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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

03.04.22

Cautela, não tropeces no Diabo — erguer-te-ias com outro nome.
Viagem à volta da estranheza que somos, ilha habitada de animais mutantes e queira deus carnívoros. A procura frustada do semelhante fez da luz um buraco negro. De inocente a bárbaro num estalar de dedos: não chamem a isto magia, mas História. Desmantelamos o circo até ao átomo, vendemo-lo por peças a preços absurdos. Nada se ganha, nada se perde, tudo se torna risível. Nada é verdadeiramente, não te equivoques, passa de uma mão para outra: tu és aquilo que não consegues capturar.

Nem demasiado frio, nem demasiado quente; não serás o último nem o primeiro; serás os muitos gritos de uma história qualquer abafada num quarto esconso em vias de ruir. Baptizamos os vultos resgatados pela memória como quem descobre novas espécies de animais. Enchemos o coração-arca de bichos, onde ontem havia silêncio há hoje deserto, florestas e oceanos pejados de feras famintas. O nome da amada afinal é um nome entre muitos nomes — que triste princípio de poema.

Talvez se me aproximar de mãos nuas consigas — ou desejes! — habitar-me o olhar. Também ouço falar que a luz muda de nome a cada cem anos em sítios onde só conheci a noite.

Talvez tudo não passe de uma esparrela, engodo para um ego inchado e por conseguinte frágil face a um mundo a abarrotar de espinhos. Escapar aqui não é fugir, frisa o poeta, é o primeiro tijolo da metáfora. O público desconfia com as mãos nos bolsos.

Fala, cala-te, fala novamente e cala-te, para que não te caiam em cima e te desequilibres do fio alto da vida e te despenhes sem aplausos cá em baixo, terra onde os alheados ensaiam o inferno.

Olhas para um muro, olha um muro, murmura alguém ao teu lado, e de supetão o muro perde o carácter de metáfora, apenas um muro que, se intransponível, nos faz recordar o seu antigo sentido figurado. Descobres que não há muros nem pontes. Os séculos pretéritos sobem pelas tripas, jogas a mão à boca, inocente, julgas impedir o caudal do passado. O passado estorvará sempre o presente.

A ausência de amor é uma comédia ou uma tragédia? O homem só vence a melancolia de três formas: pela arte, pela imaginação e pelo amor. Se a imaginação ficou lá para trás, na infância, se o amor é impossível e a arte dá mostras de não dar conta do recado, o que nos sobra?

A mão-flecha-luz-quase sobrevoa, alheada das linhagens, o cadáver de Deus. Imagino-me a dançar no interior putrefacto de Moby Dick. Este é um tempo em que as sombras são disputadas por um sem-número de cães, sem luz capaz de impor limites. Chamam a isto vida, embora me pareça que fomos vomitados pelo nada neste século. É sempre a mesma merda: os homens entediam-se sem arte, as moscas deliram e os camaleões oportunistas fazem planos para o futuro.

Após auscultar o coração do paciente, o médico questiona o desgraçado: “Há quanto tempo não lê um poema?” Poema, riposta o homem sem qualidades, há tanto tempo que não ouvia essa palavra.

A paixão é a cana de pesca que resgata o nome do rio do ruído. Gota a gota o dilúvio ou o dragão. Fechado numa câmara anecoica com um relógio, o tiquetaque funde-se no sangue que o silêncio tornou mar. O interior vem à tona revoltado. Se o interior contar a história da carne de uma ponta à outra, enlouquecemos.

Ontem remexia, junto da lareira, ao rés dos velhos corcundas, hoje pasto de vermes, os toros com uma tenaz. Os andaimes que rodeavam o futuro foram retirados e demo-nos conta do ludíbrio: não construímos nada durante este tempo todo.

Não tropeces no Diabo, Roberto Gamito


Roberto Gamito

27.03.22

A morte fê-lo crescer para dentro de vários nomes. Dentes afiados, barriga inchada de vermes, elevando-o ao inquestionável estatuto de animal de museu. A berma para a qual foi atirado pela vida, que, agarrada ao papel de bailarina contemporânea, o catapultou vistosamente, sem esquecer os saltinhos espalhafatosos ao som da música.

Três ou quatro varejeiras pioneiras hão-de chamar outras até se tornarem um nevoeiro fervilhante à roda dos caídos. As varejeiras crepitam no ar inquietas, indecisas entre os mortos e os vivos. Não os distinguem: e isso inquieta-nos. Se não há diferença entre estar vivo e morto, então para quê isto tudo?

Estamos impedidos de tocar no mundo, a repulsão electrónica impede-nos. Poeticamente falando, diríamos a maldição da assimptota. Estamos condenados ao quase. Quase que amei, quase que te toquei, quase que vivi. Saltamos de quase em quase, pelo que o caudal do rio das frustrações transborda até inundar as margens biográficas onde pululavam minúsculos projectos de fauna e flora.

Tento regressar à infância, porém os caminhos por onde andei já não existem. Recordo-me das estradas no Alentejo ladeadas de árvores e olhar para o vidro do carro até ficar enjoado. Às tantas não sabia se era eu que me movia, se eram as árvores. Hoje sobram poucos representantes desses dias, meia dúzia de árvores para contar a história. Neste caso, a luz não é sinónimo de bênção. As sombras daquele cortejo de árvores tranquilizavam-me. O regresso é impossível, contento-me, qual Penélope, a fazer e a desfazer o meu episódio vezes sem conta.

De quando em quando o imprevisível intromete-se no guião das nossas vidas. E o meu passado, escrevi-o noutro texto, foi engolido por um único beijo. Esse amor reinventou-me até ao pormenor, vim à tona das águas com outro nome e outra cabeça. Mas nada dura para sempre, e o amor, tal como deus, não é eterno. Doravante contentar-nos-emos com as sobras de um cadáver imperecível.

Ganharam espinhos, esses dias. Adquiriram o perfume de rosas envenenadas. Encontramo-lo, ao passado, sempre por acaso e parece sempre que andámos a evitá-lo.

No museu da minha vida, vejo tudo com igual desinteresse. Observo as legendas de um quadro a saltarem para outro sem que haja reacção da minha parte: um grande cadáver esquisito em mutação: eis o labor da memória. O que me faz avançar no texto é saber que o vou abandonar, qual cadáver crescido capaz de, mesmo morto, escrever a sua história.

O que era só uma frase inicial tornou-se o regresso à infância. Uma sinfonia de caruncho entoa pela casa dos velhos. O espectáculo de baixo orçamento preludia a morte. A vontade de viver vem-lhe de onde? As ideias veem-lhe de onde? A morte vem-lhe de onde? Onde é que não lhe dói, pergunta o médico.
O escritor ou Homem abeira-se da folha para simular nascimentos e ressurreições.

Por uma frincha na porta, vê-se o velho na cama rodeado por tubos e maquinaria que fazem a conta da luz disparar. Qualquer dia não terei dinheiro para pagar a conta da luz, diz o velho com graves problemas pulmonares. A empresa de electricidade será o seu algoz. Estamos todos presos por arames, eis o que somos: marionetas acamadas.

Um corpo imóvel comentado por uma multidão de cheiros. A última inspiração antes do fim. A vida resumida num estalar de dedos. Acabou, finalmente acabou. Os andaimes — os tubos e as máquinas — que rodeavam a morte em construção foram retirados. Apesar dos sucessivos adiamentos, o projecto foi finalizado. Flores por cima do cadáver, todavia não há flor capaz de fazer as vezes da luz. A noite será daqui em diante para sempre.

A maldição da assimptota


Roberto Gamito

14.02.22

Quis o destino que eu sobrevivesse até este dia, dia de São Valentim, moderadamente ileso, excepto umas ligeiras tremuras entremeadas com gritinhos abafados pela almofada quando medito no amor e dificuldade em adormecer sem soltar um Nilo de tristeza para os lençóis. A minha hora há-de chegar, digo eu, diante do espelho, de modo a parecer um garoto barbudo e introspectivo com um pijama pejado de porcos de forma a condizer com o meu gabarito intelectual e não um tipo tomado pela insânia; só espero é que a hora não coincida com a da minha morte. Não seria de estranhar. Sou pouco organizado e não me espantaria que o destino me tivesse marcado o amor para a hora da morte. De facto, seria o episódio indubitavelmente mais marcante da minha vida, e o último, como se tivesse deixado o melhor para o fim. A minha inteligência e beleza exótica — leia-se desespero pausadamente — serão recompensadas. Deus não dorme; todavia, em virtude da idade, é incapaz de escutar as preces dos humanos, muito menos as minhas, que sou, segundo as palavras de Jesus, esse privilegiado, o único homem que não é filho de Deus. E como não dorme ainda piora a situação; é um mouco irritadiço. O problema dos milagres está despachado: não posso contar com eles.

Não é uma tarefa fácil, com a vontade de viver a escassear, porém como alguém tem de prosseguir com a minha vida e, considerando as ofertas no mercado, entendo que sai mais barato se eu tomar conta deste negócio tão pouco apetecível. Não faço a mínima ideia do que quero dizer com isto. Se continuo vivo, se não é uma vitória estrondosa, é pelo menos uma vitória moral. Que, traduzido na moeda corrente, é um valente nada.

A verdade é que, durante a minha vida, levei a cabo muitas experiências no domínio do fracasso amoroso. O amor, segundo a minha ideia, é dotado do poder de enviar toda a nossa vida para uma nota de rodapé, dando-nos a possibilidade mágica de rabiscar de novo o livro da nossa biografia. Por azar, não tenho qualquer génio quer para a escrita quer para o desenho. É só gatafunhos. Não me chateio; ninguém percebe muito bem o que é o amor. Aliás, este procedimento, o rabisco, é tão-só a minha forma de exprimir a minha incapacidade de o compreender.

Imagino-me a esfarelar orégãos para uma salada de tomate, um hábito que ganhei quando saio à noite, enquanto bebo um copito (saliento que o corrector ortográfico trocou-me, vezes sem conta, a palavra ‘copito’ por ‘coito’), não obstante ser considerado um hábito socialmente condenável, sou bastas vezes interpelado por um olhar que oscila entre o meigo e o esfomeado e, em resposta, confortavelmente metido numa farpela de rubor, a qual preludia a indumentária do suor, treinado para salivar diante da febra, como uma nova raça de cão de Pavlov, naquele habitat de silêncio tépido onde homem e mulher praticam ping-pong com os olhares, eis que ela diz: “A forma como tu esfarelas os orégãos enriqueceu-me incomensuravelmente a vida.” A forma de seduzir, respondo eu, confiante do meu acto exuberantemente erótico, mais eficaz que conheço, minha querida.

Descontraímo-nos com xaropadas, frases sem nexo, risos que afloravam a qualquer momento, esfrangalhando-me as piadas, a coisa que eu mais detesto na vida, logo a seguir à fome no mundo. Fiz-lhe ver que era um homem diferente, um papalvo de alto coturno, padecia de um comportamento de idiota, isso era indiscutível, porém invulgar e ela admitiu que nunca vira nada assim. No meu nervosismo, sussurrei-lhe esta salada de tomate é para ti.

Nunca ninguém me disse uma frase tão doce, retrucou, encantada. Os minutos seguintes, como é fácil de ver, abarcaram diversos assuntos, dos mais simples ou mais exigentes, desde que o leitor esteja disposto a prescindir da lógica. Penso, desde essa altura, que falei demasiado. Da salada de tomate até à amizade vão dois grãos de sal. E eu distraí-me com o q.b. Tornamo-nos amigos e eu tive de adiar, de novo, o amor. De resto, ela confessou-me que nunca me iria esquecer, pois nunca havia comido uma salada de tomate às 3 da manhã.

Dia dos Namorados

 

 


Roberto Gamito

30.01.22

Já não me sobra espaço na cabeça para o amor, nem vontade para direccionar os caprichos de pendor humanista rumo a terrenos mais palpáveis. Cabeça, epicentro de uma multitude de tragédias. Atulhei-a de destroços e terramotos, a memória vandalizou-ma, os episódios a braços com a transfiguração, catedrais-abandonadas-pássaros-silêncio, animais desfigurados pela velocidade e pela ruminação.
O teatro das intensidades — animal desdobrado do amor à cólera — é tão-somente um pretexto para acelerar a nossa perdição.

Ao frequentarmos o delírio dos outros, digo, as suas deixas mais intensas, recebemos a dádiva de assistirmos ao teatro ebuliente do mundo ou, em acreditando na mão poderosa do macho, o teatrinho da testosterona. Por vezes, no seio desse diálogo onde as vozes se anulam sem pernoitarem na paixão, esquecemos os nossos limites, as nossas fraquezas tartamudeadas em confessionários, os nossos calcanhares de Aquiles; sonhamos com dias mais luminosos sem conseguirmos pronunciar o nome do Salvador.

De seguida, o raro transforma-se em guião. O fantoche feito santo sobe a escada da perfeição, começa a falar das grandes palavras compactas, a saber: amor, vida, pátria, morte, vira-se para os humildes, ocos de frases certas, intriga as multidões ababalhadas — e imita os grandes facínoras. No papel, Salvador, na prática, carrasco-mor. Os delírios desaparecerão um dia — mais por cansaço do que por obra feita. Sim, concordo com as palavras de Teresa de Ávila, parece-me que os demónios jogam à bola com a minha alma.
O Bem não é senão um eufemismo para Mal.

A vida é o lugar das nossas quedas, não há voos que nos enobreçam: tudo o que larapio ao destino, gesto que me leva às cordas, é lançado para o monte das coisas intocadas. Apesar do esforço hercúleo, tudo permanece na mesma. Saboreio a mortalidade qual vampiro livresco, alimento-me do meu próprio sangue, organizo-o por tremores e terrores, sou o deus arcaico renascido das cinzas.

Não descarto a hipótese de o Homem ter gosto pela cruz, que tentemos pô-la em discurso e fazer disso carreira. Oxalá as nossas lágrimas nos catapultem até ao pódio do privilégio. Porque, bem vistas as coisas, o Salvador, nome pomposo para uma luz impontual, é tão enfadonho como qualquer bêbedo. Se não formos nós a sair da cruz pelo próprio pé, se o grito não quebrar a maldição e as grilhetas, se formos incapazes de aliviar o fardo com um tonitruante foda-se, estamos bem lixados. Uns e outros — loucos amadores e loucos profissionais agarrados a uma ideia a cheirar a novo, sob a qual se acoita o inferno do mesmo — transmudaram as lágrimas em mel. Sábios do oportunismo, aproveitam o momento de desatenção dos algozes — maldita comoção — para os guilhotinar. Canonizemos os abutres e as hienas, elevemos os cadáveres putrefactos aos píncaros, façamos do mausoléu palco deste festim pantagruélico.

Atentos às flutuações da mente humana, o homem sem maiúscula oscila entre o poeta e o jornalista do mundo interior. Façam para aí os vossos milagres: multipliquem para aí os ateus. Deturpando as palavras de Cioran, se o Homem fosse um ciclope, a palavra servir-lhe-ia de olho. Errata: onde está palavra deve ler-se cegueira.

Não há espaço para o amor, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.01.22

Ao contrário de outras crónicas tendentes a afagar educadamente os neurónios mais exigentes, revelando-lhes o princípio de uma profundidade outrora oculta, este texto às três pancadas presta-se à folia vertiginosa, que é como quem diz, vamos discorrer marotamente sobre o reino ebuliente do baixo ventre, quando em contacto com as oportunidades certas. Justifica-se que tome estas e outras precauções, não para exibir o lado puritano armado ao pingarelho, tão ao gosto do Homem contemporâneo, mas porque tal constitui uma chance de despertar uma horda de pequenos Lázaros em horário de trabalho — nunca me perdoaria que tal acontecesse.

O Altíssimo é amor, pelo que Deus é o sponsor desta crónica.
E cá vai, mais uma vez, este gato travesso no seu obstinado funambulismo humorístico que o há-de acompanhar até se extinguir a centelha que o põe de pé.

As crónicas do piçalho, livro com muita saída — e entrada — num desses séculos em que os historiadores trocaram o apontar de episódios relevantes pela imemorial arte de coçá-los, começava nestes preparos: “vivi na obscuridade e sem um tostão, e volta e meia conhecia a luz, sendo que a luz era tão-somente a distância que me separava da noite onde o meu mestre me enceleirava da fenda hospitaleira. Apesar de ser um livro merecedor dos nossos mais rasgados elogios, optemos, antes, por uma questiúncula que já acometeu todos os homens: O que é que me eriçará mais espontaneamente a picha? Não é de estranhar que homens de todas as eras e coordenadas tenham partido à aventura, o chamado aventureiro de portinhola aberta, com o fito de hierarquizar os estímulos que cutucam o marsapo. Se o estímulo for uma espécie de Jesus, isto é, vulto luminoso capaz de levantar um morto, então estaremos em condições de estabelecer uma espécie de espectro da luz. Quanto mais intensa for a luz, mais rapidamente despertará o nabo. Não será descabido declarar que a ciência não tem passado cartão aos temas que interessam ao homem minúsculo.

Bem sei que há grandes fatias da civilização que se estão bem marimbando para a felicidade do pénis abstracto. Se assim é, vou abreviar a história do contabilista e da beata. Para beata era uma bela mulher, tinha uma saia levantada, nem muito nem pouco, exactamente onde o tesão se engendra e deixa espaço para a imaginação cultivar as suas imagens escaldantes. O seu caralho, teso qual português de classe média, disponibilizou-se para o labor mal foi pendurado o quadro sexual no miolo. Com efeito, em breve estariam a fornicar a bom fornicar. Sim, minha linda, gemeu o contabilista à beata, venho-me assim que preencher os papéis. Deus me perdoe, mas que bela piça!, gritou cristãmente a beata. Vá, minha luminosa fodilhona, vem-te depressa que amanhã é dia de trabalho e não podemos ficar toda a noite nisto.

Enquanto isso, os anões — porque não?! — vinham-se onde podiam, uns nas orelhas, outros nos sapatos, outros em cuecas que povoavam o chão do quarto. Não me perguntem como é que os anões ingressaram no quarto. Possivelmente — uma teoria da minha lavra —, atraídos pelo cagaçal da fodanga.

O velho, que fora aquecer a beata para o contabilista, e se fosse outro teria começado a história por aqui, avesso a segundas vezes, passou de actor a comentador pornográfico.
Num banco ao rés da cena infernal, havia cachos de mulheres com as cuecas em pantanas, umas davam à língua, outras ao dedo, ensaiando os primeiros acordes no clitóris. Artur, tímido de nascença, não achando nada mais interessante para fazer, decidiu passar o tempo a punhetear a sua chouricinha da felicidade. Os mais entendidos na velhacaria, apodam-na de sarapitola de adulto.
O adulto está ao corrente da volatilidade do tesão — é preciso agarrá-lo, não vá ele fugir e nunca mais voltar. Levantou-se, deu umas voltas, e enquanto pensava na vida, perseverou a punhetear-se enquanto dizia: “ainda há coisas boas na vida”.

Um gajo vestido de burro, cujo nome não interessa para a história, o qual estava na pausa do tabaco, dado que o quarto há muito se havia metamorfoseado num apinhado bar em virtude de uma fadinha embriagada que, ao ver a cena a pegar fogo, percebeu que era necessário expandir o espaço a fim de lhe fornecer verosimilhança. E o gajo vestido de burro? O gajo enfarpelado de burro pensou: Não é tarde nem é cedo, vou deixar de fumar. Assim sendo, aproveito estes dez minutos para exercitar maravilhosamente o sacana — e lançou-se sobre uma cona desocupada que andava, segundo os anúncios de emprego fixados numa das paredes do estaminé, a pedir colaboradores. Ao dar-se conta do homem-burro, latiu de prazer, qual alegre cadela fodilhona. Hospitaleira — porra!, ainda há quem saiba receber —, meteu-o entre as pernas, protegendo-o do frio que grassava naquela noite de chavascal.

Há detractores que alegam que a história está mal contada, que se iniciara no bar e não havia fada nenhuma — enfim, gentalha que não acredita na existência da fadinha da fodinha. Segundo a versão desses bandidos, uma mulher deslumbrante, cujas carnes eram dignas de figurar naqueles talhos cheios de marketing frequentados por ricos, apareceu e contaminou o bar de olhares famintos. Nisto, ouviu-se um inchar de mil piças.

Entrementes, começou a dar o jornal da noite, o que caiu qual guilhotina em cima do pescoço daquela cena. De facto, a situação económica do país é pouco estimulante e extingue mesmo o mais resistente tesão. As mulheres cessaram as guitarradas na pevide, a agricultura de nabos cessou, as pichas regressaram às cuecas, os anões foram exportados para um conto infantil, o homem-burro regressou ao seu part-time de mascote, o velho continuou a ser velho, o contabilista mergulhou nos seus papéis, e a beata agradeceu a Deus, em suma, o regresso à pasmaceira — eis o desfecho do episódio.

Será que não há outra versão, questiona o leitor enquanto toca xilofone com a pila. Há um desfecho apócrifo segundo o qual houve uma fusão à la Power Rangers, melhor dizendo, gerou-se um Megazord de Pichas, tipo obelisco cabeçudo que avançou rumo ao gajedo com ganas de lhes estancar o desejo de uma vez por todas. Todavia parece-me pouco credível. Uma coisa é acreditar na fada da fodinha, outra bem diferente é acreditar na união entre os homens.

Fada de Marotice, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.12.21

a verticalidade — a ficção suprema

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a verticalidade — a ficção suprema
é sempre a mesma estranheza estremunhada
a interpretação soluçante e com isso a condenação

Continua aqui: Medium

 

este poema não é a música a que tu chamas casa

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este poema não é a música a que tu chamas casa
é um bárbaro ganhando estatura entre o amor e a morte
é o cavalo-súmula de todas as corridas escarnecendo das apostas

Continua aqui: Medium

 


Roberto Gamito

07.11.21

Durante muito tempo, virei costas ao oceano da angústia. Só muito mais tarde, após as rugas conquistarem o meu rosto sem que daí resultasse qualquer oposição, esgotadas as rotas e trajectórias, eu que fui célere e letal qual projéctil e lento e paciente qual monge do deserto, descobri a verdade: não era senão uma ilha. Preferia não ter de me cartografar nem inventariar os bichos que me escolheram como habitat.
Destino ou livre-arbítrio são legendas possíveis, porém o quadro não deixa margem para dúvidas. Há um homem no leme, todavia o homem é cego. Assim sendo, o livre-arbítrio é uma paródia sem fôlego do destino.
Sou partidário da ideia de Nietzsche, apesar de tudo, esse magro tudo, urge dançar. É na orla entre a possibilidade e o nada que o mundo se faz. Eis-nos chegados ao país da espera, onde os Homens nascem ou definham. O limiar é, pois, uma máquina de fabricar ou exterminar gigantes.

A angústia é uma luz intermitente, como se fosse um animal que passasse o tempo nos meandros da carne, no nosso corpo, pronto a saltar cá para fora, aproveitando o deslize de um lapso, um gaguejar, um qualquer engarrafamento de temperaturas na língua, bastando para tal que enfrentemos desarmados o nosso reflexo. Com efeito, o nosso reflexo é uma espécie de veneno que se infiltra paulatinamente nas nossas congeminações, um vândalo em crescendo prestes a incendiar as nossas vulneráveis convicções. Basta para isso que nos demoremos diante do espelho.
Se indefesos e sem máscara apta a nos proteger da verdade, o reflexo faz-nos embarcar e navegar nas águas profundas das possibilidades, nas quais passado, presente e futuro se interpenetram tempestuosamente.

A odisseia de Ulisses e o labor de Penélope levam os neurónios à ebulição. A memória que faz e desfaz como Penélope, sabe-se lá à espera do quê ou de quem — Ulisses e a Morte entre os candidatos —, e revela a verdadeira identidade do chão sólido: areias movediças, parentes menos poéticas dos grãos de areia da ampulheta. Nos territórios da memória, situados em coordenadas incertas onde o mar é mais revolto, estamos sozinhos. Quando muito, vemos os outros seguirem-nos nas margens, primeiro como seres humanos, de seguida como vultos, depois nomes, e por fim como sílabas insípidas de um tesouro há muito perdido e indizível. A memória é um labirinto fluído, os demais permanecem na nossa vida como histórias ou como migalhas, à semelhança de Hansel e Gretel. Porém os dois corvos de Ódin, o pensamento e a memória, não nos facilitarão o regresso.

Estamos condenados e o verniz da sanidade ameaça estalar. Amiúde gosto de imaginar a figura de Teseu a dançar no centro do labirinto com a cabeça do Minotauro. Uma vitória magra, suficiente para nos alimentar o ego durante algumas horas. E depois?

Ambicionamos duas coisas: estar à altura da nossa idade e estar satisfeitos com o passado quando chegados à antecâmara da morte. No pino da empáfia, tentamos criogenizar algumas das possibilidades, a maioria engendradas pelos sonhos, elas que, se não lhes cortarem as pernas, podem ser as sementes do melhor mundo possível; entrementes, resgatamo-los, aos sonhos, para um futuro onde, pensamos nós, seremos mais capazes. Ao longo dos anos, o cadáver da vida sonhada mantém-se conservado num caldo de promessas, porém, aos poucos, a mente dá uma guinada rumo a um estágio infernal e, sem darmos conta, consumimos esses ocupantes criogenados. O sonho transforma-se em ração destinada à cólera ou à depressão.

Sobre todos os cumes da dúvida paira, ainda sem rosto, a possibilidade de recompensa. Por conseguinte, andamos aos círculos atiçando a oportunidade de salvação. De cima, os abutres repetem passo a passo a nossa jornada repetitiva, como se escarnecessem da nossa demanda.

Atena é a deusa da sabedoria e da fiação. Sabedoria, fazer e desfazer, eis a memória decomposta em partes mais simples e eis outro modo de retratar Penélope trocando o pincel pela pena. Para cá é para lá, para a frente e para trás, qual barco embalado pelas ondas, um pêndulo ou um baloiço à beira do abismo, um ritual cujo fito é afastar o depois amargo, que é como quem diz, a morte.

Ontem amavam-se e hoje encontram-se num estado de inércia fatalista.

Volvidos alguns capítulos desse romance narrado pelo vento, os dois conversam numa esplanada de um café de toldo carcomido, é trocado um punhadinho de frases feitas onde ontem a paixão ensaiava poesia. É notório que ambos buscam no olhar do outro a ponta solta desse amor que se lhes escapuliu. O mundo goza de uma pausa quando, apenas temporariamente, duas pessoas tentam enlaçar as suas biografias sensaboronas num apetitoso romance de grande fôlego.

Sem que nada o fizesse prever, a década tornara-se numa sala de espera onde animais e homens se acotovelam à espera de uma metamorfose capaz de lhes conferir asas. Eis a promessa do amor: a Metamorfose. Ansiamos despertar do casulo do amor outra criatura, um animal sem grilhões.

A que espécie de hibernação se sujeitam os homens contemporâneos para que deixem fugir o amor durante décadas? Não respondam, mergulhem antes nesse silêncio, ó meus apneístas nocturnos.
Possivelmente, a ideia de ressurreição de Cristo foi a derrocada do amor. A noção de que algo pode esperar — e o mundo contemporâneo é feito de sucessivos adiamentos com vista a uma promessa futura colossal (um paraíso posto nas prateleiras a preço de saldo) — sem sofrer os danos e a erosão das garras do tempo. Em boa verdade, somos confrontados com a acerba realidade: não conseguimos trazer a vida à tona da morte, as sucessivas exumações inúteis levadas a cabo pela memória só alimentou a dor a horas certas e, finalmente, o reconhecimento de que, após uma longa espera, o mais que logramos resgatar das cinzas é o belo mas putrefacto cadáver do amor.

Entre a morte e o amor, o homem só tem duas escapatórias: definha ou cresce. Nesse sermão levado a cabo pelas sombras canoras, também os nossos mortos nos tentam ludibriar — já não bastava o Diabo. No particular do artista, a folha em branco é o ponto de encontro com os nossos mortos, vivos, mundos teóricos e projectos de metamorfose. Embora inútil, o artista não desiste da possibilidade de inventar uma fórmula que faça as vezes do amor. Vivemos empacotados na dúvida de que nunca seremos suficientemente bons para cantar a altura posta em queda que nos devorou as asas. Todavia é preciso continuar a dançar.
Num mundo sem heróis, só os amantes desafiam as proibições e os algozes. Extintos os fogos do amor, o homem foge da transgressão rumo a províncias maquinais. Não é por aqui que me tenciono perder.

Campeões da lamúria, apressados e hesitantes, carambolando entre não ter tempo a perder e o medo de escolher mal, o homem crê ver a Medusa no reflexo e paralisa.

Em face deste jardim de estátuas, devemos ser capazes de manter a dança, o coração e a cabeça, combater a compulsão para a aceleração, esquivarmo-nos das massas e encetar coreografias de autor.

Antes que o tempo nos despache como incapazes, encaremos a vida — o labirinto em expansão — como uma pista de dança apinhada de aves de mau agoiro.

Sopé dos últimos dias, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.08.21

Desço ao fundo de mim — ao verdadeiro inferno — com a esperança de não encontrar ninguém conhecido. Em todo o caso, estou completamente às escuras quanto ao regresso.
A poesia está morta, afiançam-nos; surpreende-me que continuem a malhar no vento ou naquilo que, em dias inspirados, designam fantasmas.

Não havendo outra anestesia, recorro aos dias transmudados em carcaças que fui enceleirando no decurso dos meus passos. A mão avança cautelosamente pelo corpo pejado de cicatrizes, qual agrimensor obscurecido pela tarefa de inventariar as fronteiras da barbárie.

Ao contrário de outros dias, o grito alheio endireitou-me a prosa. Após a metamorfose luciferina, o diabo entrou em mim com um mandato de detenção. Digo-lhe que Deus não está dentro de nós, mas ele não acredita.

Vigio o meu coração à cata de falhas na sua sinfonia. Baptizo cada uma delas de olhos fechados. Foi o que deu andar a brincar aos apaixonados.

Fico a pensar no precipício acidental que a minha vida se tornou. A esperança pode ter os dias contados. O quadro está à mercê de legendas enaltecedoras.

Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava dramaticamente na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções. O cachalote colossal encalhado na margem da memória. Já haviam dado ordem no sentido de desempacotar a civilização alojada na sua carcaça. Puta que pariu esta refeição, eis as últimas palavras do cachalote. Lego aos exegetas a labuta de pôr em discurso os meandros da refeição resgatada.

O mundo não tarda será outra coisa, assim como o inferno — o melhor é não descurar as lições de voo. Se tivesse que adivinhar, diria que nunca houve nem haverá profetas.

Leitor, veja pelo lado positivo: não há ninguém com quem competir. O inferno não é para mim, pensa o leitor ao desistir do texto, prefiro sítios mais frescos.

Ia ser excessivo mais um pouquinho. Pôs a vida mais alta, tirou a mão mais venenosa da aljava e fez pontaria ao coração das Parcas. Pusera a coragem em romance e a determinação voltara a notar-se no olhar.

O bando de burros tapara por fim o sol. Isto e aquilo e podia continuar por aí fora, comentou o chefe das aves orelhudas.

Isto é sobre o quê? O amor é sobre o quê? Dúvidas com muita luz à mistura. Um único dia tomara conta da minha memória. Uma migalha selvagem com a mania das grandezas. Não estou perdido, não sei de onde parti, nem tão-pouco sei como aqui cheguei. Atire a rosa-dos-ventos — o meu queijo — para a fogueira, disse o corvo, vai ver que tudo fica mais fácil.

o amor é sobre o quê?, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

01.08.21

Mónia Camacho - Tertúlia de Mentirosos

Mónia Camacho. Escritora.
 
Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: a escolha do título, a personalidade química do ser humano, Uma só volta do sol, o pacto entre o livro e o leitor, o fragmento, o primeiro livro, os escritores e as redes sociais, o amor enquanto base da civilização, a dor enquanto escola, a visão literal e a barbárie, a chusma de rainhas de copas, imaginação, medo e impotência. 
 
Mónia Camacho nas redes sociais: https://www.facebook.com/monia.camacho
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.
 


Roberto Gamito

08.06.21

Tertúlia de Mentirosos com Marine Antunes.

tertulia_de_mentirosos_cover_marine_antunes.png

 

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: paixão e amor, mau feitio, treinar o elogio, o cancro ensina-nos alguma coisa?, cancro com Humor, novos projectos, abraçar novas experiências, o falhanço. 

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.

 

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