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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

20.01.22

Escrever prende-se com a necessidade de arejar a mão. Conspurcamo-la com tarefas úteis e vagamente lucrativas e esquecemo-nos de a treinar num itinerário de apeadeiros vãos onde nada se concretiza. Embora não rejeite o apetite da turba pela carreira que há-de levá-la aos píncaros, Deus queira que sim, que o mundo não está para pobres, enamoro-me mais facilmente pelo sujeito agarrado ao trabalho inútil.

A história empenha-se unicamente em mudar o rosto e o nome da mesma luta. Durante milénios são separados os carrascos e as vítimas, sendo que, em certos períodos festivos, durante os quais o sangue é elevado a deidade, há uma troca de cadeiras.
Aquilo que o espírito engendra é um rol de qualificações novas; de tempos a tempos o Homem rebaptiza cada migalha do mundo, procurando nos novos apodos um novo começo. E tudo se repete.

Mudamos o nome do mal como mudamos os lençóis da cama. Como imaginar a vida dos outros, quando a nossa parece o centro do universo, cuja força gravitacional atrai todos os átomos do Cosmos? Coro de patetas, grupelhos de anestesiados, bolhas de estúpidos e nós, à parte e com as ideias e as palavras certas, os Esclarecidos. O acaso nunca nos apanhará desprevenidos.

Ao virarmos a cabeça, encontramos uma criatura agarrada aos livros e ao caderno a fervilhar de versos, vemo-lo mergulhar em apneia na folha num mundo injustificável, numa pilha de linhas eufónicas e de desejos cifrados, os quais comunicam quando muito sub-repticiamente com o mundo. De pronto, catalogamo-lo: mais um louco, mergulha mas não pesca peixe algum.
Se somos o centro do universo, como alegam os mais fanáticos narcisistas, se a nossa convicção é prima da verdade absoluta, como tolerar esse exercício fútil da escrita, como deixar passar a paixão posta em discurso dos escribas destituídos de faraó, como consentir que desgraçados semeiem os primeiros grãos de uma utopia numa folha povoada de emendas?

Enquanto o nosso miolo ingénuo e o nosso coração aprendiz se encontrarem hipnotizados por teses umbigocêntricas e nos deleitarmos no universo do nosso próprio reflexo, prosperarão palavras embusteiras como empatia e Outro, vogarão ao sabor do acaso ou da agenda — episódio revelador do nosso falhanço enquanto transmissores de humanidade, o qual, uma vez dissecado na folha, se revelará a atitude mais antiga de sempre.

Viver é um verbo intransmissível porém em parte comunicável.

apetite pelo inutil, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

18.01.22

Quando, em tantas estradas e precipícios despovoados de metáforas, os nossos corações fizeram as vezes dos olhos e se recusaram a fitar o horizonte, estavam a preservar, através da sua cegueira, a carne atormentada. As nossas lágrimas desperdiçam tempo connosco. Apesar da dor, habitual freguesa da nossa cabeça, tudo se mantém decadente. A recusa de dar livre curso ao grito animalesco, o qual nos libertaria do fardo de décadas, leva-nos pela mão até à província do tédio. Nessas terras interditas ao homem contemporâneo há duas e apenas duas ocupações: crescer ou morrer.

Um vive como se fosse eterno, varre a morte para debaixo do tapete; o outro pensa constantemente no fim e vive a vida de suspiro em suspiro.

A impossibilidade de dizer algo acertado alimenta em nós o gosto pelas coisas barrocas e faz com que nos devotemos a arranjar legendas para todos os quadros. A nossa cabeça tornada exposição movediça apinhada de quadros mutantes. Aquele que não conhece o tédio ignora o seu nome. Prisioneiros estúpidos da pirotecnia do espectáculo, hipnotizados pelo som e pela fúria da cor mansa, fundamos cidades entre nós e o nosso reflexo.

Aquele que levou a cabo o exorcismo pelo seu próprio pé, sem auxílio de terceiros, sejam eles de origem terrena ou divina, aquele que não se entregou à empreitada da angústia e sentiu, no seu estômago, a biblioteca do mal, no interior da qual personagens de alto coturno engrossavam a definição de morte, que nunca saboreou uma falésia com os olhos apagados de esperança, que nunca soletrou a sua própria extinção num poema de Georg Trakl, nem provou os arpões de um deus enraivecido no lombo, jamais se curará de si. Ao passo que aquele, engodado a princípio pela morte, acostumado à disciplina de povoar de gente a folha assombrada e ao dispêndio inútil porém apaixonado de energia, mestre no capítulo de fazer tudo para ninguém, aproximar-se-á do fim sem gaguejar e logrará pôr a morte para trás das costas. Sem luzes e sem as ilusões das palavras fortes, afastados os véus, guilhotinados os deuses, dizimados os demónios, estaremos nós em condições de habitar, finalmente, o nosso nome?

empreitada da angústia, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.01.22

Na mesma linha, o autor x e o autor y, empacotados como clássicos, vindos da província estrangeira da literatura, comunicam em torno da mesma ideia puída, guiados por uma mão tempestuosa. A loucura de pregar o óbvio nunca me seduziu. A velocidade com que diploma fanáticos enfurece-me: é um precipício almofadado, sem arestas cortantes, que não nos impede de cair. A morte talvez nos pudesse ensinar alguma coisa. O grito não é uma escola. Se a ideia é passar um século aos gritos ao menos inscrevam-se em aulas de canto. Esta repetitiva porque breve arte de seduzir os humanos com bagatelas é o último esforço para que haja refrães universais. Mas para quê? Para nos curarmos de que doença?

Só alguém vertical sem seguidores à vista, dado que à sua volta vivem um sem-número de círculos de lume que impedem a crença de se aproximar, pode ofender um século impunemente. Como argumentar com um homem que escolheu para si o papel de Diabo? Como refutar um homem que arde sem ambicionar o depois? Como dinamitar um homem cuja língua foi apadrinhada pela Morte?

É um bárbaro canoro, eis a conclusão precipitada, um homem que aprendeu a ziguezaguear o labirinto da farsa com o Minotauro. Todo o progresso vai no sentido de civilizar a agonia. Nas palavras certeiras de Cioran, a vida cria-se no delírio e desfaz-se no tédio. Nestes anos em que a alegria me visitou como quem visita um familiar no lar, isto é, esporadicamente e sem se demorar, o tédio buscou inspiração na minha ausência de afazeres pirotécnicos. O Homem — o maiúsculo e o minúsculo — apinha os minutos de espectáculos para que o tédio não singre. Temos medo daquilo que o tédio poderia dizer de nós. E se nos legendasse de cadáveres, não adiados mas pontuais? E se a vida não passasse de uma farsa gerada pelo delírio? Conversarmos sem parança, não consentimos que o silêncio se espreguice entre as deixas de um diálogo atabalhoado. O tédio revelar-nos-ia sem vernizes, monstros sem dentes nem garras. De facto, tentamos enganar a fome com alimentos de faz de conta. O coração definha, o cérebro definha, a alma definha: injectamos a luz de um falso Deus em cada átomo, todavia permanecemos vazios. Seduzidos pelos holofotes que criam anjos e demónios por geração espontânea, somos cachalotes derretidos nas margens surreais de um século farto e decadente.

Numa hora em que ninguém desconfia, a ideia funambulesca percorre os fios altos e abandonados do cérebro. Não há público, nem a salvação proporcionada pelo aplauso.
Uma viagem fabulosa entre ídolos caídos, deuses de gatas, constelações de sonhos feitos em papa. Não há parede à altura deste quadro.

O sucesso e o fracasso são-me indiferentes. Tudo depende da dimensão do fio. Um fio infinito, mesmo para o mais virtuoso funâmbulo, significa partir em direcção à morte.

O fanatismo do óbvio e a obsessão pelo útil são-me estranhas. Desesperado por instinto, elíptico por vocação, triunfo sobre o desfile de carcaças que fui sendo. Novas fogueiras, porventura sublimadas, prosperam à sombra de novos dogmas.

Banalização da banalização

 


Roberto Gamito

14.01.22

Desafortunadamente, o mundo das letras e por arrasto o das carnes estão a ficar doentiamente chatos. De há uns tempos para cá, é raro ver uma ratita alegre e um piçalho folgazão a espreguiçarem-se sem rédeas numas linhas de texto sacrílegas.
Pôr Jesus por extenso, que é como quem diz, ressuscitar Lázaros de baixo ventre com meia dúzia de palavras: eis um labor digno a que poucos se devotam. Ai meu Deus, o que pensarão de nós. Resultado: uma população de colhões e clítoris ou clitóris agrilhoada, obrigada a discursar numa língua sem pinga de tesão. Esta mão e a sua entourage pouco dada à pureza — refiro-me aos neurónios, não sejam porcalhões — dar-nos-á um nobre contributo: uma palmada nas nádegas do mundo com vista a espicaçá-lo e a catapultá-lo para as paradisíacas margens do prazer.

Seguem-se alguns fragmentos, os quais oscilam entre o relato e a ficção mais disparatada.

Mesmo nas barbas do abade, a freira entregava-se a um esfrega-esfrega sem parança. Segundo o ornitólogo, a pássara estava na muda da pena. Deus é amor, comentou a freira ao dar-se por satisfeita.

Num aposento menos religioso, o homem de picha brincalhona malhava com amor a cona húmida. Tudo isto acompanhado de gritos e deixas: “Fode-me, caralho, mais depressa! Fodes-me como se eu fosse de porcelana. Não metes o suficiente, gemia a fêmea. É o que tenho, ripostava o macho, onde é que vou arranjar mais caralho a umas horas destas — está tudo fechado ao Domingo.”
Em todo o caso, introduziu-lha na racha cantante, mergulhou-a até ao fundo, como se procurasse uma civilização perdida, e ela, não sei se séria, se a gracejar: “como é longa e traquinas”.
E vieram-se por inteiro.

O que importa é fazer amor
ora nas torres de marfim
encontrar entretém numa punhetita
ora num chavascal animado
por uma turba de conas famintas.

Como adorador de fanesga,
introduz a gaita
e seja nossa a tua música.

Será sempre uma distracção frutífera apresentar ao outro o que se acoita sob a farpela. Não há necessidade de votar a cona ao anonimato. Se há fome de celebridade, é encorajá-la a perseguir esse sonho.

Entretanto, num quarto numa dessas vilas de nome orelhudo, ouvia-se: “Lambe o néctar testicular, minha linda, pois amanhã apetecer-te-á esporra e eu posso já cá não estar. A mulher comparava a picha do parceiro com as que havia guardado na arca da memória e suspirou: ”Esta cona já viu melhores espécimes, enfim, é trabalhar com o que temos”. E todavia ela contorce-se, como diria Galileu se tivesse trocado a Física pelo mundo da pornografia. A porta de casa abre-se e o tesão sublima-se, passa de sólido a gasoso. O calmeirão foge com passinhos de bailarina com a picha tesa na mão, ao passo que a cona desolada cantará elegias que atravessarão os séculos. Foda interrompida é tragédia merecedora de todas as nossas lágrimas. Venham-se até se converterem em animais, até se esquecerem que sabem falar, não consintam menos que isso.

As fodas abortadas pela ingenuidade ou pela falta de traquejo na arte do engate amanhã roer-te-ão os tomates, meu caro homenzinho inexperiente. Propagandeia o vergalho, o teu moço de recados solícito, sem descanso, faz com que a agenda cresça em horas para acomodar fodas de última hora.

Enquanto as carpideiras choravam o enterro do caralho, o menino da cidade moveu-se para o campo à procura de cona biológica.
O que só prova que a malta nova liga muito à alimentação.

Quando ela ficou tesa como um cadáver, a princesa de anca travessa sovou o mangalho com a fenda palpitante. Malhou com tal fervor que fez lembrar um ferreiro da Idade Média. Só química nesta relação! De seguida, mamou esforçadamente o mangalho para deleite do homem. Por todo o lado espirravam moles de descendentes, por assim dizer, jaziam esporrados pelos quatro cantos do quarto vários projectos de futuras civilizações.

A queda do êxtase ocasionou alguns pensamentos pouco dignos, a saber: o almoço de amanhã, ter de levar o carro à revisão entre outras bagatelas. O homem tentava animar o soldado esforçado recorrendo à memória, bisbilhotando a secção das conas de colecção, na caixa e por abrir, de molde a não desvalorizar.

Após extenuantes negociações, a cona apossou-se do fundibulário murcho. E ensacou, tipo esquilo, caralho e colhões na bochecha. Não me perguntem se tal é possível, estou a vender o peixe ao mesmo preço que mo venderam.

O nível da esporra continuava a subir, os noticiários não passavam outra coisa. Ai o aquecimento global a chegar ao reino das cuecas húmidas. As terras foram conquistadas a pouco e pouco por cursos de sémen. As castores abandonaram os rios convencionais e mudaram-se para o rio argênteo — e os mais galhofeiros foram a correr construir um dique.

Reunidas na cave de uma cona experiente, as conas aprendizes formaram a guilda do pipi. Ao longo de séculos, este grupo secreto tentou engendrar uma prática que muitos julgaram impossível. Grosso modo, um pontapé nos tomates que, além de provocar a proverbial dor, obrigava o homem a esporrar-se. Se bem feito, isto é, se todos os colhões do mundo fossem brindados ao mesmo tempo com esse pontapé, o planeta seria inundado de leite de macho. Tal como nas esmolas, cada um contribuiria com a sua pinguinha.

Em menos de um ai, as mulheres dos quatro cantos do mundo (nessa altura o mundo era demasiado quadrado para ser redondo) abeiraram-se dos homens que viam naquela aproximação um prelúdio de festa rija, desabotoaram-lhes as calças, apoderam-se dos colhões ingénuos, sopesando-os qual merceeiros, e vá de pontapé nos abonos. Reza a lenda que, após o dilúvio, até o deserto começou a dar fruta.

Dilúvio de esporra, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

22.12.21

Careço de meios financeiros para contactar com a vida. Não é com cafés e garrafinhas de água que a engodo. Não estou a lamuriar-me por ser pai solteiro de uma carteira anoréctica, limito-me a dissertar que uma coisa está dependente da outra. Sem carteira gorda é difícil aproximarmo-nos da vida com a pose certa. Cada passo que damos tem um custo associado. Em havendo cabeça, tal dá origem a uma atmosfera fantástica, uma trapalhada sofisticada que intoxica a mente com mundos baratuchos, os quais nos consolam nos períodos de carência.

Enquanto turista do mundo anterior, passeio-me enfarpelado como um rei, montado num unicórnio barrocamente adornado, enquanto saúdo as gentes que choram de alegria ao contactarem comigo. À medida que avançamos na feitura desse mundo consolador, afogamo-nos por completo numa massa de abstrações — em suma, um mundo almofadado onde as arestas cortantes foram abolidas.

É difícil assistir, sem sentir embaraço, à sua demanda rumo à trapalhada fantasiosa e à transmutação da gata borralheira em princesa, cogita quem está de fora. Se ele tivesse conservado o ouvido, a vida tê-lo-ia posto ao corrente de alegrias mais em conta. Ao estreitar laços com a fantasia, enceta a dramatização do real, tornando-o inacessível pelo seu próprio pé. A imaginação fértil — a rede de onde escapa todo o peixe miúdo. De olhos fechados, acredita ser caçador de episódios mirabolantes, rastreador de perfumes que o conduzirão ao amor, uma espécie de flautista de Hamelin atrás do qual seguem, em fila, todos os sonhos da humanidade.

Ele, que não tinha nada de génio e tudo de estúpido, começou por remendar a sua biografia com pequenos fogachos da imaginação e acabou por se aprisionar num mundo mirífico. Foi um período de existência fervilhante, um período de grandes tumultos — as ideias ultrapassavam os obstáculos à primeira. Todavia o mundo permanecia o mesmo.

Mundo interior

 


Roberto Gamito

21.12.21

Não pretendo levar-vos pela mão em excursão à minha vida íntima, isso deixo para os outros, despojados de mundo interior e imaginação. Que coordenadas são estas, afinal? Primeiro, o instante sugere-me a harmonização com o alheio, o corpo estrangeiro — quer dizer, a carne cantante — aproxima-se com a sua coreografia. Quão ridícula e vasta é a impotência das palavras face à carne em ebulição? Antes, uma noite vertical, de seguida, a vida despontante. E enquanto isso, dando o salto do episódio para o seu rescaldo, o meu mito desenvolvia-se no percurso no decorrer do qual inspeccionava cadáveres míticos. Qual sucateiro lírico, ficava com as partes que me interessavam e desprezava o resto. Cabeça de Medusa: um clássico. Prepúcio de Jesus: outro.

Terminada a relação sem deixas dignas de figurar em película, a vida escorraçou-me da província do amor, qual Adão expulso do Paraíso, mergulhei em apneia na minha mortalidade, porventura chateado com a farsa da luz, e tornei-me criatura dos abismos. Aprendi com os peixes o gigantismo, a lentidão e a bizarria. O fundo do oceano introduziu-me nos bastidores da morte. Povoado de carcaças de mastodontes, os quais serviam de apartamentos para famílias de polvos albinos, o oceano era um sítio onde é impossível semear um novo amor.

Ficara evidente que eu não fora capaz de aprender nem a civilizar o negrume que se apossou de mim. Bastava ouvir o nome dela para entrar em transe qual xamã siberiano possuído por uma nuvem de espíritos. O que tinha eu em mente? Um novelo de mundos abortados? Um formigueiro de derrocadas? Não tenho dúvidas de que a morte me liquidaria se acaso farejasse em mim um pingo de futuro. Felizmente não é o caso.

 

Formigueiro de derrocada

 


Roberto Gamito

10.12.21

É aceitável dizer-se: consigo ouvir os meus pensamentos, todavia são-me parcialmente inacessíveis. Sou incapaz de os traduzir, de os trazer para o mundo das palavras, porque não sou fluente na sua língua.
Há a possibilidade de os traduzir, porém não é isento de perigos. A minha ocupação, diríamos, é desfigurar o menos possível os meus pensamentos — operação delicada, acrescentaríamos.

Domino-me interiormente quanto mais hábil for a traduzir o mundo interior numa língua ao alcance de todos. Em redor deste ponto, surge a imaginação. Trata-se, com efeito, de formular aqui alguns passos extra. Não contente com a coreografia do pensamento, a imaginação tenta o salto imprevisto.

Dentro de nós, o tigre rodeando pilhas de cabeças de deuses antigos, árvores onde as folhas foram substituídas por penas, insectos do tamanho de galinhas, algumas leis da física suspensas. Cá fora, o homem a olhar, pensa-se, para o vazio.
O conflito entre o mundo exterior e o mundo interior é notório.

Cada migalha é a semente de um mundo ulterior. Não há terrenos estéreis quando a imaginação se apossa deles, o que há é Homens apressados. Do pormenor nasce o gigante.

Estamos vivos ou mortos?, eis o que preocupa o Homem mais desocupado. E se estivermos vivos e mortos ao mesmo tempo? Pegando com pinças na frase de Rilke, “Antigamente sabia-se(…) que se trazia a morte dentro de si; como o fruto o caroço.”
Assim sendo, o Homem não passa de um ataúde nómada, que procura avidamente o melhor sítio para depositar o caroço. Ninguém foge à morte, Ela, ao contrário de Deus, está dentro de nós. A morte é a possibilidade de um recomeço.

Relaciono-me melhor com o mundo quanto mais competente for a aprofundar a minha relação com a morte.
Não me ocupo de mim, diria o homem sem ego, ocupo-me da minha morte. A vida enquanto um ritual funéreo, excessivamente barroco, diga-se. O discurso humano como uma longa perífrase para diluir a morte.

Regressemos mais lúcidos à imaginação. Sei ver, mas também sei viajar a partir do que vejo. Começo nas letras e acabo na carne, diria o poeta a um palmo dos lábios da sua amada.

 

Morte e Imaginação, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

06.12.21

A velocidade adultera tudo. Dá-nos a percepção errada do tamanho, mescla cores e divisórias, alucina-nos com visões de grandeza. A ideia reconfortante de ir de um sítio A para um sítio B num período gradualmente mais pequeno. Se ilimitada, o caminho enquanto montra de pontas soltas é ridicularizado. O tempo torna-se incapaz de separar o sítio A do sítio B.
A simultaneidade de todas as coisas — eis-nos doravante a habitar a cabeça de Deus.

Nascemos entre dois tiros de partida. Curar-nos-emos da nossa faceta de atleta na condição de permanecermos quietos. Horizontalmente quedos. Em todo o caso, a imobilidade não é sinónimo de avanço. Urge encontrar a velocidade ideal para gerar pensamentos. Teoricamente, cada ser humano terá a sua.

Fazer uma listagem de movimentos, movimentos exteriores e movimentos da mente. Que ligações há entre os dois? Inventariar as danças exteriores e as danças da mente. Equacionar um salão de bailes onde as pessoas ensinam outras a pensar. Locais onde o ser humano pudesse comprar novos passos.

Pensamento engessado não é pensamento. Curar-nos-emos do óbvio na condição de nos afastarmos da multidão. À nossa frente, surge-nos a montanha. Se lhe queremos dinamitar a altura, basta devorá-la. Abandonar o arsenal de pensamentos úteis, à mão de todos, do qual nos devemos afastar e entregarmo-nos a experiências inéditas.

Do salão de bailes que é a tua mente, vê se escolhes o teu par — a ideia — mais importante, que é como quem diz, que dê mostras de querer dançar até de madrugada. Evitarás assim o ridículo de chorar quando, ao perguntares: “dar-me-ia a honra de uma dança?” o eco te responder um valente “não!”

Pensamento e Saão de Bailes

 


Roberto Gamito

03.12.21

Em tempos sombrios, o homem é engodado por pirilampos oportunistas. Melhor dizendo, o cadáver de Deus é reaproveitado como marioneta-farol. No caso de sermos ingénuos, diremos: a luz é sempre uma luz. No caso de sermos cínicos, questionar-nos-emos sobre quem comanda a luz.

O Homem é o cadáver esquisito coligido por várias gerações. Tem uma parte subornável, uma parte risível, uma parte medrosa, uma parte heróica, uma parte fluída, uma parte rígida, uma parte animalesca, uma parte cínica, uma parte romântica. Cada uma dessas partes tem a cabeça a prémio: não são apenas frágeis, flutuantes, províncias que podem ser atacadas, destruídas ou convertidas noutras partes.

Nenhuma lei determina o fim da sede de sangue nem tão-pouco extingue o animal que habita em cada um de nós. A lei é, a par de Deus, a maior ficção criada pelo Homem. Segundo Nietzsche, a lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Como vivemos num século em que o Homem é inábil em mastigar verdades mais duras, talvez seja útil amolecer a frase anterior: a aplicação da lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Se assim é, a justiça é uma ficção. Se a lei é incapaz de reparar injustiças, torna-se uma espécie de doença colectiva, pois a doença, nas palavras Deleuze, separa-me também daquilo que posso. É uma selva injusta: há animais livres a matar animais acorrentados.

Em O Homem que era Quinta-Feira, Chesterton, admirável prosador e ironista, chegou primeiro que o século XXI à encruzilhada desarmante: “Não acreditam que o crime criou o castigo, mas sim que o castigo criou o crime”.

A lei é o açaime educado que, ao ser plantada no mundo dos Homens, permite um certo grau estabilidade com o outro, permite a comunicação e o comércio e, no limite, agrilhoa o animal interior — por outras palavras, adia a sede de sangue.
A cobardia ou o cansaço permitem que a nova lei assente arraiais.
A lei torna-se assim, quase perversamente, uma área controlada, como um infantário, um dique que impede a expressão torrencial da força.

A lei é um tranquilizante, mais ou menos potente, disparado contra a fera que é o Homem. O seu fito é acalmar o nosso instinto violento que domina as relações entre seres humanos.
Todavia não tem um efeito duradoiro. O que a lei faz é adiar e não eliminar o instinto animalesco. As doses aumentam, porém a resistência do animal ao tranquilizante também. Até que chega o dia em que o animal apouca o efeito do tranquilizante e a lei se esfuma.

A lei tem como antepassado e herdeiro a violência. A lei é uma pausa entre duas carnificinas. É um recobrar de forças, um afiar de lâminas, é um afinar da barbárie.
O desejo de paz não é suficientemente grande para suplantar a sede de sangue.
A lei não opera no Homem uma conversão moral. Apenas torna o bárbaro mais paciente. Acreditar que a lei consegue domar a lâmina é uma narrativa ilusória.

No entanto, nem nos períodos de paz a violência é abolida.

Ortopedia moral, mais uma vez Foucault, isto é, endireitar o que é violento, porém endireitar é sempre uma operação violenta. O endireita não é senão um algoz de folga. Por ora contenta-se em provocar a dor no outro. Se obtivéssemos a caixa negra destes últimos anos, veríamos a ortopedia moral como ginásio onde espezinhamos os Homens e, indo mais longe, uma violência educada. Uma versão mais subtil da pena de morte que, nas palavras de Gonçalo M. Tavares, é um assassinato educado. Em suma, a lei é um viveiro de perversões subtis, até chegar o dia em que tudo se torna mais claro.

Crime e Castigo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

01.12.21

Virás do céu profundo ou surges do abismo,
Beleza?!
O teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

O poema de Baudelaire elucida-nos quanto à beleza, é simultaneamente paradisíaca e infernal. Embriaga e é fluída como o vinho. Em linguajar de taberneiro, a beleza foi e será pau para toda a obra, seja na filosofia, seja na poesia. Tanto agarrou o papel de norte como de demónio a ser exorcizado.
A relação homem-beleza é suficiente para medir a pulsação do século, oferece-nos um belo retrato da nossa ingenuidade, da nossa descrença, clarifica a nossa relação com as coisas terrenas e aéreas.

A beleza é ponte e engodo. Façamos uma pequena paragem, mas não nos deviemos do assunto central da crónica.

A beleza é uma província onde tudo é outra coisa. Estranhíssimo, não é? A beleza tem o condão de fuzilar o raciocínio, recordem-se, por exemplo, da última vez em que se apaixonaram. A beleza convida o Homem a entrar nos seus domínios, porém o cinismo fica amiúde à porta. Se unida à paixão e ao desejo, a beleza atordoa-nos num misto de caos e ordem, obriga o poeta a novas combinações na língua e na mão, força-o a escolher caminhos antes empoeirados, dados como extintos, e dá nova vida ao mundo. O olhar desdobra-se graças à beleza.

Para citar Gonçalo M. Tavares, a fealdade argumentativa não convence: feio é o que não me convence, belo é o que me arrebata, o que me conquista. Os perigos da grandiloquência espreitam a cada esquina do discurso. A beleza é a mais eficaz das esparrelas.
Dito de outra forma, o belo é um engodo para observadores, o feio, um repelente.

Facilmente somos convencidos a aderir num clube se convidados pela beleza, ao contrário do feio, do qual queremos distância.
Nietzsche alerta o homem contemporâneo, o qual está embeiçado pela beleza pirotécnica, soar bem e pensar bem não são sinónimos. Focarmo-nos na beleza e descurarmos a fealdade é ser míope.

Mas por que raio queremos estreitar laços com a beleza e afastarmo-nos da fealdade? A fealdade dá-nos uma imagem da decadência, de finitude, põe em discurso debilmente cantado a nossa morte, ao passo que a beleza é uma ilha prenhe de possibilidades.

A beleza, afiançam-nos poetas e escritores, é uma espécie de luz. Os mais belos são os predilectos da luz. Grosso modo, o belo são as sobras de Deus. Ao aproximarmo-nos perigosamente do belo, corremos o risco de cegar. A emoção é um perto de mais.
Como Lhansol escreveu “chorar em vez de ver”. Chorar interfere na visão. Perto de mais é deixar de ver, eis um dos perigos da beleza. Porém o feio não é isento de perigos. Numa manobra oposta à da beleza, o feio afasta-nos, obriga-nos a ver à distância.

Se demasiado perto da beleza, seremos engolidos por ela, se demasiado afastados da fealdade, não veremos nada. O pensamento ideal é aquele que dança entre a beleza e a fealdade. Um passo para a frente e um passo para trás até não restar mais passos ao dançarino.

O belo não é sinónimo de verdade, nem o feio é sinónimo de praga.

O Feio e o Belo

 

 

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