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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

23.02.22

A vida, a obra inacabada de Deus.
Raramente descortinamos o trajecto das suas ideias, a forma como mais tarde as há-de articular num edifício cantante. Apesar de independentes, semelhantemente a versos crescidos, são blocos de uma arquitectura monumental. Um novo século não faz nada senão inaugurar novas travessias para o inferno.

Escrever é tão inútil como semear gotas de água na neve. Na cidade dos suicidas, os nomes das ruas eram escritos a sangue. Percorremo-las cabisbaixos, sem olhar para cima, não vá o nosso olhar cruzar-se com mais um pássaro implume.

Pouco ou nada se escreveu sobre a hierarquia dos bobos. Sabemos que, tal como os homens, há pelo menos três categorias: grandes, pequenos e médios. Em todo o caso, é despiciendo pensar em tal, como se houvesse hierarquias no grito, castas entre as migalhas.

Os monstros vão ao encontro dos grandes caçadores, e não o contrário. Na embriaguez da escrita, o teu nome espraiou-se qual nódoa até preencher o poema. Esta prosa é o efeito de uma miríade de naufrágios, muitas braçadas dadas em vão rumo a um lugar nenhum. Na margem deste texto, o homem desbrava territórios virgens nos quais até agora só pululava o pesadelo.

O desejo de novidade apressa o pó, o qual cai em cima dos recém-chegados mal façam as apresentações. Fruto de diversas intermitências, semáforo nómada que oscila entre o aceso e o apagado. A última frase é a legenda de um quadro que nunca chegou a vir à tona da tela branca.

No quadro ao lado, o homem nada tranquilamente no mar de cadáveres que foi sendo, as várias versões testadas durante a vida, as abortadas, as imaginadas, todas as possibilidades postas em cadáver repousam sem expressão quais peixes envenenados. E todavia ele nada.

O século XXI é pródigo a gerar deuses de passagem. Nem para os deuses temos tempo. O verdadeiro método de prestigiar um deus é: imaginá-lo num combate com o poeta maldito. Abrir uma casa de apostas, esperar pelo desenlace e escrever a crónica dessa pugna.

Já ninguém sabe escrever um poema que nos afaste da ideia de suicídio. Eis o capital na arte de larachear: surpreender o abismo com o outro tipo de queda. Substituir o grito pelo riso — eis o papel do humor. Seja como for, a tragédia mantém-se intacta. Toda a actividade artística mais não é do que a tentativa gorada de fugir à morte. Ante tais descrições, apetece-nos incendiar o museu. Não há nada nele que nos ensine a rota da salvação. E há quem chame isto templo.

Recuemos para terrenos mais respiráveis. Mamas e cus, e eu armado em Aldous Huxley, vendo nelas e neles substâncias estupefacientes capazes de ampliar a visão e abrir, de chofre, as portas da percepção.

Aquele livro, aquele filme, aquele poeta, aquela citação, aquela jarra, aquele quadro, aquela pessoa, aquele animal — precisas de ver tudo isto, dizemos nós ao primeiro coitado que cair nas malhas da nossa conversa, garanto-te que a vida vai tomar um rumo se seguires à risca esta receita. A hipertrofia das recomendações asfixia os textos, os homens, as obras e o mais. Urge consumir o outro sem auxílio de legendas. Seja como for, o outro permanecer-nos-á inacessível.

O mais profundo sonho do artista: exorcizar o mal do passado, de tal modo que as memórias ressurjam com novo fôlego e nos ensinem, de uma vez por todas, a sair da pedra graças a um novo estremecimento. O drama barroco de esculpir cidades em migalhas.

Somos um animal que se confunde com a paisagem, a simpatia ou hipocrisia como meio de camuflagem, não obstante, barragem onde se acumula a cólera, essa deusa fluída.

O ser humano actual espera ansiosamente pelo segundo que, com ardil, a palavra se irá soltar da sua boca de molde a elevá-lo aos píncaros. O homem contemporâneo é na verdade medieval: só consegue pensar em termos de magia.

O tédio é a fronteira que separa o presente do futuro, isto se trocarmos a cabeça do artista por um prisma e registarmos a decomposição da luz branca. Acordava sempre com a mesma frase na cabeça: sou contemporâneo de um sem-número de tragédias. Dá a ideia que o século XXI é a zona de passagem das tropas do XX para o XXII.

Após a morte de Deus, ficámos muito pobres de experiências redentoras. Armamo-nos em ventríloquos deste e daquele, tentamos endireitar em conversa a vida deste e daquele, porém não é a mesma coisa. Deus foi o maior ventríloquo de todos os tempos, ficaram os bonecos.

Recuar ao passado, mesmo se for com o objectivo de resgatar quadros esquecidos, não poderá ser entendido como profanação?
Se assim for, a memória é a musa cujo papel é recordar-nos do nosso fado de larápio. Entretanto, confraternizo com os deuses que hão-de vir no mundo entre a intenção e a concretização.

O problema foi o progressivo endeusamento do norte, futuro, se detestarem rosas. Se nos dissessem que o futuro é, a par de Deus, a maior ficção inventada pelo Homem, não teríamos forma de desmentir e teríamos de arranjar forma de prosperar no aqui e no agora, neste reino de cacos.

Tornei-me áugure e arúspice, do voo e das tripas tirei as minhas lições. Apesar da febre da higienização, o Homem não consegue disfarçar o nojo que sente diante do espelho, o que temos é um século inteiro a cheirar a mofo.

Não me contento com o som e com a fúria, pretendo — reconheço a ousadia — inspirar-me no jazz onde o ruído se emancipa. Emancipar o sangue, cortar-lhe o vínculo que o ligava à obra de Homero. Afastar o sangue do cerco e da jornada. Tentar uma nova via para o canto. Mas que sei eu disto tudo? Não passo de um papagaio numa câmara anecoica a falar-vos sobre os Ecos do Homem.

Deuses de Passagem, Roberto Gamito


Roberto Gamito

05.11.21

Antes de mais, é admirável, embora pouco, que os arautos da mediocridade sejam os promotores histéricos da arte, da política e de tudo o que mexe. Não podemos chamar estúpido a qualquer pessoa, há critérios pelos quais devemos separar o trigo do joio. Todavia, ao contrário da felicidade e da riqueza, a estupidez está ao alcance de qualquer um. Inspirada no capitalismo, a estupidez segue uma lógica expansionista. Eis a turba de Napoleões com os copos. Belo quadro! Pintem vocês que o meu pincel foi de férias.

Por preguiça, por falta de tempo, também por falta de talento ou de massa cinzenta, ou por um conforto intelectual que reside em atar em vez de desatar, sou obrigado a confessar-vos que careço de ideias capazes de combater a estupidez.
A conversa, o debate, o diálogo, a troca de ideias, a controvérsia são velhas práticas votadas ao abandono, logo não se perde muito se persistirmos nos terrenos na ambiguidade.

A nossa relação com o tempo, sobretudo o tempo morto, tumultuou-se. As pausas são percepcionadas como estorvos e fazemos de tudo para as obliterar. O pensamento desabrocha nas pausas, no tédio. Esses interlúdios entre dois trabalhos chatos onde fantasiamos sítios, monstros e ideias. A lentidão e a espera são uma espécie de adubo destinado a fertilizar a mente. Esse lado verdadeiramente humano aproxima-nos das plantas — precisamos de tempo e luz para crescermos. Sem pausas, a voz que fala é uma voz desafinada. Doravante ficará impossível chegar ao estágio de animal cantante.

Joga-se algo de muito essencial na tentativa de o Homem contemporâneo expurgar o imprevisível. No regime rápido, sem pausas, dá a ideia — melhor dizendo, ficção — de que somos reis e senhores da nossa vida. O mundo afunila-se, perde espessura, em suma, torna-se unidimensional. Só num mundo despojado das suas várias dimensões é possível retirar o factor de imprevisibilidade da equação. Esse mundo, como é fácil de entender, não existe, é um paraíso artificial. Daí que o resultado fique aquém do esperado. Presentemente, o imprevisível, quando surge, torna-se ainda mais dramático, dado que foi dado como animal extinto. A tentação é olhar para o lado, fingir que não existe, puxar da carabina e liquidá-lo.
A propensão para a literalidade, tão própria do Homem do século XXI, é um retrocesso monumental na nossa relação com o mundo. Regressámos ao instinto. A renúncia ao instinto, termo cunhado por Freud, o qual está no princípio de toda a concepção simbólica, já teve o seu momento. Num mundo sem pausas, sem esperas só o instinto pode triunfar. Eis a nova dinastia dos bárbaros.

 

Animal sem pausas

 


Roberto Gamito

28.12.20

Homero pode traduzir-se como “o que não vê”. Não me recordo de melhor apodo para o Homem contemporâneo. As suas duas epopeias — e que jeito nos daria encontrar a sua Comédia perdida — dão-nos o fiel retrato do Homem e suas flutuações. O Homem é o que brota do casamento entre a Ilíada e a Odisseia. Os mais estudiosos diriam, e provavelmente com razão, que a Eneida de Virgílio cumpre esse sonho de casar os duas obras magistrais de Homero, saltando daí que, grosso modo, Eneias resulta de um cruzamento entre Aquiles e Ulisses. No meu modesto parecer, é em Ovídio que melhor percebemos essa cascata de possibilidades — filhos, peles, se preferirem — que o Homem pode adquirir. Sucintamente, Metamorfoses é o inventário cantado do Homem. Ao abri-lo, damos de caras com todas as espécies de Homens. Todavia não necessitamos desse oceano de detalhes e animais facultados pela metamorfose.

Ilíada e Odisseia fazem parte de um grupo de livros muito selecto que moldou a cabeça dos ocidentais, entre os quais se encontram a Bíblia, Metamorfoses de Ovídio, Da Natureza das Coisas de Lucrécio e provavelmente a Divina Comédia de Dante.

Ilíada e Odisseia, com sorte ou com engenho, legaram-nos as duas únicas formas de contar uma história: o Cerco e a Jornada. Ao longo dos últimos tempos tenho gatafunhado muitas linhas acerca do assunto, por conseguinte não irei por aí desta vez.

Não é despiciendo assinalar que a primeira palavra da literatura ocidental, presente no primeiro verso da Ilíada, é cólera (em grego, ménin).

Concentremo-nos nas personagens principais de cada epopeia: Aquiles e Ulisses, respectivamente. Aquiles é uma máquina de guerra, é um homem obcecado com a fama e com a barbárie. Em suma, um Homem que ambiciona o estatuto de Deus. Ulisses, menos colérico, embora com rasgos de perfeito animal selvagem, basta recordar o episódio do extermínio dos pretendentes, é alguém à procura de si mesmo, uma demanda inesperadamente contemporânea. Ulisses não fantasia, como Aquiles, com uma façanha grandiosa que o enobreça e o eternize.

Em termos muitos simples, Ilíada narra uma guerra exterior, enquanto a Odisseia nos exibe uma interior. Na Ilíada o poema acaba à beira do abismo, ao passo que na Odisseia é um homem a caminhar na orla do precipício, tentando regressar a um passado que já não existe.

Ulisses fica com Calipso durante 7 anos antes de decidir aventurar-se até Ítaca. Podia ter sido um Deus, graças ao poder da ninfa fodilhona, mas opta por voltar a casa, à sua Penélope.

Nesta questão Ulisses é nosso contemporâneo. Ulisses preferiu, como escreveu Irene Vallejo, as tristezas autênticas a uma felicidade artificial. E é aqui que nos distanciamos do herói da Odisseia. O Homem actual, diante desse caminho que bifurca, costuma decidir-se pelo paraíso artificial.

 

Aquiles, Ulisses, Homem Contemporâneo, Roberto Gamito

 

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