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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

05.07.21

Antes de ser oficializada em 487-486 a.C como forma literária, a comédia, que sempre existiu, quer em círculos menos polidos, quer em círculos mais sofisticados, era vista como fenómeno marginal. Vista como menor em relação às outras formas literárias bem estabelecidas, a saber: a tragédia e a epopeia, teve de mostrar desde o início o que valia. 

Não seria estranho se pensássemos que, à época, para as castas privilegiadas, a comédia não passava de um azedume murmurado pelos rebeldes das artes. Actualmente, conforme as ocasiões, a comédia é louvada ou estigmatizada, e podemos verificar do nosso camarote, o qual está sempre a uma boa distância para levar uma pedrada, que esse pensamento, o de a achar marginal, não abandonou a mente colectiva. 

Posto este minúsculo intróito, aproximemos a navalha do osso. 

Partiu em desvantagem em relação à tragédia, obrigando-a a desenvolver um espírito competitivo que, a cada festival, se acentuava. Nessa altura, só havia dois festivais na Grécia, um em Janeiro, mais para os da casa, em que era permitido ser mais duro com a política interna, e outro em Março ou em Abril, aberto a todos os estrangeiros, o maior dos dois, quer em público, quer em prémio. 

Cratino foi o primeiro poeta de vulto no mundo cómico, mestre de Aristófanes, o maior comediógrafo da Antiguidade. 

Desde o princípio que o problema da originalidade na comédia se pôs. Aristófanes escreveu sobre aqueles que fazem comédia: “Que vida desgraçada tens levado, infeliz, sempre à cata de temas novos! Como assim?! E tu, que já lambeste os restos de tudo o que é prato?”

Cratino, antiga glória da comédia, era retratado na velhice como acabado para a arte, um eterno forjador de palermices. Morreu com 97 anos, mas antes disso mostrou ao jovem Aristófanes que não estava acabado com a peça A Garrafa, vencendo o aluno no festival. 

Há uma frase, não sei se do teatro de Aristófanes, que define muito bem o que é a comédia: “Depois da vénia, a ironia”. E como a comédia subverte tudo, não está errado se dissermos: “Depois da ironia, a vénia”. Na sua origem, a comédia era sobretudo paródia. As epopeias de Homero, por exemplo, foram parodiadas inúmeras vezes. Todavia havia uma fome enorme para ser diferente.

O ataque pessoal, cujo pai ninguém sabe o nome, foi burilado e levado aos píncaros por Cratino. O roast é um dos seus filhos. Talvez a sátira também, que pode ser vista como uma comédia venenosa. 

Quem foi o primeiro a fazer comédia? Segundo os registos, foi Magnes. “Tocava lira, batia asas, tingia-se de verde como as rãs.” O pai do humor físico ou, se preferirem, o primeiro Steve Martin. Foi grande no início, quando o público era menos exigente. 

(Contudo, como todas as manifestações nunca estão mortas para sempre, basta tirar uma foto panorâmica da comédia, “exigência do público” pode tornar-se um termo ambíguo, para não dizer errado. A exigência do público levar-nos-ia longe.)

Outra figura importante foi Crates. Segundo Maria de Fatima Sousa e Silva, Crates trouxe à comédia algo que até então lhe fora estranho: moderação, equilíbrio e forma. Será Crates o pai do humor? (Segundo Bergson, o humor é a parte mais refinada da comédia.) 

Aristófanes foi o maior do seu tempo porque absorveu os ensinamentos desses três mestres. Já o preocupava a questão do didactismo na comédia, assim como os ofendidos. Curiosamente, as questões que apoquentam quem faz comédia são sempre as mesmas. 

É importante frisar que Aristófanes atravessou um período em que a comédia florescia e outro em que foi quase banida. 

Há quem afirme que as palavras dos comediantes antigos perecem rápido, não podem almejar a eternidade. Aristófanes legou-nos isto, a respeito dos ofendidos: 

“Mandar piadas a essa cambada que para aí anda, não tem nada de censurável: é antes uma homenagem prestada à gente de bem, para quem saiba ver as coisas como são.”

Afinal há coisas que não mudam.

 

A comédia evolui? Roberto Gamito, Crónica.

 

 

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