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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.12.21

A publicação desta croniqueta alarmará os aspirantes a virtuoso, que os há em qualquer buraco, salvo conas, que aí mora o pecado, mas é esse mesmo o meu intento. A sociedade de cavalheiros de piça engessada tem dado à luz pelo orifício não convencional uma prosa a direito (redundância, se formos vasculhar ao latim o significado de prosa; foda-se, escrevem como se fossem viver para sempre) de tal forma enfadonha que o comércio de calmantes está nas ruas da amargura. Há dias caiu-me no colo um relato segundo o qual um distraído, um daqueles ingénuos que acredita que a ida ao bar com os amigos é sinónimo de troca de piadas e comércio de alarvidades, sentou-se e de supetão, ao embrenhar-se na conversa com os convivas, murchou-se-lhe o sorriso. As histórias acaloradas de sexo, amiúde inventadas (ninguém fode assim tanto, até o caralho mais trabalhador tem dias de folga), deram lugar a discursos propagandísticos, quer dizer, troca de bolas, as típicas de activistas de sofá. Se acreditarmos em tal coisa, essa coisa torna-se verdade, não era essa uma ideia-chave no Elogio da Loucura? O que faço eu com este manancial de piadas a formigar no meu miolo, cogitava o ingénuo que aos poucos, para se irmanar no grupúsculo de virtuosos, se despojava de tais pensamentos pecaminosos.

Longe vão os tempos em que Swift sugeriu que, em tempos de escassez, se comessem crianças. Bem apanhado: pequenitas, carne tenra e fáceis de caçar. A piada é hoje um lince ibérico. Um bicho em vias de extinção que ignora como se acasala. Não preciso, porém, de me dar ao trabalho de descrever o cenário trágico em que o Humor se encontra. É na forca, a escassos minutos do fim, que me coube a honra de ser escolhido pelas musas mais coxas, ao que pude apurar, dado que é o momento capital onde a cabeça é habitada de pontas soltas, legaram-me o difícil papel de contar o que é a vida.
E a comédia, por arrasto. Quem não consegue ironizar a sua própria imagem, desconhece-se por completo. Perde espessura e torna-se tão magro quanto uma folha branca.

O fã contemporâneo de comédia recorda-me o rico apinhado de manias que vai ao campo pela primeira vez e diz: “Venho ao campo e é só arvoredo; não há nada para ver.” No tocante ao diletante do humor, a frase é mais fina: “Venho ao sítio onde se pratica comédia e é só comédia; não há nada para ver.” Pelas suas tendências, podemos muito bem chamá-la Sociedade para o Incitamento ao Chapadão nas Fuças. Não condeno o humorista que, após ouvir tamanha baboseira, desça do palco e comece a distribuir papo-secos de qualidade, qual padeiro parisiense, ao seu público. Querem humanidade?, vocifera o comediante, tomem-na toda, agora engulam este caldo de porrada — e só vos faz é bem.

A literalidade é rei e senhor desta ligação entre artista-público. Mas não vejo rei nenhum, questiona o público. No máximo, rainha, opina outro gatuno de lugares no pódio. Seja como for, este mundo veio parar-me às mãos por acaso, logo eu que vivia no passado, apesar de todo o cuidado posto em esconder-me do presente e nunca ter agarrado nenhum papel activo no teatro da sociedade. Contentar-me-ia com o magro papel de figurante. E todavia.

Torna-se evidente que o público exigente (como se auto-intitula, ah, as ofuscantes proezas de um umbigo inchado — o médico que veja isso) e sem dentes exigirá da comédia um estilo que não lhe pertence. A comédia pode continuar a laborar desde que deixe de ser comédia. É como que declarar: “Gosto de tudo em ti, mas mudemos cada pedacinho de ti, assim não pode continuar”. O Narciso contemporâneo é um Deus tardio. Não descansa enquanto não fizer o outro à sua imagem.

O mundo evolui e a comédia deve evoluir também, como se ouve por aí em qualquer beco deste século. Evoluir para onde? Para tapar os buracos da vossa fragilidade narcísica — a qual é recebida pela mente como um narcótico? Vamos lá ver uma coisa, meus campeões: a arte não está ao serviço de ninguém. A arte não veio ao mundo do Homem para ser aia do vosso ego, não está cá para fazer festinhas — o seu verdadeiro papel é conduzir-vos, em virtude de um soco imprevisto, ao tapete.

E a arte? A arte também tem culpas no cartório. Nunca pensei que meia dúzia de néscios palavrosos, três para dizer bacoradas, três para funcionar como coro, pudessem pôr de joelhos algo tão esquivo e tão tentacular como a arte.

Mas quem é esta gente, a qual ouve as sereias pelo megafone do seu umbigo a comunicar magotes de patacoadas? A comédia não pode continuar a ser o que sempre foi? Ignoro como responder a esta questão senão com: a arte nunca é aquilo que pensamos dela, está sempre um passo atrás ou à frente. Abaixo os inteligentes! Abaixo a metáfora! Abaixo aquilo que não for um reflexo enaltecedor de nós próprios! Dinamitem os cumes, preencham os vales, não queremos sentir o desconforto da vertigem, gritam uns e outros a cavalo do pónei amputado da empatia.

Platão, como muito bem se sabe, é o maior mentecapto de todos os tempos, nem todos podemos ser brilhantes na vida, contradiz — atentem no descaramento deste bandalho — os activistas mutantes no respeitante à palavra. Então quer dizer que o problema permanece indecidido. Quer dizer que a verdade nos é inacessível, como nos afiança Goethe? Mais luz, mais luz, mais empatia, diz o Werther contemporâneo antes de estoirar os miolos. Era só o que faltava a verdade ser-nos inacessível! É possível que, uma vez por outra, já tenha mandado esta nova casta de bípedes para a casa do senhor do baixo ventre. Se isto não é ser virtuoso, e Aristóteles não me deixa mentir, gostava então de saber o que é.

Por isso lhe disse logo: Carlota (Diogo ou Rodrigo, tanto faz), estás enganado a meu respeito. Eu sou um vulto, já morri faz trinta e sete anos. Simpatizo com a tua tristeza, mas estás impossibilitado de me assassinar. É muito melhor contentares-te com uma solução mais humilde, porém com resultados mais imediatos, do que andares para aí armado em parvo — atitude que te celebrizou —, a saber: estar caladinho até te surgir uma ideia, ó traficante de citações.

A ideia prevalecente era a de que se enforcara há muito, mas nem por isso deixara de contar a sua história. Ah, caramba, fomos apanhados na esparrela da ficção, numa espécie de desdobramento literário. Quer dizer que todos estes personagens são apenas várias faces de um tipo?, questiona-se Deus ao olhar-se ao espelho enquanto pensa na humanidade.

Avancemos uns belos anos. Começou, como a História do século XXII nos há-de elucidar, com o encontro fatídico de um homem puro com uma piada no twitter. Riu-se e cometeu a imprudência de seguir o humorista para, veja-se a loucura, pôr os olhos em mais piadas. O homem puro como um anjo foi adquirindo maldade em virtude das piadas — facto confirmado por aquilo que, daqui a uns anos, se chamará “Ciência”. Achou graça a uma piada na qual a velha era espancada; começou a espancar velhos depois das cinco, que era quando saía do trabalho; riu-se de uma piada de pedofilia, tornou-se pedófilo, ele que nunca se havia aproximado de uma criança para encetar uma conversa; gargalhou com uma piada de violação, tornou-se, como esperado, violador. Semanas mais tarde escutou uma piada sobre ditadores, tornou-se ditador (esses eram os anos de ouro da ditadura, qualquer um podia mandar vir um starter pack ditador da Amazon). Por azar, num dia que até lhe estava a correr bem, escutou uma piada de suicídio e não teve outra escolha senão matar-se. Doravante a comédia como hoje a conhecemos foi proibida. Surgem rumores da existência de um punhado de locais nos subterrâneos — nos esgotos, melhor dizendo — onde se reúnem os últimos apreciadores de comédia e um cacho de humoristas que logrou escapar à purga. Na superfície, persistem os Clubes de Comédia nos quais são permitidas — apenas — piadas sobre marcas de bonés.

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Roberto Gamito

26.10.21

Túnel de Vento podcast

Estava a bacorejar o episódio 509 - Ensaio sobre a Cegueira, que é como quem diz gravar, quando me lembrei que não havia feito menção ao episódio 500.

Tentar definir este podcast é como tentar engaiolar o vento. O mais que consigo é pedir de empréstimo uma expressão de Horácio, poeta latino. Exército de febres.
Com efeito, o túnel de vento é a tentativa vã de trazer à tona esse exército de febres.
E todavia o arpão continua a fazer tangentes ao grande cetáceo albino. Feliz ou infelizmente, nada parece adentrar no lombo da verdade.

A frase de Diderot, esse filósofo-humorista, tranquiliza-me: "Devem exigir de mim que procure a verdade, mas não que a encontre."

Eis-nos chegados aos apeadeiros do episódio 500:
.Outubro já não é o que era.
.Fiscal da sopa de peixe.
.Escassez e a ganância.
.O leitor é uma figura mitológica.
.Demasiada empatia nas sinopses.
.Possuído pelo espírito da estupidez.
.O valor nutricional do corpo de Cristo.
.A arte do insulto.
.A arte não é um guia turístico.
.Dave Chappelle e privilégio branco.
.Elogio da cicatriz.
.Activista picuinhas.
.A sardinha contra o atum.
.Leonardo da Vinci, o taberneiro frustrado.

Mais 91 episódios e volto a dar notícias.

Podem ouvir o episódio aqui ou em qualquer outra plataforma de podcasts:

 


Roberto Gamito

05.07.21

Citando Camus, a última coisa que um artista deve sentir perante a sua arte é arrependimento.  

Presentemente, tendo ou não culpa, o artista, principalmente o mediático, sente-se na necessidade de ser perdoado ao mínimo sinal de que o céu vai desabar, profetiza em cada gota uma tempestade, em cada brisa um vendaval. Antes de cometer o crime, confesso já que sou culpado. A confissão e o perdão são duas coisas muito sérias, alcançadas amiúde a ferros, após a via sinuosa das agruras, no decorrer da qual nos confrontamos com toda a espécie de venenos e demónios. A voz da confissão, soterrada debaixo de inúmeras máscaras, é alcançável só a alguém de joelhos, alguém vergado e sem ego, só aí o Homem está em condições de se confessar. Daí que desconfie de todos os artistas que se confessam à queima-roupa, num estalar de dedos. Como o mundo obedece cada vez mais às leis do espectáculo, a confissão e o perdão seguem uma lógica performática. Aqui reside uma rugosidade que, se entendida com calma, desmonta a fanfarra vigente. A confissão e o perdão são de cariz solitário, reservado. Seja no confessionário com o padre, seja na marquesa com o psicanalista, quem disponibiliza a alma para ser dissecada precisa de criar uma espécie de ligação de confiança com quem o ouve. Tal leva tempo e, acrescente-se, é impossível de estabelecer quando, do outro lado, há um monstro de mil e um olhos pronto a julgar-nos e a apedrejar-nos ao mínimo mas. Logo, o ciclo culpa, confissão, perdão é um embuste. No fundo, quando alguém é apedrejado nas redes sociais não é senão a manifestação actualizada da nossa barbárie. O Homem adora e continuará a adorar ver o outro sofrer e inventará, a cada par de anos, uma nova de forma de o executar. O lado perverso disto tudo é que à superfície são anjos que pregam a empatia quando, no fundo, onde a verdade se acoita rugiente, são demónios ávidos de assistir ao desabamento do outro. 

Se o artista foi conduzido pela fome, não precisa de se arrepender. Fez o que fez porque não havia outra forma de o fazer. Essa fome guiá-lo-á no labirinto das suas obras e cabe aos outros, os vindouros, observar, mais ou menos atentos, porém, aconteça o que acontecer, nunca poderão fazer as vezes da estrela guia. Só o artista sabe o norte que procura. 

Esta loucura ascética de ir extirpando vocábulos do discurso por, alegadamente, possuírem cariz ofensivo, quando, paralelamente, o mundo está progressivamente mais sensível, conduzir-nos-á a um estádio pueril, onde os Homens só poderão comunicar através de onomatopeias. 

Deus está morto e de todo o lado surgem substitutos com o fito de ocupar o seu lugar. Não se iludam com a inofensiva polícia da linguagem, estamos diante daquilo que faz uma religião ser uma religião.   

Em torno dos seus dedos espetados com fervor inquisitório gravitam as noções de inocência e culpabilidade. A evangelização forçada ou a morte. Ao contrário de outras mais pacientes, a evangelização actual é inimiga da burocracia, num instante se decide a conversão ou a morte por ora virtual. Como que paira um perfume no ar, a noção arcaica de que todo o Homem é um criminoso que não se reconhece como tal, contrariando, sem medo de parecem patetas, um dos pilares da justiça. Círculos de legitimação que se auto-alimentam com festivais de elogios, rituais de purificação caducos que os legitimam a apedrejar os incautos, narcisos embriagados pela saraivada de palmadinhas nas costas. Em suma, proclamam culpado tudo aquilo que não aprovam. Só há duas facções: ou és favorável ou és hostil ao regime. Ou és bom ou és mau. Não há gradações. Escolhido o lado, não poderás voltar atrás. No século XXI a redenção foi abolida. As pessoas jamais poderão mudar.    

O artista está em vias de extinção. A morte da arte foi profetizada em todos os séculos, muitos equívocos, algumas ressurreições, mas parece-me que é desta. Como pode sobreviver neste universo de censura mascarada de liberdade um animal que refaz o mundo segundo o seu ponto de vista? Deveras complicado. Ou suicida-se ou transforma-se numa espécie de maldito, um animal clandestino a combater contra o mundo. Um combate votado ao fracasso, um pouco como a vida.

E aqui surge a figura do inocente. Se todos são culpados quem são os inocentes? Os inocentes são fabricados nos círculos de legitimação, nessa nova ordem eclesiástica onde, impacientes de nostalgia e impotentes perante o mundo, decidem sem o enguiço da razão lançar tudo à fogueira, bruxas, aspirantes a bruxas, livros, diálogo, enfim, retratos onde não saiam favorecidos.   

Os inocentes são figuras adoradas não pela sua pretensa inocência, mas porque são personagens planas. O inocente é o Homem definido pelo seu gesto. Sem mais delongas e interpretações labirínticas. O medo do outro fez com que esta nova religião forjasse o inocente. O inocente ocupou o lugar reservado a Deus. O medo do outro é combatido ficcionando um novo Eu. 

Citando uma vez mais Camus, o diálogo, relação entre duas pessoas, foi substituído pela propaganda ou pela polémica, que são duas formas de monólogo. Parece que o tempo não passou por nós, continuamos os mesmo bárbaros de sempre. Tanto fica ainda por dizer…

 

o artista e a religião do politicamente correcto, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

25.06.21

Estou meio tonto: a cabeça a andar à roda qual compasso incendeia a folha branca.

A depressão é como um petroleiro naufragado. A maioria das tentativas de conter o derramamento revelam-se infrutíferas. Sou uma mancha de Rorschach se visto cara a cara, a noite, se visto do céu.

Todos calados, não liquidem o silêncio, vem aí o poeta. Não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar mais nenhuma oportunidade de o ouvir simular o voo com a língua.

Ao contrário do rio, a vida raramente corre bem. Não negligencies os sentidos mais obnóxios da jornada. Não descartar a hipótese de alcançar o Céu traçando uma diagonal desinteressada.

Ao lado dos mortos, na página ao lado, o nome dos ressuscitados. Uma página a que regressamos hora a hora, como o animal ao bebedouro. A cenoura subiu ao palco, desdobrando-se numa chuva meteórica de ideias, mas ninguém a aplaudiu. No dia seguinte, chegou a crítica avassaladora: não é carne, nem é peixe.

A pessoa com quem jurei partilhar a vida, comenta a mulher, está a transformar-se num pisa-papéis rabugento — passa os dias a lamuriar-se sentado numa pilha de facturas.

Salvar os incansáveis, os que perseguem dia e noite uma obra.
Eis os imprescindíveis. Condenar à pira do esquecimento os papagaios. É vital alimentarmo-nos das sobras, porém sem alarde. Resistir à tentação de entoar o refrão da tragédia, se a intenção for massacrar o silêncio.

O amputado diz estar confiante na desforra. Desta vez, a lâmina não tem hipótese.

Vi nos círculos de Dante um bosque onde, em tempos, fui colher mãos. Aos saltos, segui, como uma criança desconhecedora da tragédia, com a cesta pejada de mãos canoras. No seio dessas mãos, a mão-mor — a do Diabo. A mão ousada e castigada.

Não há mal nenhum em supor a existência de um gesto idêntico ao que nos escorraçou do Paraíso. Que gesto ousado nos pode expulsar deste inferno?
O meu sonho é este: encetar o poema com a mão de Lúcifer, aquele que desafiou Deus, aceitar a queda, ir por aí abaixo aos tombos pelos socalcos da existência e eis que, de supetão, arrancando Deus do transe da omnisciência, colher do nada uma outra maçã. Principiar Diabo e acabar Eva. Tem de ser isto ou nada: não me sacio com diluições desta ideia.

É preciso ter ideias maduras, grita o louco mascarado de árvore.
O pintor, pouco confiante, lega à parede a tarefa de amadurecer os quadros.

Levar uma ideia ao limite, sair dela como uma cobra sai da sua antiga pele. Ainda não foi esta a ideia que me salvou, porém estou maior.

Faz hoje 45 anos que regressei do nada, comunica o louco enfarpelado de árvore. Há quem lhe chame aniversário, continua.
Isto não é biográfico, é uma ficção.

Sei que queres ser alguém, ó leitor, mas primeiro deves afeiçoar-te ao Ninguém. Ser Ninguém, como nos ensinou Ulisses, pode ser a nossa safa. Hoje durmo no anonimato, bramou o Diabo, está muito calor, não consigo habitar o meu nome.

Nesse mesmo dia, do ângulo morto de um poema de amor, apareceram novos Deuses. Agradecidos que ficámos pelas ideias frescas, comentaram, até nos esquecemos da nossa sede de sangue.

E eis que os antigos surgem com outros nomes. Entretanto, mais cauteloso, arquitecto um passaporte para entrar na vida dos outros.

Alguém fala sobre superar Dante sem nunca ter escrito uma única linha. O louco feito árvore postula: és louco.

Quadros a amadurecer nas paredes

 


Roberto Gamito

24.06.21

A domesticação torna-nos previsíveis. No entanto, o animal manso é tão-somente uma ficção. Atingido o pino da cólera, o selvagem romperá o casulo da etiqueta e ensinar-nos-á o eclipse da pose.

O passado caiu-me aos pés na rua apinhada. Os peões evaporaram-se, dando lugar à encenação teatral da memória. Há personagens desfigurados, há personagens que não deviam lá estar, personagens secundárias que ascenderam a principais e vice-versa. A memória há-de saber conduzir-nos até ao último acto. Então era este o fito do Homem desde o início: semear recordações para mais tarde serem colhidas.

Ambicionar a leveza ou o seu contrário? Não tenciono ser um mero joguete da tempestade. A fama percorre a estrada do embuste do zero ao infinito, todavia é incapaz de encontrar o que procura.

Nas redes sociais, ficamos com a sensação de que há ninguém. Melhor dizendo, não há ninguém fora do eu. Um desfile de eus insuflados pela patranha.

Presentemente, aproximamo-nos do outro com cautela redobrada. As relações são guionadas, não vá a conversa resvalar no imprevisível. É preciso expurgar o animal do discurso. O filósofo ri-se quando o Homem tenta domar a paixão. O fogo é aquilo que não controlamos.

Depois disto acabar — diz um profeta no coração da catástrofe —, as ruas apinhar-se-ão de loucos ou salvadores — dou-vos a escolher o epíteto —, inventores de mundos paralelos.

O viajante do tempo comunicou-me que a verdade fora banida do mundo. Temia-se que o confronto com ela pudesse ferir o Homem.
Provavelmente outra mentira.

A única coisa que nos fez continuar foi o facto de acreditarmos que há por aí uns lábios que nos sirvam, qual sapato na Cinderela.

Ateu em queda. Reza a lenda que, a certa altura, houve uma conversão. Um precipício e um empurrão, eis a fórmula: não necessitamos de mais nada para transformar um incréu num crente.

Se somarmos os crimes e as virtudes, obtemos sempre o mesmo Homem.

Segundo Orwell, o importante não é mantermo-nos vivos, é mantermo-nos humanos. Percebo a pertinência da frase, comenta o mundo cada vez mais desumano. Na orla do vulcão, a dança intensifica-se, há que escolher bem onde pôr os pés. Um passo em falso e é o fim. Acrescente-se esta informação preciosa do vulcanólogo: atenção ao que vem da terra, todavia nunca descurem o que vem do céu — pode ser a vossa perdição.

Dá-me, livro, um pitéu para o cérebro. Algo aveludado com que entreter a língua.
O poeta — desculpem o devaneio — é um camarão recalcitrante numa cataplana de lérias. Quero muito ressuscitar, cogitou o depressivo, mas até para isso é preciso coragem.

O boom de Jesus postiços é a resposta ao boom de Lázaros. O ideal seria levantarmo-nos da morte pelo nosso próprio pé.

Mesmo que grite aos ouvidos de Deus, o futuro não começa mais cedo. Só podes gritar segundo os trends. Só te podes emocionar segundo os trends. Só podes ser imprevisível segundos os trends.
Esta hipocrisia faz quantos aos cem?, pergunta um aspirante a influencer ao vendedor de uma vida nova.

O século XXI como mão que desliga a máquina ao pensamento.

ao contrário de cummings, a minha especialidade não é viver — em minúsculas, para piscar o olho aos exegetas.

É preciso soterrar os muros em poemas. Falta tinta? Tragam os polvos e espremam-nos como limões. Não é tempo para atirar a toalha ao chão, ainda não tentamos tudo o que está ao alcance da mão.

É preciso encomendar novos deuses ao futuro. É uma questão de estatura do Homem, não de salvação.

Não é momento para deixar de regar a rosa. Nesta altura, uma flor murcha pode ser suficiente para o mundo ruir.

O passado caiu-me aos pés, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

23.06.21

Escrevo, à maneira póstuma, sem recear ninguém.
Só fora dos ecrãs é que a vida é vida. Uns fogem, outros desviam-se, consentindo a sedução por parte das sereias do escapismo, enquanto outros, com nomes à espera de serem insuflados pela posteridade, esperam, sentados numa rua deserta, o tsunami das dúvidas.

A maioria dos amputados sofrem daquilo a que medicina chama “membro fantasma”. Lançar o boato de que o Homem do século XXI, o qual foi degolado pela velocidade, padece de cérebro fantasma e ver de camarote o século incendiar-se. O poeta maldito como uma espécie de Nero clandestino.

Diante da montanha aplanada graças ao dinamite da mediocridade, o poeta comenta: “Cume, fazes-me uma falta incalculável. Espero ter estado à tua altura.” Não te subestimes”, diz o sopé em tom de gracejo.

Trocar as pausas para o tabaco por pausas para a comoção.

O silêncio é mais experiente que o mais genial dos Homens. A ideia que hoje formulas, a qual se pavoneia desmembrada na cabeça, saltando de sinapse em sinapse à espera de uma mutação que lhe dê forma, já foi escutada por ele. O silêncio já escutou tudo. O que é novo para o Homem é antigo para o silêncio.

O epitáfio do suicida é a sua própria queda. Naufraga à vontade, o farol foi desactivado. Há frases que são consequência da queda, outras da redenção. Porém a maioria são tentativas vãs de cartografar o nevoeiro. Eis-me mágico doidivanas a retirar da cartola informe gritos, mitos, hidras e heróis.

Entrem e saiam calados da casa do Senhor. Não proponham personagens ao criador, não tentem interferir na história.

Se soubesse que a queda era tão boa nunca teria aprendido a voar, cogita Lúcifer. Doravante o Homem já não toma parte do diálogo. Somos cinzas adiadas nas mãos do fogo.

Não. Uma síntese célere de despojamento. Mais tarde ou mais cedo aquele que for capaz de o pronunciar será o mais rebelde dos Homens. O não enquanto pedra na engrenagem na máquina do progresso. Notícia num século que não lembra ao Diabo: Homem apanha prisão perpétua por ter dito não.

Suspender a visão e lucidez, abdicar da jornada e do cerco, liquidar o texto, as margens e as notas de rodapé dos vindouros simulando a dança da destruição de Shiva. Rir diante do incêndio da memória.

Não basta sublinhares o óbvio para te evidenciares, digo. O século XXI ri-se. Nem só de ecos se fazem as décadas.
A crítica ao eco é quase outro eco. A trecho final da trajectória da humanidade enquanto luta de papagaios.

Não fites o quadro a menos que te fira os olhos. Regressar de um quadro que nos esmaga é como enfrentar um sol e não cegar.
Que arte terá visto Homero? Que quadro, escultura ou poema o terá esmagado a ponto de o cegar? E se as suas duas epopeias não senão um relato desse encontro?

Não reponho a água na jarra, prefiro apressar o definhamento da flor. Identifico-me com o seu murchar. A água, no caso da flor retirada do seu meio, é um paliativo. A flor merece sofrer.

Numa selva de fauna luxuriante, a abarrotar de estímulos, o faro fica preguiçoso. É preciso aprender a caçar no deserto. Aí é preciso inventar as presas para nos mantermos vivos.

Deixem-me ser o mais claro que se pode ser nestas condições: as minhas estratégias de capturar aquele que gostaria de ser fracassaram. Daí em diante as incompatibilidades aumentaram, virei costas ao mundo e fechei-me dentro do meu eremitério privado. Encasulei-me no interior de um pêssego quilométrico. Sou o caroço duro de um mundo que há-de singrar após o meu último suspiro.

Só dar atenção àquilo que cega. Mas não basta olhares para o sol, é necessário vasculhar o mundo de uma ponta à outra à cata de estrelas insuspeitas e terrenas.

É impossível um deus morrer se as carpideiras endeusam essa morte.

Uma província de espectros, sem ninguém para tocar. Andar com as mãos atrás das costas, quiçá atadas, como os velhos. Eis a pandemia. O mundo assombrado.

“Acabe-se com as citações”, disseram os estudantes radicais de Frankfurt. Desculpem, puseram-se a jeito, não escrevo para agradar Ninguém.
Mas já cá que estamos, nas frutuosas paisagens da ecolalia, citemos Canetti: “Ele refugiou-se em Deus. Aí é onde mais gosta de sentir medo”. Isso foi antes d’Ele morrer ou depois? Suponhamos o seguinte cenário, Deus, mudado em cachalote branco, ocupado por gerações e gerações de homens que procuram o santuário onde o seu grito possa ser ouvido. Homem, o qual foi feito à imagem de Deus, unido ao criador (em virtude da morte minúsculo) pela podridão.

O artista confessa ao psicólogo a sua capacidade de exteriorizar o seu mundo interior, porém receia que não haja espaço para tantos planetas. Resta-lhe o voto de silêncio.

Deus está embriagado com a miséria. Fiquem em casa, é mais sensato. Se Ele vos encontra, mata-vos com a conversa mais maçadora de sempre.

Século XXX. À excepção do Homem e de um punhado de animais úteis para o estômago do ser desumano, tudo se extinguiu. Foram anos de muito tumulto para os biólogos. Hoje é comum vê-los camuflados nos arbustos da cidade a documentar a vida de um ser humano anónimo. Calem-se, sussurra o biólogo, está ali um animal raro, o poeta. Mergulhado na escrita, nada nele está noutro sítio. A indústria da compressão de arquivos inspirar-se-á na poesia. A ciência de ser tudo em pouco espaço acabará por florescer, eis o prognóstico do biólogo palavroso.

Procuramos na arte uma espécie de judo metafísico. Quando a vida vem abrutalhada e cheia de pressas, há um meio de a atirar ao chão. Virar do avesso quem nos quer tombar. O artista franzino serve-se da força da vida para a atirar ao chão. A vida com os costados no cimento e o franzino a celebrar a vitória que alguns julgaram inverosímil. Não podemos deixar de sorrir quando vemos o gigante estatelado no chão, o gigante vencido. Sentimo-nos uma espécie de gato das botas. Tudo muito bonito, mas será possível aplicar o judo à morte, a qual vem lá de longe a anunciar-se com uma fúria de mongol? Será a morte o limite do judo?
Peço desculpa pelo incómodo, chamem-me sedentário, mas prefiro adiar esse último confronto. Nunca se sabe quando é que uma nova técnica me vem parar à mão.

 

Judo aplicado à morte, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

26.05.21

Olha: conseguimos! Alcançámos a primeira frase, vencemos a folha em branco. Elevámos os deuses aos píncaros e afinal é tão fácil ser criador. Fingir, fingir cada vez melhor. Pós-modernismo, pós-pessoas, pós-isto-e-aquilo. Fui tão alegre por esses dias como vocês foram tristes. Ou vice-versa, dado que os critérios destinados a avaliar seja o que for sucumbiram há muito.

Reparo num urinol. Não sei se posso mijar nele. Já mijei muitas vezes nas calças devido a essa indecisão. Cabrão do Duchamp!, digo eu a rir.

Numa noite de cavar olheiras, naquelas horas onde orbitamos, furibundos com ânsias de nos despenhamos, à volta do nosso nome plantado na folha, a minha morte abandonou-me, deixando-me a sós com a vida. Os vindouros saberão usá-la, à morte, com moderação, quase mansa e sem dentes.

Estarei vivo ou morto? Mas qual é a instância habilitada para decidir ou decretar semelhantes juízos? O corpo humano é uma obra de arte, que é como quem diz, irmão do urinol.

Caindo onde os gigantes passeavam, como que ensaiando a vida póstuma, despedaçado contra as montanhas para gáudio das hienas, as quais não me consentiram a escalada, todavia ainda zombando da queda do Diabo, a língua sai tumefacta com fúria de quem percebeu finalmente as regras do jogo, numa relação saudável com a lâmina.  A relação com o mundo, a qual tomou o lugar da utopia, faliu.
Mas quão lestas são as ideias de suicídio quando comparadas com as outras? Sem arabescos nem notas de rodapé, intenções perfeitissimamente editadas.

Ergo-me teoricamente, a trajectória da verticalidade conquistada é descrita no quadro de ardósia. Matematicamente feliz. Isto é tão fraudulento que é de incendiar as escolas e as vanguardas.

O mundo esboroa-se aos meus pés enquanto testava a minha força na folha, reificava aves delirantemente negras e paisagens como casas de espelhos. Diríamos estar perante uma perfeita bifurcação. Ou fingíamos um sentido, ou seguíamos na peugada de John Cage em 4’3’’.

Nenhum tema, nenhuma imagem, nenhum gosto, nenhuma beleza, nenhuma mensagem, nenhum talento, nenhuma técnica, nenhuma ideia, nenhuma intenção, nenhuma arte, nenhum sentimento

nenhum batimento cardíaco, nenhuma vida, nenhuma morte, nenhum deus, nenhum gesto, nenhum verdugo, nenhum anjo, nenhum precipício, nenhuma miragem, nenhum oásis, nenhum deserto, nenhuma ampulheta, nenhuma guilhotina, nenhuma fonte salvífica,

nenhuma interpretação, nenhum par de pernas abertas, nenhuma linha musical, nenhuns olhos perscrutadores, nenhuma divindade insondável, nenhum fogo, nenhum mistério, nenhuma caverna, nenhuma projecção, nenhuma ideia parva de eternidade, nenhum urinol, nenhum monte de merda a fazer-se passar por arte, nenhum amo-te, nenhum baile de máscaras, nenhum rosto precário, nenhum jogo de perder as estribeiras, nenhum poeta medroso, nenhum poeta merdoso, nenhum eco, nenhum herdeiro, nenhum Actéon, nenhuma metamorfose, nenhum cerco, nenhuma jornada.

O mais puro nada.

 

O mais puro nada, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

16.04.21

Graças ao seu talento exímio para tagarelar, o insólito bípede trauteia filosofantemente as suas meias verdades, uivos, gritos, quer dizer, o animal ululante a solfejar a sua selvajaria esfarrapa o que a discrição mantinha coeso.

Por que motivo eu, num lugar de alívio, que é como quem diz, miradouro privilegiado para esvaziar a bexiga enquanto se fita o mundo com olhos de quem já viu tudo, conquanto não haja ninguém a escangalhar a contemplação com questões capazes de traumatizar o pénis, a saber: “O que é o que senhor está a fazer aqui a umas horas destas?”, não faça nada senão pôr a minha vida no oblívio?

Deveria eu, mais calado que espertalhão, monetizar cada lágrima saída deste lombo reboludo? Este senhor, interrompeu alguém que recusou sair do anonimato, um dia será reconhecido como a mais espirituosa criatura por ser, sem margem para dúvidas, quem mais facilmente providencia aos de miolo escavacado uma carrada de tiradas de génio. Passamos um tempinho a meditar nestas palavras e de seguida, às mijinhas, regressamos à vida incólumes.

O sujeito A tem-se em alta conta devido à dimensão do seu pau, o sujeito B tem-se em alta conta em virtude da cilindrada do seu carro, o sujeito C tem-se em alta conta graças à mulher que engodou, o sujeito N tem-se em alta conta devido ao trono postiço que alcançou. Os muitos nomes do nada.

Um senhor artista em Paris ou em Buenos Aires tem uma tese segundo a qual uma conversa inócua retirada do contexto é arte. Outro, diz que foder em sítios inesperados é arte. Mais recentemente, há quem diga: a primeira mulher a entrar em trabalho de parto durante um funeral será considerada arte. Enfim, filhos de Duchamp.

 

Filhos de Duchamp, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

09.02.21

Na Índia, a matança de um animal era o nascer da poesia. Aproveitando a ideia, a comédia é uma faquinha de matar patos.
Duas frases que dão a conhecer o homem.

O universo, esse oceano de coisa nenhuma, repete-se perpetuamente e põe tudo na sua gaveta, comunica uma mulher de cócoras, ficticiamente feliz.

Tantas populações de estúpidos idênticas — ou com diferenças residuais — perecem da cabeça aos pés — sem movimento nem pensamento — sem suspeitarem da existência das outras.
O aumento exponencial de palhaços, o mesmo palco exíguo.

O capitalismo, ó bicho que serpenteias entre a felicidade postiça e a esquizofrenia, é incuravelmente bipolar, com temporadas de excessos faraónicos e de colapsos depressivos.

O fetiche do crescimento. Capitalismo, o Grande, melhor, o Muito Grande, melhor ainda: Capitalismo, o Maior.

O conflito psicológico que grassa no interior dos indivíduos: Odisseia, Ilíada, Metamorfoses. Bichos, cerco e jornada. Dentro do Homem habita um catálogo de Homens.

Capitalismo, o mimo impressionantemente omnívoro. Come ao mesmo tempo que reproduz as inquietações, os medos e os distúrbios da população. Agressor e juiz, veneno e antídoto, carrasco e santo. Que espectáculo insuperável!

Os primeiros escritos budistas:
Não exercer violência sobre um só ser vivo, vagueia só como um rinoceronte.
Todos exigem a tua atenção, vagueia só como um rinoceronte.
O fogo não regressa ao que ardeu, vagueia só como um rinoceronte.

A turba inarmónica de piranhas prolíficas.

Respirar sem delírios, basta uma inspiração para aniquilar o grilhão. Mas isso em nada apraz as pessoas.

Oxalá eu me fendesse em dois para ter um rival à altura.
A baboseira da ordem, o ego a fazer as vezes do ventríloquo. Caramba, uma multidão de cus desfeitos.

Queria emprestar a minha voz estafada ao desânimo do século, mas parece que já estão bem servidos.

Matar o Animal, Roberto Gamito

 

 

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