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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

09.04.21

O shaker nas mãos de um normalizador. Demónio ao colo do dogmatizador. Fala ou grito terminal. A centelha do início incendiando as linhas inclinam o jogo para o lado da paixão. No final, o marasmo, a repetição revelada. A fotografia nasce velha. O lucro como munição, o cadáver como marioneta, o palco como plano inclinado, o holofote como lente de magnificar. O filão recém-descoberto após o suspiro. Drible falível verso após verso, vómito só penas e morte. Um ribombar infalível em greve. A ineficácia de um gesto caleidoscópico. Vulnerável e em branco, a memória regressa com uma nova definição de precipício. Vendo em mim uma tela, a memória obriga-me a vir à tona do branco. Pausa para o almoço, interregno na querela, hora para pôr as respirações em dia.

Meretriz ou membro, a mão contabiliza as hérnias da alma, anos a carregar com o fardo da existência. A senha para um estado superior comerciada na candonga. Por breves momentos, os seres humanos superam-se. No resto da semana vergam-se. Adentra-nos a certeza de termos contribuído para o desastre. No epicentro dos universos múltiplos, Deus folheia as sinas do mesmo homem. A pujança de quem pôs as fichas todas na esperança. O cérebro carbonizado pela ansiedade.

 

Ansiedade, Cérebro Carbonizado

 


Roberto Gamito

01.04.21

Dia carcomido pela luz, alfinetado no quadro de cortiça qual escaravelho raro. Puído e sem préstimo, o homem. A braguilha acalorada confeccionando os altos e baixos da língua. Teia e aramista no fio da navalha. Verbo apneísta conjugado à moda antiga. E em tudo fracassam.

Troço entre o matadouro e a florista. Possivelmente, contadas cobaias a descrever o trajecto. O ronco que preludia o jacto de esperma. O apito inaudível aos demais que marca as faltas no campeonato do coração. A morosa morte a que chamamos vida. Trinta ou mais anos perdidos em castings. No entanto, não há meio de ficar com o papel de homem realizado.

Furibundo, grafita a sémen a Vénus de Milo. O modo untuoso com que a hipocrisia cola a máscara ao rosto. Temporada a legendar quadros abstractos. Meta em farrapos, atletas baleados pela partida.

O rol de tronos. Após noites de muita labuta, o artista arrombou a fórmula do século. Prenderam-no na manhã seguinte.
A diferença entre o depois e o antes, o delta tumefacto. As lentes, jogo empoderador das ampliações. A estatura real ao abandono.

A respiração, essa, sem saída. A fuga enquanto posterior labéu. Autómatos perfeitos, mesmo apunhalados não param de sorrir. O actor — e palhaço — importa-se que eu desça o pano? Um lenço imenso, humedecido com toda a tristeza humana. Batimento ambíguo fácil de integrar numa história por um farsante. Ímpeto embusteiro injectado no diálogo. No império do mesmo, o curto-circuito dos antónimos. Intempérie de beco, tempestade de rua mal-frequentada, calamidade de casa a cair aos bocados.

 

Dia, escaravelho alfinetado, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

30.03.21

Suspiro: passaporte para o outro lado do espelho. Idílio violado pela razão.
O antídoto, o aguilhão desafinado. O contorno a giz à volta do peluche assinala a derrota. O cinismo broca a ficção.
Mas quem é o cínico senão um ingénuo que sinaliza outros ingénuos.

A montante um tigre em pleno salto capturado pela pintura do mestre. Errante e sem idioma, o homem satura a floresta de ensaios de fugas.

Sílabas de arremesso, quer dizer fulgurantemente poéticas, procuram laços junto do cocktail molotov. Alguém a quem chamar pai. Dedos absortos em gasolina pairam, suicidas, sobre o Inferno posto em palavras.

Derrocada reiterada todo o santo dia. Amei muita vez as ficções palradas pela luz. Dissimulei a Queda, simulei a rédea do desespero. Bamba arquitectura que vê no riso um sismo.

A faina do bálsamo falaz. Intempérie de parir Homens. Eclipse travesso ironizava a profecia. Deserto graúdo de mil ardis. Entre uma coisa e outra arengo a paz interior.

Faina do Bálsamo, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

17.03.21

Não obstante os devaneios e as falácias de empertigado, continuo elegível para o cargo de protagonista do filme da minha vida. De facto, gabo a competência do chamado influenciador digital em elogiar-se por tudo e por nada num sarapatel de adjectivos. Não se precipitem nos juízos: é mais difícil do que parece. No que me diz respeito, sou incapaz de tecer um elogio à minha pessoa sem me escangalhar a rir ou introduzir um acrescento do género: “quem é que estás a tentar enganar?”

A sensatez, outrora gabada como virtude, hoje não passa de um açaime da vida quotidiana. Uma criatura inapta no auto-elogio já parte com uma volta de atraso na corrida da existência. Os obstáculos de ser apenas aquilo que se é sem mais alardes. Só um estúpido pode insistir em tão estafada fórmula.
Mas o que é o Homem se não hiperbolizarmos as suas magras façanhas? Provavelmente um mamarracho com orelhas ou um invertebrado untado com uma balbúrdia de cremes. E todos os que se encontram fora do jogo — jogo dos embustes —, de tão exasperados, borram-se nas calças ou no discurso pela pouca sorte que lhes coube.

Eu, bobo sem graça nem farpela, continuo aqui a suar as estopinhas a fim de compreender os trâmites da hipocrisia de molde a medrar neste jardim pejado de flores de plástico. Estou muito convencido de que sou o papalvo do século, pelo menos em português, porque desdenho as manobras — das mais triviais às mais sofisticadas — de enobrecer o ego. O meu intelecto não está apto a decifrar tão densa matéria, avesso que sou a tão comichosa disciplina. Terei que me matar de novo? Não terei eu já alcançado os píncaros da desgraça? Logo eu que salto de eclipse em eclipse qual rã cósmica que vê na noite abrupta um nenúfar.

A mim, perito na arte de tirar nabos da púcara, feitiçaria invejada por uns e umas no apogeu da noite solitária, desamparado dos elementos que me são próprios, nomeadamente água e terra, dado que sou um palhaço anfíbio, resta-me soluçar numa língua estrangeira para que pensem que não lhes levo a mal o regateio da banha da cobra.

A voracidade dos plagiadores, a sede dos bajuladores, os aplausos dos manetas, o frenesi dos chupa-pilas, o virote nos círculos de legitimação, o ballet todo em pontas dos gigantes postiços, a mutação da gatunagem, os apupos dos papagaios, a pelintrice do eco armado em vertebrado, os entraves da língua entrevada, o açaime do puritanismo, e o foda-se, pau para toda a obra. Como combater isto tudo, e se possível, de uma só vez? Logo eu que não passo de um merdas.

 

Eu, o Merdas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

15.03.21

Uma pá, dois homens de impermeável amarelo, um cava outro observa. Piquete de carpideiras como banda sonora. O ferrolho emperrado, do outro lado do postigo o mundo. Lá longe, de volta a casa, uma salva de suspiros. Sessão letal. O coração ribombando no cofre ósseo. Martírio abafado. Por ora, os caluniadores emudecem.

Uma razia de flores, o perfume ingressando onde não era esperado. Ia ter contigo sem as palavras certas à espera que me compreendesses. À tardinha, sem nada nas mãos para registar o momento, nem bloco nem máquina fotográfica, percorria os trilhos como um caracol. Promessas a calcinar nas rochas. Abertos como golpes, os dias cicatrizavam em mim a custo. Texto em sépia, cantos devorados pelo fogo, mato habitado somente pela minha solidão.

 

Cantos devorados, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

10.03.21

Arde o turista diante do quadro. Favos de mentiras, o auge do mel. Música de fundo, um pouco triste, muito humana, realça o dissabor. Próximo da fonte, o mensageiro tenta bebericar o seu reflexo. Os invólucros das frases caducas entregues ao baile do vento. Ilegível pássaro, canto trancado, poesia sem sangue na guelra.

Na queda eunuco afónico
nem fode nem sai de cima
nem canta nem sangra.

Uma pitada de desespero.
Reentremos na prosa
pela porta das traseiras.

O atoleiro onde os sonhos se desfizeram, simulacro de areias movediças. Pontapés no coração, penúria sentimental. Abrimos o jornal como quem já viu quase tudo; solavanco nas páginas destinadas à morte. A facção dos vivos. Num ápice, passam para a outra facção. Cabeçada imprevista numa quina e adultera-se um caminho que, segundo algumas línguas, ignoro se as mais fiáveis, era o da rectidão.

Intrujice estrangeira a reluzir para deleite dos parvos missionários.

Eclipse tentacular, presa inerme no meio dessa selvajaria de tentáculos e tinta. Homem, papel que estrebucha. Alcanço a inédita definição, não consigo pronunciá-la. A minha língua ficou para trás ou debaixo do pedregulho de Sísifo, não faço ideia.

Poupámos o fôlego para que, chegados ao inferno, gritássemos como tenores. Aquele olhar de gárgula omitia uma cidade inteira. Corpos dessincronizados, o lume exige marcação. Entretanto arrefecemos.

No calendário marquei os dias em que me devia reerguer. Claro, o desolado celeiro de coisa nenhuma. Não há interpretação capaz de salvar esta colheita.

Lacre, mensagem passando de cavalo em cavalo, de língua em língua até alcançar a margem do silêncio.

 

Próximo da Fonte

 


Roberto Gamito

09.03.21

Igreja desfeita; no museu, a réplica da bomba que a mandou pelos ares. Aprumo concedido por mãos profissionais, farpela de quem apodrece e apadrinha os vermes. O labor, o lavor, o trator, o vapor, o terror. Lá em cima as ficções e as lengalengas.

Com passos de cinema, ingressa no bar, silente e firme, modificando o clima como uma erupção vulcânica. Veneno ou amor: palavras que me têm assombrado desde que as encontrei.

Superam ou acatam. Afagos ou chapadões. A paliativa punheta.
A depressão sorteia a lâmina. Em cada queda uma guilhotina. Vagabundo fidedigno parindo ruas desertas com seus passos. Após um episódio de nos tirar o verniz da educação, a criatura então amestrada aquiesceu num tipo de comportamento maquinal e entorpecido. Será este o nosso destino: moldar o que nos torna humanos para fins lucrativos alheios? A utopia da certeza?

Cadáver de Deus tornado palco de certezas, dúvidas e medos.
Sem delonga, dança jamais a par, no curto-circuito da incerteza, a mulher, numa coreografia de escárnio, aturava círculos concêntricos de mandíbulas ababalhadas.

Sem futuro, o beijo semisservia. Da vida à morte, resenha e grito, informava o fiscal da possibilidade com pensamento acrítico. Calendário sem colheitas, 365 dias de eclipse. Profetas labutam noite e dia para dar um fim digno a todas as coisas. Fim.

 

Calendário sem colheitas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

08.03.21

A caixa de Nestum recém-aberta tombou e eu, crente de que podia amparar-lhe a queda e minorar o prejuízo, joguei-lhe as mãos.
O gesto de bombeiro não surtiu efeito, creio mesmo que exacerbou a desgraça. Num ápice, adulterava-se a mesa limpa com serradura comestível. Gritei o meu fado, ninguém me acudiu. Limpei as lágrimas e o ranho e tentei apagar as marcas da minha aselhice.

É importante reconhecer que, nestes enleios, a ilusão de um futuro melhor ajuda pela soma de mãos que nos socorre como que dizendo: “Rapaz, não tombarás!”

Abrupto, alcanço o novo dia, confronto sem armas a nova incerteza. A experiência não resulta desse vaivém.

Será esta a nossa futura casa: a aldrabice mutável saltando de colo em colo qual cão pequerrucho. Findo o regateio das asas, ultimam-se os detalhes da peça à beira do abismo. Umas criaturas de branco içam-nos um a um com uma cana de luz. Anzol nas goelas, luz nas ventas. A jornada joeira sedentários e viajantes.
Entretanto arrefeço.

 

Entretanto Arrefeço

 


Roberto Gamito

02.03.21


Os níveis minguantes de paciência tornaram o Homem ameaçador, selvagem, indomado, imprevisível. A pandemia iluminou alguns recantos da questão: É isto de Homem?

Eufemismos revezam-se alucinadamente de molde a tranquilizar quem vê esta massa crescente a sair do leito da normalidade.
A impaciência, a qual nos últimos anos parece escassear tanto como o amor, aumenta a imprevisibilidade do comportamento humano. Imprevisíveis como animais permanentemente enraivecidos, eis a criatura saída do laboratório da pandemia.

Numa metamorfose não antevista por ninguém, o Homem, cume da criação, pelo menos no tocante aos mundos por desbravar, retrocedeu na sua caminhada, digamos, gloriosa rumo ao conhecimento último. Essa assimptota indevassável.

A liberdade de que gozávamos, aparente ou real, não cabe agora discutir, o sentimento de estar à solta sem ser vigiado por predadores nem pregadores num palco que floresce com os nossos passos à medida que o mundo nos entrega os seus segredos um por um. Esta nova fricção no caminho para a felicidade curto-circuitou o cérebro da maioria de nós. Aqui, o propósito é o de obter, como que magicamente, uma grande síntese apta a auxiliar-nos nos dias mais tenebrosos — não há, a menos que eu vos engane. Os mais ingénuos comentarão o meu parecer, engodados que estão com novas patranhas, a saber: vamos sair da pandemia melhores pessoas.

Estarei eu ciente do processo que me transforma num animal instável, capaz de explodir por tudo e por nada? Uma multidão de bombas em vias de explodir. Ninguém conhece a verdadeira magnitude actual dos danos nem os futuros. O presente é um território ingovernável, assolado por hipérboles que ora nos elevam aos píncaros, ora nos esmagam.

 

O Homem da Pandemia, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

24.02.21

Como gajo prevenido que sou, trago sempre comigo uma fita métrica, dessa forma posso medir o tesão que o mundo me suscita. Dois mil e vinte um, mesmo para uma criatura que viva habitualmente com as calças enfunadas, é um ano que não favorece a alegria na zona da braguilha. Em tempos de confinamento, os animais de circo terão de permanecer engaiolados nas calças. Desafortunadamente, os malabarismos de carnes cessaram por tempo indeterminado.

Às carambolas dentro de casa, numa coreografia de dançarina reformada e perneta, vagabundeamos de divisão em divisão, amiúde bêbedos, simulando aquela vez em que apanhámos uma piela colossal e calcorreamos às tantas da noite um pomar com as calças na mão.
Derretidos em cima do sofá como quem foi morar para um quadro do Salvador Dalí, perguntamos o que será de nós; o futuro, esse eterno sacana, assobia para o lado. No pino do tédio, fitamos a fruteira de longe e encetamos estimativas. Estimo, dizemos, que estão 4 maçãs, 3 bananas (fora o estimador) e um fruto exótico cujo nome não me recordo. Contamos a olho. A inércia transformou-nos numa lapa, a qual trocou o clima agreste da rocha pelo aconchego do sofá e da mantinha, que sobrevive à conta de Uber Eats e Netflix.
Mas a miopia não é grande conselheira no tocante às estimativas. Pensando melhor, a esta distância tanto pode ser uma fruteira, como um anão vestido de cores garridas a fazer table dance na mesa da cozinha.

O que vivemos fica na cabeça e na cabeça se transforma; percorre, como se costuma dizer, o seu caminho. Com efeito, a memória raramente deixa as coisas como estavam. Para ela, os episódios biográficos necessitam de constante aperfeiçoamento.
Vemos a sua obra, mas não compreendemos a artista. A razão pela qual a memória empreende o que empreende. Será ela míope ou virtuosa? Antigamente, em situações análogas, as musas punham-nos uma miríade de alucinações nas mãos e cabia-nos a nós vertê-las para o papel, qual ritual de exorcismo levado a cabo por um contabilista, sentado e imperturbável.

Não maltrato o presente, nem tão-pouco o passado. Para quê? Eles estarão a dias de se metamorfosearem noutra coisa.

 

às carambolas, Roberto Gamito

 

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