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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

07.11.21

Durante muito tempo, virei costas ao oceano da angústia. Só muito mais tarde, após as rugas conquistarem o meu rosto sem que daí resultasse qualquer oposição, esgotadas as rotas e trajectórias, eu que fui célere e letal qual projéctil e lento e paciente qual monge do deserto, descobri a verdade: não era senão uma ilha. Preferia não ter de me cartografar nem inventariar os bichos que me escolheram como habitat.
Destino ou livre-arbítrio são legendas possíveis, porém o quadro não deixa margem para dúvidas. Há um homem no leme, todavia o homem é cego. Assim sendo, o livre-arbítrio é uma paródia sem fôlego do destino.
Sou partidário da ideia de Nietzsche, apesar de tudo, esse magro tudo, urge dançar. É na orla entre a possibilidade e o nada que o mundo se faz. Eis-nos chegados ao país da espera, onde os Homens nascem ou definham. O limiar é, pois, uma máquina de fabricar ou exterminar gigantes.

A angústia é uma luz intermitente, como se fosse um animal que passasse o tempo nos meandros da carne, no nosso corpo, pronto a saltar cá para fora, aproveitando o deslize de um lapso, um gaguejar, um qualquer engarrafamento de temperaturas na língua, bastando para tal que enfrentemos desarmados o nosso reflexo. Com efeito, o nosso reflexo é uma espécie de veneno que se infiltra paulatinamente nas nossas congeminações, um vândalo em crescendo prestes a incendiar as nossas vulneráveis convicções. Basta para isso que nos demoremos diante do espelho.
Se indefesos e sem máscara apta a nos proteger da verdade, o reflexo faz-nos embarcar e navegar nas águas profundas das possibilidades, nas quais passado, presente e futuro se interpenetram tempestuosamente.

A odisseia de Ulisses e o labor de Penélope levam os neurónios à ebulição. A memória que faz e desfaz como Penélope, sabe-se lá à espera do quê ou de quem — Ulisses e a Morte entre os candidatos —, e revela a verdadeira identidade do chão sólido: areias movediças, parentes menos poéticas dos grãos de areia da ampulheta. Nos territórios da memória, situados em coordenadas incertas onde o mar é mais revolto, estamos sozinhos. Quando muito, vemos os outros seguirem-nos nas margens, primeiro como seres humanos, de seguida como vultos, depois nomes, e por fim como sílabas insípidas de um tesouro há muito perdido e indizível. A memória é um labirinto fluído, os demais permanecem na nossa vida como histórias ou como migalhas, à semelhança de Hansel e Gretel. Porém os dois corvos de Ódin, o pensamento e a memória, não nos facilitarão o regresso.

Estamos condenados e o verniz da sanidade ameaça estalar. Amiúde gosto de imaginar a figura de Teseu a dançar no centro do labirinto com a cabeça do Minotauro. Uma vitória magra, suficiente para nos alimentar o ego durante algumas horas. E depois?

Ambicionamos duas coisas: estar à altura da nossa idade e estar satisfeitos com o passado quando chegados à antecâmara da morte. No pino da empáfia, tentamos criogenizar algumas das possibilidades, a maioria engendradas pelos sonhos, elas que, se não lhes cortarem as pernas, podem ser as sementes do melhor mundo possível; entrementes, resgatamo-los, aos sonhos, para um futuro onde, pensamos nós, seremos mais capazes. Ao longo dos anos, o cadáver da vida sonhada mantém-se conservado num caldo de promessas, porém, aos poucos, a mente dá uma guinada rumo a um estágio infernal e, sem darmos conta, consumimos esses ocupantes criogenados. O sonho transforma-se em ração destinada à cólera ou à depressão.

Sobre todos os cumes da dúvida paira, ainda sem rosto, a possibilidade de recompensa. Por conseguinte, andamos aos círculos atiçando a oportunidade de salvação. De cima, os abutres repetem passo a passo a nossa jornada repetitiva, como se escarnecessem da nossa demanda.

Atena é a deusa da sabedoria e da fiação. Sabedoria, fazer e desfazer, eis a memória decomposta em partes mais simples e eis outro modo de retratar Penélope trocando o pincel pela pena. Para cá é para lá, para a frente e para trás, qual barco embalado pelas ondas, um pêndulo ou um baloiço à beira do abismo, um ritual cujo fito é afastar o depois amargo, que é como quem diz, a morte.

Ontem amavam-se e hoje encontram-se num estado de inércia fatalista.

Volvidos alguns capítulos desse romance narrado pelo vento, os dois conversam numa esplanada de um café de toldo carcomido, é trocado um punhadinho de frases feitas onde ontem a paixão ensaiava poesia. É notório que ambos buscam no olhar do outro a ponta solta desse amor que se lhes escapuliu. O mundo goza de uma pausa quando, apenas temporariamente, duas pessoas tentam enlaçar as suas biografias sensaboronas num apetitoso romance de grande fôlego.

Sem que nada o fizesse prever, a década tornara-se numa sala de espera onde animais e homens se acotovelam à espera de uma metamorfose capaz de lhes conferir asas. Eis a promessa do amor: a Metamorfose. Ansiamos despertar do casulo do amor outra criatura, um animal sem grilhões.

A que espécie de hibernação se sujeitam os homens contemporâneos para que deixem fugir o amor durante décadas? Não respondam, mergulhem antes nesse silêncio, ó meus apneístas nocturnos.
Possivelmente, a ideia de ressurreição de Cristo foi a derrocada do amor. A noção de que algo pode esperar — e o mundo contemporâneo é feito de sucessivos adiamentos com vista a uma promessa futura colossal (um paraíso posto nas prateleiras a preço de saldo) — sem sofrer os danos e a erosão das garras do tempo. Em boa verdade, somos confrontados com a acerba realidade: não conseguimos trazer a vida à tona da morte, as sucessivas exumações inúteis levadas a cabo pela memória só alimentou a dor a horas certas e, finalmente, o reconhecimento de que, após uma longa espera, o mais que logramos resgatar das cinzas é o belo mas putrefacto cadáver do amor.

Entre a morte e o amor, o homem só tem duas escapatórias: definha ou cresce. Nesse sermão levado a cabo pelas sombras canoras, também os nossos mortos nos tentam ludibriar — já não bastava o Diabo. No particular do artista, a folha em branco é o ponto de encontro com os nossos mortos, vivos, mundos teóricos e projectos de metamorfose. Embora inútil, o artista não desiste da possibilidade de inventar uma fórmula que faça as vezes do amor. Vivemos empacotados na dúvida de que nunca seremos suficientemente bons para cantar a altura posta em queda que nos devorou as asas. Todavia é preciso continuar a dançar.
Num mundo sem heróis, só os amantes desafiam as proibições e os algozes. Extintos os fogos do amor, o homem foge da transgressão rumo a províncias maquinais. Não é por aqui que me tenciono perder.

Campeões da lamúria, apressados e hesitantes, carambolando entre não ter tempo a perder e o medo de escolher mal, o homem crê ver a Medusa no reflexo e paralisa.

Em face deste jardim de estátuas, devemos ser capazes de manter a dança, o coração e a cabeça, combater a compulsão para a aceleração, esquivarmo-nos das massas e encetar coreografias de autor.

Antes que o tempo nos despache como incapazes, encaremos a vida — o labirinto em expansão — como uma pista de dança apinhada de aves de mau agoiro.

Sopé dos últimos dias, Roberto Gamito

 

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