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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

08.02.22

O gemido, aliado a um nome, pode conduzir-nos às alturas. Humoristicamente falando, estamos diante de um foguetão caseiro. Expandindo a cena cientificamente, teríamos, num hangar algures no meio do frio, cachos de homens a vistoriar a trajectória da paixão. Em correndo bem, aplaudiriam, de calças em baixo, mais uma missão bem-sucedida.

O Deus original tem, nas suas paredes, não escaravelhos ou borboletas, mas deuses menores alfinetados: arrumados de acordo com a sua rareza. Ao lado destes, fraudes e deuses por nascer.
Ele sorri ao ver o padrão de criação-destruição.

O pormenor esfalfa-nos. É preferível extenuarmo-nos a profetizar uma grande obra. Precisamos de nos demorar um pouco mais, não deixar o rosto por pintar. É por meio do pormenor que as formas são resgatadas do nevoeiro.

Entopem a acção com o evangelho da inércia. Alguém tem de construir, a meio de uma carnificina, uma loja na qual se venda silêncio. É aqui que se compram sementes de esperança? Sim, responde o lojista, mas cale-se.

Atacar eufemisticamente o outro é cobardia, não confundam com educação. Atacar um desgraçado vulnerável em turba não é humano, é animalesco. Existir é estar preparado para a pequenez.

No império de Narciso, vários ângulos foram banidos, só o melhor interessa. Por conseguinte, ensaia-se a espontaneidade vezes sem conta. O pior ângulo do outro também nos interessa, caso nos favoreça. Fotografamos os extremos, esquecemos o miolo.

Impingimos legendas a certos episódios dos quais conhecemos apenas fragmentos. Embrulhe-me essa catástrofe nesse jornal da semana passada, vou servi-lo às minhas vizinhas como se fosse peixe fresco. Vai ser de comer e chorar por mais.

Postular o itinerário do olhar é infantil ou digno de ditador.
O livro de auto-ajuda é uma história de catraio adaptada aos ouvidos adultos. Um certo homem embrulhou uma doença numa prosa sem arestas e não disse coisa com coisa. A manobra publicitária de enxertar o final feliz numa catástrofe é uma das grandes invenções da Humanidade, talvez até superior à roda.

A poesia chorona, que grita em vez de cantar, é incapaz de entrar no Homem pelas suas brechas. É recebida com “giro” e despede-se de nós sem deixar legado.

Até a respiração se pode transformar num monstro, numa coisa que incomoda. Gota a gota criamos o dragão, como nos afiançam os manuais de tortura chinesa. Deus ter-se-á aborrecido quando se deu conta que o Homem pode ser enlouquecido de infinitas maneiras.

Escrever sobre a superfície é pôr por extenso o nosso medo. É o simpático método de liquidar a humanidade: como não quero que o mundo me bata a porta, escrevo e em linhas simulo cercos e cadafalsos.

O homem contemporâneo não existe verdadeiramente, está demasiado preocupado em ser filmado segundo um ângulo favorecedor.

Deitado, o homem-estátua aproxima-se perigosamente do morto. Por conseguinte, defender a verticalidade é o seu verdadeiro ofício. Ao contrário dos demais, permanece de pé e não faz alarde da façanha. É um homem fora do seu tempo.

Pôr a morte a um palmo das pessoas e pedir-lhes que digam, por amor de Deus, algo de admirável. Eis o romancista-carrasco.

O nome, um resto que se agiganta até conquistar a capital da memória. O pensamento, a gaiola barroca do animal. Vida, erro solúvel no álcool.

Vivemos como na Idade Média: rezamos para que não nos matem injustamente. O poeta é aquilo que Deus faz ao Homem quando quer ser surpreendido. A questão que faz a arte andar: alguma vez conseguimos surpreendê-Lo?

Até o mais simpático dos homens tem no seu âmago um monstro.
O coração foi vandalizado por um nome e ainda não recuperou. Um dos mistérios do amor. A cidade interior despede-se da sua Idade de Ouro.

A confusão é a vingança nas mãos de um bárbaro aprendiz.

Todos os versos são declarações de guerra, todas as rosas e pássaros envenenados. Se saíres do domínio das convenções, cometerás um atentado ou serás, de súbito, pai de um novo movimento artístico.

No império dos míopes, tudo é e não é ao mesmo tempo. Os enciclopedistas erraram logo à partida: o inventário pressupõe estabilidade. De que vale classificar o animal se ele é um bicho em constante mutação? A mão produz arte, tal como a lâmina. E o seu avesso, tal como a lâmina.

Encaixotámos os escaravelhos e as borboletas, esquecemos o passado de entomólogo, e hoje penduramos frases breves nas paredes. O escaravelho era para nós, a frase para os outros: eis uma mudança decisiva.

Em certos períodos da obra, cada verso do poeta é uma caixa onde é guardado o paraíso ou o inferno. Uma biblioteca inteira não chega para explicar um único olhar. Arranjar marcadores de molde a irmos lendo aos poucos os olhares dos outros.

O silêncio é-nos estranho e vazio porque para investigá-lo é preciso não estar ansioso. Pertencemos a um século que é incapaz de encontrar seja o que for no silêncio.

Só nos entende quem está familiarizado com o sofrimento. O sofrimento como afinação do entendimento. A alegria como viveiro de mal-entendidos.

Para onde corre o medo se imaginar no meu corpo milhares de portas abertas? Para onde olha o Narciso se o espelho for proibido?

A pequenez é varrida para baixo do tapete, juntamente com os deuses, a nossa verdadeira dimensão causa-nos uma certa claustrofobia. Muda de assunto, por favor, não cortes o efeito do ópio.

Como a vida é bela, se vista num poema.

Evangelho do Kamikaze

 


Roberto Gamito

05.02.22

Como começar a pensar pela própria cabeça? Recorrer a pessoas, estranhas e conhecidas, quartos ou quadros, folhas em branco, árvores e perfumes, penas e guilhotinas: eis algumas hipóteses.

A paixão como vereda estreita onde o discurso prolixo se despede dos seus barroquismos. Interessa-me isto: por que caminho regressamos ao estádio animal. Que itinerário escolhemos quando vamos da humanidade à animalidade? Seguimos a via da cólera ou a da fornicação? Mas antes há que responder: de que forma sai o Homem do silêncio? Tranquilo ou ofegante: eis tudo.

Tangentes da nova escola, que tocam de raspão mas alardeiam profundidade. Profetas e poetas da tangente. Nuvem de arpões mansos.

A imaginação parte de um pormenor, ingressa nele com ganas, fá-lo ganhar volume, dentes e asas e só descansa quando dele brotar um monstro. A obra do olhar, a sua actuação sobre a paisagem ou um corpo. Eis a missão da arte: fazer de um olhar, de uma rosa, de uma paisagem uma porta.

Em certos funerais, o mínimo choro pode dinamitar uma cidade. Há uma tensão à beira da explosão. Os segundos são frágeis: o mínimo choro, soluço, sílaba pode trazer ao mundo uma nova geração de carpideiras. Diante da morte, o choro metamorfoseia-se em dinamite.

Há, no eufemismo, tão caro ao século XXI, um instinto de defesa, o qual denuncia o medo da palavra. O Homem acredita ter descoberto a fórmula para diluir a noite: só precisa de continuar a falar.

No fundo, Duchamp copiou as crianças desarrumadas. Pôr o vulgar fora-de-sítio é o desporto predilecto dos catraios. Eis uma forma de nos escaparmos a reprimendas: não sou desarrumado, sou artista.

Ser artista é pôr algo num sítio imprevisto. Seja o amor numa folha antes em branco ou o urinol numa exposição. A paixão arromba-me o coração e a mente e origina uma desarrumação duchampiana. Tudo muda de sítio, tudo é retirado artisticamente do contexto. Ser artista ou amante, que neste caso vai dar ao mesmo, é testar os limites das convenções. É urgente transformarmo-nos na cousa amada.

Na margem de uma praia remota, o cachalote, vazio como um pneu furado, foi cortado aos pedaços para que as crianças e os poetas consigam transportá-lo em cantigas. A falta de compromisso com o gigante, que é como quem diz, o empobrecimento que condena os grandes voos. Actualmente, não há carapau que dê à costa e permaneça inteiro nas nossas falas. É preciso tornar o mundo mastigável. O enorme necessita de ser desmantelado de molde a não assustar os animais timidamente verticais.

Se não existe espaço para mim no palco, sou obrigado a fundar outro inferno.

O quadro habitado de personagens mudas — uma espécie de febre que cada um traduz à sua maneira. Quem exibe hoje o gosto de permanecer à espera diante de um quadro sem se envergonhar? O quadro do qual despertam socos e pontapés.

Entre um quadro e outro, o homem segreda à sua parceira: Beijo-te, hospedo a minha expedição de expectativas no teu olhar. Que ridículo, retardatário no capítulo do namoro; já ninguém se expressa assim. Quando visto de fora, o Homem é apenas um Homem. Se visto de dentro, uma guerra de pequenos demónios abafada pela verticalidade. Imagino uma exposição constituída por Homens a braços com os seus fantasmas.

A tristeza e a dor dos outros pode ser engaiolada num poema ou num quadro, já a nossa é um animal esquivo, pensa alguém diante de uma tela em branco.

Uma frase para pendurar em todas as paredes do mundo. Que frase seria? Quero que os artistas se fodam, eis um exemplo.

Ninguém está verdadeiramente perdido: se bem lido, o itinerário circular desenha no deserto o mapa do teu inconsciente.

Os versos são trajectos sérios e maravilhosamente inúteis. Surgem de sítios imprevistos, como becos ou cadafalsos, no seio das coisas caladas, e ridicularizam, por momentos, a profecia do eclipse da razão.

Com mais ou menos humanidade, há uma verdade que permanece imutável: pedir é inútil se nasceste nas coordenadas erradas. Ter o berço no sítio certo dita uma vida. O local onde se nasce: metros quadrados decisivos. Apesar do teatro humanitário, as desigualdades adaptam-se como ratos a qualquer cenário.

Após uma obra que lhe saiu do pêlo, o aedo cogita: não me posso dar ao luxo de desperdiçar mais oxigénio. Cada verso tem de dar ares de guilhotina, cada poema um barril de pólvora. Quero matar um sem-número de exegetas, quer trazer o inferno às estantes dos livros empoeirados.

Não nos precipitemos, ainda não acabei de morrer e já me estão a pedir — médicos convencionais e médicos autodidactas — que ressuscite. Calma, uma morte de cada vez.

Engaiolar o abismo é um processo viciante. E o mais difícil é fazê-lo sem sorriso de lunático, sem povoar a orla do vulcão de frases sem nexo. Deixem-me procurar a paz na orla de um vulcão em actividade. Não me policiem as órbitas: sou um asteróide indeciso e o fogo tranquiliza-me. Talvez o Homem seja, afinal, filho do Diabo. Sobra-nos isto: enfraquecer Deus ou o Diabo expandindo-os numa obra sem palavras a mais. Existir é estar preparado para ser deixado de lado. A verdade é o prémio da propaganda vencedora.

Não me vês, não finjas que não és míope. E não há nada que se possa fazer quanto a isso: não posso ser o ditador que obriga o teu olhar a seguir determinado trilho. O Eu não é partilhável através da visão.

O progresso é uma história para adultos que estão a vivenciar a sua segunda infância. A palavra dita à beira do caixão é coisa para se infiltrar numa rocha e fragmentá-la. Não sou o tipo de animal que escolhe os grandes portões mas as entradas secretas. Abandonei o perfume e as madalenas, em vez disso ponho o dinamite em circulação através das minhas palavras. O meu sonho é destruir um século inteiro. E também isto: perceber o desespero do leitor que se deu conta que está a soletrar uma explosão, camuflada num pássaro canoro.

Se vamos ser conservadores em relação aos doentes, ouvi eu na televisão. Frase do nosso tempo. Noutros tempos seria suficiente para iniciar uma guerra. Há, nesta delicadeza caquética, uma obscenidade. Ao que parece, o corpo foi retalhado em colunas de excel. Há doentes que merecem abordagens conservadoras; outros, vanguardistas. Se é para morrer nas mãos do disparate, alcunhem-me de enfermo vanguardista. Morreu de quê? Morreu a tentar ser manifestamente diferente. Até onde chega a habilidade de ocultar a barbárie no discurso? Alegam que somos sofisticados, não canibais, porém vemos o Homem fatiado em todas as parangonas.

A medo avança por aí. E podemos, é claro, ver em qualquer trajecto a demanda de um louco. Se o mundo está irremediavelmente perdido, de que nos vale sair do sítio? A vida é um peso interpretável de mil e uma maneiras. Não há balanças erradas nem certas; contudo, todos os homens têm o mesmo peso. Sem amor, a língua ficaria despovoada de intensidades. Calarmo-nos ou falarmos seria igual ao litro. A vida é o sítio onde o erro começa e acaba, um grito que cavalgamos a horas certas ou a desoras, sem final definido, pese embora a morte nos desminta.

Escrever é sujar lucidamente a folha. Invadi-la com uma miríade de fantasmas e aves de mau agouro. Fica de noite, portanto.

Tenho precipícios nos pés, mas ainda não aprendi a cair. Naquele rosto já não há nada que nos faça sonhar, comenta uma personagem de um romance. É liquidá-lo antes que ponha em dúvida a nossa bateria de certezas, riposta uma pessoa de carne e osso. Corrijo: tenho princípios nos pés, eis o que penso noutros dias mais luminosos. Mas entretanto o punhal já iniciou o seu trabalho nas minhas tripas.

O poeta é impróprio para consumo, resta-nos atirá-lo ao lixo, amachucá-lo sem dó nem piedade. Pode ser que a sua agonia seja capaz de nos educar. Ainda não há canhenhos da barbárie suficientemente explícitos que permitam ao Homem ver-se ao espelho. Daí as dúvidas, daí as escolas do delírio. Em todas as coisas há uma semente de ópio. Dou-vos autorização para me despertarem do torpor se souberem do paradeiro do paraíso.

Se nos tornamos iguais, o Homem torna-se paisagem. Forçamos ligações, forçamos sinónimos, forçamos abraços. A diplomacia afasta-nos da verdade: não há duas palavras iguais.

A amizade é baixar a guarda, confessar a localização da vera porta pela qual o outro ingressará em nós. O parecer colonizou a maioria dos verbos: as portas são hoje fictícias — daí as cabeçadas, quais pardais nos vidros.

O estar parado é desaconselhado. Faltará pouco para se abaterem os homens-estátua. Estar parado é incompatível com a Sociedade das Febres. O ser humano usa uma parafernália de recursos para adiar a catástrofe do silêncio. A paixão — ouvi dizer, não confirmo nem desminto, dado que sou filho deste século — ou a sua ausência faz com que o silêncio possa ser por vezes magnífico e outras vezes hediondo. Não estamos todos no mesmo sítio — como se apregoa ingenuamente. Felizmente, o início é coisa do passado. Minto, o tempo ainda não tinha sido inventado.

Sem a noção de espaço, não havia nada, não haveria prateleiras para pôr tanta mentira. Não poderia haver artistas nem público, nem Duchamp nem detractores de Duchamp, nem casa nem mundo selvagem. Cuidado com o que desejam, pode sair-vos caro.

Que Deus nunca ouça a prece dos ingénuos. Ninguém é educado para ver nas setas pássaros em queda, a não ser o bárbaro com inclinações poéticas, mais raro que deuses, que vê na sua morte uma oportunidade para sorrir.

Catálogo de movimentos

 


Roberto Gamito

02.07.21

A única inovação admitida era a zaragata enquanto aquecimento para a escrita, à qual se entregava com grande entusiasmo. Aos poucos, sem que ninguém o tivesse previsto, tornara-se um lutador de nomeada, ao passo que como escritor nunca passou da cepa torta.

O gordo é um Galactus em potência, um aspirante a devorador de mundos, uma vez que come em quantidades astronómicas. Embora não seja um trabalho intelectual que gostássemos de pôr no currículo, não creio ser despiciendo contar a razão pela qual o gordo ambicionava engolir o universo. Segundo reza o boato, a mulher da sua vida possuía um corpo que estava a anos-luz do seu. Não me espantaria se por detrás do seu crescimento estivesse oculta a vontade de a comer.

O palestrante caído na ruína, o qual se considera indigno de comunicar directamente com qualquer pessoa presentemente, está, com a sua vida de eremita, a prestar, finalmente, um serviço ao mundo. O ‘caladinho é que estás bem’ posto em prática — e é uma das belezas deste século.

O mundo dos negócios é o novo planeta do sistema solar — não tenho provas, isto sou eu a especular.

Não há mal nenhum levar uma chapada na bochecha e permanecer calado. Aliás, é preferível atermo-nos ao silêncio a cometer o crime de escrever um livro sobre o sucedido. Que há com esses bandalhos que anseiam por perenizar em canhenho a sua tragédia?

Nutricionista do discurso. Quando o sentíamos pesado, recorríamos a estes profissionais da leveza. Aconselhável a humoristas hipnotizados pelo evangelho da gravitas.
Ao adicionarmos peso às brincadeiras, estamos a ser — digo-o com todo o respeito — empata-fodas ou, se preferirem, bibliotecárias embirrentas. Que mundo é este no qual só podemos falar se for com o fito de requisitar os volumes coxos da língua agrilhoada — o puritanismo 2.0?

Nem todos os puritanos são seres humanos no crepúsculo da vida. Há-os que, ansiosos por pôr mãos ao trabalho no estaleiro do eco, encetam a sua carreira de censor logo no berço. Há verdadeiros prodígios neste campo, há quem só comece a falar aos trinta com medo de pronunciar alguma palavra maldita que o ensarilhe.
O pensamento?! Que a sua prática seja para sempre abolida — que se fodam o ontem e o amanhã. Mãos tão pequeninas — outrora versadas na poesia mais vulcânica — mal chegam para segurar o diminuto presente.

Deus morreu, e o Homem decidiu usar o espaço para montar o estaminé do ego. Uma imbecilidade narcisista. Entrementes, a verticalidade desapareceu, embora as performances sazonais de bipedia nos convencem de longe em longe do contrário. Do berço ao cepo imperturbável — eis um tipo de Homem que se extinguiu.

A solução? Se fôssemos obrigados a enunciá-la, seríamos objectivos, e toda a gente sabe que o objectivo é hoje coisa mais flexível que um contorcionista asiático — ai meu deus, o que o escriba foi dizer!

O leitor não simpatizará com qualquer linha que se aventure pelos caminhos tortuosos e mal-iluminados. O escritor, mesmo sozinho, já que, ao não se demorar em nada, nem para ele escreve, não se importa — ó maravilha das maravilhas! — de vez em quando, depenar com sageza de velha do campo um tanso mais armado ao pingarelho.

O público há-de condená-lo e os demónios e hóspedes dos círculos de Dante hão-de apaparicá-lo, tal qual o dia em que surgir o algoz de Deus. Criador ou estalajadeira esquiva deste planeta azul? Um hipócrita da hospitalidade. Seja como for, há um preço a pagar — não há almoços grátis e, como se isso não bastasse, amanhã temos de abalar.

É verdade que o velho gasta a reforma em cona de bordel? As línguas nefandas dizem que sim, mas a verdade é que devíamos aprender com o velho. Poeta da cintura para baixo, agarra-se tão-somente ao essencial. Entretanto, os anos infectaram a cona com uma inflação tremenda e hoje não tem outro remédio senão contentar-se em comer uma senaita a meias com a mulher. Uma pessoa tem de se adaptar aos novos tempos — outra lição valiosa. Com efeito, encontramos sábios em sítios inesperados. Eis o sábio do bordel.

A freira, tomada por um exército de febres, ofereceu-se para me desembaraçar do tesão que me enfunava as calças. Propensão tão pagã, sussurrei-lhe, tão imprópria para quem leva a vida a carregar a cruz. Que tipo de homem seria eu se negasse quem me quer ajudar? Graças ao psicólogo, sou hoje uma pessoa menos reactiva — siga, abocanhe cristãmente o mangalho. A outra, porque, como a música nos alerta, afinal havia outra, recusou-se a contribuir para a minha salvação. Em todo o caso, a amante do senhor agarrou a pechincha — visto que foi de graça —, e o ritual argênteo cumpriu-se sem problemas de maior.

Podem imaginar a vida penosa desse miserável personagem, esse mártir que de tempos a tempos é obrigado a sacrificar o nabo.
Ao contrário do que seria expectável, os tempos de escassez são-lhe mais favoráveis que os tempos de abundância. Deus, com o seu convite a uma vida simples, estava, de forma cifrada, a aconselhar-nos a fornicar mais.

exército de febres, roberto gamito

 


Roberto Gamito

29.06.21

Tudo o que é eterno é tão antigo que só pode ser ininteligível.
Traduzir o que ao longe se afigura como ponto em pacífico é um acto excepcionalmente ingénuo. Ao longe até o dragão é um ponto.

Cadáver divino, sangue de um vermelho que não existe na natureza. Vermelho de deidade caída em desgraça. Como pintar então este quadro?

Ninguém conseguirá abolir a Primavera, no máximo, adiá-la. Nesse impasse onde a tribo se bifurca em escolas distintas, as flores discutem sobre hipóteses inéditas de florescimento.

Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala línguas — Coríntios I. Por conseguinte, mesmo que quisesse, seria inábil em traduzir o meu destino para o vosso idioma.

Ao caminhar sobre gelo fino, o corpo transmuta-se em calcanhar de Aquiles. Seria terrível se a sorte nos abandonasse num momento como este. Rezar seria imprudente, trazer o peso de Deus para uma situação destas é pedir a morte.

A cruz está aqui, só que está por montar. Aquando da crucificação de Jesus, Deus ter-se-á virado para Abraão: “Vês, não é assim tão difícil sacrificar um filho”.

O progresso enquanto algoz cuja incumbência fosse abater homens-estátua. O Homem, segundo ele, está programado para dar o passo seguinte. Tenho receio de domesticar o meu coração no ginásio das tarefas vãs. Amedronta-me ter desperdiçado uma vida a treinar o coração com o fito de se bater mano a mano com as ficções.

Escrever até os ossos estalarem e as tripas cantarem de tanta fome. Seguir a frase de Cioran como uma máxima: “A saúde é uma ausência de intensidade”. Emprestar a vida à folha e contentar-me com os restos.

A cólera é o sino apto a convocar o bárbaro acoitado no interior de cada Homem. É preciso fechar a boca de molde a não consentir a saída do selvagem. Cada palavra é um túnel, um indício da selvajaria que se avizinha.
O homem santo, inexperiente no tocante às possibilidades da maldade, foi atropelado por um zoo bíblico — espezinhado após uma dança de cascos. A morte por um lado, o regozijo dos animais, por outro.

Após a fornicação, é preciso dar uma vistoria aos bolsos da mulher, não vá ela ter-vos roubado o coração. E quem diz mulher, diz homem. E quem diz homem, diz larápio da víscera-mor.

O sonho húmido do déspota é transformar o Homem em pedra, em coisa pacatíssima. Mas até a pedra, bicho em princípio imóvel, tem dias em que resvala.

O abismo e o suicídio não são invenções deste século. Dois terços do trabalho está feito — não nos podemos queixar. Como pintar então este quadro? Negro sobre negro povoado tão-somente por um grito lindíssimo?

E o futuro, pergunta ela, no primeiro encontro. Como falar de um lugar tão fundamental com alguém que acabei de conhecer, responde o homem, destoando da atmosfera. Como pintar então este quadro?

Até que ponto vale a pena passear os cotos num mundo morno?
Salta de cama em cama, qual rã da fornicação. A estranha aventura de coleccionar calor em estranhos. Todavia o coração permanecia adiabático. Será isto o purgatório: a província obtusa onde os hóspedes procuram um resgate há milénios? A esperança, irmã do bem e do mal, permite igualmente a acção e a paralisia.
Em parlapié de taberneiro, a esperança é pau para toda a obra. A ninfomaníaca riu-se.

Sou um ninguém cujas letras não pousarão jamais, sou o espectro apinhado de dúvidas entre o nome e a coisa nomeada.

O mundo? Pois, temos aqui muito por onde desesperar. Versos robustos, inquebrantáveis? Que suspeitos, aqui é tudo de partir, para usar e deitar fora. Mesmo calado não digo nada; trata-se de um silêncio sem grandes pretensões literárias.

Todas as jornadas são demandas em círculos: não logramos fugir daqueles que somos. Como pintar então esse quadro?

Entre o socorro posto em prosa elegante que amiúde nos acompanha a fome de carne e a aquiescência sorridente que legenda o avanço da mão marota, instala-se por vezes um instante onde o impossível é degolado.

O canibalismo é impossível entre os Homens. Cada Homem é uma espécie à parte.

Os dias, fartos da mansidão de outrora, abeiram-se de nós com uma catadupa de tempestades. A tempestade faz bem aos medrosos, escorraça-os do território da dúvida. A mão defende-se como pode na folha, mas nunca está inocente. Será esta a culpa inextirpável sentida nos textos de Kafka?

Para onde virar o holofote da minha atenção se o mundo, na sua copiosidade de mundinhos, reclama a minha vida? Estímulos que me sugam vampirescamente os dias gota a gota.

O papel do escritor — quem vem lá com a prosa desembestada sem o açaime das convenções?! — é quebrar a hipnose da paz postiça. O escritor é o carrasco dos paraísos artificiais.

Carrasco dos Paraísos Artificiais, Roberto Gamito

 

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