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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

11.02.22

O longo somatório de zeros que é a vida deprime o animal ocasionalmente vertical. O que nos sobra é o ofício de poeta rezingão, em última instância, fingir intensidade numa casa mortuária. À margem dos episódios outrora marcantes, desenhamos uma aldeia de bonecos e rabiscos, eis o nosso acrescento ao guião do século.

O espanto é quando o mundo nos mostra o forro do casaco pejado de relógios e nos damos conta do aumento de possibilidades. Estar espantado é abrir as portas da perceção ao ignoto, fornecer-lhe as condições necessárias para que ele espevite os neurónios mais dorminhocos. O Homem do século XXI? Deitado será mais útil às gerações seguintes.

Separar o trigo do joio tornou-se um ofício de poucos. O pensamento ou o seu sósia é administrado como quem dá navalhadas à papo-seco na pança mais à mão. O inteligente é um estúpido em formação. Ao imprevisto que te atinge e rasga o plano poderás exclamar: mas eu tinha o papel! Tinha outra ideia para o futuro, mas o mundo não passou cartão.

Sem separar o genial do medíocre, a esquerda da direita, o alto do baixo, o gigante do anão, o morto do vivo, a cana rachada do cantor, o manjerico de Dante estamos a passar um atestado de loucura à humanidade. Não reconhecer as diferenças é um dos primeiros sintomas de que algo de muito errado se passa na mente colectiva.

O Homem está louco quando damos conta que há nele distúrbios na medição do mundo. Eis-nos no epicentro da batalha entre Humor e Narciso. O Narciso crê que o seu mundo é do tamanho do universo, ao passo que o humor põe a sua cabeça no cepo e faz pouco da procissão de liliputianos. A arte — o humor à cabeça como agrimensor das províncias de Narciso — abate-se sobre os ossos da humanidade de supetão. E assim se perde meio metro num estalar de dedos. Ora, num território de gigantes postiços a arte é interdita. O soco no estômago como que nos obriga a curva-nos: perdemos estatura. Levar com o mundo no estômago torna-nos menos fotogénicos — e ninguém merece passar por tamanha aflição.

No feed de Instagram, os retratos sangram pelas feridas do ego e interferem assim nas declarações sensivelmente pacifistas dos evangelistas da empatia. Começo a achar que a mão é a maior ficção de todos os tempos. O Homem não faz nada do que diz, não porque é ocupado, mas porque carece de membros superiores.

Ele e ela são dois. Contabilisticamente falando, é uma frase inatacável. Mas sei de casos, comentará o negacionista das somas, em que é zero. É só uma questão de tempo: a relação não produz um resultado estável. Perto do limiar da tristeza, somamos restos de um com os restos de outro. Cada resultado é um diagnóstico.

Pára de chorar, diz o morto, não compreendes o meu sofrimento. Não mereces ser a minha carpideira. Ninguém é imune à quantidade, gritou o eremita. Como afiançam alguns filósofos contemporâneos, a verdade, o pensamento já não pertencem a este século. O pensamento não é espectacular, a verdade, essa, safa-se in extremis. Não fosse o espectáculo da morte do outro e já nos havíamos matado a todos.

Antes de o universo ser universo — vasto e sem sentido como é —, talvez fosse apenas um ponto. Imagino o início — o ponto — povoado com tudo o que há. O universo absurdamente contorcionista: Deus em cima de um elefante que por sua vez estava em cima de uma tartaruga, todos os animais encavalitados uns nos outros, nenhum espaço por ocupar, a língua, uma mixórdia de vocábulos, música, zumbidos, grunhidos, rugidos, ondas que ao rebentar silenciavam cigarras, cigarras a competir com erupções, sismos com corações. O cérebro do Homem é herdeiro desse ponto. Patrono do mundo onde Deus se acoita no centro da rosa em redor da qual orbitam planetas e dragões.

Nas vésperas do fim, estou dividido entre o nada e a vida.
A verdade final não nos engrandece, só nos dinamita. A vida é uma trajectória de rugas: o início e o fim são assombrosamente distintos. Embarcar na senda pela juventude eterna é cortarmos relações como o mundo. À medida que envelhecemos, a ficção da verticalidade torna-se um fardo e tornamo-nos corcundas.

A nossa é sem dúvida uma época estranha, confusa e sem grandes inícios. Neste panorama pouco animador, excepção feita aos vampiros e demais oportunistas da catástrofe, talvez o pior seja a constatação da profecia de Cioran concretizada — para ele uma verdade absoluta — de que a humanidade não passa de um mal-entendido; de que as pessoas, salvo raríssimas excepções, se encontram espectacularmente desinformadas em plena era da informação, uma vez que só lemos, ouvimos e vemos parangonas que enobreçam o nosso reflexo. Na verdade, mentalmente falidos e derrotados, entrincheirados na comodidade de um refrão infantil segundo o qual a vida é isto, a política é isto, o amor é isto, entre outras bacoradas sincronizadas e fluídas que povoam o ar qual bando de estorninhos estamos desgraçadamente sós.

A estupidez, a qual nunca terminou nem abrandou, é a língua oficial do século. Não é que os inteligentes alguma vez tenham sido demasiado de fiar. O que difere entre o estúpido e o inteligente é o arsenal de manhas e patranhas. O curioso é que, apesar de todas as variantes da estupidez, com ou sem miolo ginasticado, os homens estão empenhados a saturar os seus diálogos — corrijo, monólogos — com termos ingleses, citações da moda, pronunciadas ou escritas, enxertadas com talhadas biográficas, num estilo em que a razão fica irreconhecível, de tão desfigurada que fica com os pontapés, quer da gramática, quer da agenda política. O provincianismo, tão epicamente sovado por Eça de Queiroz, atingiu o zingamocho: povoamos os nossos discursos de termos estrangeiros, não vá o outro chamar-nos inútil ou ignorante. Bem analisada, a frase é incapaz de se pôr de pé: não é por lhe adicionar miríades de próteses inglesas que a ideia é capaz de caminhar rumo às cabeças ocas.
Extintos os poetas, a língua dá à luz uma multidão de cantos nados-mortos.

Eis-nos no seio de uma largada de vocábulos, à grande e à francesa, ou melhor, à grande e à inglesa como se este século não passasse de uma monumental peça do último dadaísta. Dadas as nossas limitações para perceber o que quer que seja, ficamos com os cabelos em pé — felizmente, a calvície assentou arraiais na minha generosa cabeça e já careço de meios para me irritar como em tempos idos — só de imaginar as aulas leccionadas por esses analfabetos grandiloquentes. Inspirado na prática dos nossos pares, repetimo-la nos nossos moldes e damos largas aos queixumes: a internet, essa fábrica de produzir papalvos, essa guilda de bárbaros assustadiços, essa metrópole de parolos e por aí vai. São mil reis a um osso e o osso nem sequer existe.

Mil Reis a um Osso

 


Roberto Gamito

25.02.21

Sou estúpido, gritei eu numa praia deserta enquanto fazia tempo para o pôr-do-sol. Quatro anos depois, a mensagem está mais actual do que nunca. Neste ambiente de trauma, ansiedade e demais temperos próprios da época, é óptimo quando recordamos sem bloqueios episódios onde, inegavelmente, fizemos figuras de parvo. Em alturas de maior lucidez, a incapacidade de prever se há criaturas dotadas de smartphone nas redondezas seria uma fonte de vergonha e desânimo, sobrepondo-se à minha preocupação de soltar o grito num cenário paradisíaco. De facto, a possibilidade de nos imortalizarem a levar a cabo um episódio degradante fez com que o ser humano, em média, se retraísse. Ou melhor, a nossa necessidade de efectuar manobras dignas de um estúpido foi transplantada para as redes sociais, esse circo onde os Homens disputam entre si o galardão de maior pateta. Por um lado perdeu-se a magia da estupidez no mundo — que continua a haver, mas involuntária — graças ao nosso narcisismo exacerbado, por outro, permite que qualquer um possa ser estúpido nas redes sociais, volta e meia até mesmo sem querer.

E há explicações mais prosaicas: o estúpido evoluiu, mudou de casa, fartou-se do mundo dito real. Por outras palavras, a estupidez no mundo real não gera engajamento. Eis um problema ao qual os filósofos se esquivam. A estupidez no mundo real repele, no mundo virtual atrai. Porquê? Enquanto procuro a resposta, a custo, o Homem do século XXI abre caminho para um novo mundo feito às três pancadas. A minha hipótese é a de que o Homem prefere o estúpido digital porque o meio proporciona o tal distanciamento óptimo para quem anseia sentir-se superior.
A estupidez real, percebo o equívoco do termo, uso-o apenas para atalhar, não beneficia da distância. Habitualmente, estamos demasiado perto do estúpido para enveredarmos pela senda ilusória da superioridade. Lá no fundo sabemos que podíamos estar no lugar do estúpido. Isto para dizer o quê?
Quanto mais conheço as pessoas mais gosto de humoristas.

 

roberto gamito, Mutações da estupidez

 


Roberto Gamito

18.01.21

A vantagem de escrever um texto sobre as razões que me levam a achar que sou estúpido — concedo, tema mil vezes adiado, mas de hoje não passa — é a de não ter de me dar ao trabalho de explicar os pontos como se fosse uma investigação filosófica. Mal me abalanço para vos comunicar a minha estupidez, já vocês a receberam como verdade absoluta. Assim dá gosto. É curioso perceber que, no tocante a este capítulo, a nossa ligação é perfeita, digna de uma relação burilada pela paixão. Assim que acabo de pronunciar “Sou es…”, vocês, leitores ávidos de participar quando é chegada a altura de apoucar o escrevinhador, concluem sem enguiço “és estúpido, sim, nós sabíamos”. Embora a franqueza sem indício de hesitação me magoe, uma coisa é eu dizer que sou estúpido, outra é ser reconhecido como estúpido por uma multidão de desconhecidos — é assim que as refregas de tasca começam —, reconheço que o que conquistámos, a capacidade de ler a cabeça do outro, deve ser preservada a todo o custo.

Não obstante a estupidez me caracterizar abundantemente, sou inteligente nas horas em que ninguém nota e em labutas que ninguém passa cartão. E vocês dir-me-ão: “Mas será isso ser inteligente, Roberto?” Não vos consigo responder, neste momento estou na minha fase estúpida. Fora de brincadeiras. Já tive a oportunidade de assistir a episódios estúpidos, discursos estúpidos, atitudes estúpidas, pelo que, estúpido como sou, bebi inspiração em todos essas, digamos, disciplinas. A única coisa que peço é que respeitem a minha estupidez. Se não vos fizer confusão, consintam que eu filosofe pacatamente sobre o destino do Homem numa mesa de café. Não vos peço mais nada. Quero ter condições para me dedicar à tarefa de não dizer nada com nada.
Estamos entendidos? Óptimo, a próxima pagam vocês.

 

Em princípio, sou estúpido, Roberto Gamito

 

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