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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

25.02.21

Sou estúpido, gritei eu numa praia deserta enquanto fazia tempo para o pôr-do-sol. Quatro anos depois, a mensagem está mais actual do que nunca. Neste ambiente de trauma, ansiedade e demais temperos próprios da época, é óptimo quando recordamos sem bloqueios episódios onde, inegavelmente, fizemos figuras de parvo. Em alturas de maior lucidez, a incapacidade de prever se há criaturas dotadas de smartphone nas redondezas seria uma fonte de vergonha e desânimo, sobrepondo-se à minha preocupação de soltar o grito num cenário paradisíaco. De facto, a possibilidade de nos imortalizarem a levar a cabo um episódio degradante fez com que o ser humano, em média, se retraísse. Ou melhor, a nossa necessidade de efectuar manobras dignas de um estúpido foi transplantada para as redes sociais, esse circo onde os Homens disputam entre si o galardão de maior pateta. Por um lado perdeu-se a magia da estupidez no mundo — que continua a haver, mas involuntária — graças ao nosso narcisismo exacerbado, por outro, permite que qualquer um possa ser estúpido nas redes sociais, volta e meia até mesmo sem querer.

E há explicações mais prosaicas: o estúpido evoluiu, mudou de casa, fartou-se do mundo dito real. Por outras palavras, a estupidez no mundo real não gera engajamento. Eis um problema ao qual os filósofos se esquivam. A estupidez no mundo real repele, no mundo virtual atrai. Porquê? Enquanto procuro a resposta, a custo, o Homem do século XXI abre caminho para um novo mundo feito às três pancadas. A minha hipótese é a de que o Homem prefere o estúpido digital porque o meio proporciona o tal distanciamento óptimo para quem anseia sentir-se superior.
A estupidez real, percebo o equívoco do termo, uso-o apenas para atalhar, não beneficia da distância. Habitualmente, estamos demasiado perto do estúpido para enveredarmos pela senda ilusória da superioridade. Lá no fundo sabemos que podíamos estar no lugar do estúpido. Isto para dizer o quê?
Quanto mais conheço as pessoas mais gosto de humoristas.

 

roberto gamito, Mutações da estupidez

 


Roberto Gamito

18.01.21

A vantagem de escrever um texto sobre as razões que me levam a achar que sou estúpido — concedo, tema mil vezes adiado, mas de hoje não passa — é a de não ter de me dar ao trabalho de explicar os pontos como se fosse uma investigação filosófica. Mal me abalanço para vos comunicar a minha estupidez, já vocês a receberam como verdade absoluta. Assim dá gosto. É curioso perceber que, no tocante a este capítulo, a nossa ligação é perfeita, digna de uma relação burilada pela paixão. Assim que acabo de pronunciar “Sou es…”, vocês, leitores ávidos de participar quando é chegada a altura de apoucar o escrevinhador, concluem sem enguiço “és estúpido, sim, nós sabíamos”. Embora a franqueza sem indício de hesitação me magoe, uma coisa é eu dizer que sou estúpido, outra é ser reconhecido como estúpido por uma multidão de desconhecidos — é assim que as refregas de tasca começam —, reconheço que o que conquistámos, a capacidade de ler a cabeça do outro, deve ser preservada a todo o custo.

Não obstante a estupidez me caracterizar abundantemente, sou inteligente nas horas em que ninguém nota e em labutas que ninguém passa cartão. E vocês dir-me-ão: “Mas será isso ser inteligente, Roberto?” Não vos consigo responder, neste momento estou na minha fase estúpida. Fora de brincadeiras. Já tive a oportunidade de assistir a episódios estúpidos, discursos estúpidos, atitudes estúpidas, pelo que, estúpido como sou, bebi inspiração em todos essas, digamos, disciplinas. A única coisa que peço é que respeitem a minha estupidez. Se não vos fizer confusão, consintam que eu filosofe pacatamente sobre o destino do Homem numa mesa de café. Não vos peço mais nada. Quero ter condições para me dedicar à tarefa de não dizer nada com nada.
Estamos entendidos? Óptimo, a próxima pagam vocês.

 

Em princípio, sou estúpido, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.11.20

Enquanto não formos reduzidos a cinzas, há sempre possibilidade de administrar no outro uma dose cavalar da nossa miséria intelectual. Em tempos idos, o Homem acanhava-se aquando do momento ritual de exibir o seu magro intelecto. Gaguejava, entregava-se a barroquismos a fim de esconder o seu nada, saraivava de elogios o comparsa de diálogo de molde a tornar mais tragável a burrice que havia de lhe brotar dos lábios, ensaiava uma personagem frágil, modesta, à qual necessitaríamos de sacar informação à chapada e a custo, como se tivesse sido vítima de sequestro. Felizmente, os tempos mudaram e a estupidez, animal de mil tentáculos, é imune a obstáculos.
 
Presentemente, há uma necessidade patológica de pôr por escrito aquilo que nos turva o miolo. Onde é que isso nos levará, questiona o lúcido leitor, espécie em vias de extinção. Primeiro, é necessário atravessar esse nevoeiro de testosterona e de buços suados de raiva, a província turva do ressentimento, o que não se afigura tarefa fácil, segundo, é preciso não ser corrompido. É crucial não esquecer que a conversa nos moldes actuais é um ritual de conversão, ao qual é necessário resistir com todas as forças (e mesmo essas por vezes mostram-se insuficientes) cujo fito é transformarmo-nos noutro estúpido, possivelmente até de maior envergadura que aquele que presidiu ao ritual.
 
Nunca cessa de me espantar os cumes da empáfia alcançados pelo estúpido em cima do seu desengonçado todavia célere corcel do ressentimento, ao mesmo tempo que nos tenta seduzir com o evangelho da cólera. Como é que alguém no seu perfeito juízo (perdoem-me, bem sei que o mundo está entregue aos loucos) pode designar medíocre um escritor como Saramago? Quanto cursos, mestrados e doutoramentos é preciso tirar na Universidade dos Sem-Noção para alguém se abalançar em tais baboseiras?
 
A confiança cegante demonstrada por esta estirpe de seres humanos cujas fileiras não param de engrossar causa-me a mais genuína inveja. Tal como Cioran, desprezo a ausência do risco, da loucura e da paixão. Como sabem, o mundo não está para os vacilantes, para aqueles que se movimentam com o fardo das dúvidas às costas. Vivendo num tempo vertiginoso como é o nosso século, a confiança é normalmente o único critério que interessa. É a diferença entre ficar e abandonar, subir e descer, ganhar ou perder, em suma, entre a salvação e a maldição. O não haver tempo para nada elevou a confiança — e a confiança dos animais insuflados pela bazófia — ao Olimpo das características humanas mais desejadas.
 
Mas regressemos ao desnorte que é insultar gigantes à desgarrada, principalmente quando estes não se podem defender.
Quão destruído por dentro tens de estar para afirmar, sem que haja uma base justificativa por detrás, que um vulto como Saramago é medíocre?
Sou contra a violência, excepto em casos em que um engraçado, vindo da viela da pesporrência, se dirige a um vulto como Pessoa ou Saramago com a pergunta: Quem é? Nesse momento, o diálogo extingue-se e em seu lugar devia suceder um arraial de tabefes.
 
Saramago continua vivo, basta verificar a quantidade de ódios que gera aquando de datas comemorativas. Há os malucos da literatura, que leram três livros na diagonal em vida e pensam que são herdeiros de George Steiner, há fanáticos católicos, os quais só não incineram Saramago outra vez porque não dá, há os deturpadores da informação mais que conhecida, a saber: os desaguisados entre ele e o governo da altura, sacando limpidamente que Saramago é o mau da fita, enfim, o rol é interminável e dá-me náuseas. Camões acertou ao pôr inveja como última palavra n’Os Lusíadas. Após a inveja não há nada, só o ponto final.
 

Saramago e o império dos medíocres

 

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