicularizo-me segundo as normas. Isso humaniza-me e ajuda-me a ingressar na feira das vaidades. Enquanto uns semeiam ódio, há quem seja mais prático e semeie dinamite nas entrelinhas, há-de rebentar com fileiras inteiras de exegetas, haters e bajuladores, o século há-de rebentar, uma pirotécnica de afónicos e papagaios. Não vos guardo rancor, guardo-vos num ponto para que nunca me esqueça da vossa dimensão, a parte boa é que trarão à tona as cosmicómicas de ITALO CALVINO, um tipo incontornável nestes temas.
 
O currículo é um tratado de humor se for proferido com a cabeça no cepo. Onde pensam que eu tenho estado este tempo todo?
 
Desentulhar obras como quem procura cadáveres de deuses caídos debaixo de migalhas. Eis um labor como qualquer outro.
 
Tens de humanizar o personagem. Humanizar mas é o caralho. Não vos guardo rancor, guarda-vos antes numa câmara anecoica, talvez assim compreendam. Com que então agarrados às vossas certezas? Quer me parecer que só precisam de estar a sós com o vosso sangue para enlouquecerem.
 

refrão de aleijados, Roberto Gamito

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