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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

10.04.22

Riscamos o fósforo pela enésima vez, mas a humidade humilde de uma gota de água protege-o, adiando o fim. A cabeça incólume não é destino que se queira. De que vale sobreviver ao fogo se é ele que nos efectiva?

Dentro de nós um inferno em miniatura, projectos de demónios, esboços de quedas, raivas postas em discurso e o catecismo do fracasso arrancando-nos os sonhos como quem arranca asas a insectos. De ilusão em ilusão, tentamos em vão simular as asas perdidas.

Caem meteoritos que nada sabem sobre os nossos desejos, pedimos-lhes tudo e mais alguma coisa até ficarmos afónicos, todavia o mundo não é hospitaleiro no tocante às nossas vontades.

Quando a melancolia irrompe, a mão, que não tem limites nem remédio, agiganta-se — eis a farsa. Cresce até à loucura rumo à morte de molde a pormenorizar o falhanço. Haverá alegria para quem, na folha, viu nos dedos cabeças de fósforo e tentou incendiar o seu cosmos posto por extenso? Sobrará talento para quem venceu provisoriamente a morte? Com que palavras regressou desse combate?

Vida contrabandeada por gritos
ululante comédia desmantelada
tragédia que todos acorrem para ver.

Nem o truque barato do suspiro nos salva face à cratera nos nomes outrora salvíficos. Não me parece que o poeta extraia grande minério do acto de escrever, de orbitar em terrenos resvaladiços, qual pirilampo ébrio: em nenhuma das suas órbitas encontrará redenção. Homem, o animal mais fantástico deste circo — a cabeça apinhada de problemas é um número inesgotável e em constante aperfeiçoamento. Nunca faltará público para o homem sem qualidades.

As vidas improvisadas no balcão, comentadas lado a lado com o entrechoque dos copos sempre por encher. Condenados a rabujar para todo o sempre, afugentámos o amor, a felicidade e o mais com o condão de aliviar o fardo. Ao rés do precipício, os homens encenam os antigos mitos de Actéon, Sísifo e Tântalo.

Confesso que me faltam os dias que desaproveitei a ser outro. Almejei ser clandestino bobo ao rés das goelas de Deus. Os corpos caídos numa formação que alguns dirão um enigma. Seja como for, as vozes sobrevivem num refrão animalesco. Choraram, amaram, beberam e bailaram e eu fiz de conta que não havia entendido nada. Como resgatar o passado do poço da memória sem o desmembrar no resgate?

O homem, eterno peixe fora de água, ocultando o estrebuchar em danças mais ou menos artísticas, sucumbe ao engodo das luzes dos holofotes. De uma maneira ou de outra, sucumbiremos à primeira promessa armada em messias. Minúsculos seres fantasiando estaturas ao pé de megafones. A festa termina. O coração fica a sós com o teu nome. Os que fugiram ao amor sabem do que falo.

Cada verso é uma despedida cifrada, digo adeus à miríade de homens que fui sendo. A vida é um funeral onde enterramos, à vez, as nossas metamorfoses. Salivo o fogo larapiado ao inferno. A folha, ninho partilhado por facas e aves canoras, é palco onde ensaio o recomeço. Nada nos prepara para o início.

Como reaprender a respirar se o amor semeou nós de uma ponta à outra do nosso corpo? Diz-me se ainda sou o clarão noturno que se apossa do teu corpo quando te recordas do meu nome. Ovaciono com prontidão os cães que me abocanham, mas o corpo não acompanha o gesto.

Só existo quando fico do lado de fora do pensamento. Que querem que vos diga? Escorraçar-me das ideias não é um trabalho isento de perigo. E um mundo pequenino vai-me brotando das falangetas
linhas que mais parecem caminhos arruinados, juncados de cadáveres de Ulisses. Só posso falar do que não vi.

Mas para quê insistir nesta prosa regateada no mercado do eclipse, quando a morte nos morde os calcanhares sem parança?


Riscamos o fósforo pela enésima vez, Roberto Gamito

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