Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

12.07.21

Não te esforces por ser meu leitor, deixa-me tal como estou: carne pendurada no gancho. Se vês em mim as sobras do naufrágio, não me lances a bóia, tinge antes o oceano de sangue e os tubarões farão o resto. Mais não mereço que um desfecho a várias bocas. Ando às voltas qual compasso furibundo que tenta legar ao mar uma circunferência. Devo confessar-te que sou um especialista em afogamentos. A minha morte, repetida aqui e ali, no campo ou no papel, não sabe o que é repousar.
Ando de tempestade em tempestade à procura da língua.
Aproveito a minha estadia no fundo para anotar os fragmentos da vida em conchas.

A mão, hoje romba, despiu-se de minúcias. Semente bípede no interior da qual o animal pleno arranha as paredes. O metabolismo acelera à beira do precipício e mina os pilares de uma vida longa. Para seduzir as pequenas coisas não nos podemos pôr de bicos de pés.

A máscara alastrou contaminando o teu repertório de gestos. Um olhar gritante, em maiúsculas, que é como quem diz, caricatura de terra ressequida. Dói-me ser o exagero de ontem. Quando a minha língua fértil era hábil em encurtar distâncias, nada cumpri que o esquecimento não possa obliterar numa primeira passagem. Mesmo no auge da solidão, nem de rosto precário à mostra, com as mãos todas à disposição, sou incapaz de vivificar o teu nome sacro. O caminho é uma legenda prolixa de uma queda que há-de vir. Sei de cor os apeadeiros onde fui ultrapassado pela vida. Ao princípio era o advérbio. O modo, a afinação enfadonha de um verbo impontual. Penso que o eclipse nos habituou mal em virtude da sua duração. É natural que me sinta aborrecido pelas profecias, principalmente aquelas cujo fito é ver-me pelas costas. O deserto é o celeiro das sementes da solidão. Nada devemos esperar de verde. As águas salobras da depressão, o suor a pique da ansiedade. Caí em todos os engodos como um magistral parolo. E por isso não me perdoo.

A escrita é um claustro silencioso apinhado de demónios. Eu preferia um horto onde pudesse plantar corações. No fio da navalha: onde afinal vivemos os melhores anos. E era igualmente aí que mergulhávamos, quais funâmbulos suicidas, sem rede nem ficções de amparo. A solidão fez com que os cachalotes nos invejassem. Mergulhávamos nas nossas vidas — as sobras barbarizadas pelo passado — para virmos à superfície meses depois. Destemidos, aprendemos a ir ao fundo sem esperança nem oxigénio. Habituamo-nos a esses lugares destituídos de deuses, digo, onde a luz não chega. Jurámos sepultar esses ensinamentos na memória até ao último dia, acreditando assim acabar com a própria ideia de suicídio. Fugimos ao Diabo pelos atalhos engendrados pelo Caído. Íamos às bifurcações mais célebres a fim de perceber se ainda éramos Homens. O peso da decisão obrigar-nos-ia a romper os fios do bonecreiro. Caíram que nem patinhos, ria o Homem dos Robertos.
Pobres coisas dispostas por fantoches embriagados. Os fios projectam uma sombra a que chamámos liberdade.

Quantas vezes terei de ouvir a tua distância sem conseguir cantá-la? No dia que estiver frente a frente com a morte já nem sei bem o que fazer.

Suicida e a Queda, Roberto Gamito

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog