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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

02.07.22

A laureada morte prescreve o ritual, do qual quase tudo se ignora, segundo o qual o druida imprevisto, cuspindo na mercadoria, fará a adoração do fetiche da extinção, saltando de animal em animal, retrocedendo até ao organismo primevo, ou à faísca que pegou fogo à pólvora até então húmida, coisa que maravilha o Diabo, narcotiza-o, deixando-o, não à beira da loucura, mas no seu coração. O amor, se usado em plano inclinado, é um camarote com vista privilegiada sobre o abismo. As coordenadas nas quais as mãos se libertam da servidão de serem produtivas e se agarram à vida ou porventura à morte. Um espaço envidraçado, género estufa, onde os corações crescem desabaladamente abraçados à sua música de eleição. Sociedade da transparência, afiançam eles. O sangue, nos seus começos, revelava-se uma oferenda do recém-decapitado ao deus sequioso. São lugares verdadeiramente infernais, as ruas. A entronização da rosa e os venenos caleidoscópicos que a envolvem, embora por muito tempo tenha permanecido um segredo, fora o motivo principal para o eremita baptizar cada passo. Enquanto quieto, os olhares postulavam-no sábio, enquanto o próprio acreditava ver um beco, daí ter interrompido a marcha. Os ubíquos problemas de interpretação. Etiquetar com um nome confere-nos segurança. Um dos mais antigos e duradouros estratagemas do homem. Aproveitando a distância galopante entre o cinismo e romantismo da coisa, a cidade cresce. Cada interstício é local de negócio ou de futura miséria. Os locais de passagem, observou-o o capitalismo, constituíam um peso morto. Necessitavam de ser abolidos.

Vendo-se a chegar ao fim do rosário das tácticas, o sedutor começa por sublinhar os elementos que havia já aludido, dando uma ênfase bizarra, lenta e estudada a cada centímetro do corpo da presa, como se esperasse ressuscitar a magia arcaica das palavras. Não houve época de ouro. Se oxidou, se hoje vemos os tempos áureos de outra forma, não é ouro. Quando muito, idades de pechisbeque que se revezam e que, envergonhadas, hábito eterno, se apropriam do estatuto do ouro. Isto não acontece somente por razões económicas. O Homem adora ser enganado; vai até ao fim do mundo se for preciso de molde a escutar uma nova mentira. O betão oferece ao homem novas possibilidades de esborrachar a cabeça. Uma das grandes conquistas da humanidade. Imaginem o que era, no princípio dos princípios, o homem chegar a casa, após uma caçada que não deu em nada, e querer dá vazão à sua fúria tendo ao seu dispor uma parede de palha para disparar murros, pontapés e cabeçadas. Legamos, querendo ou não querendo, rastos. Seremos procurados. Não há milagres, apenas crimes pelos quais somos procurados. O que acontece é que a morte, o amor, Deus e toda a pandilha de palavras com as quais se costuma abalroar a fluência de uma frase, qual ponto final que caísse do céu impondo um silêncio inesperado, fareja-nos e acabará por nos encontrar. Preparemo-nos sem esperanças no desfecho favorável. É uma corrida de perdigueiros. Somos uma peça de caça miúda. O que difere de homem para homem é a ordem dos perdigueiros que nos abocanham. Lembrem-se de Actéon, se precisarem da muleta do mito. Evitem inchar o peito, não há caça grossa entre nós. A filosofia, a religião, a ciência e a arte são artifícios para nos iludirmos do facto de sermos caça miúda.
A estupidez, que julgámos morta, pois fomos alvo da seta do Cupido, ressuscita todas as manhãs pelo próprio pé, sem auxílio de deuses, estudada que está a morte.

Se estacamos ao sermos seduzidos por uma ideia, logo somos emboscados por uma matilha que ajusta o tom, inicia alto e vai minguando, como se o afinasse, qual grupo de conspiradores amadores. Outros, que talvez ainda caibam neste texto, cedendo ao perfume acre da libertinagem, de goelas e braguilhas abertas para o que der e vier, interpelados por freiras postiças, as quais recrutadas na espuma dos dias. Pessoas há, e nem são das mais raras, que não têm a mínima hesitação em caracterizar um Homem dos pés à cabeça, do rés-do-chão à mansarda, com um olhar, vício de consumista, de quem está habituado a ter a vista desimpedida no armazém, capaz de abarcar tudo num trago de pupila. A nós, estrangeiros, que nos desentendemos em todas as línguas, devemos regatear com o coração o valor de todos os cheiros. Exumam para imortalizar quem nunca esteve vivo. Não vou atrás de tudo, o mundo é uma bola, mas eu nunca fui um cão. Sou tão-somente um vagabundo a sorrir na rua dos apetites, sem que me consigam raptar os olhos.

 

As ruas e o estrangeiro


Roberto Gamito

30.06.22

Faltam-nos o vigor e a vertigem. A gaja pôs-me o peito em frangalhos, grita o bêbedo. Seríamos poupados à aflição se, para encetar a prosa barriguda, não tivéssemos de passar por cima desse cadáver hesitante com o pranto afinado, o qual, se não fosse a cruz da bebida, não saberia afastar a morte, o vampiro-mor.
De lá para cá fomos sofrendo, segundo após segundo, cada um segundo a sua escola, engaiolando os dias em pipas de lágrimas e hoje a dor perdeu os seus matizes. Há séculos que andamos a fermentar espinhos dentro dos olhos e pronunciar tautologias como "ira cega".
Cumprido o jejum intelectual, ai que eu me atiro às prateleiras e à Moby Dick, todavia comecemos humildes, pela sardinha miúda, vão ver, ó cabrões camuflados em simpatias e cacofonias, se um dia a língua vira gume ponho-vos a fama e a estatura nas ruas da amargura, ponho-vos a soro de frases motivacionais. Ah, meus filhos da puta, ainda há-de nascer um poema inescápavel após o qual serão incapazes de prosseguir a vida como seres falantes.
Humanizem-me, diz o milionário ao seu cardume de gurus pessoais, estou a pagar-vos por isso, meus merdas. Foda-se, injectem-me empatia no rabo ou nos lábios, meus contorcionistas à beira da guilhotina.
A mim, ninguém me há-de conspurcar o nome, comenta o santo.
Merda para os pássaros, para as rosas e para essas coisas miúdas que atafulham o poema de quotidianidade. Só me estorvam. Trabalho melhor sozinho. Ou com Polifemo a mirar-me as costas. Venha de lá esse pedregulho ou essa fome.
À luz dos nossos dias mais esclarecidos e menos frondosos de atalhos, dou-me conta que o Homem é uma pedreira de mármore ambulante. Volta e meia, ouço uma sinfonia de explosões vinda de dentro de mim e recordo-me de Carrara. Lá onde eu perdi os dedos e a fé, eis o posfácio do dinamite.
É preciso ter cuidadinho, ter olho neste mundo construído às três pancadas e recordar a frase de Salomão: "Não há segredo onde reina a bebida." Merda, melhor dizendo, a frase de São Jerónimo: "Que o diabo, nosso inimigo, não te apanhe desocupado."
Tenho mobilado os meus passos a papéis e rascunhos, cada passo é um fojo mascarado por cima do qual os poemas abortados fazem as vezes da folharada.
Andamos todos a fingir que fazemos algo — o que é isto senão fingimento posto em texto? — para que o Diabo não nos passe cartão. Será que o Diabo cai nesse ardil? Que Deus guarde a nossa ingenuidade por muitos séculos.
O personagem, o bêbedo ou um homem sem qualidades, desesperou numa língua rasa, gaguejou uns eufemismos quilométricos, todavia nada ousou dizer que já não se soubesse, somente em quadras, já perto da cova, pôde, enfim, sofrer sem o estorvo do ego.

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Roberto Gamito

28.06.22

A cólera agarrou o microfone e, com os olhos esbugalhados, monopolizou o sangue. Eis mais uma peça no teatro da testosterona.
Nós, que desperdiçamos a energia e o tempo à cata de migalhas enquanto viramos costas ao bolo, saímos dos dias como Adão e Eva do Paraíso. Adão, Eva, Satã e Ulisses entram num bar e comentam: "O regresso é impossível".
O poeta é um trabalhador braçal, precisa de conseguir imaginar David encasulado no interior do mármore. Mas antes disso necessita que a folha se assemelhe a uma rocha. Entre uma coisa e outra é vital afastar o entulho para que o homem fique a sós com o impossível.
As frases motivacionais têm sido construídas com as sobras do cadáver de deus e com o entulho do templo do deus desconhecido. Empatia? Coitados, com que então em busca de consolo na arte? Activistas amestrados pelos holofotes esgotam-se em tentames de trajectórias esclarecidas, tentam insuflar a mão dos descendentes dos poetas malditos de vocábulos sem chama. O Eu canta o inferno!
Procuram a paz na Capela Sistina ignorando o facto que Michelangelo descansava a cabeça acompanhado de enforcados e cabeças separadas do corpo. Então, onde é que está o problema? Não nos podemos pacificar onde o outro foi espremido? "Estás sempre sozinho como um carrasco", diz Rafael a Miguel Ângelo no filme Sin quando este último o acusa de não ter ideias próprias.
"Por que diabos devo amar-te? Florença, o que fizeste a quem te amava? Tu que és o cemitério do meu amor, dos meus sonhos, da minha inspiração?" Século XXI, o que farás a quem te amou? Quem será o próximo Actéon?
Empatia? Michelangelo responde: "Estou farto de viver em Roma. A cada passo que dou, há um padre, um peregrino ou uma prostituta." Numa frase lapidar, sintetizou Séneca e Rilke no tocante a conselhos a jovens poetas: "Nunca desço dos andaimes."
 

Nunca desço dos andaimes


Roberto Gamito

27.06.22

Aos olhos da crítica coxa cada franzino era um docinho, cada bonsai um embondeiro, o trigo era joio e o joio trigo.
Escangalhava uma hora ou as que calhassem, entre folhas, à procura do meu nome, com ânsias de habitá-lo como escreveu o poeta a quem já ninguém passa cartão. Entre o teu nome e o verbo amar há uma lacuna crassa, uma respiração aflita apinhada de demónios. Foi o sangue de Vénus que empurrou a rosa para a ribalta. As conversas conducentes a uma conturbada digestão convertem Santos em Carrascos. No mesmo banquete há Neros e Petrónios.
Não há triunfo sem sangue de Vénus. Vénus aqueceu o lugar de Jesus. Tento em vão erigir um mundo com os cacos da cruz enquanto os anjos postiços açambarcam as últimas migalhas.
Estremeço quando ouço a frase medonha de que "já tudo foi escrito". Vénus, crucificada no alto da minha noite, cai-me na folha, gota atrás de gota de sangue, resgatando do anonimato uma miríade de caminhos e é vê-los, como cães de Deus, a sair de um edifício altíssimo em chamas. Bem vistas as coisas, o poema de amor é um ritual de Mitra no decorrer do qual o sacerdote debaixo das tábuas espera receber a bênção do sangue do bezerro sacrificado.
A poesia talvez tenha os dias contados, assim como toda a arte. O bloco de mármore permanecerá intocado e dele não brotará, às mijinhas, nenhum David.
"A rosa conquistara os bárbaros", a guilhotina os civilizados.
Fui à morgue reconhecer o cadáver de um tal deus, infelizmente não era o meu. De facto era um deus, um deus-cachalote. Vivo terá sido um ser magnífico, morto, um gigante murcho e fedorento.
 

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Roberto Gamito

24.06.22

Mesmo a língua, esta língua poética-patética, curvada de metáforas desasadas, é incapaz de mobilar eficientemente o passado. Papalvo gago ou génio emborrachado pelo ênfase, um e outro embrutecidos pela sua superstição nos holofotes. Insipidez de uma ponta à outra da frase. Nisto é que somos admiráveis!

Durante estes últimos anos muito fui surripiado — a minha estatura de garatujador de raiva líquida, a minha reputação de bicho indómito, a minha saúde, a minha vastidão de ideias. Embora haja uma procissão de lâminas a percorrer-me o lombo como quem espezinha uvas, permaneço devorador de deuses e gigantes. Milagrosamente, lá me consegui perdoar pelos passos atrapalhados da jornada.
O passo seguinte poetiza ou despoetiza o passo anterior? 

Decerto não inventei a noite; mas popularizei-a, elevei-a a hino das entrelinhas. 

Amor e paixão, esses deuses hoje ilegíveis, de gostos macabros, pois esperam retirar dos vivos a morte sem que nada de mal aconteça, vasculham gulosamente na miríade de mãos erigidas graças aos cacos da cruz.

O fossador profissional das entrelinhas acolherá novas possibilidades, mundos que hão-de brotar de supetão da sua míope interpretação, quiçá novos começos, haja inocência para os receber. 

Dirigiu-se esparsamente à multidão qual nódoa de sangue e palestrou durante séculos sobre a origem da cólera humana. Foram tempos memoráveis onde os seres humanos feiravam na tragédia e saíam de lá carregados de crânios. Sofro e distancio-me por motivos filosóficos, dirá o eremita dos novos tempos. 

Irra, que estopada! O seu afinco em sabotar os seus esclarecidos colegas, que teimam em ver no pirilampo uma estrela e em descaroçar os momentos difíceis com frases da moda comandava a sua respiração aflita. 

Toda a minha respiração tornada raciocínio leva-nos, não pela mão, mas pelo cachaço, por estradas limpas e estreitas, ao meu antigo nome. Desta certeza ninguém me escorraça. 

Deus e Homem, insusceptíveis de comparação, zaragateiam numa obra chata e votada ao assobio. Sobra-nos teimar ainda, uma vez mais exumar a hierarquia de cadáveres que nos ensinou a verticalidade. Volvidos estes séculos, “Deus é amor” foi diluído em diluvianas cacofonias. 

Despachadas as mágoas, a vida prossegue monótona, sem cumes nem vales e sem entraves. As pequenas e surdas antipatias grassantes nas redes sociais revelam um animal sem orelhas e sem tacto. 

Hoje sabemos, imperfeitamente, que estamos perdidos. Para desimpedir o caminho neste vale de lágrimas e desatravancar a macambuzice contemporânea, agarremo-nos com unhas e dentes ao cadáver de Deus. Não é uma solução perfeita, porém isto não pode continuar assim. 

Hino das Entrelinhas

 


Roberto Gamito

22.06.22

Estava eu no tiro aos patos com a minha espingarda fictícia, matando pelo menos uma dúzia, dado que os patos, ao contrários dos homens, são incapazes de distinguir a realidade do humor quando comecei a pensar no almoço. O mais das vezes, segue-se à sopa um prato de carne, e à carne uma sobremesa. A preguiça intelectual, prima sedentária da poesia, é o ofício de sintetizar o mundo às três pancadas, volta e meia poeticamente. Que este menino o consiga com aparente facilidade sem pactos demoníacos não esconde a labuta incansável para aperfeiçoar a mão cantante. 

Longe de transmitir factos, isso deixo para quem não sabe, estorvo o clima assim-assim aumentando a tensão, perturbando as palavras moribundas a toque de bordoada e, em calhando, enfureço os arquivistas de lugares-comuns. Cada palavra é cuidadosa e caseiramente escolhida de entre os mais potentes venenos. Fora com os bálsamos! As perífrases, distantes de serem diluições, são, além de exercícios de estilo, manobras de diversão. É a caça no seu melhor. Imune a uma certa gama de bacoradas, transmudo com entusiasmo os disparates em voga cuspidos pelos radicais sazonais em belos nacos de prosa. É hora de dar ao dente, diz o lobo mau.  

A envergadura do artista mede-se pelo seu apetite. Nunca se conformar com migalhas, sejam elas oriundas de bolos ou de gratificação momentânea, exige uma espécie de coragem na defesa de uma causa impopular. A irrelevância. A arte é a activista da irrelevância. Saúdo escritores que, apesar virarem costas ao espírito da época, batendo-se na batalha mais desigual de todas, um contra ao mundo, viram a vitória chegar postumamente. 

Assisti com a alma de cronista a uma procissão de medíocres. Emplumados graças aos ecos, voavam rasteiramente cacarejando nas ruas mais movimentadas dos lugares-comuns. Tranquilizou-me que, apesar de tudo, ainda havia poetas cujo labor era armadilhar palavras ontem inofensivas de pólvora. Um dia a minha cólera rebentar-vos-á a língua, ego, o eu e ensinar-vos-á o que é um Homem. Por isso, sobrevivo. A ideia, que aos poucos ia sendo demonizada pelos meios de comunicação, entrará um dia no vosso castelo de cartas qual bárbaro com o machado incendiado e reduzirá as vossas certezas a cinzas. Numa era despojada de poetas e deuses, o objectivo não é a verdade, é o assassínio.

Para o observador ingénuo, a homogeneidade é sinónimo de paz. O ideal é começar lento, descontraidamente e com agenda em branco, exibir umas trivialidades numa língua coxa e servil e preparar-nos para desarrolhar o bicho que há em nós. O estalo da rolha será como que uma guilhotina a abater-se sobre os papagaios. Desse silêncio que se segue ao inesperado hei-de erigir a minha obra, sorrirá o poeta. Eu canto a dinamite.

 

Canto o Dinamite


Roberto Gamito

20.06.22

O tédio era tão grande que parecia afogar-me naquela sala de espera. O tempo começara a esgotar-se, vazio, comecei a tremer como uma casca coreografada por um sismo mínimo, incapaz de assentar arraiais nas gordas dos jornais. O peixe cozido estava agora confeccionado, e eu, a sós com a minha vida, erigia monstros entre garfadas. Quando conseguires sossegar a mente a esse respeito, sussurrou a morte, vem ter comigo para falarmos.
Abandonei-me a fantasias grandiosas enquanto no chão o cerco das migalhas liliputianas dinamitava os meus sonhos um por um.
Lá longe, os bulldozers labutavam dia e noite nos terrenos da memória.
Arrependo-me de ter suspirado, não queria fazê-la cair numa esparrela. Nas prateleiras atafulhadas de bibelôs, uma ou outra fotografia exibindo o lado empoeirado da biografia.
Embora a situação lhe pareça nova, cogita o narrador, a verdade é que se repetira vezes de mais sem que os resultados tenham sido espectaculares. A Gigantomaquia no interior de cada artista. Não adianta, disse alguém cujo nome foi devorado pelo tempo. Eu disse-lhe que ela estava a falar de mim como se carpisse afoitamente um defunto. Em bom rigor, permanecia vivo.
Depois de o ter por perto, o calor fugia-me das mãos, retruquei pausadamente.
Um enxame de rotas alternativas voava à volta da minha cabeça incendiada. Abriria as janelas para arejar a casa até que o cheiro da morte desaparecesse. Enfureci-me, sentindo que o canário que invadira a minha mina me roubara os segredos.
De vez em quando vai dando notícias, murmurou o canário; não sou jornalista, ó nome depenado pela memória.
 

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Roberto Gamito

06.06.22

As ideias são muitas vezes perdidas entre os solavancos do raciocínio. Por mais suricatas que sejamos, há sempre um drongo a minutos de iniciar o ludíbrio. Caramba, logo agora que me havia habituado a devorar escorpiões sem passar cartão ao veneno. Já que os peregrinos nunca chegaram a Cantuária, nem Ulisses à sua Ítaca, nem tão-pouco o homem ao coração da mulher, sobram-nos os restos empoeirados dos últimos sermões desesperados. O porvir é um território deserto, irrespirável mas com boa pinga. O exegeta castigará com acrescentos o leitor, afogará o desgraçado num rio de patacoadas em letra miúda. Este prelúdio tem uma dupla ambição: turvar as mentes engessadas e obter folga humorística que pacifique o espaço entre a lâmina e a carne. Joyce e Sterne: eis dois pios exemplos, os quais gravitam excentricamente entre o eixo carne-mente qual cometa furibundo. Hospitaleiro, o texto tornado carne sussurra ao olho desdobrado na casa de espelhos: espero que retires da leitura um recreio inesperadamente infrene.
 
Inspirados em Xerazade, desejosos de manter a cabeça em cima dos ombros, manias!, filósofos cospem arraiais de citações poupando o fôlego de pensar pela própria cabecinha, artifício sofisticado que lhes permite olhar para trás sem serem transformados em estátuas de sal — e eis que uma fanfarra de aspas ocupa, por momentos, as ruas do conhecimento e algumas cabeças desocupadas. Que entretidos estamos com as silhuetas do eco. De pronto, as ruas ficam de novo vazias.
 
À margem destes episódios, os cultivadores de linguagem popular semeiam caralhadas na cara dos embasbacados. A hipótese de, nesses momentos, haver nas redondezas um escritor ávido de verter para uma língua mansa a cena ebuliente, por exemplo, passeando ainda na mesma rua, uma janela incendiada por uma mulher a flautear o pau recém-chegado e a ensaiar aquilo que mais tarde se chamará relação ou um deus decapitado pelo verso de um poeta obscuro: nada disto deve ser descartado. Ciclicamente a tese do eterno retorno é posta de lado. É inegável que ter convivido de perto como uma miríade de demónios e fantasmas me havia metamorfoseado num inferno ambulante. Afinal o que é o Homem? Pondo na borda do prato os episódios destoantes de cólera e paz, o sangue posto por extenso e elevado a hino, o coração melodiando o itinerário que une um sem-número de camas numa constelação de gemidos e frustrações e o cérebro alquimista tentando em vão transformar as dores nos ossos em ouro, ficamos com meras migalhas. Se abríssemos poeticamente o Homem de uma ponta à outra da sua História, veríamos que não passamos de primitivos. No mundo interior, uma balbúrdia de mãos, género Cueva de las Manos. E mal não se tem portado, para quem pretende permanecer engaiolado. Grande Homem!
 
Em jeito de homenagem a Chaucer, aqui começa o bobo a contar.
Ou a cantar, depende da qualidade da pinga.
 

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Roberto Gamito

11.05.22

O âmbar deu-nos a palavra electricidade; Deus, se quisermos perder a cabeça, o sangue. Retrocedo até à frase "a fama é a única verdadeira vida após a morte, onde vikings e monges se arruinavam por tesouros sobrestimados. Sacrificavam-se porcos, cavalos e homens. Templos onde o sangue salpicava paredes e caras, graúdos e miúdos. Os escaldos, os poetas da corte, escreviam com o sangue resultante da cidade dinamitada pela cólera. Os escaldos escaldados pelo caldo dos dias curtos passeavam o seu pescoço por entre as lâminas. Hei-de sepultar o meu nome numa canção imemorial, cogitava o guerreiro a um centímetro da lâmina que o havia de degolar. Homens e gado dormiam sob o mesmo tecto: de molde a manter a casa habitável no inverno.
Regressemos ao âmbar. Tempos houve em que era cobiçado por reis e senhores. Amiúde era trocado por bronze. Em certas praias, o âmbar, o qual flutua em água salgada, povoava as águas de pepitas curiosas. Além disso é inflamável. Ao passar o inverno nos territórios do sangue, o homem deixava que o monstro se alimentasse do seu silêncio e a cabeça amiúde cedia. Ao abeirar-se da praia pelo caminho da cerveja e do hidromel, uma não-pessoa (o nome dado ao homem que rejeitava a glória, o raide e a carnificina) via no interior do âmbar a cabeça das suas vítimas e eis que a memória via numa delas um rastilho. Uma constelação de cabeças em chamas sobre as águas.
Do outro lado deste delírio, o meu nome será terra arável para sustentar a música da minha glória. E eis outro corpo sem cabeça cravejado de setas.
Como certos bosques, o silêncio é impenetrável para forasteiros.
Esqueçamos os bosques, adentremos sem esperança nos pântanos, tão caros os homens do norte. Humoristicamente falando, os vikings, antepassados dos praticantes de BDSM, tinham um certo apego a ambientes pobres em oxigénio, quiçá uma homenagem cifrada ao episódio em que Odin se enforcou durante nove dias na Árvore do Mundo, Yggdrasil, com o fito de obter os segredos das runas. Seja o que as Nornas quiserem.
Houve cabeças cortadas de orelha a orelha, cabeças atiradas para o mato, como a de Edmundo, e encontrada mais tarde protegida por um lobo. Antes de regressarmos ao início, houve um homem que foi enterrado com a sua espada, com um martelinho em homenagem ao deus Thor e um pénis simbólico, o qual substitua o que perdera em batalha. Batalhas onde homens perdiam a visão, a cabeça e o caralho.
Tudo começou quando o calor se encontrou com o gelo. O calor fez com que a vida despertasse do gelo e que tomasse a forma de um gigante, Ymir. Enquanto Ymir dormia, um casal de gigantes formaram-se a partir do suor do sovaco esquerdo (olá, Rabelais!), ao passo que a perna gerou vida ao tocar na outra perna. Ymir, o antepassado dos gigantes de gelo.
À medida que o gelo cedia ao calor, surgiu uma vaca. Audhumla, a vaca primordial, lambia o gelo e o leite dela alimentava Ymir.
Bor e Bestla tiveram três filhos: Odin, Vili e Vé, os primeiros deuses. Odin e seus manos mataram Ymir. Do seu corpo nasceu a terra, do sangue, o oceano. Curioso perceber que houve tempos em que rio de sangue era uma tautologia.
Não satisfeitos, pegaram no crânio de Ymir e puseram-no sobre a terra para fazer o céu; povoaram o céu com o cérebro de Ymir e surgiram as nuvens. Reciclagem à antiga.
Desde esse dia que os gigantes planeiam a vingança sobre os deuses. Desde então que Jotunheim é um barril de pólvora à espera de Ragnarök.
Após reciclarem o gigante Ymir, os três deuses converteram dois troncos nos primeiros humanos, a saber: o homem Ask (freixo) e a mulher Embla (ulmeiro). Faz sentido o estado actual do mundo: toda a humanidade descende deste casal de cepos.
 

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Roberto Gamito

11.05.22

O samurai é encontrado morto num bosque de bambus. Colisão de duas frases. O caminho do samurai é encontrado na morte. Não há factos, apenas interpretações.
O coração fica a sós com o nome que carambola nos lábios outrora habitados pela paixão.
Caem meteoritos que nada sabem sobre os nossos desejos, povoando a noite de um circo de cicatrizes ígneas.
Noutro sítio do globo, os pirilampos transformam as termiteiras em faróis que conduzem os insectos até à morte. A luz é o maior engodo de todos os tempos. Mosquitos e homens aproximam-se graças ao ludíbrio.
Os gritos iluminam as maiúsculas da barbárie. Há sílabas que sobrevivem à tona da cidade incendiada. Dentro de nós cresce um cosmos de lâminas. Só posso falar do que me golpeou. A memória feita ácido encarregar-se-á da vingança: é uma questão de tempo até desfigurar todos os rostos.
Impacientam-se as primeiras fileiras de árvores. A tempestade ensaia a sua fúria. No palco, o homem palestra sobre a vida, ao passo que no olhar sepulta os seus segredos, cadáveres e mundos abortados.
Não te amo. Quando acordares, já terei abandonado o teu nome.
 

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