Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

07.11.21

Durante muito tempo, virei costas ao oceano da angústia. Só muito mais tarde, após as rugas conquistarem o meu rosto sem que daí resultasse qualquer oposição, esgotadas as rotas e trajectórias, eu que fui célere e letal qual projéctil e lento e paciente qual monge do deserto, descobri a verdade: não era senão uma ilha. Preferia não ter de me cartografar nem inventariar os bichos que me escolheram como habitat.
Destino ou livre-arbítrio são legendas possíveis, porém o quadro não deixa margem para dúvidas. Há um homem no leme, todavia o homem é cego. Assim sendo, o livre-arbítrio é uma paródia sem fôlego do destino.
Sou partidário da ideia de Nietzsche, apesar de tudo, esse magro tudo, urge dançar. É na orla entre a possibilidade e o nada que o mundo se faz. Eis-nos chegados ao país da espera, onde os Homens nascem ou definham. O limiar é, pois, uma máquina de fabricar ou exterminar gigantes.

A angústia é uma luz intermitente, como se fosse um animal que passasse o tempo nos meandros da carne, no nosso corpo, pronto a saltar cá para fora, aproveitando o deslize de um lapso, um gaguejar, um qualquer engarrafamento de temperaturas na língua, bastando para tal que enfrentemos desarmados o nosso reflexo. Com efeito, o nosso reflexo é uma espécie de veneno que se infiltra paulatinamente nas nossas congeminações, um vândalo em crescendo prestes a incendiar as nossas vulneráveis convicções. Basta para isso que nos demoremos diante do espelho.
Se indefesos e sem máscara apta a nos proteger da verdade, o reflexo faz-nos embarcar e navegar nas águas profundas das possibilidades, nas quais passado, presente e futuro se interpenetram tempestuosamente.

A odisseia de Ulisses e o labor de Penélope levam os neurónios à ebulição. A memória que faz e desfaz como Penélope, sabe-se lá à espera do quê ou de quem — Ulisses e a Morte entre os candidatos —, e revela a verdadeira identidade do chão sólido: areias movediças, parentes menos poéticas dos grãos de areia da ampulheta. Nos territórios da memória, situados em coordenadas incertas onde o mar é mais revolto, estamos sozinhos. Quando muito, vemos os outros seguirem-nos nas margens, primeiro como seres humanos, de seguida como vultos, depois nomes, e por fim como sílabas insípidas de um tesouro há muito perdido e indizível. A memória é um labirinto fluído, os demais permanecem na nossa vida como histórias ou como migalhas, à semelhança de Hansel e Gretel. Porém os dois corvos de Ódin, o pensamento e a memória, não nos facilitarão o regresso.

Estamos condenados e o verniz da sanidade ameaça estalar. Amiúde gosto de imaginar a figura de Teseu a dançar no centro do labirinto com a cabeça do Minotauro. Uma vitória magra, suficiente para nos alimentar o ego durante algumas horas. E depois?

Ambicionamos duas coisas: estar à altura da nossa idade e estar satisfeitos com o passado quando chegados à antecâmara da morte. No pino da empáfia, tentamos criogenizar algumas das possibilidades, a maioria engendradas pelos sonhos, elas que, se não lhes cortarem as pernas, podem ser as sementes do melhor mundo possível; entrementes, resgatamo-los, aos sonhos, para um futuro onde, pensamos nós, seremos mais capazes. Ao longo dos anos, o cadáver da vida sonhada mantém-se conservado num caldo de promessas, porém, aos poucos, a mente dá uma guinada rumo a um estágio infernal e, sem darmos conta, consumimos esses ocupantes criogenados. O sonho transforma-se em ração destinada à cólera ou à depressão.

Sobre todos os cumes da dúvida paira, ainda sem rosto, a possibilidade de recompensa. Por conseguinte, andamos aos círculos atiçando a oportunidade de salvação. De cima, os abutres repetem passo a passo a nossa jornada repetitiva, como se escarnecessem da nossa demanda.

Atena é a deusa da sabedoria e da fiação. Sabedoria, fazer e desfazer, eis a memória decomposta em partes mais simples e eis outro modo de retratar Penélope trocando o pincel pela pena. Para cá é para lá, para a frente e para trás, qual barco embalado pelas ondas, um pêndulo ou um baloiço à beira do abismo, um ritual cujo fito é afastar o depois amargo, que é como quem diz, a morte.

Ontem amavam-se e hoje encontram-se num estado de inércia fatalista.

Volvidos alguns capítulos desse romance narrado pelo vento, os dois conversam numa esplanada de um café de toldo carcomido, é trocado um punhadinho de frases feitas onde ontem a paixão ensaiava poesia. É notório que ambos buscam no olhar do outro a ponta solta desse amor que se lhes escapuliu. O mundo goza de uma pausa quando, apenas temporariamente, duas pessoas tentam enlaçar as suas biografias sensaboronas num apetitoso romance de grande fôlego.

Sem que nada o fizesse prever, a década tornara-se numa sala de espera onde animais e homens se acotovelam à espera de uma metamorfose capaz de lhes conferir asas. Eis a promessa do amor: a Metamorfose. Ansiamos despertar do casulo do amor outra criatura, um animal sem grilhões.

A que espécie de hibernação se sujeitam os homens contemporâneos para que deixem fugir o amor durante décadas? Não respondam, mergulhem antes nesse silêncio, ó meus apneístas nocturnos.
Possivelmente, a ideia de ressurreição de Cristo foi a derrocada do amor. A noção de que algo pode esperar — e o mundo contemporâneo é feito de sucessivos adiamentos com vista a uma promessa futura colossal (um paraíso posto nas prateleiras a preço de saldo) — sem sofrer os danos e a erosão das garras do tempo. Em boa verdade, somos confrontados com a acerba realidade: não conseguimos trazer a vida à tona da morte, as sucessivas exumações inúteis levadas a cabo pela memória só alimentou a dor a horas certas e, finalmente, o reconhecimento de que, após uma longa espera, o mais que logramos resgatar das cinzas é o belo mas putrefacto cadáver do amor.

Entre a morte e o amor, o homem só tem duas escapatórias: definha ou cresce. Nesse sermão levado a cabo pelas sombras canoras, também os nossos mortos nos tentam ludibriar — já não bastava o Diabo. No particular do artista, a folha em branco é o ponto de encontro com os nossos mortos, vivos, mundos teóricos e projectos de metamorfose. Embora inútil, o artista não desiste da possibilidade de inventar uma fórmula que faça as vezes do amor. Vivemos empacotados na dúvida de que nunca seremos suficientemente bons para cantar a altura posta em queda que nos devorou as asas. Todavia é preciso continuar a dançar.
Num mundo sem heróis, só os amantes desafiam as proibições e os algozes. Extintos os fogos do amor, o homem foge da transgressão rumo a províncias maquinais. Não é por aqui que me tenciono perder.

Campeões da lamúria, apressados e hesitantes, carambolando entre não ter tempo a perder e o medo de escolher mal, o homem crê ver a Medusa no reflexo e paralisa.

Em face deste jardim de estátuas, devemos ser capazes de manter a dança, o coração e a cabeça, combater a compulsão para a aceleração, esquivarmo-nos das massas e encetar coreografias de autor.

Antes que o tempo nos despache como incapazes, encaremos a vida — o labirinto em expansão — como uma pista de dança apinhada de aves de mau agoiro.

Sopé dos últimos dias, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.08.21

Desço ao fundo de mim — ao verdadeiro inferno — com a esperança de não encontrar ninguém conhecido. Em todo o caso, estou completamente às escuras quanto ao regresso.
A poesia está morta, afiançam-nos; surpreende-me que continuem a malhar no vento ou naquilo que, em dias inspirados, designam fantasmas.

Não havendo outra anestesia, recorro aos dias transmudados em carcaças que fui enceleirando no decurso dos meus passos. A mão avança cautelosamente pelo corpo pejado de cicatrizes, qual agrimensor obscurecido pela tarefa de inventariar as fronteiras da barbárie.

Ao contrário de outros dias, o grito alheio endireitou-me a prosa. Após a metamorfose luciferina, o diabo entrou em mim com um mandato de detenção. Digo-lhe que Deus não está dentro de nós, mas ele não acredita.

Vigio o meu coração à cata de falhas na sua sinfonia. Baptizo cada uma delas de olhos fechados. Foi o que deu andar a brincar aos apaixonados.

Fico a pensar no precipício acidental que a minha vida se tornou. A esperança pode ter os dias contados. O quadro está à mercê de legendas enaltecedoras.

Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava dramaticamente na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções. O cachalote colossal encalhado na margem da memória. Já haviam dado ordem no sentido de desempacotar a civilização alojada na sua carcaça. Puta que pariu esta refeição, eis as últimas palavras do cachalote. Lego aos exegetas a labuta de pôr em discurso os meandros da refeição resgatada.

O mundo não tarda será outra coisa, assim como o inferno — o melhor é não descurar as lições de voo. Se tivesse que adivinhar, diria que nunca houve nem haverá profetas.

Leitor, veja pelo lado positivo: não há ninguém com quem competir. O inferno não é para mim, pensa o leitor ao desistir do texto, prefiro sítios mais frescos.

Ia ser excessivo mais um pouquinho. Pôs a vida mais alta, tirou a mão mais venenosa da aljava e fez pontaria ao coração das Parcas. Pusera a coragem em romance e a determinação voltara a notar-se no olhar.

O bando de burros tapara por fim o sol. Isto e aquilo e podia continuar por aí fora, comentou o chefe das aves orelhudas.

Isto é sobre o quê? O amor é sobre o quê? Dúvidas com muita luz à mistura. Um único dia tomara conta da minha memória. Uma migalha selvagem com a mania das grandezas. Não estou perdido, não sei de onde parti, nem tão-pouco sei como aqui cheguei. Atire a rosa-dos-ventos — o meu queijo — para a fogueira, disse o corvo, vai ver que tudo fica mais fácil.

o amor é sobre o quê?, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

01.08.21

Mónia Camacho - Tertúlia de Mentirosos

Mónia Camacho. Escritora.
 
Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: a escolha do título, a personalidade química do ser humano, Uma só volta do sol, o pacto entre o livro e o leitor, o fragmento, o primeiro livro, os escritores e as redes sociais, o amor enquanto base da civilização, a dor enquanto escola, a visão literal e a barbárie, a chusma de rainhas de copas, imaginação, medo e impotência. 
 
Mónia Camacho nas redes sociais: https://www.facebook.com/monia.camacho
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.
 


Roberto Gamito

08.06.21

Tertúlia de Mentirosos com Marine Antunes.

tertulia_de_mentirosos_cover_marine_antunes.png

 

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: paixão e amor, mau feitio, treinar o elogio, o cancro ensina-nos alguma coisa?, cancro com Humor, novos projectos, abraçar novas experiências, o falhanço. 

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.

 


Roberto Gamito

08.04.21

Este texto não é uma crónica. Será que podemos, sem nos desmancharmos a rir, encarar isto como um presságio? Não faço ideia, faltam-me cadeiras para acabar o curso de profeta. No entanto, cá me arranjo, sei ler a sina. Ai sim, responde ela paulatina, é verdade, retruco eu de pau latino. Lê-ma enquanto me dispo, pode ser que o tesão ressurja.

Enquanto uns se empenham a catolizar o mundo, outros dedicam-se a capitalizá-lo. Às vezes, o nosso amigo cientista entusiasma-se ao rés de uma grande descoberta e solta as cobaias. Quando se dá conta do equívoco, recomeça de novo.

No sexo, embora trabalhador, o pénis é o único fulano isento do dever de picar à entrada e à saída. O que seria? No mínimo, seria burocratizar o acto de pinocar.

Falofórias — rituais gregos para celebrar a verga — ou falatórios em redor do pau. Até ao momento, ninguém me passou para as mãos um pé-de-cabra nem me ensinou o ponto onde se deve exercer força ou ousadia quando chega o momento de arrombar umas pernas. É tudo muito tentativa e erro e sem mostras de melhorar no campo da eficácia. A fazer fé nos boatos que se ouvem nos subterrâneos destas linhas, a solidão apossou-se do escriba. E vocês, provavelmente, estão-se nas tintas para estas histórias.

Continuava a patrulhar o horizonte com os olhos piscos, vencidos do álcool, como se esperasse ver algo surgir, sereia ou tesouro, vida ou morte, e eis que a mulher entra de rompante na sua vida, que é como quem diz, no bar. Foi aqui que pediram o belo do broche? Sim, exclamou o desgraçado entrapado, queimando os últimos cartuchos da esperança.
Empenhada em capitalizar a anca, comunicou que não se importaria de ser comida. De seguida, riu-se, é uma brincadeira, concluiu, e os homens ficaram com um cabeção tal que o bar parecia a Ilha da Páscoa.

 

Falofórias e falatórios, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

07.04.21

A mão ignora, feliz da vida, a existência de um escriba arruinado. Em jeito de aparte mas com voz de protagonista, o rodapé declara: se não tivermos cuidado, toda a nossa vida pode converter-se numa enorme bagunça. Se Deus se dignasse a aparecer à minha frente, era capaz de Lhe perdoar tudo. Graceja, graceja.
Ó mãe destas linhas grávidas de solavancos e cotovelos, não estarás tu a enganar-nos? Eu bem tento, porém não vos consigo passar a perna. São demasiado astutos para mim.

À parte isto, não pretendia vadiar por aí de onda em onda qual golfinho solitário a chegar tarde e a más horas aos cardumes de peixe miúdo. Onde se lê peixe miúdo deve ler-se acontecimentos ou dias, postularão os exegetas.

Não tenho tempo para outras palavras que não as minhas, são as mais fortes do meu arsenal. Longe ou perto do cadafalso, não contem comigo para, num assomo de fraqueza, comunicar: “estas palavras são demasiado fortes para aquilo que tencionava expressar”. No que depender de mim, nunca diluirei a língua em fanfarras passageiras e procissões duradoiras. Se me querem deslindar, terão de me ouvir como quem se espuma ao descobrir que foi envenenado.

Infelizmente, não podemos dedicar-nos totalmente ao amor; como sabem, não paga as contas. Sobram-nos, na melhor das hipóteses, espectáculos exóticos para entreter pupilas desmioladas.

No princípio, uma cabeçada numa pedra. Amnésia, segundo li ou sonhei, é não sabermos quem somos e querermos desesperadamente saber. Como reverter a amnésia? Não está fora de cogitações dar uma cabeçada em todas as pedras do mundo. Quem sabe. Seja como for, pior não há-de ficar. No fundo, tudo se resume a isto: ficar ou fugir; resistência ou aceitação. Quem és: uma criatura acocorada ou um animal vertical? Não respondas já, não te precipites, só tens uma hipótese.

O monstro está demasiado grande. Não há Hércules nem Héracles que nos salvem de tantas cabeças esfaimadas. O computador, melhor dizendo, o teclado não pára de latir. Recordo-me do ruído terapêutico da máquina de escrever. Como uma gelatina e retomo o ruído. O médico tirou-me a bebida e levou-me o cérebro. Seja qual for a linha, seja qual for o autor, não há lições a retirar. Em todo o caso, a natureza ensina-nos o seguinte: os animais mais nobres são sempre os mais fugidios. Entretanto, o engodo é aperfeiçoado. Estamos de regresso a casa por um trilho diferente: o verbo amar mostra-se invulgarmente hostil. Não se deixa conjugar facilmente.

 

Sorria, Está a ser devorado, Roberto Gamito

 

 

 


Roberto Gamito

28.01.21

E se agora, na desordem da minha mente, ao contemplar de forma animal uma mulher, me metamorfoseasse em poeta? De costas voltadas para a minha biografia, dou comigo a afirmar: Não há mulher, não há animalidade na visão — mas já houve, os livros não me deixam mentir —, não há nada — apenas uma selvajaria postiça ao sabor da respiração, melhor dizendo, uma embriaguez vazia, sem pés nem cabeça à qual o temor e tremor, a morte e a vida, os limites da mão, fazem as vezes das musas, hoje cadáveres destroçados. Viro os meus pesadelos uns contra os outros e assisto, de olhos fechados, à matança.

O coração nunca é uma casa, é um estaleiro naval onde a memória coordena as entradas e saídas dos nomes.
Nesse lugar de chegadas e partidas, assolado pelas mais altas fantasias, que é como quem diz, no limiar da razão, aquele que reflecte no porquê da respiração acelerada descobre que já não há futuro. Trânsito de navios-fantasma, fora os nomes que à época eram prementes e se afogaram no esquecimento entretanto.

A paixão abre à minha frente um cadafalso que me atrai e é familiar. Preparo-me para a morte como das outras vezes: coração nas mãos, cabeça no cepo.

O artista é aquele que espera enquanto foge. É um simulacro de pensamento, típico deste século a cair aos bocados.
Como escreveu Georges Bataille, é necessário ter coragem e teimosia para não perder o fôlego.
Sem ar nem vida
cheguei ao teu corpo
noutra língua.

Em sucedendo, mesmo que seja pela via da imaginação, o gemido enfatizador dessa fantasia pode, se alcançado o cume da liberdade, ser o prelúdio de uma obra capaz de vergar estantes.
A simpatia polivalente no mundo dito real (a indignação nas catacumbas) põe certamente em evidência a nossa impotência em nos transcendermos. Olhamos à volta, como um animal apático após matar o rival, sem que nada nos desperte o interesse. Abandonamos o cadáver pondo para trás das costas o acto que lhe deu origem.

Fora da esfera da carnificina, regresso à arena onde as palavras que não disse me mordem e esbofeteiam e cabeceiam. Afinando o quadro para o espectador míope, posso dizer-vos que sou o homem nu ao redor do qual as palavras que fui incapaz de dizer na altura certa — palavras mágicas? — cospem em coreografias de humilhação o meu fado. Os livros, uma vez que se devoram uns aos outros, são de espécies diferentes, de forças distintas. O mesmo sucede com os dias. Há dias capazes de me engolir de supetão, enquanto outros se contentam com carícias.

Não existe, do Homem feliz àquele que é devorado por ideias suicidas, uma relação sincera com o mundo. Inevitavelmente, aos olhos de um sábio, somos crianças embeiçadas por paraísos artificiais, os quais, a cada ano, são aperfeiçoados para que não nos apercebamos da patranha da miragem. De pé ou de joelhos, o Homem, esse simulacro de Atlas, deve recusar-se a ser visto como uma coisa. Nem que dê a vida por isso.

 

Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

27.12.20

Coração, morada das mais obsoletas tangas. Sem pinga de receio, o homem imaculadamente bêbado profetiza a rixa que há-de vassourar mesas e cadeiras da esplanada, dispondo-as como que artisticamente no passeio. A conversa cresce em mal-entendidos. Na orla da futura escaramuça, homem e mulher negoceiam intenções quanto à guerra que se irá travar logo à noite numa província isolada.

O velho, que por vezes sobrevive às transações entre a luz e a sombra, chamava o polícia de Zé da Boina.

Alfabetiza-se a carne quando a palavra é aquecida pelo lume do tesão. Procurar o gemido mais eufónico de modo a afinar o coração.

Quando pequeno, entrava no mar para escaramuçar com o oceano. Mergulhava de cansaço minutos depois, como se ensaiasse a sua própria morte.

Animais sem nome de apetite ecléctico. Uma frase antiga roída da crítica. Compete-nos pôr cobro aos incómodos, suavizá-los numa prosa de enamorado, não denegrir cumes nem enaltecer sopés, linguarejar com uma postura de quem veio para ficar.

Homem magnificado pela paixão, logo bestificado pela separação. No delta da apoquentação, poesia, suicídios e uma maré de hieróglifos.

O Homem despenha-se na sua própria vida, uma queda aperfeiçoada dia após dia, não devendo nada ao falcão.

Somatório Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

01.12.20

Talvez nos tenhamos tornado demasiado lentos, demasiado sérios, preguiçosos, lunaticamente embrenhados nas certezas adquiridas na candonga para ver o mundo com outros olhos. A ideia de que o mundo pode ser outra coisa apavora-nos. Refugiados no nosso castelo de cartas, onde enceleiramos as nossas noções sobre mares e terras, aves e árvores, pessoas e demónios, repetimos numa prece tartamudeada que somos reis e senhores deste cosmos raquítico. Usamos o cinismo a sangue-frio.

Todavia, em momentos de maior clarividência, gostaríamos de ter a oportunidade de sorrir e experimentar sem engulhos a ingenuidade da criança. Agarrar no mundo sem manias nem fórmulas, ser um romântico, idealista ou utopista de joelhos esfolados. Ao enjeitarmos a via de um novo olhar, damo-nos conta do nosso compromisso com o lado sombrio da existência. Essa atitude de recuo diante o novo olhar mina-nos até aos ossos. Somos incapazes de nos despojarmos das antigas peles.

Volta e meia, não sei se por obra do acaso, se por obra do destino, cruzamo-nos com jogadores viciados na aposta sentimental. Apesar de exibirmos um semblante rígido, um tudo-nada pedante, um tudo-nada narcísico, (a mentira de que sabemos tudo transformada em ópio), surge alguém dos arrabaldes de um verso forasteiro, perfumada e doce, selvagem e inesperada, apostando que há mais para além da pose de gárgula toda bazófias, lançando um palpite preciso sobre quem se acoita debaixo de tanta pedra. O amor é uma espécie de Miguel Ângelo. É quando, ao olhar para o outro, logramos ver a estátua enterrada no mármore. Finalmente chegamos à tona do mármore, como se regressados do inferno. A face adquire feições antigas, tornamo-nos ávidos consumidores de vida. Glutões do palavreado, viciados em perfumes que nos enobrecem. É arte, é magia, é o Homem renascido graças ao olhar novo do outro.

 

Amor, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

21.11.20

Volvidos uns anos como gladiador na arena do desespero, revela-se-nos em nós uma impotência em participar ingenuamente na vida; treinámo-nos em separar o trigo do joio, demo-nos conta do equívoco do trigo. Alcançámos a verdade seguindo um caminho a raiar o intransitável, chegámos ao anagrama de Roma pela via dos Alpes. Não conseguiríamos aceder a ele levando a cabo danças ingénuas ou procissões de domingo: apenas através de gritos abafados, sufocados que estávamos pela morte. Elefantes derrubados, outros mais tarde conservados em gelo, outros resvalando, mas sobrevivendo a custo. Elefantes em queda, avalanches feitas de trombas; animais deslocados. Animais avessos a subidas.
 
Precipitemo-nos, ridiculamente, em direcção ao vazio em cima de um elefante. Marcha atrás na confiança, da ideia risível de vitória, regresso ao caos e ao grito, essa palavra desfeita que prefacia e posfacia qualquer empreendimento humano.
 
Não cesso de me atormentar com a ideia de que a vida é uma travessia, não pelo deserto, mas pelos Alpes. Montado num animal inesperado, absurdamente despreparado para as alturas, avançamos por um labirinto de cumes. A maior estupidez que o Homem alguma vez concebeu foi a ideia da felicidade no sopé.
Aí, meus queridos tristes em flor, morre-se de qualquer maneira.
 
A esta altitude, como ousaríamos nós ainda falar de vida quando, nesta paisagem inóspita, mal conseguimos respirar e a morte espreita a cada passo do paquiderme? Não posso senão rir-me perante o facto de alguns se empenharem na sua jornada em terrenos respiráveis. Haverá coisa mais bela que consumar a atracção primeva pelo abismo, lançando-nos do alto de um precipício cujo fundo não se nos revela. Abandonarmo-nos à queda enquanto a morte passa de esboço a retrato consumado.
 

Gladiador, Roberto Gamito

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog