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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

02.07.22

A laureada morte prescreve o ritual, do qual quase tudo se ignora, segundo o qual o druida imprevisto, cuspindo na mercadoria, fará a adoração do fetiche da extinção, saltando de animal em animal, retrocedendo até ao organismo primevo, ou à faísca que pegou fogo à pólvora até então húmida, coisa que maravilha o Diabo, narcotiza-o, deixando-o, não à beira da loucura, mas no seu coração. O amor, se usado em plano inclinado, é um camarote com vista privilegiada sobre o abismo. As coordenadas nas quais as mãos se libertam da servidão de serem produtivas e se agarram à vida ou porventura à morte. Um espaço envidraçado, género estufa, onde os corações crescem desabaladamente abraçados à sua música de eleição. Sociedade da transparência, afiançam eles. O sangue, nos seus começos, revelava-se uma oferenda do recém-decapitado ao deus sequioso. São lugares verdadeiramente infernais, as ruas. A entronização da rosa e os venenos caleidoscópicos que a envolvem, embora por muito tempo tenha permanecido um segredo, fora o motivo principal para o eremita baptizar cada passo. Enquanto quieto, os olhares postulavam-no sábio, enquanto o próprio acreditava ver um beco, daí ter interrompido a marcha. Os ubíquos problemas de interpretação. Etiquetar com um nome confere-nos segurança. Um dos mais antigos e duradouros estratagemas do homem. Aproveitando a distância galopante entre o cinismo e romantismo da coisa, a cidade cresce. Cada interstício é local de negócio ou de futura miséria. Os locais de passagem, observou-o o capitalismo, constituíam um peso morto. Necessitavam de ser abolidos.

Vendo-se a chegar ao fim do rosário das tácticas, o sedutor começa por sublinhar os elementos que havia já aludido, dando uma ênfase bizarra, lenta e estudada a cada centímetro do corpo da presa, como se esperasse ressuscitar a magia arcaica das palavras. Não houve época de ouro. Se oxidou, se hoje vemos os tempos áureos de outra forma, não é ouro. Quando muito, idades de pechisbeque que se revezam e que, envergonhadas, hábito eterno, se apropriam do estatuto do ouro. Isto não acontece somente por razões económicas. O Homem adora ser enganado; vai até ao fim do mundo se for preciso de molde a escutar uma nova mentira. O betão oferece ao homem novas possibilidades de esborrachar a cabeça. Uma das grandes conquistas da humanidade. Imaginem o que era, no princípio dos princípios, o homem chegar a casa, após uma caçada que não deu em nada, e querer dá vazão à sua fúria tendo ao seu dispor uma parede de palha para disparar murros, pontapés e cabeçadas. Legamos, querendo ou não querendo, rastos. Seremos procurados. Não há milagres, apenas crimes pelos quais somos procurados. O que acontece é que a morte, o amor, Deus e toda a pandilha de palavras com as quais se costuma abalroar a fluência de uma frase, qual ponto final que caísse do céu impondo um silêncio inesperado, fareja-nos e acabará por nos encontrar. Preparemo-nos sem esperanças no desfecho favorável. É uma corrida de perdigueiros. Somos uma peça de caça miúda. O que difere de homem para homem é a ordem dos perdigueiros que nos abocanham. Lembrem-se de Actéon, se precisarem da muleta do mito. Evitem inchar o peito, não há caça grossa entre nós. A filosofia, a religião, a ciência e a arte são artifícios para nos iludirmos do facto de sermos caça miúda.
A estupidez, que julgámos morta, pois fomos alvo da seta do Cupido, ressuscita todas as manhãs pelo próprio pé, sem auxílio de deuses, estudada que está a morte.

Se estacamos ao sermos seduzidos por uma ideia, logo somos emboscados por uma matilha que ajusta o tom, inicia alto e vai minguando, como se o afinasse, qual grupo de conspiradores amadores. Outros, que talvez ainda caibam neste texto, cedendo ao perfume acre da libertinagem, de goelas e braguilhas abertas para o que der e vier, interpelados por freiras postiças, as quais recrutadas na espuma dos dias. Pessoas há, e nem são das mais raras, que não têm a mínima hesitação em caracterizar um Homem dos pés à cabeça, do rés-do-chão à mansarda, com um olhar, vício de consumista, de quem está habituado a ter a vista desimpedida no armazém, capaz de abarcar tudo num trago de pupila. A nós, estrangeiros, que nos desentendemos em todas as línguas, devemos regatear com o coração o valor de todos os cheiros. Exumam para imortalizar quem nunca esteve vivo. Não vou atrás de tudo, o mundo é uma bola, mas eu nunca fui um cão. Sou tão-somente um vagabundo a sorrir na rua dos apetites, sem que me consigam raptar os olhos.

 

As ruas e o estrangeiro


Roberto Gamito

30.06.22

Faltam-nos o vigor e a vertigem. A gaja pôs-me o peito em frangalhos, grita o bêbedo. Seríamos poupados à aflição se, para encetar a prosa barriguda, não tivéssemos de passar por cima desse cadáver hesitante com o pranto afinado, o qual, se não fosse a cruz da bebida, não saberia afastar a morte, o vampiro-mor.
De lá para cá fomos sofrendo, segundo após segundo, cada um segundo a sua escola, engaiolando os dias em pipas de lágrimas e hoje a dor perdeu os seus matizes. Há séculos que andamos a fermentar espinhos dentro dos olhos e pronunciar tautologias como "ira cega".
Cumprido o jejum intelectual, ai que eu me atiro às prateleiras e à Moby Dick, todavia comecemos humildes, pela sardinha miúda, vão ver, ó cabrões camuflados em simpatias e cacofonias, se um dia a língua vira gume ponho-vos a fama e a estatura nas ruas da amargura, ponho-vos a soro de frases motivacionais. Ah, meus filhos da puta, ainda há-de nascer um poema inescápavel após o qual serão incapazes de prosseguir a vida como seres falantes.
Humanizem-me, diz o milionário ao seu cardume de gurus pessoais, estou a pagar-vos por isso, meus merdas. Foda-se, injectem-me empatia no rabo ou nos lábios, meus contorcionistas à beira da guilhotina.
A mim, ninguém me há-de conspurcar o nome, comenta o santo.
Merda para os pássaros, para as rosas e para essas coisas miúdas que atafulham o poema de quotidianidade. Só me estorvam. Trabalho melhor sozinho. Ou com Polifemo a mirar-me as costas. Venha de lá esse pedregulho ou essa fome.
À luz dos nossos dias mais esclarecidos e menos frondosos de atalhos, dou-me conta que o Homem é uma pedreira de mármore ambulante. Volta e meia, ouço uma sinfonia de explosões vinda de dentro de mim e recordo-me de Carrara. Lá onde eu perdi os dedos e a fé, eis o posfácio do dinamite.
É preciso ter cuidadinho, ter olho neste mundo construído às três pancadas e recordar a frase de Salomão: "Não há segredo onde reina a bebida." Merda, melhor dizendo, a frase de São Jerónimo: "Que o diabo, nosso inimigo, não te apanhe desocupado."
Tenho mobilado os meus passos a papéis e rascunhos, cada passo é um fojo mascarado por cima do qual os poemas abortados fazem as vezes da folharada.
Andamos todos a fingir que fazemos algo — o que é isto senão fingimento posto em texto? — para que o Diabo não nos passe cartão. Será que o Diabo cai nesse ardil? Que Deus guarde a nossa ingenuidade por muitos séculos.
O personagem, o bêbedo ou um homem sem qualidades, desesperou numa língua rasa, gaguejou uns eufemismos quilométricos, todavia nada ousou dizer que já não se soubesse, somente em quadras, já perto da cova, pôde, enfim, sofrer sem o estorvo do ego.

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Roberto Gamito

28.06.22

A cólera agarrou o microfone e, com os olhos esbugalhados, monopolizou o sangue. Eis mais uma peça no teatro da testosterona.
Nós, que desperdiçamos a energia e o tempo à cata de migalhas enquanto viramos costas ao bolo, saímos dos dias como Adão e Eva do Paraíso. Adão, Eva, Satã e Ulisses entram num bar e comentam: "O regresso é impossível".
O poeta é um trabalhador braçal, precisa de conseguir imaginar David encasulado no interior do mármore. Mas antes disso necessita que a folha se assemelhe a uma rocha. Entre uma coisa e outra é vital afastar o entulho para que o homem fique a sós com o impossível.
As frases motivacionais têm sido construídas com as sobras do cadáver de deus e com o entulho do templo do deus desconhecido. Empatia? Coitados, com que então em busca de consolo na arte? Activistas amestrados pelos holofotes esgotam-se em tentames de trajectórias esclarecidas, tentam insuflar a mão dos descendentes dos poetas malditos de vocábulos sem chama. O Eu canta o inferno!
Procuram a paz na Capela Sistina ignorando o facto que Michelangelo descansava a cabeça acompanhado de enforcados e cabeças separadas do corpo. Então, onde é que está o problema? Não nos podemos pacificar onde o outro foi espremido? "Estás sempre sozinho como um carrasco", diz Rafael a Miguel Ângelo no filme Sin quando este último o acusa de não ter ideias próprias.
"Por que diabos devo amar-te? Florença, o que fizeste a quem te amava? Tu que és o cemitério do meu amor, dos meus sonhos, da minha inspiração?" Século XXI, o que farás a quem te amou? Quem será o próximo Actéon?
Empatia? Michelangelo responde: "Estou farto de viver em Roma. A cada passo que dou, há um padre, um peregrino ou uma prostituta." Numa frase lapidar, sintetizou Séneca e Rilke no tocante a conselhos a jovens poetas: "Nunca desço dos andaimes."
 

Nunca desço dos andaimes


Roberto Gamito

27.06.22

Aos olhos da crítica coxa cada franzino era um docinho, cada bonsai um embondeiro, o trigo era joio e o joio trigo.
Escangalhava uma hora ou as que calhassem, entre folhas, à procura do meu nome, com ânsias de habitá-lo como escreveu o poeta a quem já ninguém passa cartão. Entre o teu nome e o verbo amar há uma lacuna crassa, uma respiração aflita apinhada de demónios. Foi o sangue de Vénus que empurrou a rosa para a ribalta. As conversas conducentes a uma conturbada digestão convertem Santos em Carrascos. No mesmo banquete há Neros e Petrónios.
Não há triunfo sem sangue de Vénus. Vénus aqueceu o lugar de Jesus. Tento em vão erigir um mundo com os cacos da cruz enquanto os anjos postiços açambarcam as últimas migalhas.
Estremeço quando ouço a frase medonha de que "já tudo foi escrito". Vénus, crucificada no alto da minha noite, cai-me na folha, gota atrás de gota de sangue, resgatando do anonimato uma miríade de caminhos e é vê-los, como cães de Deus, a sair de um edifício altíssimo em chamas. Bem vistas as coisas, o poema de amor é um ritual de Mitra no decorrer do qual o sacerdote debaixo das tábuas espera receber a bênção do sangue do bezerro sacrificado.
A poesia talvez tenha os dias contados, assim como toda a arte. O bloco de mármore permanecerá intocado e dele não brotará, às mijinhas, nenhum David.
"A rosa conquistara os bárbaros", a guilhotina os civilizados.
Fui à morgue reconhecer o cadáver de um tal deus, infelizmente não era o meu. De facto era um deus, um deus-cachalote. Vivo terá sido um ser magnífico, morto, um gigante murcho e fedorento.
 

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Roberto Gamito

24.06.22

Mesmo a língua, esta língua poética-patética, curvada de metáforas desasadas, é incapaz de mobilar eficientemente o passado. Papalvo gago ou génio emborrachado pelo ênfase, um e outro embrutecidos pela sua superstição nos holofotes. Insipidez de uma ponta à outra da frase. Nisto é que somos admiráveis!

Durante estes últimos anos muito fui surripiado — a minha estatura de garatujador de raiva líquida, a minha reputação de bicho indómito, a minha saúde, a minha vastidão de ideias. Embora haja uma procissão de lâminas a percorrer-me o lombo como quem espezinha uvas, permaneço devorador de deuses e gigantes. Milagrosamente, lá me consegui perdoar pelos passos atrapalhados da jornada.
O passo seguinte poetiza ou despoetiza o passo anterior? 

Decerto não inventei a noite; mas popularizei-a, elevei-a a hino das entrelinhas. 

Amor e paixão, esses deuses hoje ilegíveis, de gostos macabros, pois esperam retirar dos vivos a morte sem que nada de mal aconteça, vasculham gulosamente na miríade de mãos erigidas graças aos cacos da cruz.

O fossador profissional das entrelinhas acolherá novas possibilidades, mundos que hão-de brotar de supetão da sua míope interpretação, quiçá novos começos, haja inocência para os receber. 

Dirigiu-se esparsamente à multidão qual nódoa de sangue e palestrou durante séculos sobre a origem da cólera humana. Foram tempos memoráveis onde os seres humanos feiravam na tragédia e saíam de lá carregados de crânios. Sofro e distancio-me por motivos filosóficos, dirá o eremita dos novos tempos. 

Irra, que estopada! O seu afinco em sabotar os seus esclarecidos colegas, que teimam em ver no pirilampo uma estrela e em descaroçar os momentos difíceis com frases da moda comandava a sua respiração aflita. 

Toda a minha respiração tornada raciocínio leva-nos, não pela mão, mas pelo cachaço, por estradas limpas e estreitas, ao meu antigo nome. Desta certeza ninguém me escorraça. 

Deus e Homem, insusceptíveis de comparação, zaragateiam numa obra chata e votada ao assobio. Sobra-nos teimar ainda, uma vez mais exumar a hierarquia de cadáveres que nos ensinou a verticalidade. Volvidos estes séculos, “Deus é amor” foi diluído em diluvianas cacofonias. 

Despachadas as mágoas, a vida prossegue monótona, sem cumes nem vales e sem entraves. As pequenas e surdas antipatias grassantes nas redes sociais revelam um animal sem orelhas e sem tacto. 

Hoje sabemos, imperfeitamente, que estamos perdidos. Para desimpedir o caminho neste vale de lágrimas e desatravancar a macambuzice contemporânea, agarremo-nos com unhas e dentes ao cadáver de Deus. Não é uma solução perfeita, porém isto não pode continuar assim. 

Hino das Entrelinhas

 


Roberto Gamito

23.06.22

“Tens graça, muita graça.”
Eram palavras de mau augúrio para aquele simplório, o qual as recebeu como sinal divino, nunca pronunciadas com tal vivacidade; palavras mágicas conducentes a uma vida desgraçada de laracheador profissional regada ora a apupos, ora a aplausos. Planta bizarra, pensará o leitor mais macaco.

Veio para cá, para os arrabaldes das redes sociais, com uma grande reputação de humorista. Mas não se aguentou muito tempo agarrado ao apodo, à decima piada já havia sido despromovido a burro do caralho — e tal não espanta ninguém. Num mundo em que os critérios são voláteis e em que a competição entre franzinos norteia chapadas e diálogos, as pessoas valem tão-somente a sua reputação. A fama é uma longa estrada ensaboada para o desastre. 

Findo o espectáculo despovoado de gargalhadas, o bicho ontem intitulado hilário esmoreceu prematuramente. Realisticamente falando, podemos observar que o homem perdera meio metro de confiança. Supondo que começara com 2 metros — hipótese improvável neste país de pequerruchos talentos —, teria somente mais três tentativas falhadas antes de desaparecer. 

O ponto de viragem sucedeu numa interação com o público. Engodado por um comentário de uma mulher de fartos seios e com um sorriso carregadinho de luxúria, abalançou-se inocentemente para uma deixa achavascada que lhe valeu o silêncio sepulcral da sala. És muito interessante, disse ela entre piadas, guilhotinando o silêncio. Aproveitando o comentário, o humorista lançou-se barbaramente à presa: “É em mim que pensas quando estás sozinha no quarto a tocar uma guitarrada de clitóris? Com que então o desejo armado em ventríloquo dos teus dedos”. Arrepia ver tanta estupidez e tanta falta de timing concentrada numa única frase; a segunda, convenhamos, ainda escapa. Suou adverbiosamente tentando reparar o sobressalto de braguilha, porém o mal estava feito.
A postura alterou-se de chofre. O passeio sem falhas no palco deu lugar a um manquejar próprio de putinho com sapatinhos de croché. 

Tudo se desconjunta ao som do apupo e da crítica inflamada, por mais incisiva que fosse a piada, era incapaz de pôr cobro ao chamejar daquele vasto incêndio. O “sai do palco” gritado a mil e a uma goelas erigira uma pira na qual ele seria consumido até ao esquecimento. 

Apagadas as labaredas, arruinado o palco, silenciada a cólera, cada algoz à paisana voltara à sua vidinha e aos ódios miudinhos.

 

ódio miudinho


Roberto Gamito

22.06.22

Estava eu no tiro aos patos com a minha espingarda fictícia, matando pelo menos uma dúzia, dado que os patos, ao contrários dos homens, são incapazes de distinguir a realidade do humor quando comecei a pensar no almoço. O mais das vezes, segue-se à sopa um prato de carne, e à carne uma sobremesa. A preguiça intelectual, prima sedentária da poesia, é o ofício de sintetizar o mundo às três pancadas, volta e meia poeticamente. Que este menino o consiga com aparente facilidade sem pactos demoníacos não esconde a labuta incansável para aperfeiçoar a mão cantante. 

Longe de transmitir factos, isso deixo para quem não sabe, estorvo o clima assim-assim aumentando a tensão, perturbando as palavras moribundas a toque de bordoada e, em calhando, enfureço os arquivistas de lugares-comuns. Cada palavra é cuidadosa e caseiramente escolhida de entre os mais potentes venenos. Fora com os bálsamos! As perífrases, distantes de serem diluições, são, além de exercícios de estilo, manobras de diversão. É a caça no seu melhor. Imune a uma certa gama de bacoradas, transmudo com entusiasmo os disparates em voga cuspidos pelos radicais sazonais em belos nacos de prosa. É hora de dar ao dente, diz o lobo mau.  

A envergadura do artista mede-se pelo seu apetite. Nunca se conformar com migalhas, sejam elas oriundas de bolos ou de gratificação momentânea, exige uma espécie de coragem na defesa de uma causa impopular. A irrelevância. A arte é a activista da irrelevância. Saúdo escritores que, apesar virarem costas ao espírito da época, batendo-se na batalha mais desigual de todas, um contra ao mundo, viram a vitória chegar postumamente. 

Assisti com a alma de cronista a uma procissão de medíocres. Emplumados graças aos ecos, voavam rasteiramente cacarejando nas ruas mais movimentadas dos lugares-comuns. Tranquilizou-me que, apesar de tudo, ainda havia poetas cujo labor era armadilhar palavras ontem inofensivas de pólvora. Um dia a minha cólera rebentar-vos-á a língua, ego, o eu e ensinar-vos-á o que é um Homem. Por isso, sobrevivo. A ideia, que aos poucos ia sendo demonizada pelos meios de comunicação, entrará um dia no vosso castelo de cartas qual bárbaro com o machado incendiado e reduzirá as vossas certezas a cinzas. Numa era despojada de poetas e deuses, o objectivo não é a verdade, é o assassínio.

Para o observador ingénuo, a homogeneidade é sinónimo de paz. O ideal é começar lento, descontraidamente e com agenda em branco, exibir umas trivialidades numa língua coxa e servil e preparar-nos para desarrolhar o bicho que há em nós. O estalo da rolha será como que uma guilhotina a abater-se sobre os papagaios. Desse silêncio que se segue ao inesperado hei-de erigir a minha obra, sorrirá o poeta. Eu canto a dinamite.

 

Canto o Dinamite


Roberto Gamito

21.06.22

Carne!, que bela palavra — melhor só saboreando cada sílaba apoeticamente, que é como quem diz, no prato ou no pão. Deixada à sua própria sorte num universo sem Deus nem acólitos da chicha, foi perdendo envergadura e a pouco e pouco foi relegada para o escaninho dos diálogos. Certamente é esse hábito de procurar a luz (leiam virtude se não quiserem recuar tanto) em sítios  insuspeitos — essa obsessão com a pureza e a genealogia dos actos que nos empobreceu o prato. Caso fosse amigo das saladas, e os meus ídolos mais saudáveis e pródigos em desculpas, e entoasse o canto desafinado, entornando-o sobre os frágeis carnívoros, os quais, banqueteando-se sem vontade nesse rodízio de explicações enobrecedoras, tais como, o meio ambiente isto, os animais aquilo, coisas que lhe sabem ao mesmo, frases sem sal incapazes de espicaçar a gula.

À medida que o palco da carne foi sendo vandalizado e surripiado pelos mongóis das couves, e a responsabilidade se transfigurou numa deidade vingativa e tonitruante, os amantes do churrasco foram estigmatizados, pelo que o acto de nos passearmos de tronco nu com uma bejeca à volta do barbecue pode estar votado à extinção. A indústria da culpa cilindrou mais um inocente: o amante da chicha.
Contudo, os devotos da carne impacientam-se em guetos, provavelmente engendrando uma teoria capaz de ombrear com a das verduras— até hoje sem sucesso. Longa vida à dinastia das saladas. Resta-nos esperar pelo Evangelho da Febra.

Invadir o círculo encantado dos paladinos das verduras e resgatar um pouco de razoabilidade não é tarefa fácil. A cólera catapultada desses seres de paz, assim diz a brochura, é inesperada e inesgotável. Os vegans vociferantes espezinham qualquer um que tenha a má decisão de levar uma entremeada à boca. Como diz o escritor, cada passada é um acto de tomar posse, as solas rangem de impaciência. Os rodízios metamorfosear-se-ão em casas de sopas.
Citando outro ilustre, é necessário uivar com os lobos, acrescento da minha lavra, improvisar a nossa animalidade enquanto palitamos os dentes e damos aos restos a oportunidade de ingressar no estômago. A tensão entre vegans e amantes da carne é, à falta de melhor termo, um afastamento da mensagem cristã. Onde antes havia uma maçã interdita agora há uma entremeada. Assim estamos de regresso à infância: quando os crescidos nos interditavam as vitrines apinhadas nas pastelarias: “isto não, nem aquilo nem nada do que está exposto, os bolos fazem mal à saúde, ou pedes um bagaço ou estás calado”, eis como se trabalha no Baixo Alentejo. 

Cabe-me a mim, enquanto historiador cujo labor é coleccionar os cumes da estupidez humana, citar um momento alto das cabecinhas contemporâneas, as quais atafulham as redes sociais com ecos estropiados. "Não se deve brincar com o veganismo." Hoje, para ganhar o favor dos críticos de pacotilha, devemos evitar fazer algo bonito do domínio do humor e baixar orelhas a tudo e todos. Felizmente, não sou daqui, sou turista neste século arruinado. Quando o pensamento e as ideias evaporam, como inevitavelmente acontece quando o eco se torna rei e senhor, o conhecimento e o pensamento é substituído por uma cultura de pechisbeque. Somos filhos do urinol, mas calma lá: ainda não joguei a toalha ao chão; a arte está morta, mas só descanso quando a ressuscitar, nem que para isso tenha de recorrer ao chapadão. À partida, isso parece difícil, porém é por aí o caminho do inédito. Nestes temas, o falso intelectual convida-nos à crucificação de molde a gerar a sua auto-ilusão, abatidos pelo linchamento, os comediantes são a bateria viva do seu mundo de fantasia. Chega de ver o século do alto, vamos lá ao humor. 

Migremos para este cenário: uma mesa rodeada em princípio por portugueses (1) sob a qual jaz um cão sonolento. Saliente-se um detalhe crucial: são portugueses vegans. Estão a sorrir e a dialogar ao som de dentadas nos vegetais— que selvagens, pensarão os amantes da febra, e com razão. Outro detalhe: o cão foi recentemente adoptado por um dos elementos da mesa, ou seja, não está ciente dos costumes dos sacerdotes dos legumes. Entretanto, cai uma cena da mesa. O cão desperta da sua vigia sonolenta, entusiasma-se e de seguida descobre que é só um bocado de repolho. Foda-se, que vida de cão (2), cogita o patudo (3), para isso tinham-me deixado na rua. Suspeito que, após a viver este inferno, que é ouvir uma coisa a cair da mesa vezes sem conta e dar-se conta que são legumes, há cães a apanhar depressões profundas.
Eu não merecia isto, cogita o canídeo, pensava que éramos os melhores amigos. Sejamos humanos, comamos animais — tantos animais quanto pudermos — para cumprir o propósito de fazer os nossos cães felizes. 

Como se isto não bastasse, os alimentos estão a perder sabor. O zénite deste desconsolo é comer um belo bife divorciado do seu sabor num prato sem alegria e harmonia no tocante às cores. Há designers que têm AVC só de olhar para a combinação de cores de certos pratos. 

Tal desarmonia no prato revela um profundo ódio ao glutão, o qual é incapaz de ignorar o ideal de beleza. Mandamos vir um prato cujo intuito é nos recordar o Nascimento de Vénus de Botticelli e apresentam-nos uma Guernica. É assim que as depressões aparecem. Mas onde mora o problema, perguntam vocês com a pança a dar horas. 

O mal disto tudo reside nos restaurantes gourmet, melhor dizendo, a tentativa de imitação por parte de restaurantes modestos. O empratamento que é artístico no gourmet é, no estaminé modesto, um terreno no qual foi despejado entulho. Se os olhos também comem, e daí que faça questão de armar a puta numa cabana gourmet e sair de lá com um olho roxo para não envergonhar o ditado, é igualmente verdade que, alguns restaurantes, ganhávamos mais se comêssemos de olhos vendados. O empregado de mesa chega-nos com uma tragédia no centro do prato e pensamos: "este prato não é resposta aos meus problemas de auto-estima". Quero comida capaz de transformar o mais ferrenho sedentário numa lebre turista. Regressemos aos fanáticos das sopas. Nunca viajei entre colheradas no caldo verde; todavia já me senti um Fernão de Magalhães num rodízio de carne. Os habitantes deste século dotados de horror ao naco, cuja labuta é injectar vergonha nos carnívoros, não podem descartar este lado: a jornada. Quando ferro o dente no naco, sinto-me a passear nos versos da Odisseia de Homero enquanto trinco e arroto poeticamente: “Pénelope, já vou, deixa-me só comer mais uma dose de picanha”. 

Apontemos o nosso cérebro enfezado para o restaurante gourmet. O que é aquilo? Eis a pergunta que fazemos diante de um quadro de Hieronymus Bosch ou de uma pratada sofisticada. Consintam que seja possuído pelo senhor Eça de Queiroz. Eis-me preparado para descrever o prato: no centro do prato jaz um objecto não identificado, que às vezes não é carne nem é peixe, e outras ambas, coberto de várias camadas de sofisticação e barroquismos, a saber: molhangas compósitas, caramba, nunca é um molho que caiba numa palavra, do seu nome não podemos esperar menos que um Homem Sem Qualidades de Musil; o cadáver incógnito é polvilhado por ervas que, não contentes com o seu nome original, são rebaptizadas como se fossem um nobre. Não é suficiente nomear a erva, é preciso acrescentar os mil apelidos, o seu nome em latim, a sua origem, a hora em que foi colhida. Calma, eu vim para comer, não sou médico de família, não me atravanque a cabeça com as suas dores. O prato parece uma mulher enfarpelada para ir a um casamento — enverga um penteado só para aquele dia. 

Nunca fui a um restaurante gourmet por vontade própria, sou gordo e tenho outras necessidades, mas há um pormenor que merece ser abordado. 

Eu, como outros indivíduos mais desconfiados, tenho medo que as ervas me firam as tripas. Como tal, caso me apanhe nessa situação, irei encetar uma operação delicada de modo a remover essa bagunça daquilo que, a meu ver, é comestível — uma migalha. Começo a suar e digo: “bem, vamos lá avançar para uma cirurgia delicada.” Objectivo: remover com segurança a chicha desses escombros barrocos.

Se nos tirarem a carne, tirar-nos-ão o lado social. Falo por mim, só socializo porque vou comer carne. Não me vão arrancar do sofá se o jantar for alcaparras e alcachofras. Resido neste corpo vai para três décadas, a contragosto, as rendas estão caríssimas, e não posso escapar às obrigações que a gula me impõe. Não ignoro que vivemos numa era em que a maçã é fluída, é carne, peixe e o mais. Se fosse hoje, Eva teria sido expulsa aquando da primeira trinca na entremeada. Disse-te para comeres a puta da maçã, Eva, grita Deus, era a única coisa que podias comer e tu não me deste ouvidos. Eu como aquilo que me faz salivar, retruca a Eva. Então come-me, brame o autor desta crónica.

 

  1. Reza a lenda que os nobres britânicos, fartos da caça à raposa, arranjaram um método de caçar portugueses. Punham uma mesa farta de acepipes no mato e era vê-los, aos tugas, a sair aos pinotes dos arbustos. 
  2. Isto não é ficção, é a tradução dos seus latidos. Tirei um workshop de fabulista na Golegã e encontro-me certificado para entender profissionalmente qualquer bicho doméstico. O próximo passo será entender os selvagens para que, de uma vez por todas, perceba a razão pela qual os bichos buzinam assim que o sinal verde do semáforo cai. 

  3. A primeira vez — e deus queira a última — que escrevo patudo. 

 

comam carne


Roberto Gamito

20.06.22

O tédio era tão grande que parecia afogar-me naquela sala de espera. O tempo começara a esgotar-se, vazio, comecei a tremer como uma casca coreografada por um sismo mínimo, incapaz de assentar arraiais nas gordas dos jornais. O peixe cozido estava agora confeccionado, e eu, a sós com a minha vida, erigia monstros entre garfadas. Quando conseguires sossegar a mente a esse respeito, sussurrou a morte, vem ter comigo para falarmos.
Abandonei-me a fantasias grandiosas enquanto no chão o cerco das migalhas liliputianas dinamitava os meus sonhos um por um.
Lá longe, os bulldozers labutavam dia e noite nos terrenos da memória.
Arrependo-me de ter suspirado, não queria fazê-la cair numa esparrela. Nas prateleiras atafulhadas de bibelôs, uma ou outra fotografia exibindo o lado empoeirado da biografia.
Embora a situação lhe pareça nova, cogita o narrador, a verdade é que se repetira vezes de mais sem que os resultados tenham sido espectaculares. A Gigantomaquia no interior de cada artista. Não adianta, disse alguém cujo nome foi devorado pelo tempo. Eu disse-lhe que ela estava a falar de mim como se carpisse afoitamente um defunto. Em bom rigor, permanecia vivo.
Depois de o ter por perto, o calor fugia-me das mãos, retruquei pausadamente.
Um enxame de rotas alternativas voava à volta da minha cabeça incendiada. Abriria as janelas para arejar a casa até que o cheiro da morte desaparecesse. Enfureci-me, sentindo que o canário que invadira a minha mina me roubara os segredos.
De vez em quando vai dando notícias, murmurou o canário; não sou jornalista, ó nome depenado pela memória.
 

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Roberto Gamito

09.06.22

"Não é o homem que cai que ri da sua própria queda, a não ser que seja um filósofo, um homem que haja adquirido, por hábito, a força de se desdobrar rapidamente e de assistir desinteressado aos fenómenos do seu eu."
- Baudelaire
 
Permita-se-me uma achega que me servirá para mesclar algumas coisas que, na clandestinidade, tenho tentado irmanar.
Vou fazê-lo muito de passagem e por conseguinte não estranhem os saltos de raciocínio.
Partilho da ideia de Baudelaire, da proximidade da comédia com a filosofia. O comediante, tal como o filósofo, é aquele que começa a questionar exactamente onde os demais adquiriram as suas certezas. Segundo Baudelaire, e para outros antes dele, o riso tem o seu quê de satânico. Os comediantes são, empregando uma expressão sua, Satãs em flor. O comediante é uma espécie de agrimensor que tenta decidir, pelo seu próprio pé, qual é o território do bem e do mal. Ora é um trabalho que, a ser bem feito, carrega os seus perigos. A dose faz o veneno, e o comediante quer sempre mais.

Outra ajuda de Baudelaire: "O riso é essencialmente infinito, é sinal de uma grandeza infinita e ao mesmo tempo de uma miséria infinita. É do choque permanente entre este dois infinitos que se solta o riso." Daí as oscilações de humor — perdoem-me a simplificação — características de um humorista. Ninguém consegue ficar imune a tamanha amplitude.
Outra coisa que os comentadores de porcelana se esquecem quando tocam no assunto é a natureza mais funda da arte. A comédia pode ser somente — e tanto universo que carrega este somente — um animal ferido a tentar sobreviver. Opera com o medo, a hipótese possível de redenção. E isso pode ser projectado para o medo em si, ou para algo totalmente distinto.
Eu clarifico: um comediante carrega um medo absurdo de morrer de cancro, então tenta parir piadas sobre esse assunto para tentar a sua vitória de Pirro. O comediante não ignora que essas vitórias são infinitesimais. Nunca vencerá a morte, que tanto o amedronta, nunca vencerá os seus medos, nunca vencerá nada. Mas isso não o impede de experimentar tudo o que estiver ao seu alcance para obter essas "vitórias fictícias" sobre a morte. Pode, como atrás mencionei, ter medo de morrer, e projectar esse medo em piadas sobre cadeiras; o medo estará presente na fúria e no olhar com que debita a piada, por exemplo. A sua relação com o medo move-se nos meandros da piada aparentemente inócua. O riso é a libertação da sua cólera e do seu sofrimento. Como a dor não passa, precisará sempre de mais e mais risos.

Façamos agora aqui uma pequena ponte, pois é de suicídio que iremos falar. E sim, a frase anterior está envernizada humoristicamente, pois esta é a forma de abrandar o poder da morte.
O suicídio, no tocante a quem procura o riso no outro, frise-se procura o riso no outro, é quando o laracheador se dá conta do exercício inútil que é tentar a redenção através desse método. Observem a recorrência do verbo tentar. É uma tentativa perpétua. De se livrar da dor — particularmente a depressão — que é invencível. Nunca é extinta, quando muito adormece.
Faça o que fizer, continuará o mesmo. Quando esta ideia lhe surge clara na mente, então, meus amigos, é normalmente o fim.
Mas regressemos ao primeiro excerto.

O desdobramento — uma espécie de projecção astral, para piscar o olho a quem viu o Doctor Strange — é só uma forma de entre muitas formas de ver, de comunicar com aquilo que está a acontecer. Há o perigo de nos afastarmos tanto que doravante tudo nos parecerá igual. É nas imediações do acontecimento que podemos aceder aos detalhes. Longe, por si só, não tem grande valor. É um artifício usado em metaconsiderações quando se pretende discorrer de um assunto de uma forma que ofereça menos propostas de retaliação. Então cria-se um assunto sobre o assunto, e assim sucessivamente, dependendo do medo do comentador.
Esse distanciamento barroco, curioso exercício de estilo, é a forma natural de exibir uma erudição postiça, muito comum nos dias que correm. É possível pairar bem alto sobre um assunto, qual falcão, todavia tem de chegar o momento em que o falcão inicia a queda vertiginosa sobre a presa — aquilo que realmente interessa. Ora ver de fora só tem sentido se houver a intenção de voltar a entrar no circo — naquilo que lhe causou uma perturbação — com novas abordagens, novas ideias, novo fôlego.
E mais: isto — a comédia e a filosofia — dificilmente acaba no eu.

É mais o que está para lá do eu. Tal propensão pode gerar um cardápio de leis só aplicáveis ao seu eu, todavia desajustadas ao mundo real. Pode igualmente embeiçar-se pelo seu eu — ei-lo, o mundo polido dos Narcisos.
A rapidez com que o realiza pode ser igualmente problemática. Há que deixar o veneno actuar, se quiserem realmente arrepiar o tecido da realidade. A não ser que seja só um comediante ou filósofo de superfície. É preciso deixar que o mundo entre em nós, que se entranhe. E para tal necessitamos de tempo. Daí o estado actual da comédia, por exemplo. Não pensa, reage, mas isso são outros quinhentos. O olhar desinteressado não é tão benigno como se afigura à primeira vista. À medida que o tempo corre, se o comediante se aperfeiçoar nessa forma de olhar o mundo, dar-se-á conta que tudo é igual, sem sabor, sem cheiro, que nada lhe suscita interesse. Outro itinerário para alcançar o suicídio.
Parece que Baudelaire não leu o que escrevinhou. Noutra altura escreveu que a arte, a ser arte, tem de ser parcial.
Assim já nos entendemos, senhor B. E só nos podemos comprometer com o amor. Quiçá por aí dê para o comediante se esquivar à depressão e ao suicídio. Vale a pena tentar.

O compromisso eterno com aquilo que nos promete a salvação.
Escrever como se cada frase tivesse o poder de mudar o mundo. E insistir, insistir até partir os braços e ficar afónico.
Volta e meia desdobramo-nos até à loucura, e somos o coliseu, um homem inerme a lutar com a fera, o público, cada elemento com as suas nuances, o imperador. Somos uma legião, cada um a lidar de forma distinta com a morte. Num só instante podemos morrer, aplaudir, rir, matar, sofrer. Essa é a natureza do combate interior. O Homem é múltiplo. Mesmo que o esventres até ao átomo, nada saberás sobre ele, não sabes os seus apeadeiros da queda, que lutas travou, o seu portefólio de derrotas. Nunca conhecerás um homem —
mulher — a não ser que a ames. Nunca conhecerás o que é a comédia — a filosofia — a não ser que a ames. O amor, esse, deve ser o ponto de partida para tudo. O único dogma. A tua Ítaca, se preferires. Quando se sentires perdido, tenta regressar.

Mas calma, não se levem demasiado a sério, somos todos personagens risíveis. Soa estranho, não é?

Humorista, o Satã em flor

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