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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

30.01.22

Já não me sobra espaço na cabeça para o amor, nem vontade para direccionar os caprichos de pendor humanista rumo a terrenos mais palpáveis. Cabeça, epicentro de uma multitude de tragédias. Atulhei-a de destroços e terramotos, a memória vandalizou-ma, os episódios a braços com a transfiguração, catedrais-abandonadas-pássaros-silêncio, animais desfigurados pela velocidade e pela ruminação.
O teatro das intensidades — animal desdobrado do amor à cólera — é tão-somente um pretexto para acelerar a nossa perdição.

Ao frequentarmos o delírio dos outros, digo, as suas deixas mais intensas, recebemos a dádiva de assistirmos ao teatro ebuliente do mundo ou, em acreditando na mão poderosa do macho, o teatrinho da testosterona. Por vezes, no seio desse diálogo onde as vozes se anulam sem pernoitarem na paixão, esquecemos os nossos limites, as nossas fraquezas tartamudeadas em confessionários, os nossos calcanhares de Aquiles; sonhamos com dias mais luminosos sem conseguirmos pronunciar o nome do Salvador.

De seguida, o raro transforma-se em guião. O fantoche feito santo sobe a escada da perfeição, começa a falar das grandes palavras compactas, a saber: amor, vida, pátria, morte, vira-se para os humildes, ocos de frases certas, intriga as multidões ababalhadas — e imita os grandes facínoras. No papel, Salvador, na prática, carrasco-mor. Os delírios desaparecerão um dia — mais por cansaço do que por obra feita. Sim, concordo com as palavras de Teresa de Ávila, parece-me que os demónios jogam à bola com a minha alma.
O Bem não é senão um eufemismo para Mal.

A vida é o lugar das nossas quedas, não há voos que nos enobreçam: tudo o que larapio ao destino, gesto que me leva às cordas, é lançado para o monte das coisas intocadas. Apesar do esforço hercúleo, tudo permanece na mesma. Saboreio a mortalidade qual vampiro livresco, alimento-me do meu próprio sangue, organizo-o por tremores e terrores, sou o deus arcaico renascido das cinzas.

Não descarto a hipótese de o Homem ter gosto pela cruz, que tentemos pô-la em discurso e fazer disso carreira. Oxalá as nossas lágrimas nos catapultem até ao pódio do privilégio. Porque, bem vistas as coisas, o Salvador, nome pomposo para uma luz impontual, é tão enfadonho como qualquer bêbedo. Se não formos nós a sair da cruz pelo próprio pé, se o grito não quebrar a maldição e as grilhetas, se formos incapazes de aliviar o fardo com um tonitruante foda-se, estamos bem lixados. Uns e outros — loucos amadores e loucos profissionais agarrados a uma ideia a cheirar a novo, sob a qual se acoita o inferno do mesmo — transmudaram as lágrimas em mel. Sábios do oportunismo, aproveitam o momento de desatenção dos algozes — maldita comoção — para os guilhotinar. Canonizemos os abutres e as hienas, elevemos os cadáveres putrefactos aos píncaros, façamos do mausoléu palco deste festim pantagruélico.

Atentos às flutuações da mente humana, o homem sem maiúscula oscila entre o poeta e o jornalista do mundo interior. Façam para aí os vossos milagres: multipliquem para aí os ateus. Deturpando as palavras de Cioran, se o Homem fosse um ciclope, a palavra servir-lhe-ia de olho. Errata: onde está palavra deve ler-se cegueira.

Não há espaço para o amor, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.01.22

Ao contrário de outras crónicas tendentes a afagar educadamente os neurónios mais exigentes, revelando-lhes o princípio de uma profundidade outrora oculta, este texto às três pancadas presta-se à folia vertiginosa, que é como quem diz, vamos discorrer marotamente sobre o reino ebuliente do baixo ventre, quando em contacto com as oportunidades certas. Justifica-se que tome estas e outras precauções, não para exibir o lado puritano armado ao pingarelho, tão ao gosto do Homem contemporâneo, mas porque tal constitui uma chance de despertar uma horda de pequenos Lázaros em horário de trabalho — nunca me perdoaria que tal acontecesse.

O Altíssimo é amor, pelo que Deus é o sponsor desta crónica.
E cá vai, mais uma vez, este gato travesso no seu obstinado funambulismo humorístico que o há-de acompanhar até se extinguir a centelha que o põe de pé.

As crónicas do piçalho, livro com muita saída — e entrada — num desses séculos em que os historiadores trocaram o apontar de episódios relevantes pela imemorial arte de coçá-los, começava nestes preparos: “vivi na obscuridade e sem um tostão, e volta e meia conhecia a luz, sendo que a luz era tão-somente a distância que me separava da noite onde o meu mestre me enceleirava da fenda hospitaleira. Apesar de ser um livro merecedor dos nossos mais rasgados elogios, optemos, antes, por uma questiúncula que já acometeu todos os homens: O que é que me eriçará mais espontaneamente a picha? Não é de estranhar que homens de todas as eras e coordenadas tenham partido à aventura, o chamado aventureiro de portinhola aberta, com o fito de hierarquizar os estímulos que cutucam o marsapo. Se o estímulo for uma espécie de Jesus, isto é, vulto luminoso capaz de levantar um morto, então estaremos em condições de estabelecer uma espécie de espectro da luz. Quanto mais intensa for a luz, mais rapidamente despertará o nabo. Não será descabido declarar que a ciência não tem passado cartão aos temas que interessam ao homem minúsculo.

Bem sei que há grandes fatias da civilização que se estão bem marimbando para a felicidade do pénis abstracto. Se assim é, vou abreviar a história do contabilista e da beata. Para beata era uma bela mulher, tinha uma saia levantada, nem muito nem pouco, exactamente onde o tesão se engendra e deixa espaço para a imaginação cultivar as suas imagens escaldantes. O seu caralho, teso qual português de classe média, disponibilizou-se para o labor mal foi pendurado o quadro sexual no miolo. Com efeito, em breve estariam a fornicar a bom fornicar. Sim, minha linda, gemeu o contabilista à beata, venho-me assim que preencher os papéis. Deus me perdoe, mas que bela piça!, gritou cristãmente a beata. Vá, minha luminosa fodilhona, vem-te depressa que amanhã é dia de trabalho e não podemos ficar toda a noite nisto.

Enquanto isso, os anões — porque não?! — vinham-se onde podiam, uns nas orelhas, outros nos sapatos, outros em cuecas que povoavam o chão do quarto. Não me perguntem como é que os anões ingressaram no quarto. Possivelmente — uma teoria da minha lavra —, atraídos pelo cagaçal da fodanga.

O velho, que fora aquecer a beata para o contabilista, e se fosse outro teria começado a história por aqui, avesso a segundas vezes, passou de actor a comentador pornográfico.
Num banco ao rés da cena infernal, havia cachos de mulheres com as cuecas em pantanas, umas davam à língua, outras ao dedo, ensaiando os primeiros acordes no clitóris. Artur, tímido de nascença, não achando nada mais interessante para fazer, decidiu passar o tempo a punhetear a sua chouricinha da felicidade. Os mais entendidos na velhacaria, apodam-na de sarapitola de adulto.
O adulto está ao corrente da volatilidade do tesão — é preciso agarrá-lo, não vá ele fugir e nunca mais voltar. Levantou-se, deu umas voltas, e enquanto pensava na vida, perseverou a punhetear-se enquanto dizia: “ainda há coisas boas na vida”.

Um gajo vestido de burro, cujo nome não interessa para a história, o qual estava na pausa do tabaco, dado que o quarto há muito se havia metamorfoseado num apinhado bar em virtude de uma fadinha embriagada que, ao ver a cena a pegar fogo, percebeu que era necessário expandir o espaço a fim de lhe fornecer verosimilhança. E o gajo vestido de burro? O gajo enfarpelado de burro pensou: Não é tarde nem é cedo, vou deixar de fumar. Assim sendo, aproveito estes dez minutos para exercitar maravilhosamente o sacana — e lançou-se sobre uma cona desocupada que andava, segundo os anúncios de emprego fixados numa das paredes do estaminé, a pedir colaboradores. Ao dar-se conta do homem-burro, latiu de prazer, qual alegre cadela fodilhona. Hospitaleira — porra!, ainda há quem saiba receber —, meteu-o entre as pernas, protegendo-o do frio que grassava naquela noite de chavascal.

Há detractores que alegam que a história está mal contada, que se iniciara no bar e não havia fada nenhuma — enfim, gentalha que não acredita na existência da fadinha da fodinha. Segundo a versão desses bandidos, uma mulher deslumbrante, cujas carnes eram dignas de figurar naqueles talhos cheios de marketing frequentados por ricos, apareceu e contaminou o bar de olhares famintos. Nisto, ouviu-se um inchar de mil piças.

Entrementes, começou a dar o jornal da noite, o que caiu qual guilhotina em cima do pescoço daquela cena. De facto, a situação económica do país é pouco estimulante e extingue mesmo o mais resistente tesão. As mulheres cessaram as guitarradas na pevide, a agricultura de nabos cessou, as pichas regressaram às cuecas, os anões foram exportados para um conto infantil, o homem-burro regressou ao seu part-time de mascote, o velho continuou a ser velho, o contabilista mergulhou nos seus papéis, e a beata agradeceu a Deus, em suma, o regresso à pasmaceira — eis o desfecho do episódio.

Será que não há outra versão, questiona o leitor enquanto toca xilofone com a pila. Há um desfecho apócrifo segundo o qual houve uma fusão à la Power Rangers, melhor dizendo, gerou-se um Megazord de Pichas, tipo obelisco cabeçudo que avançou rumo ao gajedo com ganas de lhes estancar o desejo de uma vez por todas. Todavia parece-me pouco credível. Uma coisa é acreditar na fada da fodinha, outra bem diferente é acreditar na união entre os homens.

Fada de Marotice, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.11.21

— Não somos ninguém.
— Mas estamos mortos ou morreu alguém?
— Em princípio, estamos vivinhos da silva.
— Como é que vamos festejar isto?
—  A vida?! Com humildade e sobriedade. Infelizmente, não há orçamento para personagens como nós.

(Entretanto, os convivas da mesa ao lado foram assaltados pela questão: será que um Silva perde o apelido aquando do seu falecimento? Foi tudo quanto logrei apurar, retomemos o diálogo das nossas personagens.)

— Trabalhamos de graça, é isso? Na pior das hipóteses, seremos obrigados a vagabundear por toda a eternidade neste diálogo. Isso é lá vida para quem não tem vida?
— E se nos arrependêssemos?
— Mas andas metido em negociatas clandestinas ou em assuntos de fazer chorar a mãe mais marmórea?
— Nada disso, o meu currículo de paladino da virtude está imaculado, mais dois anos a dizer que luto por um mundo melhor e sou canonizado.
— Disseram-me que é necessário morrer primeiro. Em tempos também tive esse sonho, todavia estar morto não se me afigura um futuro desejável, principalmente a longo prazo.
— Concordo, é coisa para nos entediar volvidos uns anos.
— E se esquecêssemos a conversa e fizéssemos um esforço para sermos felizes.
— Devias ter ido para poeta.
— Como é que está o teu pénis?
— Está a inchar.
— Deixa lá ver isso.
— O que estás para aí a dizer?

(Na mesa ao lado, ocorria ao mesmo tempo a conversa entre dois guardas medievais.
— Não vais acreditar no que o gajo me disse.
— Ao menos dá-me contexto, não me contes isso a frio.
— Lá estás tu com as tuas manias. Assim como assim cada um interpreta as palavras à sua maneira. É tempo perdido, mas pronto, faço-te a vontade. Disse-lhe: Aqui está o cárcere onde irá passar o resto dos seus dias. O que falta em condições compensa em ratazanas.
— E ele?
— Saiu-se com esta: “que chiqueiro encantador. Parece que encontrei finalmente o sítio ideal para escrever as minhas memórias”.
— E tu?
— Eu questionei-lhe sobre as suas intenções últimas, não vá ele ter ganas de sair de lá e governar um país e ganhar o Nobel da Paz ou coisa que o valha. De desgraças está o mundo cheio.
— É o perigo de estar muito tempo fechado, começamos logo com ideias para mudar o mundo. Ar puro e murros nos queixos é o que eu aconselho a gente dessa laia.)

— Calma, o diagnóstico não demora nada.
— Cá está o monstro.
— Não lhe chamaria monstro, mais pequenote; em cada homem reside um cultor da hipérbole.
— E então? Há salvação para o menino?
— Sim, o inchaço deve-se, creio, ao tesão.
— E isso tem cura?
— Tem e não tem. É um padecimento intermitente. Em todo o caso, posso aconselhar-te formas de aliviares a dor.

(O diálogo prossegue com a pilinha de fora.)

— Agradeço o parecer técnico, mas cala-te um bocadinho, se não for pedir muito. Não suporto palavras, tenho alergia a diálogos.
— Há alturas em que não sei se seria melhor deixar de ser teu amigo e encher esse lombo rechonchudo de porrada.
— Não vejo necessidade de violência. Ok, vou fazer o esforço de continuar a cavaquear contigo. Se ganhar uma hérnia na língua a culpa é tua. Chamar-me amigo é um exagero, amigo, conhecemo-nos há coisa de minutos.
— Finalmente uma pinga de juízo. Posso contar uma piada para amenizar a atmosfera?
— Tem mesmo de ser?
— Estou com apetites.
— Então vá lá, não quero ser eu a cortar-te as asas.
— Conheces a história do velho da aldeia no bordel?
— Não, acho que não.
— Recusou o broche grátis porque a rameira não lhe disse boa noite.
— Diz-me uma coisa: é daquelas piadas para rir ou para fazer pensar?
— Pára com isso, tenta raciocinar uma vez que seja. Pensar não te faria mal.
— Isso é o que tu dizes, não me apanhas na curva, a História está apinhada de suicidas que o foram por pensarem demasiado.
Comigo é pensar o mínimo, e mesmo isso já é de mais.
— Puxa lá pela cabeça!
— Deve ser isso, saí da escola pela simples razão de não esforçar a cachola e agora via-me obrigado a reflectir porque um menino não gosta de mim como sou — burro como um imbecil.
— Excepto a tua pessoa, careço de esperanças na humanidade.
— Caraças, estás mesmo desesperado.
— Deixa estar, o melhor é não te obrigar a ser uma pessoa que não és.
— Desististe de mim? Pronto, o último candidato a salvador foi-se. E agora?
— Assustaste-me, por momentos pensei que ias ter uma ideia.
— Não me atrevo, alcancei uma bela reputação de papalvo e não tenciono desembaraçar-me dela.
— Queres comer uma chapada no focinho?
— Não há mais nada? Não sou exigente, com uma sopa fico bem.
— Ai, perdão, sou demasiado bom para chapadas. Só me desiludes.
— Desilusão? Fá-la durar, que é a última.
— O que queres dizer com isso.
— Sei lá, tu é que és o pensador.
— É engraçado que quanto mais falo contigo, mais parvo fico.
— Fico feliz por ti.
— Como se fosses uma escola ao contrário.
— Tive uma ideia!
— É um escândalo!
— Queres encontrar-te com Deus?
— Não estou para aí virado, até julgo que me faria mal. Quanto mais pessoas conheço, mais infeliz fico. Ou me torno eremita nos próximos tempos ou ainda morro de tristeza.
— Falta-te humildade. Até uma criatura fictícia nos pode ensinar, nos pode enriquecer, nos pode tornar mais conscientes do nosso lugar no mundo.

(No mesmo bar sucedia aquilo que se costuma designar engate. Eis um fragmento dessa interação.
— Fodemos?
— Perdão?!
— Se calhar não me expliquei bem, quero conhecê-la melhor.
— Assim já é outra conversa. Quer impressionar-me com galanteios de taberneiro, para que eu fique viciada nesse pequenote que trás aí escondido atrás da braguilha. É isso, não é?
— Afirmativo, este maroto só me dá trabalhos. Se não fosse pedir muito, pedia-lhe que tomasse conta dele durante quinze dias.
— Está a brincar? Quinze dias? E se me afeiçoo ao bicho? É como tratar de um animal selvagem: acolhemo-lo fragilizado, tratamos dia e noite das suas mazelas e no final custa muito soltá-lo em liberdade.
— Pois, o que é que o coração lhe diz?
— Diz que é o princípio de algo muito bonito.
— Ai a porca!

Regressemos ao diálogo pela porta da arte, recordando que um dos personagens continua com o pirilau de fora.)

— Dizes cada coisa, deves ter sido endrominado por uma daquelas palestras motivacionais. Vou dar à sola. Há o perigo de nos tornamos amigos se prolongarmos a conversa.
— Bem lembrado, não queremos isso.
— Não saio mais parvo desta conversa.
— E eu não saio mais esperto.

Teatro completo, roberto gamito

 


Roberto Gamito

11.03.21

Embora pareça aos olhos dos abutres uma pessoa perseverante, que se recusa a morrer, sou 1/7 niilista, visto que às segundas-feiras não acredito em nada. Em tempos de negação, em que todo o ser humano — animal em formação — ostenta uma cara esfarrapada de alguém que escapou por um triz ao matadouro sem metade da vida, ouso exibir um sorriso mínimo, típico de quem nunca teve aulas de como lidar eruditamente com o nervosismo. A vida é o que é, nem grande nem pequena, uma coisa que não vale a pena exibir no Instagram. Postas lado a lado, a salada de frutas é mais fotogénica que a vida. Contudo, é isto que me dá força para continuar vivo, é dos poucos lugares onde podemos pensar sobre o suicídio.   

Respirar é julgar, escreveu Camus, pelo que, enquanto asmático, dava um péssimo juiz. Entre o justo e o injusto pouco há de diferente, daí o martelo do juiz que, pontualmente, dá ênfase ao ridículo da existência. Não me interpretem mal, como é vosso apanágio, mas à data do crime há diferenças substanciais, porém, ao pensarmos de forma mais lata abarcando vários séculos damo-nos conta que o que é hoje um crime amanhã é lei. E vice-versa, dado que o pensamento é uma dança composta de avanços e recuos.    

Sendo o mundo como é, um circo governado por palhaços proficientes na loucura, não podemos esperar uma sucessão lógica de acontecimentos. Não nos espantaria por aí além se viesse um anjo ter connosco e nos dissesse que o mundo vai acabar porque um tipo, ao tentar matar uma mosca, deu uma bofetada num padre, esse estafeta do amor. Resta-nos cantar, com esta voz herdada da melhor família de canas rachadas, uma serenata com uma lágrima no canto do olho, enaltecendo a perfeição do homem à nossa amada, a guilhotina. Neste mundo vertiginoso entregue aos bichos desnorteados, em que o apego e o compromisso são mitos, a perversidade e a virtude acaso ou capricho. O assassino e o filantropo matam ou salvam porque perderam uma aposta. E partem de supetão para o próximo episódio sem olhar na cara de quem estava no centro do jogo, tal como fazem os médicos actuais. Assim como assim vais morrer, de que adianta dizer que estás doente ou são, declararia um médico com nada a perder. Vamos todos morrer, meu querido; são 100 biscas, podes pagar à saída se quiseres continuar vivo.  

Deus está morto e, segundo as notícias mais recentes, permanece morto, logo temos de nos fazer à vida sem intermediários divinos. Neste caso, à falta de uma estrela guia barbuda que nos conduza à acção benfazeja, orientar-nos-emos no sentido de um não sei quê. O costume, dirão os mais exercitados de miolo. 

Imbuídos no espírito da nossa época, que em termos de hierarquia demoníaca é dos mais poderosos, não obstante em jantares de família parecer um tipo impecável, podemos assegurar que estamos a falar de eficácia. Todavia, se a loucura não se tiver entretanto apossado dos nossos neurónios, supondo que não os penhorámos para comprar alguma bagatela, não ignoramos que em alguns casos, se não mesmo em todos, estamos a perseguir uma eficácia de pendor absurdo. Queremos ser eficazes quando desconhecemos todas as variáveis. O importante é fazer, mesmo que o resultado seja pior que estar quieto. Como o pensamento é inimigo da eficácia actual, nunca percebemos o porquê das coisas descambarem em equívocos graúdos ou desastres com corpulência suficiente para ir pousar às parangonas. Enfim mais uma tirada brilhante do Homem do século XXI.   

De qualquer modo, compete-nos a nós, novelos de contradições, responder à pergunta que nos é posta pela ausência de sentido, esse grão de luz que se assoma por entre o sangue e os gritos vindos de todas as direcções, dizendo o seguinte: Nós ainda não estamos mortos. Pode ser que seja suficiente para não nos adicionarem à pilha de mortos, ao número crescente dos caídos. Se vos derem como mortos, não se aborreçam, são pessoas a fazer o seu trabalho. Aliás, esteja certo ou errado, a mando da eficácia contemporânea, o importante é mostrar trabalho.   

Citando Camus, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o Sol, não sou grande nem pequeno, acrescento da minha lavra, sou humano. É por isso que usamos chapéus, não queremos ser confundidos com os ursos.

 

Camus, Absurdo, Morte, Roberto Gamito

 

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