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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

11.01.22

Senhores e senhoras, meninos e meninas, palhaços licenciados e palhaços autodidactas, teólogos da velha e da nova escola, evangelistas e microevangelistas, vândalos e fazedores, leitores e míopes, pedreiros do cânone e construtores apócrifos, caguinchas notáveis e caguinchas em princípio de carreira, parvos eternos e parvos provisórios, taberneiros de lábia treinada e taberneiros calados, leitores de poesia e leitores ávidos de gordas, dançarinos e atletas de atoleiro, hienas e cadáveres putrefactos, alquimistas e homens de mãos atadas, fodilhões e puritanos, demónios dos círculos infernais e anjos dos círculos correctos, caçadores e presas esventradas, novos e extintos, vigilantes de incubadoras e fiscais de desertos interiores, clientela amorfa e vendedores linguarudos, humoristas manetas e público surdo, Lázaros dorminhocos e Jesus armado em carapau de corrida, histéricos e cultores do entusiasmo nulo, devotos e despertos, negacionistas e colaboracionistas, autores de todas as coisas e papagaios uruguaios, oportunistas versáteis e peças de engrenagem, activistas de sofá e activistas de poltrona, burros em dias de festa e burros sem mais apodos, tragediógrafos amadores e tragediógrafos imortais, comediógrafos das pequenas coisas e comediógrafos das grandes, descendentes das sobras e herdeiros da abastança, felizardos e portugueses, incréus e crentes, fanáticos e carpideiras, intelectuais reformados e intelectuais de fazer de conta, poetas de casa de banho e poetas de manjericos, discípulos do norte e pupilos do desnorte, iluminados e apagados, escravos e homens eventualmente livres, vigiados e vigilantes, pais adoptivos e filhos por conceber, crucificados de pacotilha e Cristos de fim-de-semana, grávidas de ideias e prosadores enfadonhos, carteiristas infalíveis e criaturas que põem os pés pelas mãos, funâmbulos de fios de raciocínio e ecos emplumados, sonhadores e acocorados, infalivelmente imortais e tragicamente mortais, camaradas de gráficos de excel e sacerdotes do palpite, aprendizes em coisas de baixo ventre e vagas prostitutas calejadas, românticos e cínicos, ser humanos e youtubers, líderes isolados e turbas aos saltos, sujeitos despojados de eu e compinchas insuflados de eu, inquilinos da verdade e clandestinos, purificadores e conspurcadores, virtuosos presos por arames e criaturas devotadas ao pecado, terapeutas gagos e pacientes impacientes, criaturas horizontais e animais verticais, jornalistas pornográficos e cronistas contidos, zaragateiros e árbitros estagiários, cromos repetidos e cromos repetidos, apóstolos do afrouxamento e paladinos da intensidade, testemunhas e sinistrados, grandes achados e pequenas migalhas, contemporâneos da morte de Deus e saudosistas da luz cantante, artistas e ofendidos peço que me escutem: careço de tema para a crónica de hoje.

Império dos Chatos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

18.12.20

Não aconselho a ninguém que interaja, seja de que forma for, gestos, palavrinhas meigas ou sorrisos, com os autóctones da taberna.

É gente com demasiadas histórias, faminta por caçar mais um par de orelhas ingénuo. Ao entrarmos num sítio destes, a simpatia, os bons modos, aquilo que nos torna humanos, isto é, os ademanes da civilização, devem ser deixados lá fora. Sair-nos-emos bem melhor se nos comportarmos como animais selvagens.

Caso contrário, ao abrirmos a boca para intervir numa conversa, mesmo que sejam modestos monossílabos, estamos perdidos. O habitante da taberna interpretará o gesto de cordialidade como “este tipo está interessadíssimo a ouvir-me, bem, vou contar a mesma lengalenga durante 3 horas que é para ver se ele arrebita”.

Em que momento da História do Homem esta actividade azucrinante começou a ser uma tradição? Provavelmente encontraríamos as suas raízes com a descoberta do fogo. Mal o fogo foi domado e o Homem se reuniu à sua volta, os chatos começaram a prosperar exponencialmente. Hoje é o que se vê, estão espalhados por todo o mundo, a espécie bípede mais bem adaptada de todos os tempos. O autóctone da taberna é apenas um herdeiro muito afastado desse chato primevo. Devemos agir cautelosamente sob pena de perdemos a vontade de viver.

Vejo poucos antropólogos a discorrer sobre o grande malefício do fogo: as conversas entediantes. Há vários milénios, o fogo era o centro de tudo. Aquecíamo-nos, mas em contrapartida tínhamos de levar com as histórias do chato. O chato: “nem sabes o que me aconteceu. Há dias apanhei umas bagas”. Já ouvi essa história, retruca o inocente. Convém frisar que este tipo de interação persiste até hoje. Não é pelo facto de retrucarmos simpaticamente que o chato se está a repetir que o chato deixa de ser chato. Possivelmente foi também à volta do fogo, com a cabeça a mil a tentar arranjar estratagemas a fim de se escapulir ao chato, que o Homem pensou pela primeira no suicídio.

Mas deixemos de açoitar o chato, ele tem, em princípio, o direito à vida.

Quando ingressamos na taberna, sabemos que a multa sairá cara quando os empregados da mesma têm a mesma farda, pior ainda se imaculada.
Segundo estudos medianamente sérios levados a cabo por mim, quanto mais aprumados estão os empregados, mais a comida será uma porcaria. Se querem comer uma bifana em condições, o taberneiro precisa de estar com aspecto de quem interrompeu uma cena de pancadaria só para vos servir.

Fala-se muito de educação, ou da falta dela, mas quanto a mim prefiro ser insultado se o resultado for comer uma suculenta bifana e uma imperial bem tirada. De que me serve ser recebido com um bom dia e um sorriso se depois fico desiludido com o petisco? Ainda não comemos simpatia. Aliás, o tratamento insultuoso só demonstra que o taberneiro está tão confiante no seu petisco que se pode dar ao luxo de nos chamar filho da puta. E nós acatamos, sabemos que daí vai sair uma memorável experiência gastronómica.

 

Taberna, Roberto Gamito

 

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