Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

04.12.20

Nas redes sociais, reflexo magnificado do mundo palpável, há lugar para gritarias que nunca cessam, linchamentos por causa de migalhas, alianças de anos que terminam por causa de, espante-se, mal-entendidos. A velocidade galopante é terreno fértil para erros de leitura. Não há tempo para respirar, é cada vez mais uma vida em apneia. Aqui estás seguro, aqui podes respirar à vontade é cada vez mais uma ideia de museu. Esta deixa proporcionava-nos, em tempos idos, um momento para revelar uma série de feridas e cicatrizes. Em correndo bem, saíamos robustecidos dessa conversa. Parávamos, abríamos o coração, ouvíamos, pensávamos, reerguíamo-nos. Actualmente, as paragens destinadas à serenidade e à reflexão são entendidas como grãos na engrenagem, devem ser retiradas o quanto antes. A máxima deste século: o atrito deve ser descartado a todo o custo. Parar para pensar será, dentro pouco tempo, demonizado. Os dataístas já o previram quando afirmaram que o pensamento foi apenas uma etapa no percurso do Homem.

Há também os aceleracionistas, autênticos paladinos da vertigem.
Mal pronunciamos uma informação, começamos a sentir-nos desactualizados. Se não ficar para trás, hei-de escrever sobre eles um dia destes. Acrescente-se os xenofeministas, para quem a natureza foi apenas um apeadeiro. Em parlapié de taberneiro, devemos deixar-nos de merdas e abraçar a tecnologia de uma vez por todas. O pós-humanismo ao virar da esquina. Finalmente aquela ideia da qual ninguém queria falar está a ganhar corpo: tudo o que é humano atrasa-nos.

Desgraçadamente, livrarmo-nos da fricção do pensamento só nos torna mais coléricos. Cada um de nós transporta ofensas que, ao não serem verbalizadas ou sublimadas em arte, se vão precipitando para os terrenos da ilegibilidade. Eis-nos chegados à cólera, terra de todos os desenlaces, província vedada ao diálogo, país da catástrofe, do sangue.

Parar para respirar proporciona a oportunidade de levar a cabo algo muito raro — nos padrões de hoje, impensável —: criticar sem raiva.

À nossa volta, o ambiente é tenso e desagradável. Estaremos nós a assistir aos últimos dias do pensamento?

 

acelracionista, Roberto Gamito

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

Sigam-me

Partilhem o blog