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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

23.08.21

A felicidade não põe comida na mesa. A diversão não põe comida na mesa. Os passatempos não põem comida na mesa. Em breve nem o trabalho porá comida na mesa, disse a empregada de mesa.  

Escrever quando se está apaixonado devia ser considerado batota. Basta olhar para a amada e o resto escreve-se sozinho. Espero que criminalizem esses pulhas enamorados o quanto antes.

Guerras por todo o lado, miséria ao pontapé, pessoas no chão, deuses escaqueirados por marretinhas; o grito como língua oficial do século. O bêbedo pensa para si: "já tive ressacas piores". 

Vamos acabar, disse a mulher. Calma, é tudo muito pouco razoável, tudo muito definitivo. Não estás aberta a negociações?, ripostou o homem. Vamos dar uso à tua veia diplomática, querida. Não, soletrou impecavelmente a mulher.

As Primaveras são mais curtas onde pululam namorados. Fujam desses pardieiros se não quiserem morrer novos.

O velho, gasto como um instrumento musical abandonado, repete sempre a mesma deixa. Toques no tema que tocares, sai sempre a mesma nota. Uma nota das gordas para pagar os serviços à puta.

Sexo a rodos, banquetes opulentos e serviços públicos sem falhas, comentou o homem ao anjo caído. Por que motivo regressaste, questionou o anjo. Aquilo não era para mim, sou muito conservador, e além disso adoro reclamar quando estou nas filas.

Enfiei com ganas aquilo que tinha a fim de inventar mais uns centímetros ao pau. Pela cara dela, acho que não surtiu efeito.

Pensamento? Se calhar, o melhor era matarmo-nos a todos e tirar isso da cabeça.

Mulher avassaladora na cama. O escritor não voltou a escrever desde que a começou a comer. Segundo se conta, ela suga-lhe a vida pela verga. Abençoada fodilhona, o mundo está pejado de obras medíocres. 

A mulher era demoníaca na cama. Quando se vinha, o homem fazia o sinal da cruz.

Progresso? O mais certo é tirararem-nos os brinquedos e mandarem-nos para casa de barriga infeliz.  

Armindo foi preso por praticar preços criminosos numa mercearia biológica. Havia quem, presssionado a levar uma vida saudável, comprasse repolhos a prestações. 

O humorista fez uma piada e a suas palavras tiveram efeito no mundo real. Então não é um mágico, é um feiticeiro. Seja como for, fogueira com ele.

Não tomo a vacina porque ouvi dizer que houve uma pessoa que bateu as botas ao tomá-la. Meu amigo, se alguém morrer enquanto dá uma berlaitada, será que também vai deixar de fornicar? 

A crónica não põe comida na mesa

 


Roberto Gamito

08.08.21

Uma pá, uma equipa de resgate e vários braços cruzados. Minutos antes de falecer, o biólogo agarrou-se às suas mais preciosas recordações.
Tal como os humanos e os ratos, os felinos prosperam em todas as paisagens, dos lugares mais remotos e quase inexplorados (caramba, o Homem não pára quieto!), do gelo ao calor da savana, dos Himalaias às camas mais atreitas ao rebuliço.

A mentira de perna curta e a verdade de perna longa andam lado a lado.
Enfunado na sedução, o homem, feito gato pescador, está em vias de colonizar as zonas húmidas. As mãos foram mantidas longe da água, na qual o peixe se acoita, mas isso está prestes a mudar.

Um bálsamo servido em vagas, o equilíbrio das carnes escoltado pelo suor cantado, o calor migratório saltando de boca em boca como salmões em contramão. O sarau onde a poesia foi trocada pelo gemido.

O homem simulou o Paraíso o melhor que pôde. Mal fechou aos olhos, o mundo virou-lhe as costas. Estamos livres? Sabemos um pouco mais que ontem? A meu ver, estamos acorrentados como cães à árvore do conhecimento.

Gato Pescador, Roberto Gamito

 



 


Roberto Gamito

26.07.21

Burocratizei a trajectória da bala, gritou o poeta no cadafalso.
Lume parasita e exageradamente pago; do outro lado da história, o silêncio magoa no pino da solidão. O século-eunuco ocupa os dias a foder-nos em vastos salões vazios. Laivo de ouro povoado por palavrosas sanguessugas recém-chegadas, vida relatada — ó maravilha das maravilhas! — por abutres. Uma despedida em linha recta.

Não se assuste, menino, eu não vim para ficar, ribomba a tempestade. No entanto, terá de me suportar. No atoleiro onde os pirilampos descobriram o seu âmbar, os Homens tentam, engessados, ensaiar novas danças. O xamã — aquele que vê no escuro — prosseguia com o ritual funéreo, a luz acabara de falecer. O único ser vivo à altura da morte.

Mar revolto, pequenos pinguins vigiados pela fome do leão-marinho, gigante quando comparado com os pequenotes torpedos que na água descobrem o seu voo. As ondas rebentam num festival de espuma selvagem, regurgitando pinguins ao calhas como pevides, uns safam-se com sorte, outros com mestria, enquanto alguns cessam a coreografia na boca do predador. O mar baralha os destinos dos pinguins e cada um tenta a sorte onde o precipício entoa o seu hino. Perdigotos cuspidos pelo mar nunca afónico. O leão-marinho permanece imperturbável no seio das tormentas. Os pinguins pressentem-no: um salto em falso, um capricho oceânico e é o fim.

O pinguim aproxima-se da boca inimiga como que empurrado por uma mão fluida, todavia foge à boca do Golias por um triz. Sem tempo para celebrações, prossegue a fuga em terra com os seus passinhos atabalhoados. O leão-marinho, espicaçado pela sorte do pinguim fêmea (o pinguim macho fica no ninho com a cria) sai das águas com grande pompa cinematográfica e vai no seu encalço, também ele atabalhoado. Tudo fica mais claro. Fora do seu meio, leão-marinho e pinguim, presa e predador, exibem, na sua forma de andar, o lado ridículo disto tudo. Ao rés do pinguim, o leão-marinho tenta abocanhá-lo mas tropeça na rocha. Ao ver o seu pitéu andante afastar-se, desiste e regressa ao mar. A sua reputação de temível predador sofreu um rombo, escreveu o pinguim jornalista. A cria, a qual espera ansiosamente pela refeição trazida pela mãe, nunca saberá o preço a que o peixe está.

Pinguim e o Leão-Marinho, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

23.07.21

Um homem — e em especial um homem com boas pernas e bom ouvido — daria em presa se fosse obrigado a pôr o garrote na língua.

Pálpebra empoeirada, vaticínio gaguejado. O ramerrame do cérebro amedrontado, a chacota das feras solteironas e desdentadas. Pés bem assentes no deserto, a cabeça em água. Homem nómada, oásis acometido por surtos de amnésia. O fim como palco e guião. Tira a camisa, põe a camisa: vê ao espelho a virilidade arruinada.

A ira decompõe-se em versões mais mastigáveis. O animal é domesticado por uma rede subterrânea de rodapés. O barco vazio, a voz ao leme. A metamorfose do chicote. Quem é que não consegue gostar dele e perdoar-lhe os seus pequenos caprichos?

Entre a espada e a parede, falo com uma e com outra. Hoje, agarrados ao corrimão, simulamos a velhice que nos há-de esvaziar. Caíamos em tentação, amolgadela na auréola. Retomamos, pois, sem mais palavreado, após um aparte de décadas, o assunto que mais nos interessa: o amor.

Aproxima, repele, homem-partícula de carga indecisa. Parte, ajuda a partir, reparte mafiosa ou irmãmente, despede-se sem qualquer palavra nos olhos, de mãos e pés atados. A sedução por parte da lâmina realça o sabor da queda. À lupa, apontaríamos outros pormenores mais sinistros. O pássaro sangra em pleno ar no verso que o obrigou a ir além do voo. Estrela hermética capturada pela mão esquerda. Eclipse tagarela, duelo com os corvos. A literalidade amputa o canhoto e sobram-nos os factos.

A metáfora magoa, faz-nos perder o pé onde ontem o mar era raso.

A Metáfora Magoa

 


Roberto Gamito

21.07.21

No entrave entre a língua prefaciadora e o sexo, habitou, selvagem, hoje romantizada, a obra do poeta. Oh, lacaios da faúlha ressentida e restante comitiva de papagaios, mais um incêndio em Alexandria? Caramba, não dão sossego à vossa mediocridade. O interregno entre infernos teorizados — e Deus vos abençoe por isso —, a bala carpindo a emenda póstuma no romance inacabado, revelou-mo a sacerdotisa degolada. Tudo ardis no sentido de insuflar silêncios dolorosos. As pessoas definham, sozinhas ou agrupadas em cachos de eremitas, sob o tecto arruinado da catedral abandonada. Do chão ao tecto vai apenas a ideia de verticalidade. Em todo o caso, trazer o coração à baila numa cantiga de amansar espíritos mais agrestes é-me insuportável. Por estes dias, contento-me a inventariar os vermes da minha carcaça. Quantos mais serão necessários a fim de reclamar a minha morte?

E aqui temos o naufrágio burilado, sem tábuas de salvação nem deuses a quem pedir uma côdea. O sangue seduz os tubarões, dá-lhes currículo, sugere-lhes o círculo da fome — a possibilidade de posfaciar a carne.
Mas, alto lá!, ainda não chegámos à carnificina. As ondas legam melancolia ao último turista, que há-de morrer na praia. Desafortunadamente, não legará postais aos vindouros.

K. está lá em baixo a vigiar o convés atafulhado de fruta apodrecida. Os deuses, velhos solteirões, se preferirem, entregam-se a um oficioso banquete canibalesco. Maquilhagem no gesto, rosto, digamos, a descoberto como manda a moda da época, truques de mágico com o fito de distrair o público do que realmente interessa.

Lâmina e corvo agouram à vez. Cabeça de João Baptista, timoneiro no barco fantasma. Na mesa ao lado, o biógrafo mumifica o faraó entronizado pelos holofotes. Génio escarnecendo do século, barómetro receando pela sua obsolescência. Morte marcada para depois do poema perfeito: eis a maldição do poeta imortal, profetizada pelos cadáveres das musas.

O mofo na métrica, o bolor no verbo, o nome apinhado de arrebiques e a frase parada por falta de peças e talento. O filão do amor à espera de mineiros, mineiros esses abortados pelo século independente.

O shaker das desculpas apresenta-se como cronista do rescaldo. Uma relação falhada emboscada por caminhos jamais percorridos. Lobos postos em passos, lobos quilométricos por cima dos quais podemos alcançar a morte perfeitíssima.

Amputada a folia, o vate destes anos crê dar à luz poesia. Uma ideia sem pernas impedida de sair da folha rumo à cabeça dos leitores desnutridos de luz. Anacrónico exagero. Aconselham-me a abandonar o voo e a substituí-lo por um simulacro. Uma pedra emplumada é suficiente se a ideia for despertar a atenção destes cérebros encalhados no ruído.

Grito que venho em paz, todavia o hálito a guilhotina denuncia-me. Fera de esferovite aplacada pelas carícias e os afagos brincalhões dos indefesos, eis outra legenda deste marasmo.

Lufada de ar fresco na sala de mafiosos. A querela burocratizada pelas boas maneiras. Um apego abrandado pelas notas de rodapé. Uma distância em pulgas de ser dinamitada e nada.

Pequenos homens, fingidores de proezas, adquirem hérnias com migalhas aos ombros. Embrenha-se-nos o cadafalso na carne e na língua. Doravante cada passo em falso será morte certa.

Fera de Esferovite, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

20.07.21

Parangonas a feder a sangue, escaramuças montadas no sentido de atrair público, famintos e sequiosos de todas as épocas aproximam-se a fim de participar no ritual de desmantelamento. Se tais iscos mutáveis não existissem, seríamos peixes a boiar de tédio escutando a custo sermões insípidos sobre o lado luminoso do Homem. Tanta luz, tanta luz e eu continuo às escuras. Não te apoquentes, se quiseres ler o teu epitáfio, aproxima-te sem medo, disse o peixe-diabo ao peixe-palhaço.

Invejada pelos porcos, a sua vida não saía da lama. Se acreditássemos nos poderes embelezadores da lama, por esta altura estaríamos diante da criatura mais bonita que alguma vez pisou esta espécie de esfera chamada Terra.

Para enorme desgosto, fui incapaz de dizer o meu nome num tom que a pudesse hipnotizar. Escrevia anualmente folhas e folhas das mais indómitas linhas, porém, quando a situação puxava pela língua, revelava ser um desportista gago no campeonato do engate. Um dia quase acertei; infelizmente, escapei por um triz ao elogio.

Esse cutelo com o qual cortas a biografia é o teu orgulho, pois é com o corte que apadrinhas o sangue.

Ritual de Desmantelamento

 

 


Roberto Gamito

19.07.21

O seu nome espalhava-se pela província ontem vedada qual nódoa ingovernável. Os afónicos ganhavam voz à sua passagem como se se tratasse de um deus fluido; os poetas, mão, os predadores, ardis novinhos em folha. As tribos uniram-se em torno do mesmo medo como pequenos corpos celestes influenciados pela gravidade da estrela. Os detractores, que é como quem diz os bárbaros residentes, tentavam arpoar de olhos fechados a nódoa com uma salva de interpretações, hipóteses, teorias e demais mezinhas com vista a diminuí-la, a abrandá-la e quiçá extingui-la, porém o cachalote líquido prosseguia incólume num oceano só seu. O antigo verbo afundava-se na adiposidade das dúvidas ao descortinar inéditas areias movediças no Homem. O passado finalmente encontrara o seu túmulo. Mais um prego no caixão do oásis. Uma nódoa-nome inflamável ao rés de um fogo posto em poema. Num universo paralelo, volvidos milhões de anos, o imortal acabara de realizar o inventário dos grãos de areia do seu deserto. Mas eis que a tempestade se avizinha para baralhar o trabalho e os dias. Onde há vida, há Sísifos, comentou o sábio que comia uma espetada de escaravelhos-bosteiros, também eles miniaturas de Sísifo.

Conservo os meus relógios — e o mais que logro rapinar — numa gigantesca arca frigorífica. A minha maior ambição é congelar o tempo. Abandonei o meu antigo emprego de oficial das carnes (1) e desde então dedico-me à descurada tarefa de domar a arte do zero absoluto. O cume inatingível, afiançam os cientistas.
A imobilidade absoluta e de caminho transformar o calor, o amor, a paixão, a vida num mito. Trocar as voltas ao senhor Borges. Erigir das minhas cinzas um início como nunca houve. Não descanso enquanto não for o coreógrafo — o bobo-mor — da inércia indevassável. O Universo enquanto palco do tudo e demais ficções.

E agora, quaisquer que sejam as intenções dos vindouros que venham a contribuir para esta miscelânea de ideias aparentemente opostas, esta valsa lenta cumprida em bicos de pés entre o fogo e o gelo, permitir-me-ão que gabe a astúcia macaca deste menino; atirem-me todos os apodos da casta da inveja, mas pelo menos não sou um animal extinto. Ao contrário de muitos espécimes que tropeçam uns nos outros à cata de professor de dança, que é como quem diz, ficcionam a verticalidade e carpem os passos adiados e que, em dias de festa aziaga, fazem as vezes do sacristão e dobram os sinos em honra dos eus que, aqui e ali, abortaram, eu, inspirado por Ovídio, pelos druidas-das-mil-formas, pelos xamãs siberianos — faço lá ideia por onde o transe me conduziu —, eu, qual mongol a cavalo na mais indómita ideia, transfigurei-me num mamute bípede. O meu coração apossou-se de mim, desde a língua à mão, alcançando o lugar de maestro das estações. O gelo e o degelo são obra dele, longe de mim ficar com o crédito de tais façanhas.
O gelo enquanto casulo. Enquanto animal renovado saído do gelo, cumpri o cardápio das metamorfoses de Ovídio. Nada do que é bárbaro me é estranho. E agora?

(1) Se bisbilhotarem os anúncios de emprego por estes dias, hão-de cruzar-se com este poético eufemismo para talhante. Por norma, sou avesso a eufemismos e tudo quanto dilua palavrinhas isoladas em longas perífrases, todavia algum dia teria de dar de caras com uma mui ilustre excepção. Belo nome, oficial das carnes.

 

Oficial das Carnes, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

15.07.21

O…marimbem-se para o nome da personagem…esse ar competentemente feliz, o qual é um misto de intrepidez e desajuste face à época actual, que o caracteriza em dias de caricaturas elogiosas, apressa-se a entrar na sala maleável das convenções, pois é impensável que se misture com a ralé das ideias isoladas, as quais andam por aí saltando de cabeça em cabeça sem jogarem as unhas a nenhuma agenda política. Como sorri a qualquer tufo nómada, ultrapassa o facto de ser escandalosamente estúpido pela via da simpatia maquinal. A simpatia, assim como o pé-de-cabra, abre-nos muitas portas.

Papando dissabores qual mendigo à solta num banquete, descobriu, sem auxílio de mestres ou canhenhos que agissem como faróis, o caminho certo de entre o novelo de possibilidades. Aos poucos, aprendeu a exteriorizar a ganância segundo a moda, oscilando entre ganas de animal que não larga o osso e a pacatez de um velhote que já viu tudo.

Podia fazer, se houvesse miolo para tal, conjecturas de paraísos artificiais em relação aos próximos anos, que se avizinham macabros. Inúmeros fogachos incapazes de deixar descendência. Perdoem-me o desnorte, mas o incêndio aproxima-se.

O faro está aguçado como nunca. Há muito que não era joguete do rastro de perdizes postiças. As aparatosas quedas desse Ícaro armado em Super Mário com múltiplas vidas pertencem ao passado — imperador inderrubável de tudo quanto é valioso. As desajeitadas tentativas de voar são hoje apócrifas.

Quando são enumerados os maiores caídos da História, o seu nome vem forçosamente à baila, é demasiado grande para ser esquecido. Contudo, os biógrafos das suas múltiplas vidas encarregaram-se de pintar esses quadros com cores mais alegres, deslocando a verdade para o estaleiro das obras inacabadas. Seja qual for a margem escolhida para o acampamento, seja ela a verdade ou a mentira, há uma faca afiada à nossa espera.

Como explicar que D., o novo deus que ia fazer as folgas do dinheiro, tivesse desistido de erigir o novo Paraíso que já havia sido apalavrado? Estes novos deuses com fôlego demasiado humano não duram nada, somos obrigados a comprar um novo todas as semanas, sentenciava o sumo pontífice dessa religião onde os deuses nos ouviam por turnos.

Época de caça, peixe fresco, carne trepidante — tudo paleio de predador. Mete-te com alguém do teu tamanho, diz um pequenote para outro pequenote.

Por outro lado, além do cenário onde o negro foi pintado sobre o negro, ainda havia homens sonhadores. A título de exemplo, o ditador daqueles anos tinha o sonho de transformar o homem de carne e osso em bonequinho. Enchia-os de chumbo. Sem sucesso. E todavia persistia. Um exemplo.

Época de Caça, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

13.07.21

Vomitava anualmente resmas de sermões bem-intencionados e insípidos. Incapazes de sair da órbita da obviedade, não passavam de um misto de raiva e patetice enformada em mandamento. Basta, disse uma voz saída da mansarda, bastidor ermo deste século. Um dia os pensadores hão-de cair-lhe em cima sem a burocracia das boas maneiras e levar um pontapé no rabo do pensamento. A profecia não tardou a cumprir-se. Não teve outro remédio senão rolar escada abaixo qual cena de acção. Há quem interprete este episódio como cruel, outros como cirurgia estética. Seja como for, a crista baixou consideravelmente. Podia ter feito melhor? Creio que sim,  bastar-lhe-ia o silêncio robusto. Mas não será pedir muito a uma personagem tão desejosa de estrelato?
Não saiu incólume à descida. Hoje vagabundeia na rua sem mestres nem pupilos com uma cabeça de metal. Cabeça dura, cabeça blindada ao pensamento. Enfim, desgraças que nos deixam na mesma, comentava a velha.

Por pouco não dava com a língua nos dentes e arranjava uma forma bárbara de se expressar. O sangue romperia bravamente pelos interstícios da mão posicionada à frente da boca.
Mas sobre este assunto o melhor é ficarmos calados. Não consintamos que a suposição se transforme em ópio.

Esse cutelo é o orgulho, a menina dos olhos da empatia. Eis a legenda que o acompanhava no museu das certezas.

Todos fingem acreditar na vida, perpetuando assim a fraude. Os abutres discutem por estes dias se há diferença de maior entre o Homem vivo e o Homem morto. Dessa discussão sairá, inevitavelmente, um novo mundo.

Pedaços de carne vadiam à mercê do acaso, experimentado rotas de colisão. Um estrangeiro do costume, bastante legível. Uma cascata de partículas elementares. Oh, meus queridos cabrões, grita vadiamente a vizinha do segundo andar, receio bem já ter registado esta experiência — as colisões — demasiadas vezes. A vossa vida há muito foi expressa em fórmula. Nada do que possam levar a cabo, sóbria ou ebriamente, será catalogado de imprevisível.

Ao passar pela mulher que o conduziria sem problema à loucura, espreme-se todo, com o fito de lhe oferecer o sumo da sua existência; porém umas míseras gotas não serão suficientes de molde a abrandar tamanha sede.

Estou-me borrifando para as convenções da sociedade. A partir de hoje sou um candeeiro malabarista. Puto iluminado, és incapaz de manter os malabares no ar!, comenta um amigo. Sou um candeeiro, diz o candeeiro. És uma inspiração, diz o amigo do candeeiro, que é como quem diz, o bêbedo.

— À medida que envelhecem, os homens vêem com mais nitidez os seus deveres.
— Essa é a razão pela qual passas as tardes sentado no banco a inventariar mamas?
— Sim, é a minha vocação: biólogo especializado na observação de tetas selvagens.
— Mas isso não te pode trazer problemas?
— Pode, todavia ninguém pode pôr um travão na ciência.

Logo que os víveres começam a ser distribuídos, o saco de pichas do outro alegra-se. Só passamos fome se formos tortos, alega o assediador. Detalhes muito...bem, não vamos entrar em detalhes. Não há consentimento para tal, diz o meta-assediador. Meta-meta-tragédia, declara o juiz boçal.

Findo o fricandó, a língua liberta providencia-me uma certeza: de uma forma ou de outra, estamos fodidos.

Queiram desculpar-me, todos estes comportamentos de machão fazem com que sejamos populares junto de certos círculos. Penitencio-me prontamente, gostava de pertencer a este novo círculo de snobs. Será que dá para entrar? Exímio no xadrez da hipocrisia, a personagem brilhava na mesa da boçalidade e do puritanismo com grande à-vontade. De facto, estávamos diante de um prodigioso invertebrado, o maior da sua geração.

prodigioso invertebrado, Roberto Gamito


Roberto Gamito

12.07.21

Não te esforces por ser meu leitor, deixa-me tal como estou: carne pendurada no gancho. Se vês em mim as sobras do naufrágio, não me lances a bóia, tinge antes o oceano de sangue e os tubarões farão o resto. Mais não mereço que um desfecho a várias bocas. Ando às voltas qual compasso furibundo que tenta legar ao mar uma circunferência. Devo confessar-te que sou um especialista em afogamentos. A minha morte, repetida aqui e ali, no campo ou no papel, não sabe o que é repousar.
Ando de tempestade em tempestade à procura da língua.
Aproveito a minha estadia no fundo para anotar os fragmentos da vida em conchas.

A mão, hoje romba, despiu-se de minúcias. Semente bípede no interior da qual o animal pleno arranha as paredes. O metabolismo acelera à beira do precipício e mina os pilares de uma vida longa. Para seduzir as pequenas coisas não nos podemos pôr de bicos de pés.

A máscara alastrou contaminando o teu repertório de gestos. Um olhar gritante, em maiúsculas, que é como quem diz, caricatura de terra ressequida. Dói-me ser o exagero de ontem. Quando a minha língua fértil era hábil em encurtar distâncias, nada cumpri que o esquecimento não possa obliterar numa primeira passagem. Mesmo no auge da solidão, nem de rosto precário à mostra, com as mãos todas à disposição, sou incapaz de vivificar o teu nome sacro. O caminho é uma legenda prolixa de uma queda que há-de vir. Sei de cor os apeadeiros onde fui ultrapassado pela vida. Ao princípio era o advérbio. O modo, a afinação enfadonha de um verbo impontual. Penso que o eclipse nos habituou mal em virtude da sua duração. É natural que me sinta aborrecido pelas profecias, principalmente aquelas cujo fito é ver-me pelas costas. O deserto é o celeiro das sementes da solidão. Nada devemos esperar de verde. As águas salobras da depressão, o suor a pique da ansiedade. Caí em todos os engodos como um magistral parolo. E por isso não me perdoo.

A escrita é um claustro silencioso apinhado de demónios. Eu preferia um horto onde pudesse plantar corações. No fio da navalha: onde afinal vivemos os melhores anos. E era igualmente aí que mergulhávamos, quais funâmbulos suicidas, sem rede nem ficções de amparo. A solidão fez com que os cachalotes nos invejassem. Mergulhávamos nas nossas vidas — as sobras barbarizadas pelo passado — para virmos à superfície meses depois. Destemidos, aprendemos a ir ao fundo sem esperança nem oxigénio. Habituamo-nos a esses lugares destituídos de deuses, digo, onde a luz não chega. Jurámos sepultar esses ensinamentos na memória até ao último dia, acreditando assim acabar com a própria ideia de suicídio. Fugimos ao Diabo pelos atalhos engendrados pelo Caído. Íamos às bifurcações mais célebres a fim de perceber se ainda éramos Homens. O peso da decisão obrigar-nos-ia a romper os fios do bonecreiro. Caíram que nem patinhos, ria o Homem dos Robertos.
Pobres coisas dispostas por fantoches embriagados. Os fios projectam uma sombra a que chamámos liberdade.

Quantas vezes terei de ouvir a tua distância sem conseguir cantá-la? No dia que estiver frente a frente com a morte já nem sei bem o que fazer.

Suicida e a Queda, Roberto Gamito

 

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