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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

10.09.21

Com a presente crónica, texto de carácter eminentemente pirotécnico, de alegrar adultos e escorraçar crianças, pretende-se, não sem modéstia, antes de mais, contribuir de forma decisiva para o marasmo vigente. Esta vidinha de missinha do meia dia, este clima de bosquejos de ressurreições e atmosfera de democracia a carvão e, sentemo-nos de molde a ganhar fôlego, tê-los no sítio — numa prateleira, qual texugo empalhado.

Uns esperam por D. Sebastião, campeão olímpico de escondidas, tão bom que não compareceu na cerimónia de entrega de medalhas — assim se vê quem leva a sério o seu ofício; outros, uma bela foda. Cada um com as suas esperanças, como palraria Américo Fortuna, burlão, empreendedor e amigalhaço do Diabo, se ainda estivesse morto. Seja como for, há quem afiance que já viu a cabecinha do salvador a assomar-se, rasgando em dois, qual Moisés cabeçudo, o nevoeiro.

L. ingressou no mundo desencantado dos hipsters após uma semana a sonhar a preto e branco. Epifanias com hálito a monotonia — cabrões, não têm sorte nenhuma na vida.

No pináculo de uma cadela monumental, o padre, António Cruz de seu nome, pastor ébrio para os amigos, confidenciou aos autóctones da taberna que, em alturas de crise, o sangue de Cristo era vinho de pacote.

Não tenciono insuflar a verga de sangue literário, porém o poeta, melhor dizendo o macho cantante, após a foda desastrosa, bacorejou: “creio que sou possuidor de uma verga beckettiana”. Sigo regiamente o mandamento: “falhar, falhar de novo, falhar melhor”. A cona, que havia feito a universidade de letras ou coisa que o valha, sorriu e desculpou a ineficácia do homem nas artes circenses.

Finda a temporada de actriz pornográfica, virou o cu para a lua, a qual prontamente a encavou com a sorte, e encetou uma nova vida de escritora de velhacarias. Cito de memória as suas palavras: “escrevo sobre pichas grandes, um género maior”. Aglutina, ao mesmo tempo, desejo e ficção.

Certo dia amei uma mulher — vejam lá ao tempo que isso foi, eu que carambolo qual bola despojada de livre-arbítrio entre a poesia e as pernas escancaradas mais à mão — e disse-lhe, sacando de uma prosa ensaiada de véspera: “É para foder ou é para conduzir burocraticamente a conversa nas calminhas até às raias do tédio?”
Respondeu-me no idioma do enfado e a picha murchou como uma rosa reformada. Os chapadões e os insultos vieram depois. E a mais não aspiro, que sempre fui humilde.

Nesse tempo, a minha vida era fazer tempo até ao jantar, com breves pausas para coçar os tomates, a fim de despertar a coragem que, reza a lenda, se acoita em tão misteriosos feijões, mas não tão misteriosos que nos levem ao reino do gigante.

Sara, a qual se fazia difícil, consentia que eu fosse lá escarafunchar às sextas-feiras e aos domingos. E lá tinha eu de me esfalfar no trabalho, chupar pichas em todos os departamentos, desde colegas a chefes, passando por desconhecidos (não queria ser malvisto) com o fito de me trocarem as folgas. Não recomendo a inexperientes. A mim não me custou por aí além: só sou vertical fora do horário de trabalho, é aí que guardo dois ou três quartos de hora para mudar o mundo — e tanta é a diferença que faz.

É incrível como poetas e filósofos, gente que faz as vezes dos comprimidos que visam combater as insónias, nunca se tenham debruçado sobre o seguinte: as conversas outrora desérticas frutificam à volta de um par de mamas — que volta e meia não vale grande chavelho. O homem transcende-se ao rés de um par de mamas.

O mundo, a desgraça do costume. Os políticos estão ao corrente da situação e prometeram não mexer uma palha. Até ver estão a cumprir.

Anúncio de emprego. Procura-se poeta com mais de um olho, preferencialmente três, já que estamos fartos de ver o que os outros vêem. Precisamos de uma visão inédita. Não entrem em contacto connosco se não tiverem atingido pelo menos 3 vezes o nirvana nos últimos seis meses. Ordenado um nadinha acima do limiar da pobreza, dado que o dinheiro não importa aos iluminados.

Chegou-me aos ouvidos que há uma foto onde deus amamenta uma hiena. Não sei como me pronunciar sobre isto. Aliás, sugeriram-me o silêncio, como sempre acontece nas democracias adultas — essa universidade de mimos que põe no mercado de trabalho pedreiros versados na construção de paredes invisíveis.

No sarau de poesia, digo poemas de Herberto Helder, mas a pensar no jantar.

O homem é como a psoríase. Dá-se-lhes a mão e eles querem logo o braço.

Não gosto de me masturbar ao som das músicas da moda. É tudo muito plástico, assaz passageiro. Prefiro masturbar-me com música clássica e cultivar o meu pau.

E por fim, os meus colhões, disfarçados de carapaus de corrida, partiram à aventura pelos mares jamais vindimados de Homero em busca de terras onde a coragem possa ser posta em prática.

Cabrões sem sorte, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

24.08.21

Houve um período graúdo durante o qual se achou que o humor possuía o condão de retirar o gume às situações. O humorista faz parte da comitiva dos Homens que chegam depois, os retardatários. Um cronista peculiar da tragédia. Enquanto uns exaltam os mortos e outros os ocultam, o humorista diz: Espera lá! Não me digam que estes bandalhos tiveram o desplante de morrer. Logo hoje que me apetecia ser feliz.
 
E nesse “espera lá!” face à morte, o único acontecimento sem segundas versões, o comediante despoja o Homem do medo. Nesse momento a faca deixou de cortar. Tal é o mérito momentâneo da comédia. Convém não enveredar pela senda do delírio e postular parolices como o humor salva. O humor amortece um golpe, o gume da faca rapidamente retoma o seu lugar. O que não faltam aí são oportunidades de apanhar no lombo. Enquanto guarda-costas, a comédia deixa um bocado a desejar. Aplaca meia dúzia de golpes e de seguida põe-se a narrar a cena de pancadaria, argumentando que descobriu a sua verdadeira vocação.
 
Antes de nos tornamos fanáticos de certas ideias mais rebuscadas, é vital não esquecer a pergunta formulada por Rosenstock-Huessy: Não estará a linguagem ao serviço do momento?
Seja concisa ou rombuda, a linguagem é um fragmento, ficará sempre algo por dizer. Haverá sempre lugar para subentendidos entre quem manda e quem recebeu a ordem.
O humor é conciso; o homem actual é rombudo. São inconciliáveis. O medo de ficar algo por dizer obriga o Homem a narrar minuciosamente cada gesto, cada movimento do pensamento, a justificar cada respiração e a desculpar-se por cada palavra. Resultado: dizer demasiado adia a acção, oblitera a tensão.
 
Em todo o caso, a sua missão está votada ao fracasso. Por mais detalhada que seja a sua narração nunca será capaz de dizer tudo. Chegará o dia em que até o resumo será desaconselhado.
As palavras certas terão de aparecer, caso contrário haverá problemas. Palavras como patrocinadores. Quanto mais rombuda é a linguagem, mais diluímos o fogo. Se não queima, não é comédia.
Há um traço comum presente em quem levou a sátira ou o humor de forma incomparavelmente séria. A desistência após perceber que os predicados da comédia não passam de ficções. Kraus, à cabeça.
 
A comédia combateu bravamente durante milénios, chegou a hora de arrumar a trouxa e descansar.
 

últimos cartuchos da dinastia do bobo

 


Roberto Gamito

24.08.21

O modo como eu pensava distanciava-te de mim. Eu reflectia, tu ias para o twitter mandar graúdas postas de pescada.

Lembras-te de tudo o que levou à discórdia? Faço questão de to recordar: "o problema começa em terra idade". Segundo o teu parecer científico, estaria a atiçar canibais reformados. 

Não gostas de piça, pelo menos não mostraste apreço pela minha. Suportavas a chuva de inéditos de aspirantes a escritores que te chegava às mãos, porém o que te arreliou foi uma mera pila humilde posta em retrato. Apesar das flores, das palavras bonitas rapinadas aos poetas ou aos manjericos, conversávamos como predador e presa. Éramos dois estranhos com uma montanha de dias partilhados. 

Na vida, o que mais me ocupa, cogitava o escritor de pendor erótico, eram os problemas que não conseguia descortinar de pau em riste e que podem parecer disparatados: em que estilo escrever "enterrava-te educadamente o defunto". Confesso que o grande escriba de escrita fodilhona nunca hesita entre cona e pipi. Desafortunadamente, ainda não alcancei esse estado. 

Eu vivia dentro de um fato de ponto de interrogação: vivia em plena dúvida. O meu fado era acabar todas as frases em tom de questão.

Nada me parecia suficientemente polpudo, fluído, ágil, alquímico; nada era suficientemente luminoso nem carnudo. Era tudo a mesma merda, o mesmo prato de uma cantina desleixada. 

Não te menosprezes, homem. O tom da tua voz e os teus vocábulos de pacotilha humedecem-me a cona. Ignoro o que fazer com essa informação, ripostou o homem. Faz um poema. Ou, em faltando-te o jeito, contenta-te em estar calado.

O velhote pediu à mulher uns cobres para algo prosaico, a saber: uns contos para umas putas. No fim de contas, o velho ambicionava um episódio que lhe rasgasse, por uma vez que fosse, o marasmo em que a sua vida se havia tornado. E eis que a puta chega, de pernas destrancadas, como fada do lirismo caquético. Ela e ele revezavam-se num diálogo cansado. Seja como for, velho e puta não estavam na cama para arrecadar um Óscar. Estavam ali para desempoeirar o vetusto piçalho — e isso não é coisa de somenos.

Somos um compêndio de entradas, comentou a rameira, tal qual uma enciclopédia. Abra-me ao acaso e tente perceber-me.

Ausências, loucuras, acessos de ira. Estou farta desta vida, gritou a mulher de Deus. Atribuis tudo aos deveres da tua profissão. E eu? Quando é que vais ter tempo para mim? A merda do universo é mais importante para ti do que eu? 

Que eu não me chame Cabrão, e tu não te chames Puta, ainda hoje me parece inverosímil. De seguida, comeram-se como num filme. 

Vivemos como se a guilhotinha estivesse em vias de cair, impondo ao miolo sacrifícios até que rebenta. Já estou farto de pensar. Por vezes escapulíamo-nos pelas portas das traseiras da diversão e corríamos para empreender rituais báquicos no mato. 

Percebi que o homem se havia metamorfoseado: era feliz, ficou poeta; era comunicativo, tornou-se gárgula; era sábio, passou a frequentar o twitter. Já não recebia carinhos ao pôr-do-sol, logo quando o coração está mais receptivo a apanhar vitamina.

O velho entra sem bago nos aposentos da prostituta.
— O que estás aqui a fazer?
— Estou só a respirar. Gosto de olhar para mamas depois de jantar, ajuda-me a fazer a digestão.
— Se assim é, 20 paus, estas mamas não laboram de graça.

Elogiei-lhe os cabelos, os olhos e por fim as tetas.  

O velho e a rameira

 

 


Roberto Gamito

23.08.21

A felicidade não põe comida na mesa. A diversão não põe comida na mesa. Os passatempos não põem comida na mesa. Em breve nem o trabalho porá comida na mesa, disse a empregada de mesa.  

Escrever quando se está apaixonado devia ser considerado batota. Basta olhar para a amada e o resto escreve-se sozinho. Espero que criminalizem esses pulhas enamorados o quanto antes.

Guerras por todo o lado, miséria ao pontapé, pessoas no chão, deuses escaqueirados por marretinhas; o grito como língua oficial do século. O bêbedo pensa para si: "já tive ressacas piores". 

Vamos acabar, disse a mulher. Calma, é tudo muito pouco razoável, tudo muito definitivo. Não estás aberta a negociações?, ripostou o homem. Vamos dar uso à tua veia diplomática, querida. Não, soletrou impecavelmente a mulher.

As Primaveras são mais curtas onde pululam namorados. Fujam desses pardieiros se não quiserem morrer novos.

O velho, gasto como um instrumento musical abandonado, repete sempre a mesma deixa. Toques no tema que tocares, sai sempre a mesma nota. Uma nota das gordas para pagar os serviços à puta.

Sexo a rodos, banquetes opulentos e serviços públicos sem falhas, comentou o homem ao anjo caído. Por que motivo regressaste, questionou o anjo. Aquilo não era para mim, sou muito conservador, e além disso adoro reclamar quando estou nas filas.

Enfiei com ganas aquilo que tinha a fim de inventar mais uns centímetros ao pau. Pela cara dela, acho que não surtiu efeito.

Pensamento? Se calhar, o melhor era matarmo-nos a todos e tirar isso da cabeça.

Mulher avassaladora na cama. O escritor não voltou a escrever desde que a começou a comer. Segundo se conta, ela suga-lhe a vida pela verga. Abençoada fodilhona, o mundo está pejado de obras medíocres. 

A mulher era demoníaca na cama. Quando se vinha, o homem fazia o sinal da cruz.

Progresso? O mais certo é tirararem-nos os brinquedos e mandarem-nos para casa de barriga infeliz.  

Armindo foi preso por praticar preços criminosos numa mercearia biológica. Havia quem, presssionado a levar uma vida saudável, comprasse repolhos a prestações. 

O humorista fez uma piada e a suas palavras tiveram efeito no mundo real. Então não é um mágico, é um feiticeiro. Seja como for, fogueira com ele.

Não tomo a vacina porque ouvi dizer que houve uma pessoa que bateu as botas ao tomá-la. Meu amigo, se alguém morrer enquanto dá uma berlaitada, será que também vai deixar de fornicar? 

A crónica não põe comida na mesa

 


Roberto Gamito

08.08.21

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Cátia Domingues. Humorista e amante de mesas vestidas.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: encontro mágico, vontade de estar com pessoas, Covid-19 e a perda de paladar, bolhas do twitter, o mundo encantado do tinder, stand-up não é rap, é boxe, o mundo da cozinha, trabalhar o texto, mundo veloz, livros e revistas de humor, Vilhena e Woody Allen, a obra e o artista, o outro enquanto quadro.

Cátia Domingues nas redes sociais: Instagram

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.
 
 


Roberto Gamito

19.07.21

O seu nome espalhava-se pela província ontem vedada qual nódoa ingovernável. Os afónicos ganhavam voz à sua passagem como se se tratasse de um deus fluido; os poetas, mão, os predadores, ardis novinhos em folha. As tribos uniram-se em torno do mesmo medo como pequenos corpos celestes influenciados pela gravidade da estrela. Os detractores, que é como quem diz os bárbaros residentes, tentavam arpoar de olhos fechados a nódoa com uma salva de interpretações, hipóteses, teorias e demais mezinhas com vista a diminuí-la, a abrandá-la e quiçá extingui-la, porém o cachalote líquido prosseguia incólume num oceano só seu. O antigo verbo afundava-se na adiposidade das dúvidas ao descortinar inéditas areias movediças no Homem. O passado finalmente encontrara o seu túmulo. Mais um prego no caixão do oásis. Uma nódoa-nome inflamável ao rés de um fogo posto em poema. Num universo paralelo, volvidos milhões de anos, o imortal acabara de realizar o inventário dos grãos de areia do seu deserto. Mas eis que a tempestade se avizinha para baralhar o trabalho e os dias. Onde há vida, há Sísifos, comentou o sábio que comia uma espetada de escaravelhos-bosteiros, também eles miniaturas de Sísifo.

Conservo os meus relógios — e o mais que logro rapinar — numa gigantesca arca frigorífica. A minha maior ambição é congelar o tempo. Abandonei o meu antigo emprego de oficial das carnes (1) e desde então dedico-me à descurada tarefa de domar a arte do zero absoluto. O cume inatingível, afiançam os cientistas.
A imobilidade absoluta e de caminho transformar o calor, o amor, a paixão, a vida num mito. Trocar as voltas ao senhor Borges. Erigir das minhas cinzas um início como nunca houve. Não descanso enquanto não for o coreógrafo — o bobo-mor — da inércia indevassável. O Universo enquanto palco do tudo e demais ficções.

E agora, quaisquer que sejam as intenções dos vindouros que venham a contribuir para esta miscelânea de ideias aparentemente opostas, esta valsa lenta cumprida em bicos de pés entre o fogo e o gelo, permitir-me-ão que gabe a astúcia macaca deste menino; atirem-me todos os apodos da casta da inveja, mas pelo menos não sou um animal extinto. Ao contrário de muitos espécimes que tropeçam uns nos outros à cata de professor de dança, que é como quem diz, ficcionam a verticalidade e carpem os passos adiados e que, em dias de festa aziaga, fazem as vezes do sacristão e dobram os sinos em honra dos eus que, aqui e ali, abortaram, eu, inspirado por Ovídio, pelos druidas-das-mil-formas, pelos xamãs siberianos — faço lá ideia por onde o transe me conduziu —, eu, qual mongol a cavalo na mais indómita ideia, transfigurei-me num mamute bípede. O meu coração apossou-se de mim, desde a língua à mão, alcançando o lugar de maestro das estações. O gelo e o degelo são obra dele, longe de mim ficar com o crédito de tais façanhas.
O gelo enquanto casulo. Enquanto animal renovado saído do gelo, cumpri o cardápio das metamorfoses de Ovídio. Nada do que é bárbaro me é estranho. E agora?

(1) Se bisbilhotarem os anúncios de emprego por estes dias, hão-de cruzar-se com este poético eufemismo para talhante. Por norma, sou avesso a eufemismos e tudo quanto dilua palavrinhas isoladas em longas perífrases, todavia algum dia teria de dar de caras com uma mui ilustre excepção. Belo nome, oficial das carnes.

 

Oficial das Carnes, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

16.07.21

Amor, paixão, arte, pensamento: fraudulentas maravilhas.
Como são ficções, estas palavras são impróprias para consumo. O louco desbobinou o rol de eus que havia encarcerado no miolo e cada um deles procurou sem demoras o pasto do mundo real.
O Narciso invejava o louco e agarrara-se com unhas e sem dentes ao seu magro eu.

Com génios deste quilate, quem poderá adicionar uma legenda?

No capítulo da inércia, sou uma espécie de Usain Bolt, não fico atrás de ninguém. Há dias descobri que havia ganho diversas medalhas de ouro. Para honrar a minha postura de sedentário, não me desloquei à cerimónia. Não pratico a imobilidade pelos prémios, mas pelo amor à causa. Neste mundo veloz, o sedentário é o maior dos revoltados. Num mundo em que tudo é desfigurado graças à velocidade só o sedentário não abdica da sua forma.

Imagina lá tu que eles ficaram com a ideia de que sabíamos da poda?, diz o louco para outro louco ou para o espelho. Com efeito, basta atirar as palavras quentes do momento para nos levarem a sério. E eu é que sou o louco?, diz o espelho.

Malhemos à vontade no louco até este vomitar a multidão de cacos de personalidade, declarava o homem sensato. Um caco por cada homem. O resto é legado ao mundo. Os aspirantes a faquir hão-de agradecer-nos por isso, continuava o homem sensato.
Uma vez temporariamente ocupados na barbárie, o cérebro aproveitou a carnificina para descansar um pouco.
Deus me acuda, exclamava o louco. Trazer Deus à baila é, receio, uma manifestação de pedantismo, gritou o homem sensato. Narciso persistia no sentimento de inveja. Mesmo à beira da morte o louco não conheceu a solidão.

Fraudulentas Maravilhas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.07.21

O…marimbem-se para o nome da personagem…esse ar competentemente feliz, o qual é um misto de intrepidez e desajuste face à época actual, que o caracteriza em dias de caricaturas elogiosas, apressa-se a entrar na sala maleável das convenções, pois é impensável que se misture com a ralé das ideias isoladas, as quais andam por aí saltando de cabeça em cabeça sem jogarem as unhas a nenhuma agenda política. Como sorri a qualquer tufo nómada, ultrapassa o facto de ser escandalosamente estúpido pela via da simpatia maquinal. A simpatia, assim como o pé-de-cabra, abre-nos muitas portas.

Papando dissabores qual mendigo à solta num banquete, descobriu, sem auxílio de mestres ou canhenhos que agissem como faróis, o caminho certo de entre o novelo de possibilidades. Aos poucos, aprendeu a exteriorizar a ganância segundo a moda, oscilando entre ganas de animal que não larga o osso e a pacatez de um velhote que já viu tudo.

Podia fazer, se houvesse miolo para tal, conjecturas de paraísos artificiais em relação aos próximos anos, que se avizinham macabros. Inúmeros fogachos incapazes de deixar descendência. Perdoem-me o desnorte, mas o incêndio aproxima-se.

O faro está aguçado como nunca. Há muito que não era joguete do rastro de perdizes postiças. As aparatosas quedas desse Ícaro armado em Super Mário com múltiplas vidas pertencem ao passado — imperador inderrubável de tudo quanto é valioso. As desajeitadas tentativas de voar são hoje apócrifas.

Quando são enumerados os maiores caídos da História, o seu nome vem forçosamente à baila, é demasiado grande para ser esquecido. Contudo, os biógrafos das suas múltiplas vidas encarregaram-se de pintar esses quadros com cores mais alegres, deslocando a verdade para o estaleiro das obras inacabadas. Seja qual for a margem escolhida para o acampamento, seja ela a verdade ou a mentira, há uma faca afiada à nossa espera.

Como explicar que D., o novo deus que ia fazer as folgas do dinheiro, tivesse desistido de erigir o novo Paraíso que já havia sido apalavrado? Estes novos deuses com fôlego demasiado humano não duram nada, somos obrigados a comprar um novo todas as semanas, sentenciava o sumo pontífice dessa religião onde os deuses nos ouviam por turnos.

Época de caça, peixe fresco, carne trepidante — tudo paleio de predador. Mete-te com alguém do teu tamanho, diz um pequenote para outro pequenote.

Por outro lado, além do cenário onde o negro foi pintado sobre o negro, ainda havia homens sonhadores. A título de exemplo, o ditador daqueles anos tinha o sonho de transformar o homem de carne e osso em bonequinho. Enchia-os de chumbo. Sem sucesso. E todavia persistia. Um exemplo.

Época de Caça, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

14.07.21

Para homens pouco abonados, que é como quem diz, com poucos meios, melhor dizendo, sem tomates, quero dizer, sem um terço do corpo, dado que o número de magia correu mal, é impossível torrar uma nota de conto por cada mulher que se senta à mesa com fins de arejar a marotice. Aqui entra o discernimento ou, se preferirem, o jogo de azar.

Fui eu que criei o meu mundo e dele só tirei benefícios. Acaso já me viram por aí, a altas horas da noite, refiro-me aos escassos dias onde cometi a imprudência de não me embebedar, a fazer alarde de tal? Meus amigos, é possível engendrar um mundinho e permanecer calado. Ninguém é obrigado a pavonear-se.

Ninguém, repito, ninguém, e repito novamente dado que tenho ADN de papagaio, ninguém parte do princípio de que um jantar em sítio neutro é caracterizado por uma demorada cerimónia imaculada; em boa verdade, os suados engulhos, os improvisos em cima do joelho, longe de constituírem um brilharete, e a pompa de apresentar o pénis à mulher numa prosa perfumada. Tiros no escuro à luz da vela?, desculpem a recaída na poesia.

Quando vejo com estes olhos fatigados como toda a fome da sociedade está, entre nós, corrompida pela entediante copiosidade, achegas que engrossam a conversa ao sabor dos ditames da moda, sinto-me estrangeiro. Cabrões, burocratizaram o canibalismo entre pessoas adultas. Em tempos idos, era impensável o manobrador do pénis preludiar a travessa das carnes com um rodízio de verduras.

O pénis tem sido pouco estudado. Quanto mais fome tem, mais engrossa. É um animal inspirador que não passa cartão à lógica.
Ao pé dele, os poetas malditos parecem meninos de coro.

Isso, mais do que todas as nossas magras vitórias, dado que a alface não enche a barriga, atrela-se a uma ideia mais amarga da vida. Andamos aqui a rondar carcaças há muito vandalizadas por necrófagos e a fazer render o fiapo de carne entalado entre os dentes. Foi um repasto excelente e encheu-me a pança: eis o que não podemos dizer por estes dias.

Quando nu, penso com os meus botões tatuados no peito que a vida, se lhe dessem uma oportunidade, podia ser outra coisa.
Não sou crente mas.
O nome de Deus vem à baila de vez em quando, no decorrer da foda — que me atrapalha e desmotiva. Então um gajo labuta a anca como um lunático para depois Outro ficar com os louros? Isso faz-se?
Nem na fornicação há justiça. O pénis não merecia este fado.

Fado do Pénis

 


Roberto Gamito

13.07.21

Vomitava anualmente resmas de sermões bem-intencionados e insípidos. Incapazes de sair da órbita da obviedade, não passavam de um misto de raiva e patetice enformada em mandamento. Basta, disse uma voz saída da mansarda, bastidor ermo deste século. Um dia os pensadores hão-de cair-lhe em cima sem a burocracia das boas maneiras e levar um pontapé no rabo do pensamento. A profecia não tardou a cumprir-se. Não teve outro remédio senão rolar escada abaixo qual cena de acção. Há quem interprete este episódio como cruel, outros como cirurgia estética. Seja como for, a crista baixou consideravelmente. Podia ter feito melhor? Creio que sim,  bastar-lhe-ia o silêncio robusto. Mas não será pedir muito a uma personagem tão desejosa de estrelato?
Não saiu incólume à descida. Hoje vagabundeia na rua sem mestres nem pupilos com uma cabeça de metal. Cabeça dura, cabeça blindada ao pensamento. Enfim, desgraças que nos deixam na mesma, comentava a velha.

Por pouco não dava com a língua nos dentes e arranjava uma forma bárbara de se expressar. O sangue romperia bravamente pelos interstícios da mão posicionada à frente da boca.
Mas sobre este assunto o melhor é ficarmos calados. Não consintamos que a suposição se transforme em ópio.

Esse cutelo é o orgulho, a menina dos olhos da empatia. Eis a legenda que o acompanhava no museu das certezas.

Todos fingem acreditar na vida, perpetuando assim a fraude. Os abutres discutem por estes dias se há diferença de maior entre o Homem vivo e o Homem morto. Dessa discussão sairá, inevitavelmente, um novo mundo.

Pedaços de carne vadiam à mercê do acaso, experimentado rotas de colisão. Um estrangeiro do costume, bastante legível. Uma cascata de partículas elementares. Oh, meus queridos cabrões, grita vadiamente a vizinha do segundo andar, receio bem já ter registado esta experiência — as colisões — demasiadas vezes. A vossa vida há muito foi expressa em fórmula. Nada do que possam levar a cabo, sóbria ou ebriamente, será catalogado de imprevisível.

Ao passar pela mulher que o conduziria sem problema à loucura, espreme-se todo, com o fito de lhe oferecer o sumo da sua existência; porém umas míseras gotas não serão suficientes de molde a abrandar tamanha sede.

Estou-me borrifando para as convenções da sociedade. A partir de hoje sou um candeeiro malabarista. Puto iluminado, és incapaz de manter os malabares no ar!, comenta um amigo. Sou um candeeiro, diz o candeeiro. És uma inspiração, diz o amigo do candeeiro, que é como quem diz, o bêbedo.

— À medida que envelhecem, os homens vêem com mais nitidez os seus deveres.
— Essa é a razão pela qual passas as tardes sentado no banco a inventariar mamas?
— Sim, é a minha vocação: biólogo especializado na observação de tetas selvagens.
— Mas isso não te pode trazer problemas?
— Pode, todavia ninguém pode pôr um travão na ciência.

Logo que os víveres começam a ser distribuídos, o saco de pichas do outro alegra-se. Só passamos fome se formos tortos, alega o assediador. Detalhes muito...bem, não vamos entrar em detalhes. Não há consentimento para tal, diz o meta-assediador. Meta-meta-tragédia, declara o juiz boçal.

Findo o fricandó, a língua liberta providencia-me uma certeza: de uma forma ou de outra, estamos fodidos.

Queiram desculpar-me, todos estes comportamentos de machão fazem com que sejamos populares junto de certos círculos. Penitencio-me prontamente, gostava de pertencer a este novo círculo de snobs. Será que dá para entrar? Exímio no xadrez da hipocrisia, a personagem brilhava na mesa da boçalidade e do puritanismo com grande à-vontade. De facto, estávamos diante de um prodigioso invertebrado, o maior da sua geração.

prodigioso invertebrado, Roberto Gamito

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