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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

07.11.23

À sombra dessas décadas desperdiçadas, passo mal à fresca, sou abalroado pelas escolas fechadas por burocratas do passou-bem, escolas do pensamento entregues ao leilão do turismo, pela falta de professores e de paciência, pelas urgências capitaneadas pela burocracia musculada, que satiriza, qual Dioniso, deus da tragédia e da comédia e da insânia, a própria palavra urgência; mais: impressiono-me com a agilidade de pantera com que o refrão dos aflitos salta de greve em greve num tom de raiva enjaulada, não vá sair do tom e o mundo vá por aí abaixo rumo aos direitos humanos e conduza ao horror os tenores de bancada, sem que uma pincelada de cor alegre modifique este quadro em princípio económico mas na verdade de carne e osso, tudo isto ao rés da sucata do progresso, no topo do qual o elevador social brilha como uma memória de infância.
Os futuros pobres, ou, mais eufemisticamente, os desfavorecidos, (eufemismo sempre!, evitemos acordar os políticos e o povo do seu delírio colectivo) graças aos múltiplos cenários hipotéticos onde os vencedores não se revezam, terão mais opções para o acesso à sua tão desejada vida precária. Felizmente, só nos retiraram o futuro, o passado e o presente permanecem iguais. 

A expressão ‘não comas doces que te faz mal aos dentes’ foi substituída pela ‘não compres proteína que te faz mal à carteira’. Magnífico: a economia distribui dicas à la nutricionista de graça. Não há almoços grátis, no entanto, temos pratos vazios para todos. 

Os transportes hospitalares para fora do conselho ‘não te preocupes, vai ficar tudo bem’ demoram hoje 3 a 4 horas. Os antigos 45 minutos não davam para nada; depressa e bem não há quem. Esse tempo permite ao paciente uma decisão sem equívocos, um auto-exame minucioso após o qual sairá a conclusão: não quero continuar vivo. Poupa-se muita malta hospitalar com esta demora, comenta o coveiro especialista em vidas desperdiçadas; durante muito tempo andámos a desperdiçar recursos com gente que, bem vistas as coisas, volvidas umas horas com dor, só já pensa no fim. É desumano impingir a vida a quem deseja morrer. Como afiançam os antigos, o sofrimento ensina-nos muito, nomeadamente, que uma vida assim não é vida não é nada. 

As vantagens não ficam por aqui: ao demorarem mais a chegar do que um amor entre dois jovens de 20 anos, as ambulâncias podem servir, haja olho para o negócio, de carros funerários. Eis a minha modesta proposta para desentupir os hospitais: conduzir os pacientes directamente para o cemitério. E que belo funeral seria: pessoas de bata e luzes conferindo ao cenário um ar festivo de discoteca; espectáculo tremendo, de certeza que ia atrair vampiros de todas as épocas. No meu tempo não havia nada disto, comentaria o Drácula. Proponho a alteração de serviço de urgência para serviço de extrema-unção, uma vez que os doentes têm de esperar 45 minutos dentro da ambulância, o que constitui uma mais-valia, a espera fortalece o carácter. Ocupemos os lugares vazios deixados pelos médicos, os quais subiram aos degraus da audácia com o fito de bramir não às horas extra, por padres, mais baratuchos, movidos pelo combustível do Senhor, quais guias turísticos, hábeis em transformar a viagem até ao inferno uma experiência inesquecível. 

Este país só está bom para imortais. 

Num país que saiu torto do 25 do Abril, dava a ideia que ia sair grande e saiu marreco, em que os grevistas e os turistas entopem à vez as artérias das grandes cidades portuguesas, atropelando as musas e os poetas, para gáudio dos jornalistas que alardeiam tão desarmónico enfarte, pouco ou nada há de esperançoso por estes dias. 

O português politraumatizado pela falta de médicos, pela situação económica e pela perspectiva de que doravante é a pique, regressa ao armário do mito e enfarpela-se de Ícaro. Eu quero estar bonito, pensa o português, quando a queda vier.

Greve de médicos, greve de professores, greve de helicópteros, greve de cérebros, greve de ambulâncias, greve de bombeiros (1), o país em greve, o país tornado uma gigante sala de espera onde cada português se entretém a folhear o seu caderninho de privilégios, pejado de rabiscos em letra de médico. De olhos bem abertos, comenta: há qualquer coisa aqui que em tempos foi minha, mas porra, não percebo nada disto! 

Só a burocracia não emperra na merda deste país entregue aos necrófragos, gargalha uma hiena de laçarote. 

A culpa, além de ser dos médicos que se negam a ir além dos limites do trabalho suplementar e receber de braços abertos medidas que devoram as sobras da dignidade humana, (e dizê-lo sem rebuço como está plasmado nos jornais é já elevá-lo a piada, como que dizer que a culpa de a economia abrandar é em virtude da recusa de o Homem aceitar a escravidão), é a carência de intérpretes hábeis em passar as reivindicações dos médicos para uma língua que o governo perceba, e se possível apinhado de advérbios de modo, e quem diz médicos diz professores e por aí vai. Em suma, o governo cospe: temos uma proposta boa para esta malta de bata, mas só pode ser entregue em tranches infinitesimais durante os próximos trezentos anos. É a nossa melhor oferta: é pegar ou largar.

O político actual, qual empresário milionário que se pavoneia de Ferrari de vidro aberto e em câmara lenta, de forma a que se perceba que está a falar de como a crise, seja ela verdadeira ou ficcionada, é motivo para cortar nos salários e no pessoal, que as riquezas pessoais não se alimentam sozinhas, quando é a altura de falar de aumento salarial agarra-se às vírgulas e às décimas qual bebé assustado à mama da mãe. Isto há-de ter alguma beleza em alguns círculos artísticos.

Entendam isto de uma vez por todas: a greve não é uma performance, é a luta posta em grito no início manso, é um prefácio antes da violência. O mais triste disto tudo é que não haverá hospitais públicos para receber as vítimas desta guerra pelos direitos humanos. 

 

  1. Pela demora dos bombeiros, há gatos portugueses que, inspirados em vídeos lá de fora, subiram às árvores com vista a serem salvos logo de seguida e ainda lá estão a ganhar bigodes. Segundo o biógrafo desses gatos, há tarecos que perderam as vidas quase todas à espera e quando deram por ela estava a ver
    D. Sebastião fardado de bombeiro a sair do nevoeiro. Outros, mais impacientes, aproveitaram a boleia das andorinhas e foram conhecer Marrocos. Para trás ficou um bilhete no topo da árvore: “volto na Primavera, espero que no próximo ano alguém me tire daqui. Os meus mais sinceros ronrons”.

Pieter_Brueghel_the_Younger,_The_Battle_Between_Ca

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