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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.09.25

O comediante estava feliz. O público ria sempre. Estava preso num gif. O inferno do mesmo.

Ele: Fazes o meu tipo, mas...
Ela: Mas o quê?
Ele: ...turbei-me.

A boneca insuflável sente-se enojada pelo namorado, um homem normal. Apanhou-o na sala com um cão de porcelana.

Orfeu: Olha, vou contar aquela piada racista. Foda-se, Eurídice, outra vez. Já te tinha dito para não olhares para trás. Que inferno, pá.

Ironia macaca é ser mecânico, passar os dias debaixo dos carros e morrer atropelado.

 Sublinho as partes menos importantes dos livros. É uma forma que eu arranjei de nunca me esquecer que sou parvo.

Apostar em mim é como apostar num cão de porcelana numa corrida de galgos. É simultaneamente patético e risível. Uma boa aposta, portanto.

A química e física das relações esporádicas. Tinha umas mãos de ouro. Apesar disso, ela não reagiu.

Um homem a partir dos 40 é um boneco de neve. Duas bolas e gelo.

Adorava ser homossexual só para poder dizer: Ando à procura do meu Van Damme. Alguém que me dê luta e abra as pernas como ninguém.

Época balnear.
A água estava tão gelada que a tatuagem da coruja que habitava a coxa voou até ao bosque.

O hip-hop abriu-me os olhos para muita coisa. Sem ele dificilmente descobriria as infindas possibilidades de acampar um boné na cabeça.

Antes do Big Bang, Deus não tinha tempo para nada.

O infantário é um estúdio de tatuagens não permanentes.

Estou a contar os dias até que uma feminista se lembre de propor a alteração da palavra “Encé(falo) para algo como “Encécona”.

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Roberto Gamito

19.09.25

Continuo a preferir os porcos mealheiros às strippers. É muito mais difícil enfiar dinheiro num corpo em movimento.

O gato ginasta. Deu 7 mortais para trás; ao oitavo morreu.

O hemofóbico venceu o seu medo. Finalmente cumpriu o seu sonho: ser serial killer. Uma inspiração.

Atirei o pau ao cão. O gato ficou surpreso, o cão contente. E pus o castor a chorar.

Entrei numa loja de sofás. O empregado olhou para mim e senti-me desconfortável. Péssima publicidade, péssima publicidade — pensei. E saí.

Não somos mercadoria, somos pessoas, garantem os mais optimistas, sentados num sofá feito de paletes.

“Entre o bem e o mal uma rosa.” Não é o amor que nos salva, mas o Mascarado da Sailor Moon.

Sem cenoura, o boneco de neve transforma-se no Voldemort. Um homem frio. E sem nariz.

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Roberto Gamito

17.09.25

O falecido só vai à frente, no carro funerário, para ninguém confundir o cortejo fúnebre com uma manifestação de ninjas.

A electricidade também é uma droga. Deixa muita gente agarrada.

Consentir que o outro fale até ao fim.
— Eu sou um homem da ciência...
— Que engraçado, eu também.
— Oculta.
— Ora, foda-se.
 
No circo havia um número com um casal de fumadores. Um fazia anéis de fumo; o outro, tigres.
 
No zingamocho da bazófia.

A egípcia gostou de mim. Não me espanta, no Egipto os gatos sempre foram venerados.

Trabalhava noite e dia para conseguir aquilo que sempre sonhara. As maiores olheiras do mundo.

Estava tão incerto da sua capacidade de ser humilde que, além das lições de humildade que recebia da vida, tinha explicações de humildade.

O deus Marte morreu. Guerra à sua alma.

O Super Mário é canalizador, mas onde ele ganha mesmo dinheiro é no Parkour

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Roberto Gamito

13.09.25

Passado o auge da popularidade, o coro de encómios que tantas línguas seduziu e amestrou, podemos ver, vencido o ruído, as falhas do seu gesto. Que obra, que mediocridade ímpar.

Durante tempo de mais estive a leste das quezílias, mastigando com desdém a rosa dos ventos com um semblante de quem já viu tudo e não sabe o que fazer com a fome. O mundo está nas últimas ou prestes a começar: são coisas de averiguar.

Dou-me conta que os coitos publicitários metidos a despropósito com fins de aumentar a ninhada de seguidores de figuras de porcelana chegam a mim sob a forma de uma procissão de comichões que percorrem sem pudor o meu corpo de lés a lés. As palavras engolidas recalquei-as ao transformá-los em sapos barulhentos. O inconsciente é um grande cortejo de Dioniso.

Vacilando na orla do inferno, afastei o olhar, mitificando o vulcão. A minha queda criaria novas espécies de aves que me acompanhariam até às portas do Orco num canto rente ao humano.

Aqui me têm, mais velho e ocasionalmente engaiolado, aprisionado entre os parênteses dos horários e da eficácia. Sísifo das 9 às 6 e Ícaro em pós-laboral.

Não há cronistas das orgias pagãs. Transcrever a folia é matá-la. A palavra fica de fora. A palavra é para o frio e para o ameno. Em registo infernal só resiste o bicho treinado na escassez. A fartura dilui a selvajaria. Isto na selva. Ao rés deste discurso, uma procissão de anjos a abanicar-se cheia de calores.

As palavras deviam enroscar-se nos gestos até não sabermos onde começam umas e acabam outras. O ar-condicionado da religião cristã achatou-nos o potencial. Mais fogo, mais fogo.

O sonho do bobo: a minha língua dará à luz uma ninhada de regicidas.

Ao fazer-se ao piso do pretenso gigantismo intelectual, ao pedir de empréstimo uma verticalidade surripiada num sem-fim de coordenadas de molde a insuflar o vácuo de canto, um nada que fique no ouvido, roubou a luz às plantas indefesas.

 

(transcrição de um episódio do podcast Duchamp, disponível no Spotify e afins)

 

Estou a escrever coisas mais encorpadas no Substack

 

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Roberto Gamito

01.06.24

Novo episódio do podcast Tertúlia de Mentirosos. 

Carlos Moura. Humorista.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:

São Bernardo e resgate de pessoas, Os cães e a necessidade de agradar, Somos a raça que quer morangos o ano inteiro, A culpa e o activismo, O progresso é amiúde adicionar prateleiras, Santa Casa e NFT, Amadorismo na política, 25 de Abril, Abundância mascara a miséria, Países nórdicos e minimalismo, Usar termos ingleses, A musicalidade do português do Brasil, Dissecação da expressão “isto está a dar prejuízo”, gestor no palco da economia, Os números tornaram-se subjectivos, escola Monty Phyton, Empresas e o culto do ego, Gestor elevado a ídolo, Linguagem positiva e a comédia, Pulseira do equilíbrio, Programação neurolinguística, Fernando Rocha, Palhaço Slava Polunin, Bit sobre o Rei dos Frangos, Rever as primeiras actuações, Bit do Duarte Pita Negrão, “Queremos músicas inteligentes", Comédia para não chatear ninguém e a superioridade forjada de quem faz humor negro, Marcos Bilro e a Maddie, Afinar a actuação consoante o público Crowdwork: solução ou problema?, Masterclass de Crowdwork, crowdwork é funambulismo, Dara Ó Briain, “Uma das coisas que mais me custou na comédia”, Noites más, O riso que ando à procura, Perguntas, “Demorei anos até encontrar uma persona em palco”, IA e comédia, Processo criativo 

Ouvir episódio aqui:

 


Roberto Gamito

17.05.24

Não desejaria a ninguém que fosse eu. Descansem, não me chamo Ismael, nem tão-pouco desbarato a vida a perseguir cetáceos albinos; o que de mais parecido tenho com o arpão é o lápis atrás da orelha. As ervas, segundo li nas notícias, tomaram conta dos jardins dos caminhos que bifurcam; o barão trepador, por virtude da escassez de árvores, foi pontapeado das copas por um macaco futebolista, treinado no circo e regressou sem pinga de bazófia ao solo, embora tenha experimentando a vida nos arbustos durante uns dias, não era a mesma coisa; o diabo abriu uma churrasqueira no nono círculo de Dante — e só lhe desejo sorte para esta nova empreitada e, como vivemos em pleno canto de cisne da fartura, Tântalo, finalmente, matou a fome e a sede — e isso só nos devia orgulhar. Fui morada de multidões de possibilidades e aos poucos, ignoro se por cansaço, se por sabedoria, se por passatempo, fui escorraçando-as, uma por uma, ou aos cachos, e hoje sobro eu, um eu sem penas, indigno de figurar num quadro. Um eu implume sem as próteses dos cenários hipotéticos. Despenteando o caminho que haviam traçado para mim com um pau treinado a escavacar pinhatas, preenchi a minha agenda com as tarefas mais inúteis que logrei lembrar-me, irritando os virtuosos dos horários que, em virtude da organização, despacham um ano de trabalho numa tarde. Não faço tenções de abandonar o dédalo, afeiçoei-me ao Minotauro, respeito o seu labor e com sorte ainda encontraremos a saída do labirinto na amizade. A minha biografia é contrabandeada a preço de saldo por amigos e vizinhos sempre que me afasto um pouco. À semelhança dos grilos, se me aproximo muito quando a orquestra das tangentes se abate sobre a minha vida, calam-se, mudam de música, sintonizam uma rádio que não passe fado. Não me faltam, por conseguinte, candidatos a biógrafos. Pauto-me pela discrição, dizem, pela celebração do insignificante, quer dizer, do risível, e pela miniaturização do mundo alheio. A cidade — e quem diz cidade, sonhos, qualquer empreendimento faraónico posto em palavras ou em acto pela ambição humana — é metamorfoseado numa maquete, uma versão de esferovite, reduzida ao mínimo, por assim dizer, terreno onde a hipérbole não medra. Por muito adubo que a publicidade ponha na discussão não logrará desmentir-me, eis uma certeza. Cultivava distância como quem cultiva tomates, continuamente e sem alarido. Ridicularizo alianças, amizades, simbioses; as uniões, para mim, são salas de espera onde os traidores alinhavavam planos magistrais. Ou, se preferirem, a aliança é um viveiro de regicidas.
A burocratização do amor causa-lhe asco. Afastou-se das pessoas quando se deu conta que ninguém entendia amor-próprio como oxímoro. Partilhava com os sábios que habitam os cumes dos livros, os do mundo real não faço ideia, a repugnância pelo conceito de grandeza.

A nossa personagem — esta é uma versão em torno da qual o debate continua aceso — fugiu de casa de madrugada e deixou, na cama, o seu nome entregue às traças. Desembaraçou-se dele e passou a ser oficialmente anónimo, assim em minúsculas de molde a não criar inimigos. O anónimo anda na rua como quem se dirige para o cadafalso. Sem os arabescos da pose, uma coreografia esculpida a suspiros que se afigura perfeita aos olhos de um público ávido de verificar se a gravidade ainda funciona para aqueles lados, se é neutra como tanto asseveram, ou se, pelo contrário, não desperdiça uma oportunidade para despachar mais um homem. As partes seleccionadas, as que compõem este relato destrambelhado, as quais oscilam entre testumunhos, primeira e terceira pessoa, versões oficiais (duvido!), oficiosas, apontamentos laterais, notas de rodapé tentam pôr de pé o edifício de uma existência que se votou ao apagamento. Nada do que fez, segundo se sabe, foi feito para ficar. Não havia nele, segundo ex-amigos, a menor pinga de angústia. A mortalidade assustava-o tanto como um gato preto num esquina mal-iluminada. Obriga-nos ao salto e é só — não ficamos nem mais nem menos traumatizados. Respirava baixinho, como uma pedra, como se temesse estorvar o pensamento alheio com dióxido de carbono ou oxigénio mais ruidoso. Racionava oxigénio, esse era o seu legado para as gerações futuras. Perto dele, os nudistas sentiam-se encasacados, uma fraude. Tudo nele celebrava o despojamento. Dos actos, aos gestos, passando pelas palavras, não havia nele o abismo entre a acção e palavra. A palavra era a legenda perfeita do acto e vice-versa, e isso levava às lágrimas até o mais marmóreo filósofo. Quem quisesse aprender teria aprendido com ele o encanto das pequenas coisas, da possibilidade efervescente todavia sem discípulos, descortinando nos passos dele a biblioteca do fracasso, as hipóteses quebradas que elevavam o falhado a faquir. Habitamos uma terra de cinzas. O papa, num dos seus encontros com o anónimo, exumou do olhar do homem-sem-nome um rosário de amadas, um não sei quê de infância e, caso não tivesse virado costas à psicanálise, teria encontrado uma explicação à altura do mistério.

De facto, há críticos que sustentam que, sob o jogo de luzes deste homem sintético, casa de espelhos onde desdobramos o homem contemporâneo, debaixo do verniz enternecedor de uma solidão que só nos livros singra, se esconde, nos bastidores destes linhas, o narrador a apoucar a toque de porrada a hipocrisia vigente. Qual cobra no meio dos pedregulhos, a biografia do autor assoma-se, dotando de cabecinha os interstícios, no testemunho. Escorraçado da guilda dos apóstolos da recusa, à cabeça, Bartebly, quer infiltrar-se, dê por onde der, no clube dos resistentes.

Um zero tão à esquerda que Deus foi obrigado a repensar a sua definição de nada. O que mais desejava era ser esquecido, qual animal recém-falecido na savana. A fome ou o cartucho como ponto final. Tinha a consciência que havia indivíduos que mais pareciam furgonetas apinhadas de nomes de mortos. Se ao morrer fôssemos esquecidos sem adendas nem direito a notas de rodapé, nesse dia acabaria o mal no mundo, a psicologia e o Céu.

Falamos como se as palavras não evaporassem. Ao continuar, vamos improvisando pés-de-cabra na prisão do narcisismo. Nada disto interessa. Tanto as aves como as coisas mais depenadas, as mais engraçadas e as mais ásperas têm para o tempo (aquele que passeia os dentes sobre a nossa pele e ensaia o nosso fim de molde a não falhar nada aquando da estreia da peça) o mesmo valor. Abate-se sobre tudo, ser vivo e inanimado, com o mesmo vigor. Qual marreta embriagada pelo sangue, não descansa enquanto não escaqueirar e de nós não restar uma vasta paisagem de cacos e estaturas arruinadas. Diante do tempo, tudo é ridiculamente provisório. Ninguém vai ficar cá para acabar a história. As cigarras cantam, afiançam os cientistas, ao passo que o leigo, sem talento para fazer amigos, responde: as cigarras produzem ruído. Onde está a verdade? Em quem estuda ou em quem anda no meio das cigarras? Há que ter o ouvido imparcial para responder à altura. O taberneiro, ao ouvir esta última parte, disse: Sim senhor, ainda hoje é segunda-feira e já me roubaram o ânimo. Começa bem a semana.

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Roberto Gamito

02.05.24

Novo episódio do podcast Tertúlia de Mentirosos. 

Ricardo Araújo Pereira.

O ponto de partida para esta conversa foram os livros Coisa Que Não Edifica Nem Destrói e A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num Bar - Uma Espécie de Manual de Escrita Humorística, ambos escritos pelo RAP.

 

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:

Teorias sobre o riso - Incongruência e superioridade, As piadas são à custa de quem?, Cães à antiga e cães vestidos, Superioridade forjada, “A melhor decisão que já tomei, Glossário de palavras que nas redes sociais significam uma coisa e fora das redes sociais significam outra, “Humorista” e “piada”, Filme The Social Network; Seguidores, redes sociais e sede de sangue subtil; Swift e Jimmy Carr, Nós deixámos de perceber que uma piada é uma piada?, Aversão ao cerebral, Expressão “consumir comédia”, A autenticidade autêntica e autenticidade pechisbeque, Evolução de um bit do Dave Chappelle, Isto é Gozar com Quem Trabalha, Benefício de Dar Peidos de Swift e o prestígio do tema, Filme Patterson (1), O que podemos esperar de uma piada, Para que serve a coisa X, Prestígio da eficácia, “Eu não gosto muito do programa, aquilo é só para fazer rir”, “A verdade foi privatizada”, A grande obsessão humorística da Joana Marques é a vaidade", A ideia segundo a qual a comédia é ferir, Brincadeiras à volta do mito de Narciso, Episódio do fascinante podcast “Coisa Que Não Edifica Nem Destrói” - Afinidades entre Comédia e Pugilismo, “O soco é muito pedagógico”, Kickboxing e confiança, O combate e as indicações dos treinadores, A palavra ‘delirar’,  ‘músculo’ e ‘alarme’, (O livro de moscas sobre o qual o RAP fala sempre em tom elogioso será brevemente editado), Piquenique e moscas, O humorista é um activista anti-pompa, Questionários de Verão, Preguiça e rancor, Conhece-te a ti mesmo é uma paródia de Dioniso?, Eufemismos e novas formulações para dizer as coisas de sempre; A comédia é concisão? Exemplo contrário; O valor da repetição na comédia, Jacques, o Fatalista de Denis Diderot, Mil e Uma Noites e Xerazade, Recomendações de livros - Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto de Mário de Carvalho, Os Cadernos de Pickwick de Charles Dickens, O episódio das cerejas do Mixórdia de Temáticas, Dois totós a falar parvamente sobre livros de humor pouco conhecidos e/ou esgotados. 

Ouvir episódio aqui:

(1) Poemas Escolhidos de RON PADGETT, Assírio & Alvim 




Roberto Gamito

20.04.24

Quando éramos homens, e havia algum prestígio em permanecer vertical, os predadores, sejam eles de nomeada, com obra feita ou aspirantes a tal, ou perdedores, como dizem os disléxicos activistas, e as presas amiúde geradas pela fome do outro, ninguém estranhava o seu lugar na cadeia alimentar, o mais antigo labirinto sem esquecer o talhante de bata ensanguentada, quando a sobrevivência era clara e não um poema de quem tranca uma vida lá dentro, antes de o advogado tomar o lugar do fabulista no lugar de intérprete de animais, numa altura em que os pais abandonavam os filhos na floresta com o fito de engordar as bruxas e os trilhos de pão eram recebidos pela fome de aves e bichos menores, o mundo, nem por isso, era muito diferente do nosso. 

Vivemos em plena era onde o conforto migrou para todos os vértices e arestas cortantes. A título de exemplo, a literatura, antigo pugilismo solitário, ringue onde o leitor se agredia com golpes remotos de malucos generosos, os quais queriam, acima de tudo, o nosso bem, metamorfoseou-se num spa no qual o leitor, espremido qual laranja algarvia, se espoja entoando o refrão do ego. Durante um ritual mais ou menos sofisticado de afagamento, depende das eras, depende dos preços, o leitor é bombardeado com elogios que, de outra forma, não os receberia. Eis o abismo, o mundo não está para nós, e a arte — não haja receio de usar aspas — fala para nós como se fosse uma mãe protetora, capaz de ir, vejam bem até onde vai a ternura do capitalismo, ao limite de entender o nosso dialecto de soluços e ranho. Posto isto, dada a ração semanal de literatura carregada de verbos engessados, de adjectivação mansa, não é de estranhar que eu seja incapaz de destrinçar a barata tonta da barata sensata. Interpreto a rapidez da barata quando se cruza com o humano tal como quando o adolescente levado em ombros pelas hormonas é apanhado pelos pais que juraram chegar tarde e, ao ouvir uma porta aberta que não estava nos planos, num instante se adapta favoravelmente, mantendo, por ora, o cadastro limpo. Nunca conheci uma barata tonta, a barata sabe sempre ser barata, seja aqui ou ao rés de um cogumelo radioactivo. Há um homem nas redondezas, é para fugir — parece-me sensato. 

Os cães começam a ladrar, incentivando outros a fazer o mesmo, e desse modo cria-se uma rede de latidos que cresce enquanto houver cães disponíveis para a chinfrineira. A vila, que dava ares de civilizada, com um pé neste século e outro no futuro, supondo que chega cá inteiro, não nos fiemos nas empresas de entregas, gradualmente foi despertada, casa a casa, para um coro de animalidade. Em fechando os olhos, diríamos que a vila retrocedeu até ao estado de selva. Partindo do princípio que houve um motivo para os primeiros cães começarem a ladrar, não é de descartar a hipótese segundo a qual os primeiros cães continuem a ladrar só porque há outros cães a ladrar. Ladramos porque outros ladram, e é tudo.
E eis que fui conduzido pelo pensamento rumo à crítica literária. Uma rede de críticos que se criticam mutuamente, sendo que o primeiro, alegremente, criticou um livro provocando uma avalanche de críticas. Não obstante a beleza da tempestade, o leitor do dito livro que originou esta pugna verbal, dá-se conta que andam a usar o mesmo punhado de citações pilhado a um crítico primevo e ninguém foi à fonte verificar se havia minério ou ouropel. Ladram porque outros ladram, e é só. 

E eis que entro numa casa de banho pública, nas paredes da qual foi sendo coligido, sem agenda, um enorme cadáver esquisito. Surrealistas de bexiga aflita. Eis algumas das pepitas. 
A castidade não valoriza o pénis, pelo que não posso considerar o homem enquanto objecto. A democracia é a arte de cortar irmãmente o bolo até ao átomo e bramir ‘já vos matei a fome’. Somos animais sociais, expressão a necessitar de uns retoques, no entanto, grande parte das cenas de pancadaria nascem num ambiente de convívio, logo não contem comigo para festas. Se as mulheres pararem de me ignorar, paro com os poemas — ganhamos todos. Não tenho penteado para ter inimigos. O Júlio tem tanto carisma que até os peidos são citáveis. Há anos que ando a matar perdizes com os mesmos cartuchos. Esta última tem-me tirado o sono, confesso. 

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Roberto Gamito

20.04.24

Deitados, como se o mundo não lhes interessasse, à procura de posição, fazendo tangram com os ossos, ensaiando inconscientemente as poses uma e outra vez documentadas e que tantas alegrias dão aos homens de pau solitário, encimando a toalha axadrezada de piquenique com corpos disponíveis para o plano inclinado da mentira, como manda a lei dos piqueniques, rodeados de pitéu caseiro, preludiando sem verbos a mais a cena de sexo silvestre como vem nos livros, principiou-se a falar da singularidade da bifana enquanto a mão do homem ia cartografando a febra, rodeados por um nevoeiro de moscas que, aos poucos, se densificava, as principais fiscais da paixão campestre (1), as quais, exegetas vanguardistas, interpretam a toalha de cima como se fosse o retrato de Belzebu. Não obstante o rei estar afogado há muito no mar de intenções da rainha, o tempo passava devagar como se tivesse apostado em nós.

É, convenhamos, tempo de acabarmos, cuspiu ela sem peias da sua boquinha ontem entregue à trombose do orgasmo, a qual, no prefácio da paixão, foi hábil em burocracia ebuliente, a grande sala de espera onde alinhamos, por ordem crescente de fome, uma alcateia de desejos, não ignorando que é apenas uma questão de tempo até sermos atendidos e nos despedirmos do verniz da sofisticação, desmantelando, assim, esse oxímoro com o dinamite do tesão. Mostrou assim dominar o timing da comédia humana. Bebi um café e veio-me à cachola Balzac.
Minutos antes de ser alvo de tão inesperado rosário de palavras, simultaneamente vulgar, já o havia visto um sem-número de vezes nos filmes, via-o de fora, a rir acriançadamente, do ridículo que é darmo-nos conta de uma marreta a tombar do céu com intenções de legar ao chão uma aldeia de estilhaços; todavia, empreendia, qual Ulisses pacifista sem memória para coligir os pretendentes nos arquivos da cólera, uma odisseia de planos para os próximos 500 anos porque, segundo li em certos sonetos, ciência das boas quando o assunto é a aliança de carnes, dado que somente no exagero a carne e a palavra formam aliança, era para sempre. Em dias de menor comedimento, vinha-me à ideia que o universo continuava a expandir-se no sentido de acomodar o que sentia por ela. Que armazém de expectativas goradas tinha agora em mãos para despachar. Negócio a explorar: comércio de expectativas em segunda mão para quem, destituído de miolo, é incapaz de sintonizar o coração na frequência do infinito. No parecer de certos entendidos, gente que a memória logo esculpe até ao pó, do pó ao pó é um longo calvário do caruncho!, o artista é, afiançam esses cultores de entrelinhas, quem se dá conta da luta entre o infinitesimal e o infinito. O muito pequeno põe-se muito direito, adquire uma monumental poupa, enxerta nele metros postiços e vê-se ao espelho como gigante genuíno sobre os ombros de um ego recém-calibrado pela situação aflitiva.

Sempre que alguém se dedicou a biografar a vida dos comediantes, coisa que acontece com muito menos frequência do que deveria, quer dizer, se descartarmos as películas com ares de documentário cujo fito é enobrecer o palhaço que está em vias de se extinguir, logo ele que não passa de uma coleção de balas perdidas, somos colonizados pela ideia de um Cristo assustadiço que saiu da cruz com intenção de trocar os pregos antigos por novos, regressando na mesma noite, não vá a metáfora afrouxar.
A morte. Uma última pausa após a qual não se seguirá punchline.

“É, convenhamos, tempo de acabarmos.” Recebi a notícia como um estalo no coração. Mesmo aí, no ponto final posto por extenso, partilhámos as contas. Ela disparou as palavras eu fiquei com o coice — e recuei destrambelhadamente até à infância, ultrapassando, primeiro, o labirinto das relações falhadas. Às arrecuas até ao início, sem precisar de terapeuta.
Eu que me afeiçoei à farpela de ser Ninguém, ela, entomologista, amante do insignificante, viu-me, percebo agora, como insecto exótico. Houve um erro de paralaxe que me passou ao lado. Para mim, o sonho, para ela, mais um trabalho. Acabar comigo era o equivalente a alfinetar-me num quadro de cortiça e dispor-me friamente ao lado do escaravelho mais parecido comigo. Com efeito, desembaracei-me da pele humana, em tempos um dragão chinês debaixo do qual se acoitava uma legião de possibilidades, e fui despromovido a escaravelho-bosteiro, com sorte uma espécie única, hábil em brilhar no escuro. Um bolinha de merda perfeitamente esférica transportada até à amada, caminho prenhe de perigos, predadores e até brisas. Uma e outra vez, um exemplo de combatividade. Infelizmente, carecemos de um Homero capaz de pôr isto em Epopeia. E isto tudo a fazer o pino, como se não houvesse outra forma de transportar excrementos esféricos — o único globo que faz jus ao mundo dos homens. Analisando friamente, agora que as palavras a cavalo nos sentimentos iniciam o arrefecimento, aos poucos, a pertencer ao território dos fantasmas, e a distância que nos unia uma assimptota. Feita as continhas no guardanapo de taberna, ignoro se fiquei a perder. Ser humano, segundo se conta, embora haja teses contrárias, contém aspectos positivos capazes de erigir seitas à volta de duas ou três patranhas. Um escaravelho-bosteiro, arrisco, é um parente de Sísifo com a ligeira diferença que, embora o deserto se afigure como um inferno em obras, alcança a amada. Desafortunadamente, desconhecem-se testemunhos de escaravelhos fêmea após receber tão delicado presente. Há ali muito trabalho envolvido. A esfera, como disse Platão, é a perfeição, e por consequência, a imagem de Deus. O escaravelho, que só se deixou ludibriar pelos egípcios, não estabelece, que se saiba, ligações com Deus. E no entanto ela move-se. Para ti, a perfeição, o retrato de Deus, a mais bela das merdas. A perfeição esculpida na merda. A comédia é própria do homem. E, faça-se justiça, do escaravelho-bosteiro.

(1)
A mosca é uma empata-beijos e, no limite, caso o lume gerado pela fricção das carnes seja brando e insuficiente para as incendiar ou electrocutar, uma empata-fodas. A mosca é tipo irmã conservadora que fiscaliza as pernas da irmã mais nova a fim de controlar as entradas e saídas de estranhos. A mosca é puritana.
Não me espantaria se houvesse estatísticas nas quais se percebesse a importância da mosca e o impacto negativo sobre a natalidade em Portugal. Se não há condições para a prática da fornicação, o chamado sexo, caso analisem estes temas de óculos de massa e bata branca, haverá menos oportunidades para expedir bebés para o mundo. A minha tese é que existe uma mosca batedora que, assim que avista um casal, vai comunicar às outras que andam pelo campo a debicar excrementos. Hoje temos gastronomia portuguesa. Não é preciso ser grande crítico gastronómico para entender o entusiasmo da mosca. Mesmo um palato analfabeto reconhece a superioridade do presunto face ao excremento.
Apesar de ser proverbial o seu apetite por cocó, aí parente do humorista em noites de aflição, e por matéria morta, a saber: cadáveres e pessoas tomadas pela depressão, as moscas não recusam comida caseira. Tal como as hienas, reconhecidas no meio animal e académico por serem necrófragas, não dizem que não se lhes calhar na rifa uma carcaça fresca. E aqui somos todos irmãos.

 

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Roberto Gamito

14.04.24

Furriel, escuta-me: há dias, após comer gulosamente cabidela de diamantes de sangue numa correria de colheradas, prato típico de déspota milionário, perdoem-me a redundância, a referência e a enumeração fora da época de inventários, vagabundeava com vontade todavia sem genica pela rua dos meus últimos dias com a pança a saltitar de pitéu devorado e dei-me conta de um detalhe deveras revelador. As poucas sombras de árvore que ainda restam haviam sido ocupadas por veículos, carros, carripanas, motas e quadrúpedes de chapa não identificados, estes repousavam quais felinos exaustos, como que posfaciando uma caçada com bocejos, bosquejos de proezas e flatulências, enquanto os homens, o zénite da criação, suavam quais figos a secar ao sol, como se a água fosse um estorvo.  

Principiei a asnear, que é como quem diz, de mim brotou uma catarata de obscenidades, hábil em polinizar os ouvidos mais sensíveis com uma irritação fresca, não lhe faltando nutrientes — só quero o vosso bem. 

Massa cinzenta, queimadinhos, o arroz e o miolo, jantar de zombie feito em fanicos. Ando de um lado para o outro com as cinzas de Deus nos cornos, ele por fim minúsculo que está dentro de nós e por momentos morto. Perante isto, a notícia de mais uma morte inesperada, só logrei pensar em foder e em Dostoiévski. Amanhã pode não ser permitido, há que voltar aos clássicos. 

Na vinheta seguinte, o nosso personagem anónimo prosseguia a sua ruminação, no entanto fora-lhe adicionada uma mulher de joelhos ao rés da braguilha. Enxotou-a sem pinga de delicadeza. Coitada, a pobre só tencionava acoitar-se à sombra dos tomates do velho e, quem sabe, dar largas ao apetite sem que o sol convocasse a madurez para a sua pele. 

Há vinte anos, na rua agora semeada de lojas tão diferentes no nome e no conceito mas tão iguais no conteúdo, havia tão-somente dois tipos de negócio: tabernas e mercearias. Embora o sortido de bebedeiras tenha migrado do passado rumo ao presente, não é, convenhamos, o mesmo cenário. Não tem o mesmo sabor apresentar uma cadeira ressequida do sol às costas de um cavalheiro que ficou à mercê da nossa fúria ou repetir o mesmo gesto mas com uma cadeira da moda. Dá a ideia que até a porrada nas esplanadas é espectáculo virado para os turistas. 

Queira facultar-me prazer e o bom do broche, e se possível em simultâneo, e para ontem, puta! Só se deres uma aparadela no mato. Não estamos em época de incêndios, quando for a altura, falo ei! Até lá regalar-me-ei com este chumaço natural que volta e meia engoda peixe mais necessitado à procura de farnel. Escusavam de teimar com ele, falava assim com todos. Mesclava ordenamento do território e brejeirice com mestria digna de mestre, fora, sem sombra de dúvidas, bafejado pelas musas. Era o cronista do seu apetite e isso fê-lo ganhar muitos inimigos e amantes e biografias não autorizadas.

Há anos, era eu puto a prestigiar a cara com ranho e borbulhas, atirava pedras às lagartixas só para ouvir o farfalhar das folhas secas à minha volta. Apontava à cabeça de uma, e merda!: fugia aquela e fugiam outras sete. Por incrível que pudesse afigurar-se, a tarefa de encontrar vida debaixo da pedra que encrencou Abel, revelava-se esquiva. Qualquer outra pedra oferecia na sua cave um hotel destinado a bichos e bichinhos. Só este pedregulho bíblico permanecia como excepção. 

 

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