Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

11.02.21

O estômago cantarola qual galo madrugador e irritadiço, como que perguntando: "mas és algum monge a jejuar?" Por esta altura — 13:30 — já deveria estar com o bucho apaziguado com paparoca da boa, contudo, a fim de manter viva a tradição de garatujar uma crónica diária, preciso de me manter sensivelmente desperto e escrever um punhadinho de linhas.
Vou explicar-me um nadinha melhor, na óptica de um sujeito propenso a ficar bochechudo e afavelmente roliço, o confinamento é uma província atreita à engorda. Quem, como eu, endeusa a comida em situações aflitivas, que é como quem diz, vê na comida um refúgio, isto é, uma morada à qual me socorro sem enguiço quando sou assolado por tempestades existenciais. No pináculo da angústia, vi-me agarrado a coisas que há muito não recorria, a saber: filipinos, batatas fritas do pacote e rebuçados. Grosso modo, decidi parar no apeadeiro do açúcar — ou como se designa na gíria, as merdas que fazem mal à saúde — antes de ingressar no território inescapável da depressão. Chucho os rebuçados como quem pede um desejo a um santo, distribuo dentadas numa generosa sandocha de presunto como quem passeia e esventra uma paisagem com os pés infatigáveis, sorvo coca-cola como um bebé americano que nasceu com o porte de um rinoceronte avançado, o qual, alapado à mãe, a suga como se fosse um cancro chorão.

Lá vamos levando a vida aos trambolhões, com a cabeça entre as orelhas, pontuando as desgraças com tiradas bem-humoradas. Por estes dias a felicidade está ausente, porém não podemos deixar de a postular e de a procurar. Resumidamente, nunca foi tão clamoroso o apelo de encher o cu com vista a afugentar momentaneamente a tristeza. Bem, vou confeccionar o almoço.

 

Estômago armado em galo, Roberto Gamito

 

3


Roberto Gamito

12.03.16

Estar com fome é o meu prato favorito, logo a seguir à sopa de peixe. Ah bandido, uma ironia! Confesso, causa-me uma certa impressão fitar fiapos de peixe, desfigurado pela cruel prática gastronómica, a boiar no meio da massa. Como se os trechos de massa fossem os destroços de um navio de massa recentemente naufragado e os fiapos de peixe o sobrante dos náufragos. Ou como aqueles riachos onde sucedeu uma catástrofe ambiental e os peixes griparam, adornando o riacho de nenúfares escamosos. Julgo que não seria boa pessoa se tirasse partido de uma tragédia deste caudal. Tirar a barriga da miséria fagocitando um revés faria de mim um monstro. Mas mesmo assim, o que pode um homem adulto de corpulência considerável contra uma mãe de estatura mediana mas campeã regional de esgrima de colher de pau. O sabor, meu Deus, o sabor! Dá a sensação que uma cobra me está a inocular o mais potente veneno no céu da boca e eu a reprimir o guincho, derivado à etiqueta inculcada pela família, tenho de seguir o procedimento milenar, fazer tudo o que está ao meu alcance a fim de não estrebuchar, aquilo que os eruditos baptizaram comer e calar. Entre colheradas numa mistela infinitamente intragável e os acessos de vómito e responder afirmativamente à pergunta da progenitora “Então, a sopa está boa?”, eu, bem, ela está fartinha de saber que eu detesto sopa de peixe, aliás, prefiro estar colado ao sofá a visionar uma maratona de programas da tarde, daqueles onde aparecem figuras de proa como o Nuno Eiró e outras de igual envergadura, sumariamente, um fartote de interesse em escutar durante dias seguidos um programa protagonizado por um remédio para as insónias, tudo é preferível a sopa de peixe, sei lá, até levar com um meteoro no escroto, mas não, lá está a mãe a impingir a sopa de peixe, porque já sabem como são as mães, sempre com a cantilena, ‘isso vai-te fazer bem’, que a minha avó traduz volta e meia por ‘come que isso dá força na verga’ (para a minha avó todas as comidas dão força na verga), e eu, como pessoa crescida, crescido aos trambolhões, com largos anos de experiência no campo da mentira, não consigo dizer que não. Vá de colheradas para a boca do menino. Lutar para acabar o prato, ou pelo menos deixar o menos possível, enquanto luto contra o vómito e tento fazer uma cara que não a de asco enquanto tento meter conversa, faz de mim, não me orgulho disso, um malabarista da hipocrisia. Espero que hoje a minha mãe tenha a decência de me confeccionar um bife com batatas fritas.

 

photo-1452723312111-3a7d0db0e024.jpeg

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog