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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

15.04.22

Apraz-me saber que existo como um ponto que nunca conhecerá o Big Bang, sem cara nem humanidade, no olho aéreo da objectiva. O ponto atravessa a rua. Comportamento ambíguo: pode tratar-se de um cão, de um gato ou de um animal vertical. O bicho entra no carro com vista a conduzi-lo. Pode ser um urso treinado para o efeito, há vídeos e memes que atestam a possibilidade deste cenário. Pelo sim, pelo não, disparar, capturar a imagem. Eis-nos engaiolados num cárcere de píxeis.
À margem do inferno quotidiano dos vivos, há quem entre galões e bolachas decida, plantado num deserto mais ou menos metafórico, o destino dos fantoches. O Homem dos Robertos, dotado com a sua mão de mil dedos, paira sobre o nevoeiro.
Protagonista ou espectador do diálogo? Perante um muito tentador apetite de engrossar o caldo do ruído com as patacoadas mais em voga, o homem contemporâneo, filho de um sem-número de ecos, pergunta a si próprio: para quê isto tudo? Não são os canalhas que vivem melhor? Moral grega, elogio ao senhor; moral cristã, elogio ao desgraçado. Depenado pela economia, com uma mão à frente e outra atrás, qual coreografia de TikTok, o homem sorri: é feliz quem não precisa de nada.
Do outro lado da barricada em chamas, o padre aconselha: não deves desperdiçar os teus talentos em cobiçar essa constelação de putéfias. E o amor?, pergunta o homem. O padre, corrompendo o dito de Santo Agostinho, retruca: só sei o que é o amor quando não mo perguntam.
Virei costas a Deus, giro numa dança de lâminas para que Ele nunca Se aproxime aproveitando um ângulo morto, incendiei a vida eterna e agarrei-me com unhas e dentes à vida terrena. Como escreveu o filósofo bigodudo, há que querer que esta vida, e não outra, se eternize.
Deus está morto, eis o que vemos quando olhamos para o momumental cadáver. Sem o oxigénio da crença, o grande cachalote encalhado e desinchado de importância numa margem lá para os lados do passado. Uma boca de proporções bíblicas da qual saem pequenos projectos de demónios, quais parasitas que abandonam os restos mortais das baleias à procura de outro hospedeiro. Inspirados em Wittgenstein, perseguindo a ideia segundo a qual, para se poder falar do mundo é necessário sair dele e contemplá-lo como um todo, serão mais tarde aclamados biógrafos do Númen. Jonas bem tentou explicar a situação à sombra da aboboreira, mas o Altíssimo não passou cartão.
Tornando o Eterno Retorno mais mastigável, essa ideia que passa de mão em mão desde os tempos de Zenão, Arash Arjomandi aconselha-nos: só deve realizar os actos que gostassem de ser autor repetidas (talvez infinitas) vezes. Por conseguinte, mato-me a cada verso, sou cuspe de carne vomitado do grande cetáceo encalhado. Sou faúlha possessa abrindo crateras modestas na folha.
Do alto sou um ponto a abater. O acto de observação obnubila a observação. Abatido o humorista, sobram-nos as palavras de Bergson: não há forma, já que a forma é imóvel e a realidade é movimento. O que é real é a alteração contínua da forma.
Ao matar a comédia, abate-se equivocamente o inocente e é-nos contada a última piada: "esta tecnologia é um testemunho neutro, livre das imperfeições e distorções da memória humana."
Haverá sempre um homem atrás da câmara: resta saber se está vivo ou morto.
 

O Destino dos fantoches, Roberto Gamito


Roberto Gamito

10.01.22

De qualquer perspectiva imparcial, tenha ou não existido com poderes dignos de figurar nos filmes da Marvel, Jesus é reconhecido por crentes e incréus como tipo porreiro. Jesus, como mensageiro do amor, tornou-se uma figura excepcionalmente popular e hoje é o ponta-de-lança da religião com mais adeptos.

Versátil, pronto a curar leprosos e erigir pequenos e grandes Lázaros de ataúdes, Cristo foi amealhando simpatias graças à cinética dos alegados milagres. Nos bastidores desses episódios — e isso fá-lo palpavelmente humano — foi enceleirando detractores mais ou menos subtis.

Para citar Lotário di Segni, isto é, o Papa Inocêncio III, todos os seres humanos são Job. É uma bela ponte entre o filho de Deus e o Homem. Dou-me conta da ousadia. Discorremos sobre Jesus, como se não houvesse séculos a separar-nos. Eis-me retratista do quase impossível.

Ingressarmos nas questões de Deus constitui um laboratório no qual, a partir de uma vaga inquietude, se destilam várias espécies de gritos. Para lá de todos os precipícios, encontra-se uma vontade primitiva de dar nome a essa luz que não cessa.
A meio da queda, com o auxílio in extremis do Altíssimo, o Homem adquire asas que o afastam, por momentos, da morte. Até quando?, questiona o mais impaciente.

Segundo o crente pacificado com o silêncio, encontrarmo-nos com Deus é um relaxamento face à ideia de morte. Para lá de toda a trivialidade, para lá de todas as cacofonias que enformam o nosso parlapié de futuro defunto, há uma migalha com ânsias de germinar, hábil em iluminar o nosso humilde caminho.

Em jeito de súmula, o Homem aproxima-se de Deus porque procura domesticar o que lhe foge. O problema não reside em acreditar ou não acreditar, mas sim na consequência nefasta do narcisismo galopante. Nas palavras de Peter Sloterdijk, ao deixar de pôr Deus acima de todas as coisas, o Homem ingénuo ou ganancioso, semelhantemente a Satã, escolhe-se a si mesmo como o seu objecto de eleição. E eis a queda.

Abandonemos a esfera da queda, quase não exige esforço desmontar a pose ficticiamente vertical do homem contemporâneo. Depois de Deus, a verticalidade é uma fabricação suspeita, engendrada por hipócritas que se pavoneiam em frente a uma turba de ingénuos.

Detenhamo-nos por um momento em histórias paralelas, uma das quais engendradas por Judeus. Há uma história apócrifa — que é como quem diz, rumor — segundo a qual Jesus é filho de um soldado chamado Pantera — belo nome —, resultando daí que Maria era uma espécie de prostituta disponível nas pausas dos eventos bélicos.

Só há duas formas de estar na vida, dois estilos diametralmente opostos: 1) passar por tudo, 2) prescindir de tudo.

O jejum do coração e do cérebro, quanto a mim, não me parece escolha saudável. Afastarmo-nos cinicamente das coisas não me parece a coreografia certa — é antes uma arma romba da sapiência contemporânea. O cínico olímpico cai na esparrela de florear a seguinte ideia: tudo é outra coisa, tudo o que vejo é pretexto para outra coisa. Têm predilecção por polemizar tudo aquilo que tocam. Afadigam-se na teorização da jornada e do cerco. Fazem de tudo para não dar um passo em frente. O cinismo, de facto, é porta-voz da ruína interior. Entronizam-se venenos a fim de dar consistência ao nosso desnorte, eis a criatividade pós-queda.

A palavra, doença ou terapia tartamudeada por outro, encontra-se hoje numa situação frágil. Tanto pode repelir como aproximar dois estrangeiros. Gaguejada não pode constituir promessa alguma, ao passo que se vier categórica é-nos suspeita.

A paixão, o amor, amizade, por assim dizer, nessas províncias de difícil acesso ao homem contemporâneo, carecem de itinerários fixos. Falar é importante, abrirmos o coração é indispensável, pôr o miolo em canção é necessário. Tudo isto para andar às voltas do dito Agostiniano: “A recompensa da confissão é que quem diz a verdade chega à verdade.” Longe do domínio senhorial do umbigo, habitar essa verdade é passar a dor a limpo, purificá-la e fazer as pazes com o passado.

Mas estaremos nós a pensar bem? Deixarmo-nos inundar pelas palavras de Deus conduzir-nos-á a um sítio melhor? A tensão intelectual associada à resposta começa a desaparecer, dado que não pode ser articulada em palavras. Mas regressemos a Jesus, será ele um representante imaculado do Amor?

Com efeito, Jesus foi alvo, ao longo das eras, de sucessivos retoques enaltecedores claramente tendenciosos. Fizemo-lo crescer em luz com os restos da realidade e exagerámo-lo como quem não tem escapatória senão a hipérbole.

Jesus. (João 2:4)
“O que tem isso que ver contigo, mulher?”, deixa com a qual cortou a palavra à Mãe, Maria, nas bodas de Caná.
Não me parece que tenha ficado muito bem na fotografia.

De um ponto de vista embriagador, uma das questões mais decisivas, presente no livro de Lucas. Outra vez Jesus:
“Julgais que vim para estabelecer a paz na terra?”

E por último, não me recordo o livro:
“Se alguém vem ter comigo e não odeia o seu pai, a sua mãe, a sua mulher, os seus filhos, os seus irmãos, as suas irmãs e até a sua própria vida, não consegue ser meu discípulo.”
Dá ideia de que o amor ficou para segundo plano.

Neste ponto, a distância temporal é mãe de todas as interpretações. O Homem lá foi tentando suavizar a postura de Jesus com contratextos, porém a dúvida persiste. Em todo o caso, há sempre a hipótese de nos tornarmos outro. Com ou sem auxílio divino, a metamorfose continua alcançável.
“Em toda a parte se encontra um Jordão.”

Deus dissecado pelo depois, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

08.11.21

Sem feriados e sem milagres, Deus encontrava-se sozinho encasulado num ponto. Antes do Big Bang, antes de ser conhecido como o Criador, Deus era contorcionista. E poeta. Enquanto contorcionista, foi autor de uma proeza ímpar, só comparável com o hindu que treinou o seu elefante a esconder-se num porta-luvas de um Fiat Punto. Imaginem-se dobrados dentro de um ponto, sem luz nem diversões e sem margem para acariciar o maroto, durante um tempo inconcebível. É quase tão árduo como trabalhar em Portugal. Nesse estado até uma comichão pode derrotar um Deus.

Dessa altura, antes do Homem e da luz, chegou-nos este único fragmento.

Fomo-nos encerrando cada vez mais (Deus criara amigos imaginários para ter com quem conversar) na nossa acanhada existência, na secreta confiança de que, a dada altura — bastando para tal esperar pacientemente ou, por outra, acreditar na existência do Pai Natal — o mundo se nos há-de apresentar com um aspecto melhor e pejado de tascas com preços apetecíveis.

Comentário ao fragmento:
Mesmo na escuridão absoluta, Deus foi acometido por uma epifania. O que faz falta ao universo são tabernas. Em bom rigor, só há vida porque Deus necessitava de taberneiros. Cervejas e bifanas e um gajo é feliz. Aliás, se formos mais fundo, de que serve ser Deus se não podemos comer acepipes gostosos e molhar o bico numa jola? Sem isso, não andamos cá a fazer nada.

Nisto, ordenou que se fizesse luz — vejam bem o estilo do bicho, nem se digna a levantar para acendê-la, ordena. Porém recordou-se que não havia criado nada. Precisava de gerar, pelo menos, uma espécie de criaturas que vivessem ao rés dos interruptores à espera de uma ordem. Em tempos idos, quando os pais mandavam, as crianças eram obrigadas a ficar junto dos interruptores. Eram noites bem passadas, “ordeno que se faça luz” e a criança despertava para a sua tarefa, por regra aos saltinhos. Caso fosse desprovido de humor, tais acontecimentos seriam suficientes para Ele carbonizar os seres humanos; felizmente Deus está em toda a parte, excepto no twitter. Não é que não consiga lá estar, porém decidiu que a Sua saúde mental não tem preço.

Fez-se luz. No entanto, um efeito inesperado: cegueira. Teve eternidades às escuras e de um momento para o outro tudo se iluminou: parece que é parvo, o ser divino. Os olhos, habituados ao breu, não aguentaram a novidade. O acto irreflectido sai-lhe caro. Apesar da luz, estava condenado a viver num mundo que lhe recorda o início. É evidente, podia curar a cegueira num estalar de dedos, todavia a cegueira tinha um propósito: recordar-lhe do erro crasso. E além disso anda a monte porque lhe chegou a factura da EDP do Big Bang. Nem Deus, que pode tudo, tem dinheiro para custear a despesa. Há quem diga que tem vivido os últimos milhares de anos mascarado de Testemunha de Jeová. Jogada de génio, assim ninguém se aproximará d’Ele.

sem feriados e sem milagres

 


Roberto Gamito

05.07.21

Citando Camus, a última coisa que um artista deve sentir perante a sua arte é arrependimento.  

Presentemente, tendo ou não culpa, o artista, principalmente o mediático, sente-se na necessidade de ser perdoado ao mínimo sinal de que o céu vai desabar, profetiza em cada gota uma tempestade, em cada brisa um vendaval. Antes de cometer o crime, confesso já que sou culpado. A confissão e o perdão são duas coisas muito sérias, alcançadas amiúde a ferros, após a via sinuosa das agruras, no decorrer da qual nos confrontamos com toda a espécie de venenos e demónios. A voz da confissão, soterrada debaixo de inúmeras máscaras, é alcançável só a alguém de joelhos, alguém vergado e sem ego, só aí o Homem está em condições de se confessar. Daí que desconfie de todos os artistas que se confessam à queima-roupa, num estalar de dedos. Como o mundo obedece cada vez mais às leis do espectáculo, a confissão e o perdão seguem uma lógica performática. Aqui reside uma rugosidade que, se entendida com calma, desmonta a fanfarra vigente. A confissão e o perdão são de cariz solitário, reservado. Seja no confessionário com o padre, seja na marquesa com o psicanalista, quem disponibiliza a alma para ser dissecada precisa de criar uma espécie de ligação de confiança com quem o ouve. Tal leva tempo e, acrescente-se, é impossível de estabelecer quando, do outro lado, há um monstro de mil e um olhos pronto a julgar-nos e a apedrejar-nos ao mínimo mas. Logo, o ciclo culpa, confissão, perdão é um embuste. No fundo, quando alguém é apedrejado nas redes sociais não é senão a manifestação actualizada da nossa barbárie. O Homem adora e continuará a adorar ver o outro sofrer e inventará, a cada par de anos, uma nova de forma de o executar. O lado perverso disto tudo é que à superfície são anjos que pregam a empatia quando, no fundo, onde a verdade se acoita rugiente, são demónios ávidos de assistir ao desabamento do outro. 

Se o artista foi conduzido pela fome, não precisa de se arrepender. Fez o que fez porque não havia outra forma de o fazer. Essa fome guiá-lo-á no labirinto das suas obras e cabe aos outros, os vindouros, observar, mais ou menos atentos, porém, aconteça o que acontecer, nunca poderão fazer as vezes da estrela guia. Só o artista sabe o norte que procura. 

Esta loucura ascética de ir extirpando vocábulos do discurso por, alegadamente, possuírem cariz ofensivo, quando, paralelamente, o mundo está progressivamente mais sensível, conduzir-nos-á a um estádio pueril, onde os Homens só poderão comunicar através de onomatopeias. 

Deus está morto e de todo o lado surgem substitutos com o fito de ocupar o seu lugar. Não se iludam com a inofensiva polícia da linguagem, estamos diante daquilo que faz uma religião ser uma religião.   

Em torno dos seus dedos espetados com fervor inquisitório gravitam as noções de inocência e culpabilidade. A evangelização forçada ou a morte. Ao contrário de outras mais pacientes, a evangelização actual é inimiga da burocracia, num instante se decide a conversão ou a morte por ora virtual. Como que paira um perfume no ar, a noção arcaica de que todo o Homem é um criminoso que não se reconhece como tal, contrariando, sem medo de parecem patetas, um dos pilares da justiça. Círculos de legitimação que se auto-alimentam com festivais de elogios, rituais de purificação caducos que os legitimam a apedrejar os incautos, narcisos embriagados pela saraivada de palmadinhas nas costas. Em suma, proclamam culpado tudo aquilo que não aprovam. Só há duas facções: ou és favorável ou és hostil ao regime. Ou és bom ou és mau. Não há gradações. Escolhido o lado, não poderás voltar atrás. No século XXI a redenção foi abolida. As pessoas jamais poderão mudar.    

O artista está em vias de extinção. A morte da arte foi profetizada em todos os séculos, muitos equívocos, algumas ressurreições, mas parece-me que é desta. Como pode sobreviver neste universo de censura mascarada de liberdade um animal que refaz o mundo segundo o seu ponto de vista? Deveras complicado. Ou suicida-se ou transforma-se numa espécie de maldito, um animal clandestino a combater contra o mundo. Um combate votado ao fracasso, um pouco como a vida.

E aqui surge a figura do inocente. Se todos são culpados quem são os inocentes? Os inocentes são fabricados nos círculos de legitimação, nessa nova ordem eclesiástica onde, impacientes de nostalgia e impotentes perante o mundo, decidem sem o enguiço da razão lançar tudo à fogueira, bruxas, aspirantes a bruxas, livros, diálogo, enfim, retratos onde não saiam favorecidos.   

Os inocentes são figuras adoradas não pela sua pretensa inocência, mas porque são personagens planas. O inocente é o Homem definido pelo seu gesto. Sem mais delongas e interpretações labirínticas. O medo do outro fez com que esta nova religião forjasse o inocente. O inocente ocupou o lugar reservado a Deus. O medo do outro é combatido ficcionando um novo Eu. 

Citando uma vez mais Camus, o diálogo, relação entre duas pessoas, foi substituído pela propaganda ou pela polémica, que são duas formas de monólogo. Parece que o tempo não passou por nós, continuamos os mesmo bárbaros de sempre. Tanto fica ainda por dizer…

 

o artista e a religião do politicamente correcto, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

27.06.21

O único ser humano sem aspas que sobrevivera às vagas sucessivas de predadores está neste momento a editar a História da humanidade na sua cabeça. Suspiro, uma palavra antes da emenda, um e uma indícios, sementes de caminhos abortados.

Deus extinguiu-se num jogo de pirotecnia canhestro. Uns aplaudiram, outros assustaram-se. Houve até, vejam bem até onde vai a natureza humana, quem fizesse de conta que não aconteceu nada — o mais fácil. A noite pariu uma ninhada de cegos.

A estatura do gigante começava a dar mostras de querer definhar. Dizer o que se pensa é, antes de mais, um desperdício. Ademais, quem de entre nós saberá dizê-lo e, mais difícil, quem de entre nós está em condições de o ouvir.

Aterrando na mão, o beijo inicia o seu êxodo pela pele. Graças à imaginação, alcançar-me-á os lábios dentro de dois batimentos cardíacos, mais coisa, menos coisa.

É inútil medirmo-nos com coisas pequenas, cartografadas da cabeça aos pés, sem esquecer as entranhas. O fogo, esse, agiganta-se ao ouvir falar da minha fome. Poeta e fogo digladiam-se numa miríade de formas. Ambos peregrinam até à extinção enquanto se desdobram num chavascal de formas. Há quem afiance que o Homem pleno e o fogo homenageiam as metamorfoses plasmadas por Ovídio.

Sem ousadia não há pensamento. Não há passo em frente se a bipedia estiver cabisbaixa. O amor, seja ele um texto ou um deus, refugiou-se numa estória estrangeira. Hoje sou incapaz de o soletrar.

Não sei quantos eus dos que fui sendo passarão o crivo da memória. Ser legião é uma despesa inútil. Do muito o tempo faz pouco.

Reinvento a respiração onde o texto é mais lacónico. Venho ensinar-Vos a desistência; sentem-se e não se levantem por nada.
O discurso caudaloso é o primeiro indício da derrocada.

Ninharias empoladas pelos holofotes nada criteriosos.
As metáforas debandaram, esquivaram-se sem mapa nem norte ao jugo do literal. No pino do desespero, pariram um deserto íntimo — o que me sossega.
As gastas, as cheias de dedadas, refiro-me às metáforas convertidas ao literalismo, foram engaioladas como se fossem bichos sem asas. Vingar-vos-ei com a minha queda intraduzível.

O fogo combate-se com fogo. Tenho um inferno na gaveta, é tempo de o publicar. Usa a carne em tudo o que fazes. Põe a carne toda no assador. A bailarina faz dela — da carne — o que bem entende. Não esqueças de a rodar.

Consinto que os corpos encalhem na cama quando, no rescaldo da fornicação, a realidade nos doutrina chapada atrás de chapada.
Usou palavras que ninguém entendeu — Ele sim o estrangeiro.
Ele, o primeiro Meursault. Recordemo-nos do episódio em que Deus estava inclinado a chacinar o seu povo sem porquê. Moisés foi capaz de pôr cobro ao absurdo de Deus. Daí em diante, a lucidez — ou a razão — deixou de ser coisa que se peça.

Barricado nessa miragem, o estudioso de determinada bolha, diz que o mundo é um paraíso sem ângulos mortos. Disse isto, apesar das dúvidas. As penas e a cera escasseiam. Mesmo assim, urge simular outra espécie de Ícaro. Não tenho tempo para morrer, diz K., ao que R. responde, não demora nada. Num instante fazemos a festa.

Alguém soletrou o meu interior noutra língua, no outro lado do mundo. Eis outra espécie de efeito borboleta.
Eu, adianta outra personagem, venho cá para bombardear as sobras de Deus com versos burilados. Está bem, abelha, prossegue lá rumo ao leite e mel.

Foda-se, não estou em condições de ressuscitar ninguém, as palavras carecem de poder para tal.
Nós, os poucos sem tribo, contra o mundo. Resta-nos enlouquecer para equilibrar os números.

Deus está morto. Choca-me que continuem a malhar no cadáver como crianças à volta de uma pinhata. Feliz ou infelizmente, estamos completamente às escuras quanto à doçura do depois.

Não havendo outra anestesia que não a palavra, a agrimensora de lábios infernais percorre-me, metódica, a cicatriz da alma. A fronteira entre o eu palpável e os eus estilhaçados.
Não vás por aí, vais meter-te em sarilhos, comunica-me uma voz prenhe de lábia.

Desço ao fundo de mim mesmo na esperança de não encontrar ninguém conhecido. Nem aí, foda-se!, estou sozinho.
Ao menos ajudou-me a endireitar a prosa.

O Diabo entrou em mim com mandato de captura. Digo-Lhe que deus não está dentro de nós, mas Ele não acredita.

Vigio a minha respiração à procura de falhas. Sinto que posso morrer a qualquer momento. Foi no que deu andar a brincar os criadores.

O Dinheiro, há muito coroado divindade, intromete-se com a errata: Odiai-vos uns aos outros.

A bailarina cai nos abismos do desespero quando o nervosismo se apossa dela. Quem vem lá para me coreografar a carne? A dor, que pode fazer as vezes das musas na poesia, é uma tragédia na dança. Chega ao rés da bailarina a fim de lhe adicionar gestos vãos a uma dança ontem burilada.

Animal de asas magras. Por sorte, a língua é permeável aos ensinamentos do perfume. Enquanto gladiador, sou uma farsa — estou à mercê do tiquetaque.

Sem mestres, o coração aflito marcava o ritmo da prosa.
Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções.

Ninguém encontrava-se fascinado por aquilo que o homem acabara de erigir da página. Deus estava ali, diante dele, qual cachalote encalhado. Prossigo a dissecação sem maiúsculas. Imaginava-o maior, culpa das ficções, das lendas e dos livros. Esventrá-lo não é conhecê-lo. De seguida, deu ordem aos neurónios para desempacotar os futuros abortados do Homem de dentro do cadáver de Deus. Conseguiu salvar um punhado deles, mas isso teve um preço. Por mais que tente, não consegue livrar-se do cheiro nauseabundo de uma luz caída em desgraça.

Deus, o cachalote encalhado, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

10.03.21

É preciso respirar fundo e saltitar qual pardalinho despreocupado antes de ingressarmos na crónica. Prefiro pardalinho a pardal porque, ao proferi-lo, parece que estou a ouvir um pardal a esvoaçar.
A fim de evitar as fornicações da vida, as quais nos emboscam a cada esquina como se fôssemos a sua putinha, a fim de reprimir o nosso desnorte, e não subamos na hierarquia da loucura, é útil esboçar um sorriso que se eleve ao estatuto de pintura. Caso contrário estamos tramados. Não basta frequentar as casinhas onde são tecidas as patranhas. Não, nós devemos, no pino da ousadia, frequentar o suspiro de Deus de modo a perceber o que se acoita no estaleiro da luz. Em todo o caso, a cabeça do Homem é povoada de venenos. A solução é, tal como um monge faria neste caso, vigiar cada pensamento e usar roupas frescas de molde a arejar o penduricalho. Caso haja a possibilidade de procurar a iluminação a dois, que é como quem diz, enroscados simpaticamente enquanto nos despedimos de sentenças barrocas e nos agarramos aos sons animalescos, devemos laborar no sentido da salvação mútua.

Em correndo bem, supondo que há essa possibilidade, o sexo, se imbuído naquela atmosfera de perfumes que os poetas designam amor, é isso mesmo: laborar no sentido da salvação mútua. Terá escapado aos exegetas da luz esta interpretação, daí o desaconselhamento da fodanga. Preferiram, em vez disso, aconselhar a virgindade, elevando-a a patamar sacro e postular algo como: o virgem é o que há de mais parecido com Deus. Dito de outro modo, só na virgindade o Homem é parecido a Deus. Ao olhar superficialmente para o coito e ao conspurcarem-no com interditos, foram incapazes de ver o oceano de benefícios que a fornicação pode trazer ao animal vertical.

Mas de quem é a culpa? Primeiro que tudo, é preciso dizer que a traição pode ser entendida como vontade divina: uma necessidade incontrolável de nos perpetuarmos que impele os Homens a procriarem. Daí que, descoberta a traição, muita vezes não encontremos justificação. Aconteceu porque Deus assim o quis.

Também seria ingénuo dá minha parte patrocinar as palavras de Santo Agostinho a respeito de Eva. Depois, para o ajudar, criou a mulher. Não quero ser o arauto que vem estragar a festa da patranha, mas seria ajuizado se vos comunicasse que estamos diante de um abuso de linguagem. É mais complicar. A mulher complica. E isso não é bom nem mau, é o que é. A relação é a possibilidade de nos transcendermos. Se fosse uma ajuda sem atrito dificilmente cresceríamos. Bem, mas o que nos trouxe cá foi a Eva, essa sacana primeva.

Antes da queda não havia nascimento. Ora temos de agradecer à Eva, e à sacanice da cobra, o part-time de Lilith, primeira mulher de Adão, o facto de fornicarmos. Todavia com a fornicação veio também a morte. Lembrem-se: se não fosse a morte não fodiam; ambas estão ligadas e a Eva é responsável pelas duas.

Putéfia, pensam vocês precipitadamente. Peço-vos que ginastiquem o miolo a fim de receber com simpatia as próximas palavras. O que preferem? Ser imortais e nunca esfarelar o nabo ou dedilhar o marisco ou fazer isso tudo e mais algumas coisas obscenas lindas de se ver e bater as botas quando menos se espera? Acho que fomos agraciados com uma bela escolha. O sexo, quanto a mim, é superior à imortalidade. A Eva escolheu bem. Obrigado, Eva. O exemplo máximo da expressão: não há bela sem senão.

Porém, o assunto não fica encerrado, ainda temos Deus na equação. Deus, se quisesse, poderia, após a queda, fazer com que o casal procriasse sem relação sexual. Todavia optou pelo coito.

Aproveitemos para repescar a comparação de há pouco: Deus é semelhante ao virgem. Quem me diz a mim que Deus, omnipotente e cheio de ardis, embora virgem, não instalou órgãos genitais em Adão e Eva, incitando-os à marotice, porque queria ver algo que o animasse, farto que estava de ver flores e abelhas? Se sim, podemos estar diante do primeiro realizador de filmes pornográficos. E sim, a virgindade de Deus também explica a cólera do Antigo Testamento: tinha os colhões cheios.

Olhem-me o maroto-mor.

 

Eva, o Cume do Altruísmo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.12.20

O padre é, sem sombra de dúvidas, a melhor profissão do mundo. Ao contrário de um trabalho dito normal, no qual nos pedem para vergar a mola, é preciso levar a cabo uma coisa mesmo marada para se ser despedido. Na conjectura actual, temos emprego hoje e amanhã estamos na rua. A vida eclesiástica, por outro lado, parece-me prometedora para quem quer ter um emprego para toda a vida, coisa raríssima nos dias que correm. Não entendo por que razão os pais, os quais dão tanto valor à estabilidade emocional e económica dos filhos, não os aconselham mais nesse sentido.

Outra: nunca vêem o patrão — e o que isso implica, a saber: discussões, reuniões e discursos intermináveis sobre coisa nenhuma —, e, crescidos como são, excelsos leitores de linhas bonitas, não ignoram a alegria que é laborar nessas condições. Amiúde o patrão surge como uma figura geradora de atrito e gravidade. Espanta-me como é que nunca apanhei um padre a levitar.

O comum dos mortais, nos quais me incluo a contragosto, experiencia o que é ser padre, no máximo, uma vez por semana. Mesmo que quiséssemos, nunca conseguiríamos mentir sobre quão bela é a experiência de labutar na ausência de chefia. É como se nos fosse dada uma carta de alforria provisória. Andamos soltinhos pelos corredores como se fôssemos artistas de uma companhia de bailado. Até dá gosto ver.

O padre vive essa experiência continuamente. Trabalhar, na óptica do padre, é uma experiência enriquecedora e serena. Assim é fácil fazer a apologia do sofrimento quando se tem um trabalho que é um luxo.

Se Deus é Senhor, o padre é uma espécie de mordomo que nunca necessita de se preocupar com os caprichos do patrão. Faz festas — ainda que de duvidosa qualidade, sejamos sérios, a igreja, casa de Deus, podia ser usada para banquetes e festividades mais emocionantes —, e, para não parecer tão mal, fala do patrão garantindo aos convivas que Deus é sinónimo de amor. De vez em quando, pega na Bíblia, um género de calhamaço cheio de recados, e lê uma passagem ao calhas. É um ritual respeitável de molde a não se sentir tão culpado pela vida que granjeou.

Além disso, como se estas vantagens não fossem já numerosas e aliciantes, bebe vinho e come durante o trabalho. Quem, à excepção de um barman, se pode gabar do mesmo?
E aí reside a falsidade. O padre faz a apologia de uma vida regrada quando, diante do rebanho, leva uma vida de luxo.

 

Padre, a melhor profissão do mundo - Roberto Gamito

 

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Roberto Gamito

11.03.16

Os textos deste blog são escritos (se houver boa vontade da vossa parte concordarão comigo; suponho que, doravante, especulando sobre a evolução da nossa relação autor-leitor, estes nacos amorfos, estas talhadas de nada, progridam qualitativamente em matéria de disparate; e sim, criei este parênteses graúdo tão-só por pirraça) enquanto a inspiração não chega. É compreensível que se atrase, nunca esquecer que a inspiração é feminina. É um texto intersticial, um tapa-buracos, impressionantemente ambíguo que, com sorte e com a ajuda competente do acaso, há-de adquirir algo aparentado a uma forma, algo que culmine numa identificação, algo que incite os meninos a arreganhar as beiças. Não vale a pena tirar as manitas dos bolsos, está muito frio lá fora como diz a cantilena, e além disso, o ruído estorva-me; lá para o finalzinho do texto perceberão o porquê. Alhures convencionou-se que a Comédia, assim em maiúscula para meter cagaço, tem que ver com identificação; alegra-me sumamente perceber que a lógica de cortar as goelas ao jogral caso o jogral não mexa com as nossas referências não sofreu grandes mudanças. Nunca é de mais relembrar que a internet não é senão uma lâmina. Falar para o boneco, a menos que o boneco seja o Pinóquio, é sempre ridículo, salvo quem se dedica ao ventriloquismo, mas esses, ao contrário dos demais, enfrentam um ridículo que rende algum.

 

Extraordinário!, volvido um punhado maneirinho de linhas, ainda não foi, admitamo-lo, nada nitidamente dito. Se por acaso se deparar com algum episódio da sua vida enquanto calcorreia o texto com o olhar maroto enquanto pensa este indivíduo é um ser cujo cérebro foi substituído por um vazio inconspurcável, então, desculpe-me a franqueza, mas tem sérios problemas mentais. Recomendo-lhe um psiquiatra ou uma marretada nos dedos, dependendo se gosta ou não de comprimidos. Se forem como eu, escolhem a marreta: custo a engolir os ditos. E como ganho ficam com as mãos maiores. Que, se formos a ver bem, é uma coisa boa: funciona como engodo para aquelas mulheres que estimam o comprimento da sarda baseando-se na dimensão da mão.

 

Ainda estão aqui?, não tem de ser necessariamente aqui, um aqui vago, um aqui-aí, vocês sabem como a parvoíce funciona. Bom, se adentrarem no nevoeiro, encontrarão as minhas respostas a todas as grandes questões da Humanidade, como podem ver, nada de muito significativo, nada que possa encetar uma primeira página do Correio da Manhã. Prosseguindo, tenho muitas opiniões, a bem dizer, um pouco sobre tudo, tal qual um canal generalista. Feitas as contas, as opiniões anulam-se umas às outras e pouco se aproveita. Género rescaldo de uma pista de dança aquando o encerramento de uma discoteca. O refugo do refugo. O que ninguém quer. Escusado será dizer que me sinto assim todos os dias.
Deus desligou a omnipresença só porque já não conseguia lidar com o meu semblante taciturno. Foi isso ou o facto de estar muitas horas de pé, já estava a ficar com varizes na barba.

 

A vida é exageradamente difícil. Aqui devia entrar a piada, mas julgo que não faz muito sentido contrariar os ensinamentos dos dias, esses tipos que surgem, em pilha, uns atrás dos outros, sem nos oferecerem nada de especial. Ao menos podiam trazer mirra, sempre mostravam algum interesse por nós. Tenho uma fotografia dos dias encimada por uma moça de seios fartos e firmes, o chamado calendário, e o que é que eu recebo em troca? Ensinamentos?

 

O mundo está à beira do precipício e, segundo sei, o mundo não é um animal com asas. Basta abrir um canhenho de astronomia para verificar o quão vero é a sentença anterior. Nem precisa de ser italiano. Nada me chateia mais do que entrar num bar e perceber postumamente que o estabelecimento é uma sapataria e compreender que bater os meus sapatinhos vermelhos não me leva de volta para a referência com a qual decidi engendrar esta piada.

 

O comediante, ou seja eu, volta e meia parece um amontoado de cacos, cactos corrigirá o disléxico. À semelhança do sujeito comum, finalizarão os outros. A diferença é que uns juntam os cacos com o intuito de gerar uma piada enquanto os outros juntam os cacos para arrumar a vida.

 

Dizer que a morte é certa é uma expressão apressada. Tenho para ali duas arcas a ganhar gelo a fim de, daqui a uns tempos, abrir o meu laboratório de criogenia. Não me dava jeito nenhum morrer. Pelo menos enquanto não descobrir a fórmula para a juventude eterna. Se bem que ser perenemente jovem, sem grandes expectativas de ir em direcção a um estado mais lúcido, dar-me-ia vontade de cometer suicídio.
De vocês espero aquela reacção de enfado, do género: ”Lá está um tipo a propagandear que vamos morrer”, que enfado, ao menos metias isso num meme ou assim, uma imagem de um bichano de maneira a ficar um pensamento encorpado.
Não quero que se macem, mas prefiro o tédio espesso a ter uma conversa com alguém que está constantemente a empecilhar o silêncio.

 

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