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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

04.02.22

O Homem do século XXI abarca o mundo pela rama, é um Leonardo da Vinci de fugida e em tudo tem êxito. Como Terêncio, nada do que é humano lhe é estranho. Em suma, é contemporâneo de um sem-número de delírios.

Nas redes sociais ou na televisão, é vê-lo a injectar vigor em raciocínios mancos, a ornamentar com artifícios ideias rombas com o à-vontade de um sábio. O seu palavreado é magnífico, grandes construções positivas — mas sem sal.
Em chegando perto dos arquivos do sangue, não descansa enquanto não os diluir em contradições. Não compreende a cólera, não compreende o Homem.

A tragédia é sistematizada, é-lhe retirada a cabeça e as patas de molde a tornar-se mais mastigável, ou mesmo passada em revista, emendada, as dores arredondadas por defeito ou por excesso consoante as vontades. O objectivo é tornar a mágoa num post de circulação corrente. Ao dar-se conta do sucesso, é acometido por uma epifania. Da manufactura da ansiedade até à indústria do grito é um tirinho. Inesperadamente, sobe na vida graças à escada de lágrimas de crocodilo.

O público ciclópico (dinastia do literal) engrandece-o, resgata-o da invisibilidade, a pior maldição deste século e eleva-o aos píncaros da genialidade. Este cadáver esquisito nascido da necessidade da turba passa a oscilar entre o positivismo mastodôntico e o niilismo de pacotilha. Mais: alimenta-se disso.

O influencer — figura central destes últimos anos — é um pensador desnorteado, necrófago de citações franzinas, infinitamente coxo e maravilhosamente cego. Explora a sua cabeça com medo de encontrar alguma réstia de lâmina. Sorri para tudo como se fosse apresentadora de um programa da manhã. Coligiu os ecos e chamou-lhe obra, apropriou-se daquilo que todos fazem e envernizou-o, passou o antigo para outro formato. Retira prazer em liquidar o duplo sentido ao transplantá-lo para imagens. Não muda o urinol de sítio, se está aqui é por alguma razão, comenta. Maneja Deus e o Diabo como um rico os talheres: com gestos calculados sem pingo de humanidade.

A cobardia é o seu modus operandi, nunca ataca um problema de frente; inspirado em danças populares, anda às voltas e voltas e é incapaz de entrar no seu âmago.

Profundamente apoético, crê ver nas marcas um verso, num anúncio um poema. Nada o estremece verdadeiramente. Os seus suspiros são reflectidos, bem enquadrados e fotografáveis. Os seus ódios são elogios mascarados; as suas exasperações, birras de crianças bigodudas. Não tem preferências nem preconceitos, vai ao sabor da corrente, qual salmão após a desova. É um santo fabricado pelos holofotes e pelos números. Diz-se um espírito livre e, sem se deixar abater pela contradição, aproveita todos os segundos para pregar a xaropada mais em voga. Agarra-se a todas as verdades estrangeiras, preferencialmente aquelas frases curtas repletas de palavras da moda. É o cu manso de todos os ventríloquos. Os seus passos, assim como o ‘pensamento’ e o sorriso, são oportunidades de negócio.
O seu maior sonho é monetizar cada canto da sua Odisseia em frangalhos.

Homem do século XXI, roberto gamito

 


Roberto Gamito

25.01.22

Se cometêssemos a ousadia de inventariar os comediantes mais intrépidos de todos os tempos, aqueles que aproximaram a sua cabeça do cepo em virtude da sua arte, teríamos de pensar em personagens como Swift, Rabelais, Aristófanes. Nestes três grandes encontraríamos ainda uma réstia de amizade para com as convenções, tal não acontece com Diógenes, o Cínico.

Diógenes, apelidado de cão celeste por um poeta da sua época, Sócrates louco por Platão, o cínico por excelência, é o santo padroeiro do escárnio. Ele sim podia dizer que era o comediante da verdade. Nunca houve nem haverá outro como ele. A sua verdadeira demanda era o rosto humano acoitado sob as máscaras. Procurava avidamente o monstro que o Homem tenta engaiolar numa teia de farsas.

Diógenes está nos antípodas do século XXI. Nós, contemporâneos das sobras, somos acólitos da pose, enquanto Diógenes a suprimiu por completo. O cinismo dele não é o cinismo da nova escola, o cinismo da fragilidade, quer dizer, o cinismo típico de consumista. O cinismo de Diógenes não é um escudo, é uma espada.

Ao contrário do fandango actual, isto é, o círculo de legitimação onde papagaios engalanados disparam um discurso leproso e a roda contínua de afagos mantém o grupo de embusteiros coeso, Diógenes mantinha-se à margem. Que monstro aos olhos de quem anseia manter a farsa da reputação de pé! Quantos falsos profetas e falsos sábios tremeram só de saber que Diógenes se aproximava? Quantos reis viram a sua coroa evaporar ante o olhar do cínico? Quantos ricos viram a sua riqueza liquefazer-se após um comentário do cão celeste? Quantos poetas se suicidaram após se darem conta que o seu canto nada tinha que ver com o Homem?

Diógenes não papava grupos. Sem mestres nem discípulos, era o sumo pontífice do Homem no templo do Deus desconhecido. A hipocrisia é a religião inimiga das evidências.
Se há algo imutável no homem é que este nunca teve coragem de aceitar a sua verdadeira imagem e que sempre recusou as verdades sem contemplações. Enfarpelamos a nossa ignorância com barroquismos, confundimos verticalidade com pose. Coleccionamos poses com o fito de ocultar os ângulos mortos da nossa fragilidade. Dois mil e tal anos de ecos, oriundos de santos e ascetas, papagaios e pernetas, de nómadas e de cabeças sedentárias mesclaram-se e deram origem ao edifício das nossas certezas. É uma catedral presa por arames, no interior da qual, qual Diabo no nono círculo de Dante, fermenta o animal colérico chamado Homem.

Por vezes sou assaltado pela ideia de que as línguas são longos rituais de encantamento que visam adormecer o bicho que repousa no interior deste labirinto de máscaras. Tentar blindar-nos de uma verdade cegante é tudo quanto o Homem almeja da palavra. Não é destituído de graça que o maior conhecedor dos seres humanos, Diógenes, tenha sido apelidado de cão: farejou onde os outros não encontraram nada — perdoem-me o gracejo.

Não me tapes o Sol, disse Diógenes a Alexandre, o Grande. É necessário regressar do inferno da loucura para estar à altura desta deixa. Talvez não seja descabido recordar um episódio menos conhecido do Cínico. Ao entrar em casa de um sujeito abastado, em que tudo brilhava de tão limpo, foi-lhe recomendado: “Sobretudo, não cuspas para o chão.” Diógenes, que estava com ganas de cuspir, lançou-lhe o cuspo para a cara, que era o único lugar sujo que tinha encontrado. Quem é que nunca sentiu vontade de, a meio de uma festa de ricos alheados, cuspir oceanos de saliva nas suas carantonhas e só descansar quando o cuspo fizesse as vezes do dilúvio? Somos ridiculamente prudentes, equacionamos cenários onde podemos tirar lucros da nossa subserviência. Pomos cu, coração e cérebro a render: eis-nos chulos dos nossos neurónios.

Diógenes, o homem do tonel e da lanterna, o homem que procurou o homem bom, o homem que se masturbava em praça pública e dizia: “Quem me dera que bastasse também esfregar a barriga para se deixar de ter fome”. O sábio que punha a nu as fragilidades da sociedade apenas com uma sarapitola. Foi falsificador de moedas na juventude, e daí para a frente empenhou-se a despir o homem dos seus vernizes enaltecedores.

O Homem que não se curvou diante ninguém, fez pouco de Alexandre, o Macedónio, Platão e de qualquer rico que lhe aparecesse à frente. Não propôs nada. A sua postura não é um modelo edificante, foi um homem sem pose. Foi o primeiro e o último da sua escola. O Sócrates louco fez rir, fez pensar, mas sobretudo desmascarou o Homem — eis a comédia plena.

Diógenes, o cão celeste

 


Roberto Gamito

19.01.22

Como recompormo-nos após o saque da juventude — ela que nos ludibriou com o mundo luxuriante todo frutos e nos entregou à idade adulta depenados e com uma verticalidade postiça. Somos abandonados dentro de uma caixa cheia de côdeas. Os sonhos deram origem a migalhas. O inferno é um paraíso quando comparado com a cabeça de um Homem. Tudo o que há foi parido na cabeça de um homem desesperado. Nada e de supetão tudo — um tudo apinhado de unhas, mandíbulas e fome. Cercados de um sem-número de predadores não nos resta nada senão simular no grito uma avalanche, rezando para que os predadores, canibais e necrófagos tombem, uns atrás dos outros, como peças de dominó. Recompormo-nos de um itinerário de faquir: trilho de áscuas, vidros e promessas quebradas. Em habitando a víscera-mor, seja um deus ou uma mulher elevada aos píncaros, o nome sairá escoltado por uma procissão de berros e gemidos e roncos animalescos. Eis as crónicas de um homem sem asas.

Entrementes, envelhecemos. A idade adulta assemelha-se a uma doença à qual tivéssemos sobrevivido em virtude de termos pago um preço elevado, uma perna, um braço, uma porção substancial do cérebro. Não chegamos inteiros à idade adulta. Cada ser humano é uma variação de Proust: dentro de nós engendra-se, ora às escâncaras, ora às ocultas, a composição de Em Busca do Tempo Perdido. O resto da vida é tentar regressar a um passado que aos poucos vão perdendo os contornos. Eis-nos Ulisses rumo a uma mancha situada na província das assimptotas. Dotados de uma réstia de clarividência, damo-nos conta da impossibilidade de regresso. A cidade de onde partimos já não existe, já não existimos na íntegra, somos outros, somos, com efeito, o cadáver esquisito posto em marcha pelas mil e uma mãos surrealistas de que a vida é dotada.

E de um momento para o outro o concreto passa a abstracto. Que terapêutica empregar contra um quadro mental que não passa de um borrão — ele que pode ser tudo e nada simultaneamente —, de que modo nos podemos desembaraçar da doença se nos fundimos com as sequelas. É impossível apagar o legado das chagas sem nos aniquilarmos.

Exceptuando um punhado de desocupados mais versados em voos poéticos e os reis do absurdo e demais bailarinos cujo passatempo é ensaiar as primícias da loucura, todos os espíritos parecem subjugados por uma vocação que não lhes pertence.

Só aqueles que se emanciparam — e para quê, perguntar-me-ão —, uns através do questionamento perpétuo, alcançando o caroço do nada, outros através do bailado da loucura, ao passo que os demais, mais sensatos ou mais loucos que os loucos, resolveram abrir mão de tudo o que é palpável.

A obsessão insípida de ser útil tornou-nos primos dos objectos. Num primeiro encontro, fitamos o outro como quem compara iogurtes. A humanidade, a haver, existe como vestígio na tabela de componentes. Alcançámos estas ideias sentados, numa sala de espera, na qual esperamos um diagnóstico que pode, qual fadinha malvada, mudar o curso da vida num segundo. Sou um, ninguém e cem mil. Estou de acordo em parte, senhor Pirandello, todavia cem mil são abatidos logo que o cancro é propalado pelas trombetas da medicina. Doravante seremos simultaneamente um e ninguém.

Quando, no mundo actual, o trabalhador é tão-somente átomo neste universo decorativo do capital, onde as ficções se encavalitam gerando pirâmides bizarras, as quais podem tombar graças a um suspiro, com efeito, há muito deixou de ser uma mais-valia. Mais rente à verdade, o trabalhador é um empecilho com pernas, feito barata tonta, porém vulnerável como porcelana, o qual pode ser visto, caso sintam necessidade de serem turistas de uma tragédia actual, na coluna mais tristonha da folha de cálculo. Presentemente, somos uma despesa nómada, obrigada a esforçar-se a toque de chicote subtil, mas nunca a transcender-se, para isso é preciso ter posses, o Deus no trono, não esquecer, é o dinheiro. Pedem-nos o infinito, exigem-nos a omnipresença, estar em mais de um sítio ao mesmo tempo, e, inesperadamente, dado que fomos feitos à imagem de um antigo Deus falecido, fazemo-lo. Somos pequenos deuses precários, não há ninguém que preste culto ao trabalhador. Não há fiéis nem aplausos, há crucificações e trabalho no dia seguinte.

Encontramo-nos à mercê deste jogo sinistro, vítimas de um diálogo estéril, vigiado e guionado. O improviso é punido.
Somos uma família, apesar do chicote incansável, apesar dos salários cadavéricos, eis o que diz o aparato do branding no interior da empresa. A economia tornada negócio de família pela comédia mais negra. Se assim é, não me admiraria nada se isto tudo acabasse numa chacina.

Calados, os trabalhadores comunicam a sua dor e a verticalidade murcha com o olhar, é vital perseverar no sorriso, é-nos proibido quebrar a ilusão do cliente: o mundo é belo, recheado de oportunidades, eis o que assevera o punhado açambarcador dos lucros.

Dentro de cada um de nós, há uma guilhotina. Dissimulamos o carrasco numa avalanche de boatos, não matamos o senhor mas figuras virtuais, geramos o milho para pardais ávidos de tagarelice em vez de minar a arquitectura vampiresca do Capital, sobre a qual se apoia a Grande Ficção.

Não é fácil ser iconoclasta, destruir um ídolo não é para todos: dominar a marreta requer muito tempo, é preciso promovê-la ao estatuto de caneta e avançar sobre as estátuas de deuses erigidos pelo dinheiro insuflado pela ganância qual poeta prolixo que rescreve a História da primeira à última linha. Não há meias revoluções. Espártaco que o diga. Parar é morrer.

Mas como virar os seus olhares povoados de iguarias de faz de conta para os cantos mais obscuros onde a patranha não sobrevive? Embeiçados pela promessa de conforto, parece que somos incapazes de nos comovermos quando assistimos de camarote a essa fanfarra cinética que é a extinção da liberdade.

Às carambolas entre os meus jugos, os meus arrependimentos, os meus amores, os meus fracassos, há um pensamento que não se dá por vencido. Teria defendido o Homem se acaso acreditasse nele, cogitam alguns, defendê-lo-ia contra as cruzes agendadas, contra a invasão dos papagaios catequistas e contra a avalanche de mártires por geração espontânea. Nos olhos vazios dos bustos, refiro-me às pessoas, não há pinga de depois.

Entretanto, há alguém que desfigura o quadro dos cabisbaixos, e ousa olhar para cima, saciando-se com um céu a abarrotar de estrelas: Qualquer dia arrasto Roma — uma cidade inteira — pelos cabelos, ato o século à minha carroça e hei-de passear-me com o seu cadáver sem recear ninguém nem tão-pouco a morte. Talvez isso acorde o Homem.

O Espectáculo do Tédio

 


Roberto Gamito

05.11.21

Antes de mais, é admirável, embora pouco, que os arautos da mediocridade sejam os promotores histéricos da arte, da política e de tudo o que mexe. Não podemos chamar estúpido a qualquer pessoa, há critérios pelos quais devemos separar o trigo do joio. Todavia, ao contrário da felicidade e da riqueza, a estupidez está ao alcance de qualquer um. Inspirada no capitalismo, a estupidez segue uma lógica expansionista. Eis a turba de Napoleões com os copos. Belo quadro! Pintem vocês que o meu pincel foi de férias.

Por preguiça, por falta de tempo, também por falta de talento ou de massa cinzenta, ou por um conforto intelectual que reside em atar em vez de desatar, sou obrigado a confessar-vos que careço de ideias capazes de combater a estupidez.
A conversa, o debate, o diálogo, a troca de ideias, a controvérsia são velhas práticas votadas ao abandono, logo não se perde muito se persistirmos nos terrenos na ambiguidade.

A nossa relação com o tempo, sobretudo o tempo morto, tumultuou-se. As pausas são percepcionadas como estorvos e fazemos de tudo para as obliterar. O pensamento desabrocha nas pausas, no tédio. Esses interlúdios entre dois trabalhos chatos onde fantasiamos sítios, monstros e ideias. A lentidão e a espera são uma espécie de adubo destinado a fertilizar a mente. Esse lado verdadeiramente humano aproxima-nos das plantas — precisamos de tempo e luz para crescermos. Sem pausas, a voz que fala é uma voz desafinada. Doravante ficará impossível chegar ao estágio de animal cantante.

Joga-se algo de muito essencial na tentativa de o Homem contemporâneo expurgar o imprevisível. No regime rápido, sem pausas, dá a ideia — melhor dizendo, ficção — de que somos reis e senhores da nossa vida. O mundo afunila-se, perde espessura, em suma, torna-se unidimensional. Só num mundo despojado das suas várias dimensões é possível retirar o factor de imprevisibilidade da equação. Esse mundo, como é fácil de entender, não existe, é um paraíso artificial. Daí que o resultado fique aquém do esperado. Presentemente, o imprevisível, quando surge, torna-se ainda mais dramático, dado que foi dado como animal extinto. A tentação é olhar para o lado, fingir que não existe, puxar da carabina e liquidá-lo.
A propensão para a literalidade, tão própria do Homem do século XXI, é um retrocesso monumental na nossa relação com o mundo. Regressámos ao instinto. A renúncia ao instinto, termo cunhado por Freud, o qual está no princípio de toda a concepção simbólica, já teve o seu momento. Num mundo sem pausas, sem esperas só o instinto pode triunfar. Eis a nova dinastia dos bárbaros.

 

Animal sem pausas

 


Roberto Gamito

24.08.21

Ao contrário de todas as expectativas, a vida brotou neste planeta antigamente estéril. Tudo terá começado como um projecto modesto, uma tentativa sem grandes perspectivas, um daqueles cursos que se faz para não estar parado, um passatempo entre trabalhos sérios, a fim de ver no que dá. Ainda hoje ignoramos se pelas mãos do Acaso, se pelas mãos de Deus. Encetou-se a experiência com umas bactérias, uns fungos, de seguida uns líquenes. A vida ia ganhando confiança em si mesmo e ia testando formas inéditas, intrincando-se, criando alianças, simbioses. Não havia razão para a competição. Socalco a socalco, o mundo foi povoado pelo milagre. Depois surgiram as plantas, que prontamente se aliaram aos seus pais, os fungos. Do mar vieram os primeiros povoadores da terra. Aventuram-se para além do mundo conhecido. Talvez um parente da iguana das Galápagos. É incrível como a vida pôde florescer num mundo tão rude. Nada estava a favor da vida: mesmo assim ela prosperou. Viver é uma prova de resistência. Foi-o desde o princípio. A vida singrou aonde não a esperavam. Não será essa vida, uma vida que rompe do deserto sem cunhas, o sinónimo de amor?

Na Tanzânia, nas árvores, os colobos, uns macacos com uma pelagem preta e branca, recentemente tiveram de se adaptar a uma realidade nova. De tanto viver suspenso entre a terra e o céu, esse apeadeiro tenso como a corda de um funâmbulo, observa-se o mundo de maneira diferente. Recordo-me do barão trepador, de Italo Calvino. Quem fica muito tempo nas alturas tem uma vista privilegiada e tudo lhe parece pequeno. Nos últimos anos, as antigas árvores, a antiga floresta, foi dando lugar a plantações de chá. Vê-los no meio do chá a fitar os homens absortos na colheita, eles, os colobos, que nunca viram os homens, é de partir o coração. Não percebem o que lhes aconteceu — claro, corremos sempre o risco de humanizar e o colobo terá direito, como é óbvio, à sua singular e inescrutável interpretação da sua nova situação. A forma como o colobo grita indicia a autoridade que tem sobre o território. O grito deste singular macaco foi-se subtilizando até aos nossos dias: hoje chama-se poder.

O colobo é um macaco do mundo antigo, e a floresta onde viveu já não é útil aos homens. Em breve, tudo o que natureza dá, lenta e ineficazmente, será visto como um empecilho. Em breve, os animais selvagens não terão mais para onde ir a não ser migrar para o território inóspito da culpa humana. Não adianta avançar ou recuar, fugir ou enfrentar, todos os caminhos vão dar à extinção. Afortunadamente, os colobos ignoram que estão entre a espada e a parede, e podem fruir daquela imagem de uma nova espécie de macacos, os homens, a colher chá num sítio onde até há pouco tempo havia árvores com dezenas de metros.

Na Amazónia, recensearam-se, até ao momento, 16 mil espécies de árvores. A biodiversidade na maior floresta do planeta é um hino no qual concorrem todas as cores e sons. Certamente um dos maiores orgulhos do Criador, seja ele quem for. Sem as árvores, as cataratas de Iguaçu, no Brasil, não existiriam. Um dos mais grandiosos espectáculos produzidos pela natureza: há milhares, se não milhões de anos que a peça não sai de cena. Sem as cataratas de Iguaçu, deixará de haver o andorinhão-velho, uma ave que nidifica nas cataratas para se proteger dos predadores. Permitam-me que cite uma frase que vi num documentário sobre florestas: “a água como a vida nunca pára a meio caminho”. Se a água parar, a vida pára com ela, eis uma ideia que podemos retirar.
Mas abrandemos um pouco, respiremos fundo, tentemos uma última vez reatar a nossa relação com a natureza, não falar com os espíritos de todas as coisas, rios, árvores, e animais, como um antigo xamã, mas olhar para tudo o que se passa à nossa volta: como um pequeno orangotango.

Terá sido provavelmente a mudança mais drástica da história da vida. Deixou a água e voltou-se para o céu. Primeiro veio o sonho, depois um plano seguido esforçadamente ao longo de milhões de anos de evolução. Entretanto, tiveram que se tornar mais ágeis e mais leves. As primeiras aves contentaram-se com o facto de serem desajeitadas, de avançar aos pulos. A confiança foi crescendo ao longo de milhões de anos até que alguns deram o salto determinante — o voo. Voar dava acesso a povoar o novo mundo. Esta é a história dos pássaros. Muito parecida com a dos homens, parece-me.

Abandonemos por instantes o andorinhão-velho, e voltemos o holofote do nosso desassossego em direcção às flores. Foram elas, e não os poetas ou homens inspirados pela paixão, que inventaram a sedução. Precisavam urgentemente de prosperar. As flores queriam atrair todo o tipo de bichos: os que voam, os que rastejam, ou os que andam. Em suma: manipular os polinizadores para atingir os seus fins. Vistas dessa ideia, as flores já não parecem tão santas. À medida que os olhos dos animais se aperfeiçoaram, as flores viram-no, e o viram aqui pode ou não levar aspas, arriscaram tudo e jogaram o trunfo: a sedução. Um mundo até então quase monocromático deu lugar a um festival de cores e cheiros. Ei-las, as flores, as pioneiras na sedução.

Na caverna Chauvet-Pont d’ara, no sul da França, podemos observar pinturas rupestres com mais de 30 mil anos. Naquela altura o homem não se desenhava a si próprio, desenhava os outros seres vivos. Parece abissal a diferença entre a arte primitiva, vamos utilizar este termo não ignorando o perigo que acarreta neste caso, e a nossa, em que tudo gira à volta do nosso ego, do eu narcótico em que o outro, a aparecer, surge desfocado. Era o início dos inícios. O homem tinha todas as perguntas e nenhuma das respostas. Talvez não tenhamos avançado muito mais, embora a nossa arrogância venha em nosso socorro a fim de o desmentir. O homem primitivo colmatou os vazios com a arte, a cultura, os rudimentos da religião. À falta de verdade, e não sabendo lidar com o vazio, o homem teve uma ideia luminosa, talvez a maior de sempre: inventar histórias. A ficção para fazer as vezes do silêncio da resposta que teima em não aparecer.

Antigamente, o homem negociava tudo com os espíritos. A relação para com a natureza era de dívida. De lá para cá, a relação do homem com a vida transformou-se profundamente. E provavelmente irreversivelmente. A relação passou de mística, para económica. Já não há tempo para negociar com espíritos a próxima presa, a próxima refeição. O novo Deus, o dinheiro, quer tudo cada vez mais rápido, cada vez mais rentável. E o diálogo atrasa.

Um terço da superfície mundial foi consagrado à agricultura e não é preciso ser catastrofista profissional para prognosticar que o cenário vai piorar. As florestas tropicais estão a desaparecer a um ritmo alucinante. O progresso queima tudo à sua passagem. Por toda a África, a floresta do Congo é um bom exemplo disso, a área destinada à vida selvagem decresce. O que sobra é mantido a muito custo. Reservas diminutas mantidas graças à caça que, garantem-nos, visa regular o número de animais até este atingir o ideal, sendo que o ideal é uma palavra larga que alberga todos os interesses. São espécies que estão presas por arames, dependendo inteiramente dos caprichos dos turistas.

A cada dia que passa, nascem 400 mil humanos e morrem 160 mil. Todos os dias são mais 240 mil bocas para alimentar na Terra. Estas são as contas que Deus faz na toalha do restaurante antes de nos dizer o preço da vida. Ninguém quer, à partida, queimar a floresta— porém também ninguém deseja ter fome. Entre a conversão da floresta em terreno agrícola e a fome passeiam-se todos os interesses. Nós vivemos uma mentira. Ao pé desta, Deus, que até pode existir, é uma brincadeira inócua de criança. A economia cresce atrás de um crescimento perpétuo. Uma ideia suicida.
Nenhum sistema fechado pode crescer indefinidamente, assevera-nos a ciência. É só uma questão de tempo até dar buraco. O dinheiro chicoteia-nos com a ordem: mais depressa, mais lucro. Tudo o que não é susceptível de ser convertido em dinheiro é um empecilho. O diálogo é um estorvo. Lutamos sem esperanças de sairmos vitoriosos contra o que criamos. A sede de dinheiro. Queremos mais, queremos sempre mais. E já nem nos importa como.

Coloquemos de lado a Amazónia por momentos. O corno de rinoceronte vale mais que ouro. No mercado negro, cada quilograma vale cerca de 50 000 euros. Quanto mais rinocerontes matar, mais o caçador ilegal ganhará. Ao torná-lo mais raro, mais posso pedir pelo corno, cogitará o caçador ilegal. Do ponto de vista do caçador ilegal, a proximidade da extinção de um animal é o melhor que lhe pode acontecer. Especula sem escrúpulos sobre a vida. Avancemos agora para Chittagong, no Bangladesh. Chittagong parece um pesadelo. Corrijo: Chittagong é um pesadelo. A meu ver, parece-me os bastidores do progresso, sendo que a peça já foi a palco e foi um fracasso. Chittagong é um dos maiores estaleiros de demolição de navios do mundo. Homens franzinos de mãos nuas empurram com cordas pedaços de um colosso em fim de vida. Não se paga quase nada a estes homens. E eles, muitas vezes, pagam com a vida. Quando vejo imagens sobre Chittagong tenho a sensação perturbadora de presenciar não apenas o lado obscuro do progresso, uma realidade local e distante da nossa, mas um vislumbre vívido do nosso futuro enquanto espécie.

Finalmente, o assunto que me levou a escrever esta crónica. Os fogos na floresta amazónica. Por muito que doa, não podemos desviar o olhar, é a altura de a espécie se mostrar adulta, não nos podemos habituar nunca a este tipo de catástrofe. Bolsonaro que, tal como Trump, se imunizou ao escândalo, disse que enviaria quarenta homens para combater o fogo. Uma anedota. Contudo, às vezes basta um Homem para apagar o fogo. Mas um Homem raro. Um que esteja disposto a dar a vida pela liberdade. Talvez não seja descabido relembrar um naco de prosa de autoria de Timothy Snyder, o qual pode ser encontrado no seu livro Sobre a Tirania:
“Repelir os factos é repelir a liberdade. Se nada é verdadeiro, então ninguém poderá lançar críticas ao poder, pois não existe fundamento algum que possa servir esse propósito. Se nada é verdade, então tudo é espectáculo.”

23 de Agosto de 2019

 

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Roberto Gamito

14.04.21

Um vulto sulfúreo gabava das alturas a minha desgraça. Desfeito o nexo causa-efeito, retirado do cardápio o sim ou sopas, começou a noticiar-se a morte antes desta ocorrer. Caso esta não ocorra, recorre-se à errata minúscula. A verdade não é amiga dos míopes. Em todo caso, é só uma questão de tempo. A morte nunca foge a um encontro, quando muito adia-o. Pólvora de pormenores, conjectura propiciadora de ruínas. O fandango burocrático que nos paralisa ou enfurece. Um recém-convertido à doutrina da loucura. Papéis de faz de conta incensam a atmosfera complexa. Pompa no cenário fictício, vertigem de procurar a mão e ela fugir; a folha enquanto acta do fracasso. Uma rebelião relegada para nota de rodapé. Arraial onde não acontece nada há séculos. Nenhuma fala digna de ser memorizada. À mingua de corvos, o poeta aprendeu a enviesar o canto da cotovia.

Simulacros de homens andam de gatas em círculos segundo coreografias de servidão. Gestos que julgamos nossos logo convertidos em repasto de titereiro. Dignitários de um deus sem pés nem cabeça. Maquilhados no centro da pocilga, os novos porcos procuram, com o seu bacorejar ortodoxo, vender-nos a ideia de um mundo mais polido. Sandice paulatina encarregue de nos hipnotizar.

Modelos amanhã infames, uns e outros à queima-roupa. Heróis postiços acobardam-se mal o holofote dá um estalido. A luz vai e vem como se dançasse. Uma cantilena de virtude que nos empobrece o miolo, o caminho, a obra. A arcaica patranha, uma balbúrdia de convertidos.

Mandei-me ao discurso sem nada que me protegesse o peito. Não negoceio a minha respiração, as minhas pausas, os verbos felinos que colonizam o mundo real pelo trilho da língua ebuliente.

Ajeitámos a farda de Homo sapiens, não queremos ficar mal na fotografia do nosso tempo; de seguida entregámo-nos a uma epopeia toda onomatopeias.

Cultor da verticalidade, não me vergo seja qual for a natureza do diálogo. Dou conta da batota e da guilhotina. Não me preocupo, sei para o que vim. A língua morre de pé.

A Língua morre de pé, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.03.21

A ilha ou o Homem. Não ter futuro é estar privado de querer. Sonhos no prego, dias de porcelana. Tarefa gravada na cabeça, amanhã fóssil. Gesto volátil emboscado por uma alcateia de lobos defuntos, que é como quem diz, a interpretação desdobrada em mandíbulas. Cantigas e choro saram à vez o bípede. Menino nos braços, miniatura de paraíso. Como é possível que tenham chegado até aqui? Conheço os bárbaros, mas quem são os outros?
Cérebro, coração, mão, pé…cada um para seu lado.

Os fantasmas foram rejeitados no passado, só agora conseguiram ganhar raízes. A depressão. Ludibriaram-nos sem que percebêssemos, privaram-nos da dança, de movimentos alternativos. Sem a liberdade de levar a cabo um gesto desta natureza, o futuro colapsa.

A mão lateja como o coração, os pés, desnorteados como o cérebro, perdem-se nos sítios do costume. O cérebro está vazio como uma casa em ruínas.

Rosário de vozes: falar, rugir, regougar, arensar. A metamorfose abrupta, consumada em plena queda. O vulto tira a camisa, o Minotauro dá a cara de tronco nu, o labirinto reaparece renovado com todas as suas sombras. No meu peito uma bomba indecisa: explode e implode alternadamente. Apesar deste conhecimento convicto da incerteza, melhor dizendo, de uma profecia que nos esmaga, não abdico de sorrir quando avisto um cometa.

A arte é uma âncora lançada no coração da tempestade. Como que me protege, como se fosse embaraçoso sair incólume da catástrofe. Quanto tempo até deixarmos de reparar que saímos do fogo com as mãos em brasa? Uma cólera cantada, decantada em verso, um embate com aquilo que nunca teve corpo. Destinados a perder, erguemo-nos por piada. Saltamos de jugo em jugo até à gaiola perfeita.

 

Rosário de Vozes, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

02.03.21


Os níveis minguantes de paciência tornaram o Homem ameaçador, selvagem, indomado, imprevisível. A pandemia iluminou alguns recantos da questão: É isto de Homem?

Eufemismos revezam-se alucinadamente de molde a tranquilizar quem vê esta massa crescente a sair do leito da normalidade.
A impaciência, a qual nos últimos anos parece escassear tanto como o amor, aumenta a imprevisibilidade do comportamento humano. Imprevisíveis como animais permanentemente enraivecidos, eis a criatura saída do laboratório da pandemia.

Numa metamorfose não antevista por ninguém, o Homem, cume da criação, pelo menos no tocante aos mundos por desbravar, retrocedeu na sua caminhada, digamos, gloriosa rumo ao conhecimento último. Essa assimptota indevassável.

A liberdade de que gozávamos, aparente ou real, não cabe agora discutir, o sentimento de estar à solta sem ser vigiado por predadores nem pregadores num palco que floresce com os nossos passos à medida que o mundo nos entrega os seus segredos um por um. Esta nova fricção no caminho para a felicidade curto-circuitou o cérebro da maioria de nós. Aqui, o propósito é o de obter, como que magicamente, uma grande síntese apta a auxiliar-nos nos dias mais tenebrosos — não há, a menos que eu vos engane. Os mais ingénuos comentarão o meu parecer, engodados que estão com novas patranhas, a saber: vamos sair da pandemia melhores pessoas.

Estarei eu ciente do processo que me transforma num animal instável, capaz de explodir por tudo e por nada? Uma multidão de bombas em vias de explodir. Ninguém conhece a verdadeira magnitude actual dos danos nem os futuros. O presente é um território ingovernável, assolado por hipérboles que ora nos elevam aos píncaros, ora nos esmagam.

 

O Homem da Pandemia, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

13.02.21

Que nenhum dogma passe uma rasteira ou belisque a trajectória do Homem. Um quadro, seja ele estático ou dinâmico, animal ou estátua, deve enfeitiçar-nos ao primeiro olhar e só devemos despertar quando a metamorfose estiver concluída. Podemos jornadear até aos territórios vastos e mutantes da infância, voar até aos píncaros da imaginação, naufragar até às profundezas do passado mais recalcado, com as mãos atrás das costas ou com elas à frente do corpo, da carne, como se a carne e a mão falassem línguas distintas e o cérebro fosse um tradutor de vão de escada, dono de uma fluência artificiosa.

A morte. Fim. Não há necessidade de dizer tudo o que pode ser dito sobre o assunto. Este eu é, ao mesmo tempo, animalesco e civilizado — e, o que é igualmente premente, devastador. O eu, artifício composto de restos. Como a personagem de O Homem sem Qualidades de Musil, Ulrich, sinto-me (qual bomba mansa, acrescento da minha cepa) a dar passos livres em todas as direcções. Quão fragmentado está o Norte? Quantas Ítacas preciso de amealhar com os meus passos de molde a consumar o regresso? Sou sem nome ou Ninguém, sou homem hipotético e provisório borbulhando aflitivamente num caldeirão de eus. O próprio grito admite hierarquias. Um cardume ou um viveiro deles: eis a colossal diferença.

Amor, sempre o amor. Tudo o que a mão alcança e persegue deve estar subordinado a esse desiderato. Há uma incitação que me diz numa língua acabadiça: nunca desistas de o procurar, o resto não é senão ficção.

O funâmbulo é que sabe andar nisto. Para citar Brian Dillon, o futuro está mais no instável do que no estável, e o presente não é mais do que uma hipótese que ainda não ultrapassámos. Pausa para digerir o oráculo. Esta passagem é instrutiva quanto à natureza polimorfa do tempo, perpetuamente esquiva, que se metamorfoseia, qual partícula do mundo quântico, consoante o, digamos, observador. A presença ou a ausência de observador muda tudo. O observador, no mundo quântico ou no amor, como agente principal da metamorfose. Citando Ovídio de memória, de formas mudadas leva-me o engenho a falar, mas primeiro — anda cá, leitor. Com efeito, sem observador o caos segue indomável.

O funâmbulo leva uma vida despojada no fio caprichoso; o futuro, o futuro bem debaixo dos pés. Uma existência sem barroquismos nem ademanes. A maromba como único luxo. Nós, comuns entre os comuns, passamos a vida a olhar para cima, fitando o céu desabitado, pondo no discurso inveja onde devia haver intrepidez. O funâmbulo trocou as musas pela morte, pelo que nunca estima equivocamente a importância de cada passo.

 

Presente e Futuro, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

12.01.21

Habitualmente, ocupo-me de temas graúdos, a saber: mamas, rabos e pouco mais, que o meu miolo não se deixa engodar pela cantiga da frivolidade. Não obstante a dedicação que ponho no tratamento de tão notáveis temas, há dias em que é necessário abordar assuntos menores, tais como a humanidade e a sua extinção.
Há duas formas de andar nisto: ou pegamos o touro pelos cornos e tentamos negociar umas tréguas duradoiras, onde, nós e o touro, nos deitamos sobre uma toalha de piquenique e cavaqueamos sobre a poesia contemporânea, ou, como Édipo em Colono, a última obra que chegou até nós de Sófocles, principiamos a ansiar que o pó nos cubra e que os nossos pecados caiam no esquecimento.

A muito longo prazo, o Homem terá desaparecido e provavelmente todo o acervo da humanidade, os nossos degraus postos em tela ou em papel, livros e peças de arte de todos os feitios devorados pelas traças ou pela erosão, eis o que nos aguarda o futuro. Aos vindouros, quiçá ratazanas bípedes, legaremos o lixo radioactivo produzido nas centrais nucleares. Escondemos no interior da terra aquilo que somos: produtores de veneno. Esses territórios doentes, como ilhas inabitáveis ou depósitos de lixo radioactivo construídos às três pancadas, serão o nosso único retrato. Grande herança.

Até se alcançar o ponto crítico e se tornar inevitável que a arca se vire — a arca partilhada entre Homens e animais —, podemos pensar em duas coisas: quem somos e quem poderíamos ter sido.

Todos os dias se extinguem espécies, de animais de grande porte até insectos. Grande parte dos animais nunca foi catalogada. Nunca saberemos de facto o que se perdeu. Ou, se quisermos ser mais directos, nunca saberemos ao certo os animais que assassinámos.

Há algo de sinistro — o tipo de impotência que deve sentir alguém diante de um reactor nuclear prestes a descontrolar-se — em ver o mundo, outrora fervilhante de biodiversidade, entrar em declínio. Pela primeira vez na história do planeta, uma extinção em massa tem a mão de um animal, o animal vertical, o mais capaz de toda a criação. Parafraseando David Farrier, desde o desenvolvimento da agricultura, domesticámos 474 espécies animais e 269 espécies vegetais. Achei por bem partilhar esta informação.

Já muito se escreveu sobre o estado actual da arte e do pensamento contemporâneo, mas creio que podemos ir um nadinha mais longe nessa ideia — ou profecia, se preferirem — de o pensamento estar à beira da extinção.

À medida que o mundo se torna inabitável, os animais invertebrados prosperam. Não são os corvos nem os abutres que representam a morte, mas sim as alforrecas. As alforrecas sobreviveram à Grande Morte. Estão aptas a sobreviver, tal como as bactérias, num oceano privado de oxigénio. Quando elas prosperam, como sucede actualmente, é sinal que o fim se avizinha. Estamos a passar de ecossistemas que favorecem vertebrados a mares dominados por alforrecas.

Não seria ousadia pensar que o mesmo sucede em terra. Enquanto os vertebrados levam tempo a adaptar-se se quiserem continuar vivos, as alforrecas estão tranquilas, como se nada fosse.
A verticalidade torna-nos vulneráveis.

Os invertebrados, estejam eles no oceano ou nas artes, serão esquecidos, dado que são incapazes de deixar marcas nas rochas.

 

Dinastia de Alforrecas, Roberto Gamito

 

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