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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

05.07.21

Citando Camus, a última coisa que um artista deve sentir perante a sua arte é arrependimento.  

Presentemente, tendo ou não culpa, o artista, principalmente o mediático, sente-se na necessidade de ser perdoado ao mínimo sinal de que o céu vai desabar, profetiza em cada gota uma tempestade, em cada brisa um vendaval. Antes de cometer o crime, confesso já que sou culpado. A confissão e o perdão são duas coisas muito sérias, alcançadas amiúde a ferros, após a via sinuosa das agruras, no decorrer da qual nos confrontamos com toda a espécie de venenos e demónios. A voz da confissão, soterrada debaixo de inúmeras máscaras, é alcançável só a alguém de joelhos, alguém vergado e sem ego, só aí o Homem está em condições de se confessar. Daí que desconfie de todos os artistas que se confessam à queima-roupa, num estalar de dedos. Como o mundo obedece cada vez mais às leis do espectáculo, a confissão e o perdão seguem uma lógica performática. Aqui reside uma rugosidade que, se entendida com calma, desmonta a fanfarra vigente. A confissão e o perdão são de cariz solitário, reservado. Seja no confessionário com o padre, seja na marquesa com o psicanalista, quem disponibiliza a alma para ser dissecada precisa de criar uma espécie de ligação de confiança com quem o ouve. Tal leva tempo e, acrescente-se, é impossível de estabelecer quando, do outro lado, há um monstro de mil e um olhos pronto a julgar-nos e a apedrejar-nos ao mínimo mas. Logo, o ciclo culpa, confissão, perdão é um embuste. No fundo, quando alguém é apedrejado nas redes sociais não é senão a manifestação actualizada da nossa barbárie. O Homem adora e continuará a adorar ver o outro sofrer e inventará, a cada par de anos, uma nova de forma de o executar. O lado perverso disto tudo é que à superfície são anjos que pregam a empatia quando, no fundo, onde a verdade se acoita rugiente, são demónios ávidos de assistir ao desabamento do outro. 

Se o artista foi conduzido pela fome, não precisa de se arrepender. Fez o que fez porque não havia outra forma de o fazer. Essa fome guiá-lo-á no labirinto das suas obras e cabe aos outros, os vindouros, observar, mais ou menos atentos, porém, aconteça o que acontecer, nunca poderão fazer as vezes da estrela guia. Só o artista sabe o norte que procura. 

Esta loucura ascética de ir extirpando vocábulos do discurso por, alegadamente, possuírem cariz ofensivo, quando, paralelamente, o mundo está progressivamente mais sensível, conduzir-nos-á a um estádio pueril, onde os Homens só poderão comunicar através de onomatopeias. 

Deus está morto e de todo o lado surgem substitutos com o fito de ocupar o seu lugar. Não se iludam com a inofensiva polícia da linguagem, estamos diante daquilo que faz uma religião ser uma religião.   

Em torno dos seus dedos espetados com fervor inquisitório gravitam as noções de inocência e culpabilidade. A evangelização forçada ou a morte. Ao contrário de outras mais pacientes, a evangelização actual é inimiga da burocracia, num instante se decide a conversão ou a morte por ora virtual. Como que paira um perfume no ar, a noção arcaica de que todo o Homem é um criminoso que não se reconhece como tal, contrariando, sem medo de parecem patetas, um dos pilares da justiça. Círculos de legitimação que se auto-alimentam com festivais de elogios, rituais de purificação caducos que os legitimam a apedrejar os incautos, narcisos embriagados pela saraivada de palmadinhas nas costas. Em suma, proclamam culpado tudo aquilo que não aprovam. Só há duas facções: ou és favorável ou és hostil ao regime. Ou és bom ou és mau. Não há gradações. Escolhido o lado, não poderás voltar atrás. No século XXI a redenção foi abolida. As pessoas jamais poderão mudar.    

O artista está em vias de extinção. A morte da arte foi profetizada em todos os séculos, muitos equívocos, algumas ressurreições, mas parece-me que é desta. Como pode sobreviver neste universo de censura mascarada de liberdade um animal que refaz o mundo segundo o seu ponto de vista? Deveras complicado. Ou suicida-se ou transforma-se numa espécie de maldito, um animal clandestino a combater contra o mundo. Um combate votado ao fracasso, um pouco como a vida.

E aqui surge a figura do inocente. Se todos são culpados quem são os inocentes? Os inocentes são fabricados nos círculos de legitimação, nessa nova ordem eclesiástica onde, impacientes de nostalgia e impotentes perante o mundo, decidem sem o enguiço da razão lançar tudo à fogueira, bruxas, aspirantes a bruxas, livros, diálogo, enfim, retratos onde não saiam favorecidos.   

Os inocentes são figuras adoradas não pela sua pretensa inocência, mas porque são personagens planas. O inocente é o Homem definido pelo seu gesto. Sem mais delongas e interpretações labirínticas. O medo do outro fez com que esta nova religião forjasse o inocente. O inocente ocupou o lugar reservado a Deus. O medo do outro é combatido ficcionando um novo Eu. 

Citando uma vez mais Camus, o diálogo, relação entre duas pessoas, foi substituído pela propaganda ou pela polémica, que são duas formas de monólogo. Parece que o tempo não passou por nós, continuamos os mesmo bárbaros de sempre. Tanto fica ainda por dizer…

 

o artista e a religião do politicamente correcto, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

27.11.20

O artista pleno é aquele que encontra o equilíbrio perfeito entre força e vulnerabilidade. A vulnerabilidade é uma oportunidade para ingressar no desconhecido, para que o outro te veja como ser falível e ridiculamente mortal. No limite, concretiza-se o mito de Actéon em que tu, antigo caçador, és transformado em veado e abocanhado pelos teus fiéis cães. A vulnerabilidade é um processo penoso de despojamento. A única forma de encetar uma ponte genuína com o outro. Do outro lado da ponte tanto pode vir o amor como a morte. Sem vulnerabilidade estás condenado a actuar num teatro monotonamente morno.

O Eu é a mais resistente das máscaras. Para citar Peter Handke, não faças com que tudo seja acerca de ti — fim de citação.
O ego afunila o mundo num punhado de ilusões. Não há qualquer mistificação. Só numa relação acesa com o outro é que o mundo se nos revela.

Desgraçadamente, contentamo-nos em permanecer aquém do outro, no terreno confortável do artifício.
Seja como for, avançando ou recuando, o outro permanecerá inacessível. É impossível alcançar o outro na sua totalidade. O que há é pontes — tangentes — de entendimento durante as quais pomos o sentir do outro em evidência. Com sorte, o nevoeiro tornar-se-á menos denso, mas nunca desaparecerá por completo. O outro é o centro do nevoeiro. Tal como sucede no escuro, podemos treinar os olhos para ver em condições de luz muito reduzidas. Todavia há limites. Com o outro é igual. Só podemos ver até determinado ponto.

A força é perseguir uma intuição. Uma ideia, uma paixão, alguém capaz de nos apresentar o mundo de um ângulo imprevisto. Uma força fundada pela vulnerabilidade.

 

O outro, vulnerabilidade - Roberto Gamito

 

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