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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

08.08.21

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Cátia Domingues. Humorista e amante de mesas vestidas.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: encontro mágico, vontade de estar com pessoas, Covid-19 e a perda de paladar, bolhas do twitter, o mundo encantado do tinder, stand-up não é rap, é boxe, o mundo da cozinha, trabalhar o texto, mundo veloz, livros e revistas de humor, Vilhena e Woody Allen, a obra e o artista, o outro enquanto quadro.

Cátia Domingues nas redes sociais: Instagram

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.
 
 


Roberto Gamito

21.01.21

Tenho uma sorte, que é o meu físico, um físico de bisonte bisonho que engorda sem dificuldade. Em tempos normais, prescindia facilmente desse dom de ficar com a pança avantajada ao mínimo petisco, no entanto, em tempos de confinamento, dá-me jeito: é um reservatório infinito de desculpas para ficar alapado no sofá qual cadáver esfomeado. Volvidos uns dias fechado em casa tudo perde o sentido, desde a vida até às idas ao Tinder. Que razão há para ter o Tinder instalado? Nenhuma. A não ser que entendamos o Tinder como uma espécie de caça aos pokémons, pokémons com demasiado vocabulário.

Aliado ao tédio, a nosso pensamento desacreditará todas as crenças, dinamitará deuses, torná-los-á pequenos, babujará qualquer ideia sobre o suicídio num tal ecletismo de parvoíces que alguém poderá pensar, ao cruzar-se com esse raro espécime, que encontrou o poeta do fracasso.

Porém, perante certas coisas é preferível ficar mudo e de asas fechadas. Por mais esquartejado que esteja a criatura entediada pelo confinamento, mais vale deixá-la morrer. É deixar Osíris falecer desta vez.

E a turba que ocupava os dias a propagandear o lado positivo disto tudo? Já se calaram? Eram falsos positivos? Segundo eles, devemos fugir daquilo que nos magoa. Se algo é tóxico, afastamo-nos. É isso que tenho feito: afastei-me do mundo, que está tóxico. Pus um aviso na porta: “Mundo, não és bem-vindo”.

 

Mundo, não és bem-vindo

 


Roberto Gamito

14.01.21

O comércio do boato anda meio paradinho. Em virtude da pandemia, essa sacana incansável e cheia de truques que nos enredou numa inédita teia de hábitos, fez com que as velhotas — sobretudo as velhotas —, eternas estafetas mancas da mensagem magnificada pela patranha, não se sentissem seguras no exercício da sua nobre função de disseminar fake news regionais. Se fizermos um inventário às pastelarias e mercearias do bairro, percebemos que a velha, outrora o animal mais comum nesse habitat, é poucas vezes avistada, mormente de fugida, afirma o biólogo. A covid-19 transformou a velha regateira — perdoem-me a redundância, mas quero legar margem aos vindouros para espécies de velhotas que possam vir a ser catalogadas num futuro distante —, um bicho maravilhosamente social, amigo do diálogo e do monólogo, delta de todos os rios de histórias, num bicho esquivo. Não quero iniciar uma demanda humorística à volta das consequências profundas que o afastamento da velha provoca na sociedade. Provavelmente, nas cidades, sítios povoados por rezingões de todas idades, territórios onde o bacalhau e o beijinho nunca singraram, o afastamento da velha não surtiu o efeito que tanto me encanita.

Na vila, as velhas são rodinhas e roldanas indispensáveis para o satisfatório funcionamento da maquinaria social. A vila fervilha de histórias e zaragatas graças à velha mexeriqueira. Sem ela, a vila morre. No início era o mexerico. António Costa está ao corrente da importância do mexericar da velha e deixou, sabiamente, as igrejas abertas para que a prática da missa ocorra sem entraves. Talvez o leigo no tocante ao estudo da velhota não saiba, mas a velhota crente, que é a facção mais populosa de velhas, (a proximidade da morte é óptima a converter incréus) entende a missa como um ninho de intrigas. No meio daquele cochicho macerado, a Ave Maria partilha as mesmas ondas sonoras com os segredos mais macabros que a velhota foi colhendo ao longo da sua vida. Em jeito de síntese, na missa o boato prospera. Deus queira que sim.

Em princípio, estou imune a essa máfia do mexerico. Vivo orgulhosamente só, só abro a boca para deixas maquinais, a saber: bom dia, obrigado e até amanhã. Prescindo dos afectos que o diálogo com a velha possa eventualmente trazer. Sou, como se costuma dizer, um bicho do mato.

Parece mentira, mas noventa e nove por cento das pessoas que analisei apresentava-se vulnerável diante da velha, velha essa desejosa de lhe vampirizar as entranhas. É sempre a mesma cantiga. O outro confia-lhe as suas tristezas. As suas angústias nunca antes verbalizadas. Os seus fracassos amorosos. A sua turbulência económica. A velha recebe isso tudo como se fosse uma carpideira, despede-se e, no momento seguinte, qual aedo treinado para a desgraça, poetiza as desgraças do Homem numa epopeia de esquina, fazendo com que a criatura pareça ainda mais desgraçada do que é na realidade. Percebo, a velha é a mãe do espectáculo. É preciso exagerar para manter a audiência interessada.

 

Velha e o Comércio do Boato

 

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