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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

19.08.22

Volta e meia emerge a consciência de que o mundo não é como nós o imaginámos e dá-se uma espécie de revolução coperniciana. Por trás do véu do mundo engessado, vislumbram-se novos mundos. Seja a causa uma paixão recém-adquirida, seja um evento traumático, o olhar modifica-se repentinamente, que é como quem diz, o mundo revela-se outro.
Achar que sabemos tudo é sempre uma armadilha. Só o amor pelo conhecimento desfaz esse delírio de grandeza. Numa palavra, o mundo ignorado é imensamente superior ao mundo conhecido.
 
Homero criou uma personagem chamada Margites, que sabia tudo, mas sabia tudo mal. Não rejeitaríamos a ideia de que as redes sociais estão pejadas de Margites. Margites seria a personagem central de um livro com o mesmo nome, cujo autor terá sido, tanto quanto se sabe, Homero. Uma comédia que, segundo as palavras de Aristóteles, ombrearia em qualidade com a Odisseia e a Ilíada. Dela temos apenas míseros fragmentos.
 
Já no passado o problema entre o que se sabe verdadeiramente e o que se julga saber estava presente, embora hoje se ponha com avantajada dramaticidade.
A nossa lógica de zapping é uma renúncia a qualquer aprendizagem activa. Se nos distanciarmos, damos conta que cada um de nós faz figuras involuntariamente cómicas quando fala. Dotados de meia dúzia de factos esfarrapados, discorremos sobre o tema como se fôssemos uma sumidade. Que egos insuflados que nós temos!

Como não nos detemos em nada, somos escravos daquilo que nos aparece à frente. O que nos aparece à frente nas redes aparece graças ao algoritmo, baseado nas nossas interações anteriores. Ou seja, o mundo que se nos atravessa à frente é progressivamente menor, de forma a corresponder aos nossos gostos. O resultado: ficamos escravos do óbvio. Cruzamo-nos com o já visto, com aquilo que nos agrada, em suma, nada do que vemos é capaz de nos causar fricção. Engaiolados nesse mundo sem atritos, tornamo-nos arrogantes. Achamos que aquele microcosmos é o universo. Ao depararmos com um universo contrastante, não conseguimos esconder a raiva. Se nós estamos certos, o outro é inimigo. A certeza é absoluta, logo não há lugar para o diálogo.
O problema reside na nossa relação com a aprendizagem e com tudo o que exige esforço. A palavra é um dos exemplos.

N’A Mancha Humana, de Philip Roth, obtemos um retrato que define com particular pertinência os nossos tempos. “Não consigo aprender, logo deve haver algo de errado naquilo que quero aprender”. Se somos perfeitos, o mundo criado pelo algoritmo assim o ditou, o problema não está em nós.
 
 
escrito em 19 de Agosto de 2020

As Sobras de Homero


Roberto Gamito

28.12.20

Homero pode traduzir-se como “o que não vê”. Não me recordo de melhor apodo para o Homem contemporâneo. As suas duas epopeias — e que jeito nos daria encontrar a sua Comédia perdida — dão-nos o fiel retrato do Homem e suas flutuações. O Homem é o que brota do casamento entre a Ilíada e a Odisseia. Os mais estudiosos diriam, e provavelmente com razão, que a Eneida de Virgílio cumpre esse sonho de casar os duas obras magistrais de Homero, saltando daí que, grosso modo, Eneias resulta de um cruzamento entre Aquiles e Ulisses. No meu modesto parecer, é em Ovídio que melhor percebemos essa cascata de possibilidades — filhos, peles, se preferirem — que o Homem pode adquirir. Sucintamente, Metamorfoses é o inventário cantado do Homem. Ao abri-lo, damos de caras com todas as espécies de Homens. Todavia não necessitamos desse oceano de detalhes e animais facultados pela metamorfose.

Ilíada e Odisseia fazem parte de um grupo de livros muito selecto que moldou a cabeça dos ocidentais, entre os quais se encontram a Bíblia, Metamorfoses de Ovídio, Da Natureza das Coisas de Lucrécio e provavelmente a Divina Comédia de Dante.

Ilíada e Odisseia, com sorte ou com engenho, legaram-nos as duas únicas formas de contar uma história: o Cerco e a Jornada. Ao longo dos últimos tempos tenho gatafunhado muitas linhas acerca do assunto, por conseguinte não irei por aí desta vez.

Não é despiciendo assinalar que a primeira palavra da literatura ocidental, presente no primeiro verso da Ilíada, é cólera (em grego, ménin).

Concentremo-nos nas personagens principais de cada epopeia: Aquiles e Ulisses, respectivamente. Aquiles é uma máquina de guerra, é um homem obcecado com a fama e com a barbárie. Em suma, um Homem que ambiciona o estatuto de Deus. Ulisses, menos colérico, embora com rasgos de perfeito animal selvagem, basta recordar o episódio do extermínio dos pretendentes, é alguém à procura de si mesmo, uma demanda inesperadamente contemporânea. Ulisses não fantasia, como Aquiles, com uma façanha grandiosa que o enobreça e o eternize.

Em termos muitos simples, Ilíada narra uma guerra exterior, enquanto a Odisseia nos exibe uma interior. Na Ilíada o poema acaba à beira do abismo, ao passo que na Odisseia é um homem a caminhar na orla do precipício, tentando regressar a um passado que já não existe.

Ulisses fica com Calipso durante 7 anos antes de decidir aventurar-se até Ítaca. Podia ter sido um Deus, graças ao poder da ninfa fodilhona, mas opta por voltar a casa, à sua Penélope.

Nesta questão Ulisses é nosso contemporâneo. Ulisses preferiu, como escreveu Irene Vallejo, as tristezas autênticas a uma felicidade artificial. E é aqui que nos distanciamos do herói da Odisseia. O Homem actual, diante desse caminho que bifurca, costuma decidir-se pelo paraíso artificial.

 

Aquiles, Ulisses, Homem Contemporâneo, Roberto Gamito

 

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