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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

20.12.20

O empenho dos personagens em esquecer o futuro era manifesto.
O narrador, cujo nome não interessa deslindar, parecia engasgar-se ao tentar legendar superiormente o sucedido. Possivelmente, encontrou um ponto de contacto inesperado com as suas criações. Quem diria que após tantos anos a engendrar ficções ainda haveria um resquício autobiográfico naquilo que lhe escorria dos dedos.

Um escritório como tantos outros, atulhado de pessoas e sonhos quebrados. Um dia inteiro naquilo — a mesma lengalenga sem nome a que muitos chamam trabalho — e não há uma alminha caridosa que se atire da janela para animar o dia. Noutras alturas, a imagem de um Homem a olhar pela janela, provavelmente à cata de um perfume que o insuflasse de esperança, conduzir-nos-ia a um estado meditativo. Todavia os tempos mudaram, vivemos num mundo em que o interior e o exterior se equivalem; as escapatórias, as fugas para um sítio melhor esfumaram-se. Resta-nos o suicídio, como que regressados pelo trilho do silêncio à única questão relevante da condição humana, como escreveu Albert Camus.

Nem sequer há vontade de falar. Se nos obrigam a repetir mais uma vez ‘preferia não o fazer’, atiramo-nos de pronto para os braços da morte. No tempo em que era fácil encontrar o amor essa ideia seria completamente estropiada por um mar de possibilidades. Ao olharmos pela janela, pensávamos: o amor, a felicidade andam por aí, urge continuar as buscas. Acalentávamos ingenuamente a ideia de um dia tudo ser diferente. Entretanto, passaram-se décadas e as antigas danças mil e uma vezes adiadas metamorfosearam-se em amargas recordações. Somos uma bailarina fundida à cadeira embalados pelo ruído atordoador num palco inclinado.

E se visse um estrangeiro intrometer-se na narrativa do abismo — alguém dotado de um olhar maravilhosamente inédito, com um coração apto a rasgar a monotonia. Quando novos, a brochura prometíamos, ao falar da vida, qualquer paisagem aparentada ao paraíso. De facto, fomos ludibriados.

Em certos recantos do escritório, um homem cujo nome se mesclou ao eco do edifício repete para ninguém as suas magias. Tenta, virado para a parede, exorcizar a vida demoníaca que gradualmente se lhe infiltrou na carne. Baba-se e gagueja, esbraceja e esperneia, porém nenhuma frase surte efeito. Apelidaram-no de xamã reformado. Fala com os espíritos, mas os espíritos não lhe passam cartão.

Em certas alturas festivas, a empresa propõe-nos uma foto de grupo. E dignidade, questiona alguém. Isso ficará para mais tarde, responde o faraó da pirâmide perecível. Tiramos a foto para a posteridade. Sozinhos, que é como quem diz, rodeados de fantasmas. Mais tarde, noutro século, a fotografia será levada para laboratório a fim de ser analisada ao microscópio. Façam o que fizerem, não encontrarão sequer vestígios de alegria.

A empresa está a passar por uma fase difícil, cantarola o patrão naquela voz de poeta rouco. Só conseguiremos manter os postos de trabalho daqueles que estiverem dispostos a vender a alma ao Diabo. Não peço para mim outra coisa, responde o cadáver vertical.

Cadáver Vertical

 

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