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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.04.21

Marufle, tela sobre tela. Dias em cima de outros dias. Um retrato corpulento encimando o engano. Gostaria de saudar o inferno numa língua vera, sem arrebiques nem venenos, uma língua só luz capaz de competir em altura com as chamas perpétuas.

Fui inventor de uma espécie de funambulismo caseiro, todavia não quero que isto se saiba. Fui assíduo na fogueira quando me torturava. Os meus passos talvez fossem considerados menores, mas aprendi a enaltecer a vida presa por um fio. Despojarmo-nos nas alturas tem o seu quê de sandice. A maromba, caso exista, é o ponto de auxílio, um grão de ficção no qual depositamos fé de que é possível manobrar a morte. Lá no alto, o passo ganha a forma de um verso curto, contundente, sonante e sem resquício de gaguez, quer dizer, um grito. O passo em frente é um afago na cabecinha do norte. A plateia do sopé, aquela cujo distinto pedigree no tocante ao bitaite já nos deu o tanto que esquecemos, prontamente apontará defeitos a quem cambaleia. O que falhou na vida de quem desafia. Enfim, cultores da mediania, do barroquismo entediante, quer dizer, sentimentais fazedores de desculpas. Ainda que o funâmbulo inspire os demais, os seus passos não podem ser exportados, enxertados, desnorteados e traduzidos em várias narrativas favorecedoras deste ou daquele. O homem está sozinho sem ficções que o auxiliem. É apenas um homem de mãos vazias a tentar perceber onde começa e acaba a vida. O homem despreocupado com a farpela, os pés gretados pelo fio, suor e sangue como se fosse um poema de um aspirante a poeta. Pensa: quem sabe, talvez seja possível sobreviver a isto. O homem inocentado pelo passo em falso. O coração acelera na orla da vida. Equilíbrio retomado. Nas alturas, o desequilibrado — o louco — só lá vai com equilíbrio.

 

Marufle, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

13.02.21

Que nenhum dogma passe uma rasteira ou belisque a trajectória do Homem. Um quadro, seja ele estático ou dinâmico, animal ou estátua, deve enfeitiçar-nos ao primeiro olhar e só devemos despertar quando a metamorfose estiver concluída. Podemos jornadear até aos territórios vastos e mutantes da infância, voar até aos píncaros da imaginação, naufragar até às profundezas do passado mais recalcado, com as mãos atrás das costas ou com elas à frente do corpo, da carne, como se a carne e a mão falassem línguas distintas e o cérebro fosse um tradutor de vão de escada, dono de uma fluência artificiosa.

A morte. Fim. Não há necessidade de dizer tudo o que pode ser dito sobre o assunto. Este eu é, ao mesmo tempo, animalesco e civilizado — e, o que é igualmente premente, devastador. O eu, artifício composto de restos. Como a personagem de O Homem sem Qualidades de Musil, Ulrich, sinto-me (qual bomba mansa, acrescento da minha cepa) a dar passos livres em todas as direcções. Quão fragmentado está o Norte? Quantas Ítacas preciso de amealhar com os meus passos de molde a consumar o regresso? Sou sem nome ou Ninguém, sou homem hipotético e provisório borbulhando aflitivamente num caldeirão de eus. O próprio grito admite hierarquias. Um cardume ou um viveiro deles: eis a colossal diferença.

Amor, sempre o amor. Tudo o que a mão alcança e persegue deve estar subordinado a esse desiderato. Há uma incitação que me diz numa língua acabadiça: nunca desistas de o procurar, o resto não é senão ficção.

O funâmbulo é que sabe andar nisto. Para citar Brian Dillon, o futuro está mais no instável do que no estável, e o presente não é mais do que uma hipótese que ainda não ultrapassámos. Pausa para digerir o oráculo. Esta passagem é instrutiva quanto à natureza polimorfa do tempo, perpetuamente esquiva, que se metamorfoseia, qual partícula do mundo quântico, consoante o, digamos, observador. A presença ou a ausência de observador muda tudo. O observador, no mundo quântico ou no amor, como agente principal da metamorfose. Citando Ovídio de memória, de formas mudadas leva-me o engenho a falar, mas primeiro — anda cá, leitor. Com efeito, sem observador o caos segue indomável.

O funâmbulo leva uma vida despojada no fio caprichoso; o futuro, o futuro bem debaixo dos pés. Uma existência sem barroquismos nem ademanes. A maromba como único luxo. Nós, comuns entre os comuns, passamos a vida a olhar para cima, fitando o céu desabitado, pondo no discurso inveja onde devia haver intrepidez. O funâmbulo trocou as musas pela morte, pelo que nunca estima equivocamente a importância de cada passo.

 

Presente e Futuro, Roberto Gamito

 

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