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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

11.03.22

— Concordas com estas palavras?
— Quais?
— Estas: concordas com estas palavras.
— Acho-as admiráveis, todavia careço de paciência para me alongar em justificações.
— Uma justificação breve, não te peço mais.
— Oponho-me com todas as forças a tudo o que saia da tua boca.
— E se for uma ideia brilhante?
— Ainda pior. O ser humano quando possuído por ideias brilhantes torna-se abundantemente chato.
— Então opto pela mediocridade.
— É a escolha acertada, ao menos falamos a mesma língua. Seria uma pena recorrer ao exorcismo da ideia brilhante via crítica mesquinha.
— Há margem para a tentativa de suicídio ou acreditas no regresso da felicidade?
— Margem há sempre, é preciso acreditar e não baixar os braços. Quanto à felicidade, não contava muito com ela, não é de fiar — só nos quer nos momentos bons.

Nesse instante, o padre administrou água benta aos executantes do diálogo e de seguida regressou ao jogo de sueca que havia interrompido.

— Mamarracho não é uma das tuas palavras preferidas?
— Tem dias. Quem é que te contou?
— Quem faz as perguntas aqui sou eu.
— Ai é?
— É.
— Não posso fazer mais perguntas?
— É uma prática a evitar se quiseres manter a nossa amizade.
— Então é mesmo para parar?
— Agradecia que parasses.
— Vou já parar, alguma vez te desobedeci?
— Nunca.

concordas com estas palavras


Roberto Gamito

05.01.22

Platão era detrator da maquilhagem e da poesia. Unindo os pontos de forma humorística, tudo leva a crer que o menino Platão era contra tudo o que embelezasse a língua e o corpo e só investia numa relação se a mulher se apresentasse nua e, em vez de falar, grunhisse, dado que a palavra maquilha o pensamento humano.

Segundo o pupilo de Sócrates, a beleza é simples, pura, sem misturas, estranha à perversão das cores e a todas as vaidades humanas. E ainda Platão: “procurar embelezar-se através do vestuário é uma prática malfazeja, hipócrita, baixa, servil”.
“Qualquer trapinho te fica bem” é um elogio que pode ir beber a Platão. Olha que há destinos.
Platão, gigante entre os gigantes, sumidade na filosofia ocidental, passou ao lado de uma grande carreira de crítico de, termo da altura, modas bárbaras. Imaginá-lo hoje nas caixas de comentários das fotos de influencers dá-me uma barrigada de boa disposição.

Imaginemo-lo nos dias de hoje a comentar as típicas fotos de influencer no Instagram.

Influencer publica uma foto toda maquilhada.
Platão: Excelsa mulher de peito farto, trata-se de um simulacro perverso que deve ser rejeitado o quanto antes. Tanto as cores como as formas do rosto foram manipuladas pela maquilhagem. Fico à espera de uma foto em que surja sem pós milagrosos nas trombas.

Influencer publica uma foto de soutien.
Platão: Curioso, explorou habilmente a fraqueza da percepção masculina, criando ilusões e revitalizando o rei das terras baixas. Não sei como consegue dormir à noite quando sabe que engana a vista dos ingénuos e perturba o espírito de tão frágeis homens. Faça um favor à humanidade e não especule o tamanho das tetas.

Influencer publica uma foto com grande ênfase no nalguedo.
Platão: Procurar enfatizar as nádegas, tão ao gosto do selvagem, ainda por cima com filtro de Instagram, é uma prática degradante. Acaso o faça, faça-o sem artifícios. Um rabo sem auxílios da maquilhagem e da tecnologia. Um rabo como o seu não necessita disso, é como a luz no seu zénite capaz de fertilizar e encher a cabeça do homem de ideias fecundas. Como sabe, não sou leigo em matéria de rabos. Não me querendo gabar, mas cá vai alho: sou o pontífice máximo do assunto. Não é o homem que escreve estas linhas, mas um estudioso neutro do cu.

Influencer publica uma foto com as tetas de fora.
Platão: Apesar do inegável prestígio do mamaçal, ocultar os mamilos é uma prática condenável, porque priva a mama do seu epicentro. O olho masculino, carente de um ponto de referência, vê-se perdido ao abarcar tamanho decote. A forma como põe os braços, de molde a que as tetas pareçam maiores, apesar de visualmente estimulante para o animal faminto, é altamente desaconselhável. As mamas merecem a verdade.

Influencer publica uma foto em que surge com o cabelo louro.
Platão: Ao contrário de Afrodite que se banhou no rio Escamandro a fim de tingir o cabelo de louro, resultando o título da mais bela das deusas atribuído por Páris, em si não surtiu qualquer efeito: continua feia como uma bota gasta. Não fosse dotada de um rabo olímpico e estaria condenada ao anonimato. Faça o favor de modificar a sua postura na próxima fotografia.

Influencer publica uma foto de jardineiras.
Platão: Apague a foto, essa farpela está a ferir-me as vistas. Os seus adoradores não merecem tão excruciante experiência. Admita o seu erro. Para compensar, contento-me com uma nude na caixa de mensagens. Deleitar-me-ia a descrever minuciosamente as delicadas nuances amiúde ocultadas pelas suas tristes farpelas.
A roupa, minha cara musa, trata-se de uma excentricidade tardia.
E a conversa segue na caixa de mensagens do Instagram.
Influencer: Meu bandalho, és igual aos outros, só me queres ver nua.
Platão: Tenciono ver o teu corpo desnudo, porém, ao contrário dos outros, procuro igualmente a verdade. Seria uma alegria para mim encontrar a verdade no teu corpo ao léu.
Influencer: Não vou cair na tua cantiga.
Platão: Cantigas? Poesia? Isso é que não, vou bloquear-te. Mas primeiro manda a nude.

Platão e a Influencer

 


Roberto Gamito

26.11.21

Bateu sete vezes no chapéu como quem realiza um ritual de exorcismo para escorraçar os ácaros, fitou-o até ao domínio do átomo e voltou a pô-lo na cabeça. Ao aproximar-se de um vulto, desabotoou a braguilha e segredou-lhe: “há que dar valor às pequenas coisas da vida”.

— Não estou para aí virado, ontem comecei a dieta do celibatário e não vou quebrá-la por tua causa.
— Deixa-te de conversas e ajuda-me a descalçar a bota.
— É uma bota que volta e meia regressa ao pé. O tesão é uma bota crónica, não te consigo ajudar.
— Um dia de cada vez.
— Mas por que motivo queres o tesão solucionado?
— Isto é demais para um homem só.
— Deixa-me dar uma vista de olhos. Ora alcança-me aí um microscópio.
— O que estás para aí a dizer? O meu bicho pertence ao domínio do visível.
— Duvido. Em bom rigor, o teu pénis pertence ao mundo do muito pequeno. Cientificamente falando, a mecânica clássica que tanto desejas é insuficiente para tratar correctamente esse tesão. Só lá vai com mecânica quântica.
— Há uma certa probabilidade desse cenário ser real. Aproxima-te de mim com ganas, vamos ensaiar a felicidade.
— Ensaios não é comigo, tenho traumas com teatros. Além disso seria necessário arranjares um subsídio para ir para a cama contigo.
— Não és capaz de ir para a cama comigo em nome da arte?
— Em nome da arte? Não, posso ser mal interpretado.
— Vamos calar-nos um bocadinho, pode ser que o silêncio gere uma atmosfera sedutora.
— Não te quero desanimar, mas…
— És a minha única esperança.
— Caraças, estás mesmo desesperado. Até me sinto mal negar-te o desfecho desejado.
— Queres dizer-me alguma coisa?
— Não insistas, não sejas teimoso, já disse que não.
— E se nos enforcássemos?
— Assim ficávamos ambos com tesão.
— Por isso mesmo.
— Caraças, tens solução para tudo.

E se nos enforcássemos?

 


Roberto Gamito

20.11.21

— Às vezes ouço passos. Vozes. Carros. Achas que estou a ficar maluco?
— Não, tens a casa mal isolada. Já viste a espessura das tuas paredes? Parecem primas obesas das folhas de papel.
(Respira de alívio.) Ao menos uma boa notícia, estou são do miolo.
— Também não nos precipitemos.
— Sempre fui assim, tímido, agachado como uma mulher aflita, no meio do bosque, a arranhar um refrão aos quatro ventos com o fito de me acalmar.
— Às vezes tenho a impressão de que o mundo encalhou.
— Digo uma coisa e tu nem reages? Então? Trabalha-se ou brinca-se?
— Só estou aqui para tratar da minha carreira. Se a tua deixa não me alavanca, faço de conta que não te ouço e parto para outra.
— Achas que isso contribui para a conversa?
— Um saquinho cheio de nozes, no meio do caminho, um rasto de pólvora e um esquilo atado a uma cadeira minúscula.
— Não faço nada de ti.
— Resumindo, recebera a notícia em má hora, já tinha a cabeça dentro do forno do fogão quando me batem à porta. Adiei o suicídio, um gajo nem em casa está descansado. Contaram-me que a minha mulher havia morrido atropelada por um burro e por uma ambulância. Segundo eles, fora primeiro atropelada por um burro, fenómeno normal quando nos passeamos nas ruas desta vila medieval sem cenouras nos bolsos. Como um mal nunca vem só, quem vinha a guiar a ambulância vinha também a fazer scroll no Instagram — sabes como é a malta nova, não consegue estar dois minutos sem olhar para o cu de uma influencer.
— Nisso estou com os jovens, há que dar valor ao rabo.
— Cala-te, não interrompas o meu monólogo. E atropelou a minha patroa.
— Resumindo, e esquecendo a lógica, a tua patroa foi assassinada pelo cu de uma influencer?
— Preferia que não me fizesses perguntas, ainda me estou a tentar recompor: fiquei proibido de conduzir ambulâncias.
— Mas eras tu que ias a conduzir?
— Não, não era, mas apetece-me contar a história assim.
— Não é um bocado macabro refazeres a história pondo-te no lugar do assassino negligente?
— Tudo por uma boa história.

Teatro ou outra qualquer coisa qualquer, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

19.11.21

— Não cantes.
— Não estou a cantar, camarada.
— Eu conheço-te, vi na tua cara esse olhar que antecede a cantoria.
— Já nem sequer se pode cantar?
— Podes, mas é preciso ter uma licença especial. Tens de te convencer que cantar é uma arte reservada a poucos, não pode estar entregue a qualquer vagabundo.
— E no banheiro?
— Só se não perturbar o vizinho.
— E na rua?
— Só se houver mais de três cães a ladrar à tua volta.
— Três cães a ladrar?
— Exacto, três cães a ladrar abafam o canto e o fiscal da cantoria deixa passar.
— E se for um tenor num dia mau?
— Tem de apresentar uma justificação. Anda aí muita gente a passar-se por tenor.
— Quem me diz a mim que não é um gajo que bateu com o dedo numa pedra e se pôs aos gritos? Há quem aproveite o grito para começar uma carreira de tenor.
— Parece-me estapafúrdio.
— Acredita, são os chamados oportunistas do grito. Há muitas saídas profissionais para quem aprecia gritar e guinchar, a saber: carpideiras, fadistas e activistas das redes sociais.
— Posso citar alguém ao calhas sem mencionar o autor?
— Força, estamos cá para isso.
— Os animais que degolamos…
— Apanhei um torcicolo só a tentar alcançar a referência.
— Deixa-te disso. Não saber, não saber ao certo, dizer coisas à queima-roupa é uma grande bênção. Se eu pudesse era imbecil como tu.
— Palpita-me que percorreste em bicos de pés o corredor dos elogios de modo a não acordar nenhum.
— Qual é aquela tirada imortal que fica sempre bem em qualquer diálogo?
— É boçal?
— Depende da apreciação.
— E se fosses para a cona da tua mãe?
— Acertaste, não falhas uma, passaste ao lado de uma grande carreira de telepata.
— Posso bater-te?
— Se me quiseres bater, bate-me agora. Daqui a bocado tenho de sair.
— É isso que eu gosto em ti: a disponibilidade para levar na pinha. És raro.
— Estima-me, meu caro, estima-me que eu não duro sempre.

 

Teatro do Amanhã

 


Roberto Gamito

18.11.21

— Olá, excelso colega de diálogo.
— Vieste em má altura. Vou deixar-te, tenho coisas para fazer.
— Não me faças uma coisa dessas, não vim preparado para solilóquios.
— Tenho um caldeirão cheio de indígenas ao lume, não me posso demorar muito.
— Não sabia que eras canibal.
— Não era, mas sabes como é, gosto de experimentar novos sabores. (Põe-se com a mão na orelha à escuta.) Ainda não ouço gritos, é sinal que tenho uns minutos para pôr a conversa em dia. Que contas?
— Nada. Queria apenas falar.
— Sobre o quê?
— Sobre nada.
— Lembras-te de quando começámos a falar?
— Não, era muito pequeno.
— Não mintas, nasceste com uma determinada idade e assim te mantiveste, pelo menos foi isso que o autor destas linhas me contou.
— É verdade, não nego, porém um dia fui dar com a minha backstory num caderninho e nunca mais fui o mesmo. Recuei à infância e por lá fiquei durante muito tempo.
— Queres que te conte uma história?
— Para quê?
— Para te animar.
— Não sou do tipo que se anime com histórias.
— Animas-te com quê?
— Com tragédias.
— Disparate, ninguém fica animado com tragédias.
— Não sabes aproveitar a vida. Há lá coisa melhor que puxar uma cadeirinha e ver uma tragédia a desenrolar-se à nossa frente?
— Mas que absurdo é este?
— Meu camarada, o destino esqueceu-se de nós, estamos entregues aos caprichos do acaso. Para quê importarmo-nos com o outro?
— Para quê esta farsa, dias após dia?
— Não há nada mais hilariante do que a infelicidade do outro, reconheço.
— Infelicidade que é transformada em felicidade.
— Como dizia o outro, na natureza nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma.
— Esse raciocínio tem uma excepção. A estupidez humana: permanece inalterada desde o início.
— Aproveitando a atmosfera leda da conversa, sabias que a Glória morreu?
— Tomei conhecimento. Quem a teria enterrado?
— Contaram-me que o trabalho foi levado a cabo por uma comitiva de abutres.
— Abutres?! Mas essas aves não apreciam cadáveres?
— Apreciam, porém a Glória já estava muito velha, a carne demasiado rija e eles resolveram enterrá-la. Segundo eles, o cadáver desfeava a paisagem.
— Faz sentido. Bem vistas as coisas, os necrófagos são os fiscais das paisagens e são eles que impedem que o mundo se transforme num pomar de cadáveres.
— Está um elefante na sala!
— Deixa-o estar, a conversa está interessante.
— Um elefante na sala!
— Se te faz confusão, alcança aquele saco de amendoins e dá-lho. É uma bela entretenga para o trombudo.
— E ele acalma-se?
— Claro que se acalma. Tens é de te levantar do sofá: ele vai pensar que chegou a hora de ver documentários sobre animais.
— Não achas que devias soltar o elefante?
— Sim, porém sinto-me demasiado cansado para criar novos hábitos.
(Ouvem-se gritos.)
— Tenho de ir, preciso de tratar do almoço.
— Dá-me um beijo.
— Não te dou beijo nenhum.
— O que é que eu faço sem o teu beijo?
— Escreve um poema e não me aborreças.

Teatro Acabado, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.11.21

— Qual é o propósito disto tudo?
— Não conte comigo para o esclarecer.
— Felizmente tenho o privilégio de, por acaso, saber a resposta.
— Importuna-me com a questão e sabe a resposta?! Temos a burra nas couves.
— Não temos, a cerca é resistente a burros.
— Meu compincha de diálogo, vamos fazer um esforço para nos entendermos. Neste local, chamemo-lo folha, nós somos os únicos representantes da humanidade, quer queiramos, quer não.
— A humanidade está mesmo nas últimas se deposita fé em nós, humildes farrapos de carne.
— Ajude-me a distribuir o peso da humanidade pelas suas costas.
— Ganho alguma coisa com isso além de dores?
— Nome.
— Dá para almoçar de graça caso ganhe esse tal Nome?
— Depende do nome.
— Em última instância, fico na mesma, é isso que me está a querer dizer?
— Exacto. Outros terão abordado o problema tão bem quanto o senhor, se não mesmo melhor, todavia é consigo que tenho de trabalhar com vista ao aperfeiçoamento da nossa espécie.
— Não sei se estou para aí virado.
— Tem alguma coisa para fazer hoje?
— Ter não tenho, mas arranjo, tudo é mais aliciante que ajudar a humanidade.
— Fica-lhe mal essa atitude. Vamos, pelo menos por uma vez, representar condignamente a impecável espécie bípede à qual pertencemos a contragosto.
— E se eu recusar, há represálias?
— A minha ideia era vir em paz, mas posso pensar em castigos. Dê-me cinco minutos.
— Mudemos de assunto, pode ser?
— Era mais ou menos isso que ia sugerir, deixemos a humanidade para quando formos amigos.
— Confesso que estava a fazer-me duvidar e cheguei mesmo a ponderar ajudá-lo, porém dei conta do seu estado mental.
É um ser desprezível, capaz de ficcionar amizade só para levar a sua ideia a bom porto, ajudar a humanidade — hoje em dia vê-se com cada coisa.
— Esqueça a humanidade, já não está cá quem falou.
— Não me minta, continua cá. Se há coisa que eu detesto são mentirosos e pessoas com calças amarelas.
— Não seja por isso, dispo as calças.
— Afinal é uma pessoa razoável.
— Posso ao menos ficar com a t-shirt laranja?
— Vou dar-lhe essa abébia pela iniciativa.
— Podemos ficar de costas com costas como nos bons velhos tempos dos duelos? Sou incapaz de me despir à frente de personagens.
— E que tal se eu te enchesse de porrada?
— Qual é o fundamento disso? O enchesse de porrada, não o conheço de lado nenhum para essas intimidades.
— Talvez voltássemos a dar valor às coisas.
— Eu já dou valor a tudo.
— Será que dás?
— O mundo está apinhado de preciosidades, desde pássaros, pedrinhas, passando pelos camelos e indo até aos cactos.
— Isso vem-te do coração ou é apenas uma forma de escapares ao espancamento?
— Do lado mais profundo do coração, só sentimentos puros.
— Lembro-me de um poeta que elaborou um poema sobre rosas no guardanapo do restaurante antes de começar a atirar sobre as pessoas. Quando o questionei sobre o sucedido ele fez-se de parvo. O local estava cheio. Uma tragédia, tantos bitoques desperdiçados nessa noite.
— Diz qualquer coisa, não interessa o quê.
— Como se estivéssemos num podcast?
— Depois há edição, não há? É que não se aproveita metade.
— Ai metade, se fosse editor, só ficava o primeiro travessão.
— Ai que perfeccionista…
— Acaba a tua frase!
— Prefiro usar reticências, confere-me um ar misterioso. As mulheres que engato é tudo à pala de reticências. As fêmeas ficam malucas com reticências.
— Lamento discordar...
— Achas que Deus nos vê?
— É omnipresente, não tem outra escolha.
— É omnipresente mas muito reservado, daí que nunca se chegue à frente para pagar a conta.
— Quando reservas mesa no restaurante adicionas um lugar a contar com o nosso Senhor?
— Não, senta-se no colo, se quiser.
— Não te cansa as pernas?
— O tipo não pesa nada, não podes é permitir que Ele encha o bandulho. Se quiser atestar a pança, senta-se no chão, que eu não sou pai de ninguém.
— Olha para o céu! Aquilo é um relógio ou uma ave?
— Ao lado do anjo franzino? É um relógio com penas.
— Ah, como o tempo voa.

Teatro ainda mais completo

 


Roberto Gamito

16.11.21

— Sinto-me vivo e nunca me senti mais feliz.
— Isso é tudo uma data de mentiras.
(Ouve-se o estardalhaço de um tabefe.)
— Obrigado pelo tabefe, estava a precisar.
— Não tens de quê.
— Desculpa, ignoro o que me passou pela cabeça. Perdoa-me.
— O que importa é que te sintas infeliz.
— Nunca me senti pior.
— Isso é que é preciso. Adivinha quem é que me ensinou todas estas coisas bonitas?
— Deus?
— Morno.
— Estou perto?
— Não, o tempo é que está para os lados do calor.
— Este homem dá cabo de mim.
— Lá estás tu a difamar-me junto do público.
— Que público?
— O público que há-de vir.
— És capaz de deixar o futuro em paz?! Não lhe ponhas esse fardo em cima dos costados.
— Ponho em cima de quem, então?
— Desde que não o ponhas em cima de mim.
— Não me fazias esse favor?
— Ou paras com isso ou finjo que não te conheço.
— Bem, mudemos para um tema mais alegre. Recordas-te do dia em que me atirei ao rio?
— Sê mais específico, fazes isso semana sim, semana não.
— Quer dizer que tento matar-me semana sim, semana não e tu não te recordas de nada. Belo amigo que me saíste. Talvez te troque por um jornalista do Correio da Manhã, ele ao menos lembrar-se-á de tudo.
— És muito prolixo nas tentativas de suicídio, devias ser mais contido.
— Não tenho culpa de não ter nascido com o talento para o suicídio.
— Não vás por aí.
— Custa-te ouvir as verdades?
— Vamos lá ser sérios: a memória foi coligindo essas tentativas num único acto. É extraordinário as partidas que a memória nos prega.
— A mim não me engana.
— Ai não engana. És melhor que os outros?!
— Claramente, não pertenço à ralé que consente o ludíbrio da memória.
— O que é que comeste ontem?
— Comida.
— A resposta é um tudo-nada pobre.
— Não te chega? Olha o menino que precisa de detalhes, mas és algum tipo a fazer a peritagem à volta de um sinistro? Comida é comida.
— O nome da comida que ingeriste, filhote!
— Sei lá, não lhe perguntei o nome. A ocasião não se proporcionou, além disso sou uma pessoa muito calada. Acredita se quiseres.
— Não te safaste mal, meu pequerrucho.

Teatro quase completo

 


Roberto Gamito

15.11.21

— Não somos ninguém.
— Mas estamos mortos ou morreu alguém?
— Em princípio, estamos vivinhos da silva.
— Como é que vamos festejar isto?
—  A vida?! Com humildade e sobriedade. Infelizmente, não há orçamento para personagens como nós.

(Entretanto, os convivas da mesa ao lado foram assaltados pela questão: será que um Silva perde o apelido aquando do seu falecimento? Foi tudo quanto logrei apurar, retomemos o diálogo das nossas personagens.)

— Trabalhamos de graça, é isso? Na pior das hipóteses, seremos obrigados a vagabundear por toda a eternidade neste diálogo. Isso é lá vida para quem não tem vida?
— E se nos arrependêssemos?
— Mas andas metido em negociatas clandestinas ou em assuntos de fazer chorar a mãe mais marmórea?
— Nada disso, o meu currículo de paladino da virtude está imaculado, mais dois anos a dizer que luto por um mundo melhor e sou canonizado.
— Disseram-me que é necessário morrer primeiro. Em tempos também tive esse sonho, todavia estar morto não se me afigura um futuro desejável, principalmente a longo prazo.
— Concordo, é coisa para nos entediar volvidos uns anos.
— E se esquecêssemos a conversa e fizéssemos um esforço para sermos felizes.
— Devias ter ido para poeta.
— Como é que está o teu pénis?
— Está a inchar.
— Deixa lá ver isso.
— O que estás para aí a dizer?

(Na mesa ao lado, ocorria ao mesmo tempo a conversa entre dois guardas medievais.
— Não vais acreditar no que o gajo me disse.
— Ao menos dá-me contexto, não me contes isso a frio.
— Lá estás tu com as tuas manias. Assim como assim cada um interpreta as palavras à sua maneira. É tempo perdido, mas pronto, faço-te a vontade. Disse-lhe: Aqui está o cárcere onde irá passar o resto dos seus dias. O que falta em condições compensa em ratazanas.
— E ele?
— Saiu-se com esta: “que chiqueiro encantador. Parece que encontrei finalmente o sítio ideal para escrever as minhas memórias”.
— E tu?
— Eu questionei-lhe sobre as suas intenções últimas, não vá ele ter ganas de sair de lá e governar um país e ganhar o Nobel da Paz ou coisa que o valha. De desgraças está o mundo cheio.
— É o perigo de estar muito tempo fechado, começamos logo com ideias para mudar o mundo. Ar puro e murros nos queixos é o que eu aconselho a gente dessa laia.)

— Calma, o diagnóstico não demora nada.
— Cá está o monstro.
— Não lhe chamaria monstro, mais pequenote; em cada homem reside um cultor da hipérbole.
— E então? Há salvação para o menino?
— Sim, o inchaço deve-se, creio, ao tesão.
— E isso tem cura?
— Tem e não tem. É um padecimento intermitente. Em todo o caso, posso aconselhar-te formas de aliviares a dor.

(O diálogo prossegue com a pilinha de fora.)

— Agradeço o parecer técnico, mas cala-te um bocadinho, se não for pedir muito. Não suporto palavras, tenho alergia a diálogos.
— Há alturas em que não sei se seria melhor deixar de ser teu amigo e encher esse lombo rechonchudo de porrada.
— Não vejo necessidade de violência. Ok, vou fazer o esforço de continuar a cavaquear contigo. Se ganhar uma hérnia na língua a culpa é tua. Chamar-me amigo é um exagero, amigo, conhecemo-nos há coisa de minutos.
— Finalmente uma pinga de juízo. Posso contar uma piada para amenizar a atmosfera?
— Tem mesmo de ser?
— Estou com apetites.
— Então vá lá, não quero ser eu a cortar-te as asas.
— Conheces a história do velho da aldeia no bordel?
— Não, acho que não.
— Recusou o broche grátis porque a rameira não lhe disse boa noite.
— Diz-me uma coisa: é daquelas piadas para rir ou para fazer pensar?
— Pára com isso, tenta raciocinar uma vez que seja. Pensar não te faria mal.
— Isso é o que tu dizes, não me apanhas na curva, a História está apinhada de suicidas que o foram por pensarem demasiado.
Comigo é pensar o mínimo, e mesmo isso já é de mais.
— Puxa lá pela cabeça!
— Deve ser isso, saí da escola pela simples razão de não esforçar a cachola e agora via-me obrigado a reflectir porque um menino não gosta de mim como sou — burro como um imbecil.
— Excepto a tua pessoa, careço de esperanças na humanidade.
— Caraças, estás mesmo desesperado.
— Deixa estar, o melhor é não te obrigar a ser uma pessoa que não és.
— Desististe de mim? Pronto, o último candidato a salvador foi-se. E agora?
— Assustaste-me, por momentos pensei que ias ter uma ideia.
— Não me atrevo, alcancei uma bela reputação de papalvo e não tenciono desembaraçar-me dela.
— Queres comer uma chapada no focinho?
— Não há mais nada? Não sou exigente, com uma sopa fico bem.
— Ai, perdão, sou demasiado bom para chapadas. Só me desiludes.
— Desilusão? Fá-la durar, que é a última.
— O que queres dizer com isso.
— Sei lá, tu é que és o pensador.
— É engraçado que quanto mais falo contigo, mais parvo fico.
— Fico feliz por ti.
— Como se fosses uma escola ao contrário.
— Tive uma ideia!
— É um escândalo!
— Queres encontrar-te com Deus?
— Não estou para aí virado, até julgo que me faria mal. Quanto mais pessoas conheço, mais infeliz fico. Ou me torno eremita nos próximos tempos ou ainda morro de tristeza.
— Falta-te humildade. Até uma criatura fictícia nos pode ensinar, nos pode enriquecer, nos pode tornar mais conscientes do nosso lugar no mundo.

(No mesmo bar sucedia aquilo que se costuma designar engate. Eis um fragmento dessa interação.
— Fodemos?
— Perdão?!
— Se calhar não me expliquei bem, quero conhecê-la melhor.
— Assim já é outra conversa. Quer impressionar-me com galanteios de taberneiro, para que eu fique viciada nesse pequenote que trás aí escondido atrás da braguilha. É isso, não é?
— Afirmativo, este maroto só me dá trabalhos. Se não fosse pedir muito, pedia-lhe que tomasse conta dele durante quinze dias.
— Está a brincar? Quinze dias? E se me afeiçoo ao bicho? É como tratar de um animal selvagem: acolhemo-lo fragilizado, tratamos dia e noite das suas mazelas e no final custa muito soltá-lo em liberdade.
— Pois, o que é que o coração lhe diz?
— Diz que é o princípio de algo muito bonito.
— Ai a porca!

Regressemos ao diálogo pela porta da arte, recordando que um dos personagens continua com o pirilau de fora.)

— Dizes cada coisa, deves ter sido endrominado por uma daquelas palestras motivacionais. Vou dar à sola. Há o perigo de nos tornamos amigos se prolongarmos a conversa.
— Bem lembrado, não queremos isso.
— Não saio mais parvo desta conversa.
— E eu não saio mais esperto.

Teatro completo, roberto gamito

 


Roberto Gamito

06.03.21

Com uma cara despovoada de alegria, como se as minhas bochechas fossem impróprias para o cultivo de felicidade, sentado na cadeira de uma esplanada com uma postura de aspirante a contorcionista, e agradecendo desde já ao desconforto perene das cadeiras que, se bem digerido, pode ser transformado em lições para a vida e dores crónicas, uma ou outra, que a odisseia é feita de escolhas, cogito em como a vida é uma sucessão de equívocos sem remédio. A comunicação cada vez mais me parece uma utopia. Duas pessoas dialogam, melhor dizendo, atiram-se para a conversa com esse fito, e é hilário, principalmente se lograrmos comprar um bilhete de observador a fim de assistirmos a esse desentendimento galopante. A pessoa x diz algo, a pessoa y distorce esse algo, respondendo à sua maneira àquilo que pensa ter ouvido, o x, ao receber as ondas sonoras de y, distorce novamente, e assim continua esse pingue-pongue absurdo no qual a bola vai sofrendo uma metamorfose a cada golpe de raquete. Começa por ser uma um bola modesta de pingue-pongue, de seguida transforma-se numa bola de andebol, e à milésima troca de palavras já estão a trocar entre si animais, primeiro tigres, depois elefantes e por último quimeras. Nunca fomos grande espingarda a ouvir, mas concedam, não preciso subornar ninguém para que concordemos que já ninguém ouve ninguém. O quê?, respondem vocês. O diálogo, quer seja no mundo real, quer no virtual, é uma farsa. Ouvir requer compromisso, dedicação, e nós, viciados numa novidade que há-de vir, não nos podemos demorar nas palavras dos outros. No fundo, a conversa actual é fazer tempo até à zaragata.  

Enquanto isso, dado que não sou imune às milhares de solicitações que nos assediam, observo com a minúcia de um paparazzi as mesas que me bordejam na pastelaria com olho semi-interessado. Estou vivo, pelo menos é isso que continuo a dizer às pessoas de molde a evitar dar explicações, e as conversas, raramente fluidas, prosseguem aos solavancos, sendo que cada salto nos transporta para outro caminho distinto. Dito de um modo mais maneirinho, conduzimos as conversas aos ziguezagues, qual bêbado que tenta chegar a casa e julga ter descoberto um atalho no milheiral. O Diabo, o qual saiu do inferno com a esperança de vender caminhos que não levam a lado nenhum, fica fulo por lhe terem estragado o negócio e entra no twitter para descarregar a sua raiva.  

Não tenho grande interesse nem agenda em impingir seja o que for aos outros; não sou dono da verdade, nem sócio, aliás, nem sequer trabalho na empresa. Falo do que vejo sem fins lucrativos, e, como míope, calha muitas vezes estar a falar de ficções.    

A temperatura de fazer murchar cactos catapulta-me para outras paragens, a saber: o que é pior: o calor ou os mosquitos? Poderemos chamar vida a uma existência que consiste em dar bofetadas raivosas no nosso corpo de trinta em trinta segundos com a ideia de matar alguns dos vampiros minúsculos? No melhor dos quadros, parecemos dançarinos falhados, alguém que não singrou no TikTok e leva uma pobre existência no denominado mundo real a ser coreografado pelos incansáveis chupistas. Até eu, que pouco disto de um monte de merda, mereço um futuro melhor.     

Separamos o trigo do joio, juntamo-los de novo, em virtude de promovermos boas relações entre o que é diferente, ruminamos afincadamente sobre o calor e os mosquitos e chegamos à conclusão de que os mosquitos são o nosso pior inimigo. Com essa informação na cabeça, tomamos medidas, medidas essas que mais tarde poderão servir de inspiração para um grupo geralmente esquecido: os malucos sem ideias. Enchemos a banheira de rãs e fazemos figas para que elas façam o seu papel, o qual é comer mosquitos pondo a língua de fora como se fossem pequenos Einsteins de quatro, e que não se ponham com delírios de que a banheira não é um habitat digno para rãs e comecem, por conseguinte, a reivindicar insectos exóticos. Para contornar o calor, mas indo pela senda da sombra, que, embora não pareça, não somos palermas nenhuns, em virtude da banheira estar ocupada pelas devoradoras de mosquitos, optámos pela mangueirada diária na tentativa vã de nos livrarmos de cheiros que, num clima de sedução, nos estouram as hipóteses de sermos bem-sucedidos na cama, na cozinha ou onde calhar.  

Entretanto cai um copo na aldeia, o cérebro migra para esse acontecimento, principiam as apostas: há neurónios a apostar que o copo vai partir-se, outros, que não vai. Cada vez que o copo bate no chão é uma hipótese de desfecho. Desta vez o copo não se partiu, declaram os neurónios da facção vencedora. Para a próxima logo se verá, dizem os neurónios da facção perdedora.   

E se eu não fosse tão parvo, pergunto-me, uma ideia pejada de potencial mas de difícil concretização, como acabaria eu esta crónica? Não sei, só posso falar do que sei, como disse um mimo num momento de desabafo enquanto via a pomba invisível fugir-lhe mais uma vez. Em todo o caso, tenho de deixar de perguntar coisas a mim próprio: raramente tenho respostas às minhas questões. 

 

Rãs na Banheira

 

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