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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

26.02.21

A vida é uma porta giratória de sonhos e caprichos que transitam entre o passado e o futuro. Aqui, no presente, esvaem-se as fronteiras entre o que sou e o que poderia ter sido, derretem na forja de episódios que se avizinham.

Este prelúdio irá turvar as águas, confundir os papéis tradicionais de quem fica e de quem viaja.

Poderosas afinidades com o desconhecido — perdoem-me o mamarracho linguístico — favoreceram a aquisição de uma máquina do tempo. Namorei-a durante anos a fio e finalmente é minha. Não teve saída, ao que sei, ninguém comprou nenhuma. O consumidor cheirou nela o embuste, a patranha estapafúrdia, pelo que foi uma pechincha. Graças ao desdém da maioria, alcancei a possibilidade da viagem desimpedida de obstáculos. Sou o pioneiro da viagem a quatro dimensões. Creio que mereço uma pitada de respeito.

Sempre me pareceu curta a frase “o presente é que conta”. Isto não implica que devamos ceder à falácia natural de que é tudo é igual ao litro ou interpretar este inédito desabrochar de possibilidades como uma valência notável e uma inevitabilidade inerentes à viagem no tempo. Fui exemplo para alguns, todavia continua a ser uma jornada de poucos. Vamos lá despachar isto, eis a frase que gosto de pronunciar no início de cada viagem. Eclipsando as artes tradicionais de palmilhar o mundo, podem designar-me, embora não aprecie por aí além o termo, mas nunca encontrei nenhum melhor, turista 2.0.

Apesar de já ter visto muito e lidado com ideias inconcebíveis para os habitantes do presente, dominando hoje a arte de persuadir cada ser humano no sentido de escolher isto e aquilo, preferi uma espécie de distanciamento. As minhas palavras podiam influenciar o curso das coisas no presente, pelo que, de há uns anos para cá, fiz um voto de silêncio, o qual é retomado a cada regresso. As repetidas viagens obrigaram-me a ruminar a vetusta ideia de Homero presente na Odisseia, o regresso é, de facto, impossível. Quando muito, um arremedo, um simulacro. Tudo nos molda, somos barro nas mãos dos outros e do tempo. Nunca conheci um Homem imperturbável, capaz de fugir com mestria à chuva de mãos que nos moldam sem pedir licença.

Não obstante o lado inédito disto tudo, há aspectos da viagem e até da passeata solitária que se mantêm. Quando diante de portentos naturais, ou grandes proezas levadas a cabo pela nossa espécie, que as há se as procurarmos, embora de longe em longe haja uma facção de marreta em punho que as tenta derrubar, tendemos a relativizar a nossa própria dimensão. Com efeito, cumpridas mil e uma peregrinações aos cumes do mundo e do Homem, sinto-me hoje o mais pequeno dos bípedes. Há muito que me despedi do ego. Se a memória não me falha, há uma canção dos Mão Morta intitulada ‘Há já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar Se Tornou Irrespirável”, a qual serve de legenda para todas as eras. Seja qual for o sítio ou a época, há sempre alguém a pensar da mesma maneira. Para o bem e para o mal, a viagem dá-nos o Homem.

 

Diário de um viajante, Roberto Gamito

 

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