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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

20.08.22

Desconfio do Homem, o qual possui mais anos de manha que de escrita. Essa criatura ocasionalmente vertical faz de tudo para vender a sua história, para manter viva a sua reputação ascensional. Há dias veio-me uma ideia à memória. Nada do que vou dizer a seguir tem fundamento, é apenas uma sensação, como se costuma dizer por estes dias.
 
Há uma tensão antiga entre o Homem e a comédia. Aristófanes referiu-se ao problema umas poucas de vezes nas suas peças. Havia comediógrafos a desaparecer misteriosamente ao parodiar poderosos e por aí diante. O bobo está sempre com um olho no rei e outro na guilhotina. A vida do bobo está sempre presa por arames. O que muda de época para época é a forma de assassinar o bobo.
 
Há obras literárias perdidas (em princípio para sempre), contudo há, aos meus olhos, uma propensão para o Homem se esquecer das obras de pendor cómico. Ou uma propensão para as fazer desaparecer, se formos mais cínicos. Um exemplo célebre é a comédia de Homero, Margites, a qual narraria as peripécias de um estúpido olímpico. O que me levanta suspeitas ao mesmo tempo que me proporciona um esboço do Homem. A Ilíada enaltece o Homem enquanto criatura de sangue, enquanto a Odisseia narra a viagem simultaneamente interior e exterior de um homem, Ulisses. Assalta-me a ideia de que o Homem prefere ser falado como máquina de guerra ou desnorteado a ser apelidado de estúpido. Com efeito, ninguém é lembrado por ser estúpido.
Este é apenas um exemplo entre muitos, a obra Satyricon, de Petrónio, o qual terá sido próximo do imperador Nero, chegou ao nosso tempo bastante mutilada. Segundo certas fontes, o original seria um livro enorme, provavelmente maior que o Quixote.
 
Outro exemplo: a parte relativa à comédia da poética de Aristóteles foi perdida. Homero, provavelmente o maior poeta de todos os tempos, Petrônio, a par de Apuleio, o pai do romance picaresco, e Aristóteles, um dos maiores vultos da filosofia ocidental.
 
Será que foi intencional? A comédia foi mutilada porque o Homem não queria ser recordado como animal risível?
 
Escrita em 20-8-2020

Relação do Homem com a comédia


Roberto Gamito

15.08.22

Por estes dias em que as praias algarvias perdem a sua antiga fama de cenário idílico ao receberem sem restrições temperaturas pouco amigáveis, dignas de um trailer cujo intuito fosse apresentar a diversidade climatérica do mundo a um demónio estrangeiro, ou seja, vai do calor desértico ao frio glacial num estalar de dedos, o qual nem necessita de ser divino, uma vez que o homem já pôs o seu dedo burguês e gorduroso no tempo e escavacou a bom escavacar as estações, agarrando com mérito todos os papéis da biodiversidade animal, o Algarve recebe ventos e os seus caprichos, coisas que, parecendo que não, só fomentam uma ida descansada à praia sem rabugices, dias em que tentamos comer uma bola de berlim em passo de fugida, duplamente assados da cabeça aos pés pela areia e pelo sol que nos atravancam o caminho para a felicidade, enquanto tentamos evitar que um guarda-sol, que anda no ar estúpido e alegre como um papagaio-de-papel, nos bandarilhe severamente o lombo magistral que tanto nos custou a criar. E já esquecendo as algas, que este ano embirraram com o areal algarvio. Estas, as algas, assemelham-se a lisboetas naufragados da nau do quotidiano acabados de dar à costa, parece é que tudo delas. Das algas. Respirando fundo, ganhando fôlego para mais uma ficção, que é como quem diz, vendo pelo lado positivo, o facto de o areal ser por estes dias gagamente verde pode permitir aos futebolistas de praia, praticantes desse, como direi, desporto camponês, partindo do principio que o futebol é o rei, se entreguem de unhas e dentes à prática do paleio com a bola e descubram, entre peixe que por lá estrebucha e algas, uma nova forma de desfrutar do sushi.

Porém, não foi isto que nos trouxe cá, apesar de a canoa do escárnio ter servido belamente a sua missão. É tempo de a deixar vogar no lago plácido do marasmo. O que me indigna até à penugem dos neurónios, e faz com que gere sinapses dignas de um ditador, é o facto de as rendas neste país denominado por muitos entendidos como Portugal estarem cada vez mais proibitivas. Praticam-se preços de tal maneira altos que, se uma pessoa não catapultar a carreira até aos 35 anos, e, tendo recorrido a todo o tipo de estratagemas, seja pela via do mérito, seja pela via do boca ou do ânus, se estiver impedido de ganhar um milhão de euros mensais, a melhor coisa a fazer é ponderar o suicídio. Um suicídio modesto, nada de teatros caros e espalhafatosos, que a vida não está para grandes loucuras. Chegará a um ponto em que os portugueses terão de pegar no que conseguiram poupar durante uma vida e comprar umas braçadeiras em segunda-mão e emigrar para o Oceano Atlântico, onde poderão prosperar como amigos dos golfinhos, excepto as mulheres pequenas, que, como se sabe, são descritas como sardinhas por alguns provérbios e os golfinhos, como é alertado pelos biólogos contemporâneos, levam-nos muito a sério, aos provérbios, sendo que, o mais provável, é que a mulher sardinha seja comida por esses simpáticos cetáceos (simpáticos, o tanas, têm é boa imprensa; até os tubarões têm medo deles) sem poder apresentar queixa, já que o oceano, como Portugal, é uma terra — sim, introduzi deliberadamente uma chalaça — sem lei nem roque.
Adoptando uma postura mais séria, até porque a de carpideira não me traz saúde às cruzes, faltará pouco para o sem-abrigo principiar a lucrar e poder arrendar, tudo dentro da lei, como é evidente, o seu cartão polivalente, o qual é uma espécie de caravana onde as rodas foram substituídas por umas muito robustas duas perninhas.

Cá para mim que não percebo nada do mundo, e como tal reúno todas as características de um bom comentador, a inflação de preços no mercado imobiliário em Portugal deve-se a uma competição onde todos os sítios em Portugal querem alcançar os valores praticados na Quinta do Lago, onde, segundo o Público, comprar casa de dez milhões já é coisa banal. Dito de forma mais poética, a Quinta do Lago é a musa que inspira os preços das casas, contentores e restantes palhotas a subirem de preço, a serem, em suma, mais do que são. Dito ainda de outro modo, a Quinta do Lago é, mesmo sem saber, uma espécie de guru motivacional para o mercado imobiliário em Portugal. Aqui é que bate o ponto: alguém que pratica uma banalidade ao comprar uma casa de dez milhões não é bem português. Um português típico, no qual eu me incluo com a minha carteira enfezada, é aquele que pondera durante quinze dias se compra um corneto. Uma decisão mal tomada e empecilhamos uma vida inteira.

Todos sabemos que a lei, ou uma das suas mil e uma interpretações, cada cabeça sua sentença, já diz o povo, é mais dócil com o pessoal cheio de graveto. A lei gosta de dar a patinha ao bilionário. Sociologicamente falando, tenho para mim que o bilionário é o consumista depurado, aperfeiçoado ao limite. Cheio de tiques, embirrações, postura infantil face a tudo o que mexe, com uma diferença: entre aquilo que o bilionário quer e a sua consumação tende a não haver burocracia. O bilionário quer um edifício demolido: mobiliza-se logo um arsenal de mordomos para o fazer, o mais prontamente possível. E tal não impressiona ninguém. Se o dinheiro é o novo deus, como já foi dito e redito por autores nos últimos séculos, então o bilionário é o novo faraó, aquele que mantém uma relação privilegiada com Ele. Quanto aos restantes, empacotados na pose consumista, tipos que choram ao ver o preço dos pinhões, resta-lhes berrar e trabalhar que nem cães a fim de obter um bocadinho de céu, visto que a terra nos foi negada.

Portugal, aos poucos, está a tornar-se aquela loja de luxo onde podemos entrar mas não podemos tocar nem comprar nada, por muito que nos esfalfemos e nos levemos ao limite. Este país já não é para nós. Se ainda cá estamos, e não nos escorraçaram, é porque somos nós que garantimos os serviços mínimos.

o preço dos lotes no céu


Roberto Gamito

06.08.22

Homens, estamos a ficar fartos dos prazeres fáceis do mundo contemporâneo, a saber, pornografia e Instagram de mulheres cujos seios apetitosos (se os olhos comem, os dos homens estão sempre de pança cheia) nos levam a comentar a sua actividade virtual com frases descabidas do género: "tu inspiras-me", "és a luz da minha vida" e assim por diante até invocarmos toda uma literatura de cordel capaz de provocar rubor no mais Chagas de entre todos os Chagas. Como escrevia o outro estudioso, nada muda, as verdades actualizam-se e é preciso estar

— isto é um acrescento da minha lavra — de olhinho bem aberto para não comprarmos teorias usadas a preço de novas.

"És a luz da minha vida" é uma expressão degenerada e higiénica da frase "mandas grandes faróis". Embora grande parte dos teólogos discordem, "és a luz da minha vida" é pôr as mamas a ocupar o lugar de Deus. Nada a apontar, é um raciocínio ao qual não oferecerei resistência, até porque o raciocínio é meu. Um gajo anda no terreno e sabe como as coisas se processam. Se as mamas tornam os homens melhores então merecem o papel do Deus, de Jesus e dessa pandilha cujo intuito é salvar o homem. As mamas salvam. Estampem isso numa t-shirt.
É claro que, pegando no início no texto, carecemos de registos de que o homem possa ter dito na sua história algo como "estou farto de mamas, preciso de parar de olhar para elas, caso contrário vou acabar na desgraça." Nunca houve um homem saturado de mamas, ao ponto de até o feed do Instagram o deixar indiferente.

Antes de adentrar no raciocínio anterior, acho que não é totalmente descabido catapultar uma ideia. Criar um "mamómetro", um dispositivo que permitiria ao homem saber, no recato do seu lar, o grau dependência de que padece relativamente às mamas. Pois tal pode vir a ser problemático.
De momento não me preocupo com espécimes masculinos que teriam alcançado patamares de excelência se não tivessem perdido décadas inteiras a vistoriar tetas, não, esses ficarão para outro texto. Interessa-me, sim, os casos extremos, teóricos, uma vez que não conheço nenhum caso.

De Paracelso chega-nos a frase catita, a dose faz o veneno. Se assim é, há um nível a partir do qual as mamas se transformam em veneno (não veneno simbólico, isso já foi reportado pela poesia). Um veneno à séria. Então vamos lá atacar as mamas, salvo seja.
Imagino alguém a dar as últimas numa cama sob o olhar atento de um médico, o qual ignora o que está a acontecer ao seu doente, uma vez que a medicina está muito atrasada para se bater de igual para igual neste terreno pantanoso.
E eis que o morto-vivo declara: Senhor doutor, eu vi demasiadas mamas. Isso envenenou-me. Devia ter parado enquanto era tempo, agora é demasiado tarde. Sabe lá quantos telepatas eu enlouqueci. A minha vida gravitou em torno das tetas, esse foi, declaro sem medo, o meu sol.
No fundo, tornei-me no melhor olheiro de tetas do mundo. Podia ter ganho rios de dinheiro com isso, mas isto é como a droga, se uma pessoa principia a consumir está tudo estragado. Com efeito, sou um devoto das tetas.
Não é preciso ser nenhum Newton, respondeu o médico, para saber que você entrou no plano inclinado da desgraça e não há forma de impedir que vá parar ao outro mundo.
Quer dizer ou fazer alguma coisa antes de morrer, continuou o médico.

Pretendo deixar uma dica aos vindouros, o meu legado para os beneficiários de um antídoto que há-de vir. Cá vai.
Entram num sítio atafulhado de mulheres, arranjam, mal entrem, uma boa posição estratégica a fim de examinar o território, como um chefe de uma tribo ou um predador, e de seguida podem passar a noite a vistoriar fruta com um ar particularmente delicioso. E não me lixem, não estou a coisificar as mulheres. Fruta é fixe, faz bem, você é um profissional da saúde não me deixa mentir.
Mas isso já nós sabemos, retrucou o médico.
Então a minha vida não teve qualquer significado, finalizou o devoto das tetas, fechando os olhos.

O textinho acabou: estou saturado de mamas.
 

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Roberto Gamito

06.08.22

Incapaz de arquitectar uma crónica ardilosa que possa ser vindimada com gosto pelas pupilas dos vindouros, prenhe de altos e baixos frutíferos aptos a entusiasmar até o mais exigente leitor, criatura capaz de espremer o rouxinol com o fito de despertar o que se acoita nas reticências, resta-me — oxalá as forças não me deixem a patinar neste lago siberiano da escrita onde, círculo após círculo, engrandeço a minha prestação diante dos júris do ridículo — esfrangalhar a mão contra as rochas do quotidiano à espera que o sangue encapelado desse embate me ofereça umas míseras linhas. A vida, supondo que isto não é um sonho, ou um holograma ou uma história engendrada por um deus com pouco que fazer, é pródiga em enganos, fértil em escaramuças e, em havendo tempo para procurar, poiso predilecto de insignificantes pepitas, nomeadamente paixão, amor e banquetes de fazer brilhar o olho ao mais criterioso glutão. Em jeito de súmula, a vida acontece à revelia da nossa vontade.

O bêbedo olha para mim e eu retribuo o olhar e ficamos assim, sem deixas, como dois palermas sem guião. O que não abona muito em favor quer de um, quer de outro. No cume da minha ingenuidade, quase acreditara ter encontrado a nascente da inspiração. Equivoquei-me, é um bêbedo raro, daqueles que não partilham nem por nada as suas histórias e teorias. Assim sendo, lá terei de continuar sem o milho da inspiração terrena, enfim, sou tomado de incertezas quanto aos fados desta crónica. Prossigo, portanto, de mão vazia e a tremelicar.

À minha frente, com uma camisa cujas cores deviam dar prisão sem direito a julgamento, um homem que, se descontarmos os poucos cabelos, que se exibem na tola do animal como um tufo humilde num deserto, é careca. A criatura a que muitos chamam homem é acompanhado por uma mulher que dá ares de esposa, sei-o pela forma severa como repreende o marido, a eterna criança a necessitar de chibatada. A mulher — juro-vos não estar a inventar para fins de comédia — possui uma camisa igual à do marido. Não me perguntem como é que ainda não se criminalizou isso. Uma pessoa inocente, vítima insofismável, olha para esse cenário desconcertantemente garrido e apanha um trauma que o acompanhará até à cova. Até digo mais, sou dotado de um conhecimento enciclopédico no tocante ao gostinho que as mulheres têm em fazer com que os homens passem por parvos, como se fosse uma tarefa que exigisse grande esforço, daí que esteja em condições de afirmar, embora o negue se for confrontado por alguma feminista, que a mulher obrigou o homem a fazê-lo. Até acrescentaria: a mulher detesta a camisa. No fundo, o que a mulher está a declarar com este comportamento é: vejam, casei com um paspalho, consigo vesti-lo com a camisa mais ridícula de todas, mais, vestimo-nos como se fôssemos gémeos carrancudos e ele nem pia. Contemplem o poder da vagina! Um aviso claro às outras mulheres. Vejam, este espécime está totalmente domesticado. Ao depararem com este ser agrilhoado, as mulheres dirão aos maridos: estás como queres, mas isso vai mudar, não me casei contigo para andares aí como se fosses um animal selvagem. Anda comigo ao shopping, vamos comprar as camisas mais medonhas que encontrarmos. Vai-te fazer bem ao ego, murmura a mulher com um sorriso de orelha a orelha.

Mulher, domadora de homens


Roberto Gamito

04.08.22

Com toda a estima que o mundo me merece, essa bola gigante que anda às voltas do sol como se tivesse larapiado a pochete a um asteróide, devo confessar que não me impressiona por aí além em matéria de beleza. Ao menos se fosse um cometa que adquire farta cabeleira nas redondezas do sol, agora uma esfera careca não produz grande ânimo na minha pessoa. Após ver por alto meia dúzia de postais que ilustram os sítios alegadamente exóticos obtemos uma imagem nítida e insofismável sobre o planeta. Há água, há florestas que, como declarou e bem o sábio Bolsonaro, só servem para causar incêndios, animais, a maioria intragáveis, pelo menos se formos ocidentais, e equívocos em todos os meridianos. Este sentimento de respeito infinitesimal tem razão de ser. Não me querendo armar em Bazarov, o primeiro niilista, continuo a não acreditar na existência do turismo num planeta destes. Uma tarde a ver documentários da National Geographic e está visto, não vale a pena pagar bilhete. O facto de haver vida neste planeta não me surpreende, os animais vivem em qualquer buraco, já o turista, que está habituado a certas condições de pessoa de nariz perpetuamente empinado, levanta-me certas dúvidas e desperta-me outras tantas comichões. Províncias estrangeiras, curiosamente, recebem pessoas que nunca lá estiveram com boas-vindas e não com tiros de canhão, tal como aconteceu na Rússia, em 1825, ao esquadrão de insurrectos. O turista é uma criatura cuja fé, a qual podemos desdobrar em crença de ver algo novo e encontrar a paz, sobrevive, no máximo, uma semana. Findo esse período de delírio, o turista dá conta que o melhor era ter ficado em casa a mandar vir com as paredes e a cavaquear com as osgas. Além disso dá-se conta do mau negócio. Viajar para um sítio em que não conhece ninguém e que nada tem que ver com ele só para actualizar as redes sociais com fotos de qualidade duvidosa. Como o leitor mais sagaz terá notado, o turista é vítima de uma burla. Tenta cria amizades com bichos autóctones, mas as araras não lhe passam cartão. Para elas, o turista não passa de mais um ser vertical com chapéu de palha. Além disso, põem repelente para afastar os problemas, porém eles acabarão por vir. Os problemas e os mosquitos. Quanto a mim merecidamente, enfarpelar-se com roupa duvidosa só porque se está de férias causa um desequilíbrio no universo que deve ser punido.

Aníbal Joaquim mal saíra de uma relação quando foi desassossegado por uma mulher que casava vistosamente o corpo com o seu vestido, mulher essa autora de um gingar de anca diabólico capaz de arrancar um sorriso ao mais antigo dos cadáveres; em suma, arrancou-o do pântano do marasmo onde, diariamente, há pirotecnia ininterrupta de ideias destrutivas. Em ambiente de férias, somos levados a acreditar em coisas que não existem. Quantas religiões e cultos não terão começado no verão, aproveitando o facto de as pessoas estarem indefesas e de chinelos, feitas turistas.

Mas este texto não é sobre o Aníbal, paz à sua alma de veraneante.

No auge do entusiasmo, que acontece algures na primeira semana de férias, o turista alega: "isto é que é vida". Aparentemente inofensiva, é vista como ofensiva para quem trabalha na restauração nesses sítios paradisíacos. O que é Paraíso para uns, para outros é o Inferno. O Bem e o Mal, uma vez mais, dependem do observador, como já nos ensinou a História.

Esta crónica não estaria completa sem a referência mais macabra de todas. O ser estúpido, que não tem outro apodo, que diz: quero conhecer pessoas novas. Dando de barato a inocência, é uma ideia pouco convicta que se esfuma passados uns dias. Desfeito o frágil feitiço das férias, o turista percebe a imbecilidade que é tentar conhecer pessoas quando as há em todos os sítios, até bem perto de casa, segundo ouviu dizer. Aliás, essas pessoas parecem-se muito com aquelas que andou a evitar o ano todo. Doravante percebe que a felicidade é impossível. E começa, pouco a pouco, a despir mentalmente a farda de turista. Aos poucos regressa ao seu mundo. Ao vê-lo tristonho e sem esperança dá vontade de lhe dizer: Isto é que é vida.

 

turista e o feitiço das férias


Roberto Gamito

31.07.22

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast de comédia e um erro.

Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.

De Roberto Gamito e suas vozes.

Uma hora e quinze de cabeça faminta.

 

tunel_de_vento_600.png

Apeadeiros da conversa:
.Os gafanhotos são vândalos.
.Reflexão sobre os golfinhos.
.O lagarto bombeiro.
.O cão, o actual melhor amigo do Homem.
.Cavalo, o antigo melhor amigo do Homem.
.Humorista Mongol.
.Os cavalos não existem.
.Golfinho, o futuro melhor amigo do Homem.
.O bacalhau inspirou-se no ser humano.
.Se Deus quiser.
.Deus te abençoe.
.Meteorologia antes da invenção do termómetro.
.Repensar a nossa relação com as formigas.
.Meditação sobre a prisão de ventre.
.Fisioterapia badalhoca.
.Sumo de maçã.
.Saco reutilizável e cão.
.A minha vida foi um grande erro.
.Reflexões sobre o artista.
.Frases e citações soltas.
.Não sei fazer nada.
.Ensacar e o olhar reprovador.
.Adultério na Idade Média.
.Temperança.
.“Foi apanhado a beber”.
.Bêbedo activista numa operação stop.
.E mais.

Podem ouvi-lo no Spotify ou em qualquer plataforma de podcasts. 

 


Roberto Gamito

21.07.22

Se me proibissem o uso de palavrões, seria incapaz de exprimir com pertinência a tempestade que me povoa o cérebro quando observo de olhos esbugalhados e de boca escancarada as matilhas contemporâneas a apedrejar infatigavelmente o comediante, esse saco de pancada universal. No entanto, urge vestir a bata da seriedade, não confundir com a do médico, que esse é um burlão, diz que trata da saúde às pessoas mas raramente distribui sopapos aos pacientes, e munirmo-nos, não de um bisturi, mas de um facalhão apropriado para a dissecação destes temas comichosos.

A relação actual das massas com o humorista é prenhe quer em algazarra, quer em sentido. É como se fosse uma bulha ininterrupta: há sempre alguém a apanhar, sempre alguém a gritar e, como não podia deixar de ser num evento de luta destas dimensões, sempre alguém a comentar. Desconfio que podemos encontrar o Homem do século XXI tal como ele é, desnudo e mínimo, se aprofundarmos a compreensão desses fenómenos.

Segue-se o inventário compacto das minhas comichões.

1) Somos endeusados pela indignação.
A partir do momento que faz a sua apreciação negativa à laracha, o ser humano típico das redes sociais é impelido por uma necessidade indomável de verbalizar a sua reacção, dado que, neste século, não há nada que deva permanecer na esfera privada. Seria estúpido da parte do indignado sentir-se furioso e não tentar lucrar com a situação, seja esse lucro de pendor monetário ou de pendor reputacional.

Quando possuído pelo espírito da indignação, o Homem salivante sente-se legitimado para tudo e mais alguma coisa. A chalaça não me caiu no goto, logo sou estúpido (segundo o meu humilde parecer de observador autodidacta), logo vou linchar o déspota da laracha. A piada e principalmente o autor da piada levam no lombo e, reparem como isto fica perverso, a vítima nem sequer tem o direito de se queixar da pancada. Caso se queixe, é novamente alvo de críticas. O chamado mamar e calar. É preciso frisar a tinta fluorescente que estes bárbaros eram, até há minutos, acólitos da empatia e segredavam entre pares que o mundo precisa é de amor, compreensão e diálogo. Lá foi a máscara de boa pessoa para o galheiro.

2) Julgar um padrão graças a um ponto.
Este século é fértil em estupidez e em contradições. As pessoas não se inibem de comunicar-nos que não gostam de ser julgadas são as primeiras a julgar, não uma, mas milhares se estas forem contra a sua opinião. Se não acho graça, ninguém pode achar graça. Aliás se acharem graça são todos doentes, nojentos e outros apodos que ficam bem no currículo de qualquer canalha.

Embora seja um espectáculo deveras entusiasmante julgar alguém à queima-roupa por um acto, neste caso mínimo, a apreciação de uma piada, não posso deixar de dizer que é um comportamento enervantemente pueril. Ninguém consegue julgar uma pessoa com base em algo tão insignificante. Para percebermos a tendência necessitamos de vários pontos e de muitas experiências. Estes meninos raivosos, os quais se dizem amigos da ciência, comportam-se como se fossem profetas. Só eles sabem a verdade.

Como diria o outro, o eclipse da razão será a nossa desgraça.

Mas vamos dar uns minutinhos de folga ao cérebro e mudarmo-nos para o seguinte cenário. Eles têm razão: é possível julgar uma pessoa com base numa reacção a uma piada. Imaginem o ganho civilizacional que seria. O suspeito seria julgado com base numa piada dita ofensiva. O juiz contava uma laracha de humor negro; caso o tipo esboçasse um sorriso, era condenado, caso contrário, seria inocentado. Só tinha um inconveniente: o juiz seria descartável, só dava para um julgamento.

3) Eu é que sei o que é humor.
Em tempos idos, o Homem chegou a um consenso de que o humor, tal como as restantes artes, tende para a subjectividade. Não neste século. O mal dos viciados pelo literal é que são cegos para a profundidade. Só existe o que eles vêem; infelizmente não vão além da superfície. Resultado: os outros, aqueles que mergulham em apneia nas coisas, são apelidados de criminosos ou coisas que tais. Em suma, cegos tentam-nos, por todos os meios, impingir a sua visão.

4) O humor actual transformou-se numa troca de galhardetes.
Como estamos a viver numa época em que o narcisismo dita os nossos comportamentos, tudo o que não vai no sentido do elogio, de nos afagar o ego, é visto como nocivo. Daí que a designação do que é considerado ofensivo cresça de dia para dia. Se a tendência da indignação continuar a arrebanhar temas, chegaremos a um ponto em que a comédia estará restringida ao elogio claro ao outro. Os risos hão-de surgir, mas surgirão como simulacros. Será um riso tipicamente de rico quando, numa festa em que pode lucrar de algum modo, o Homem soltar uma gargalhada falsa a fim de criar uma noção fictícia de proximidade.

5) Lá estão vocês com a liberdade de expressão.
Uma frase muitas vezes atirada aquando o rescaldo de uma piada.
Aos olhos actuais, a liberdade de expressão tornou-se um luxo. Por um lado não há censura, como tanto gostam de propalar os amigos do politicamente correcto, por outro, não se pode sequer mencionar a liberdade expressão. Ela existe. Quem é que existe? Não se pode dizer. Uma espécie de Voldemort.

6) Quem se ri é doente.
Usando um raciocínio análogo ao do tribunal e do juiz, seria a morte dos diagnósticos médicos. Não sabemos se estamos doentes, então pedimos a alguém que nos conte uma piada. Se nos rirmos, estamos doentes, se não rirmos, podemos dormir descansados. E um acrescento de graça: o homem sem posses foi possuído pelo milenar comportamento do rico, o qual sentencia: se não te ris és dos nossos, se te ris és tantã. 

7) A desproporção entre a piada e a reacção.
A piada, por muito má que seja, é uma piada. E é aqui que o faroleiro incumbido de ajudar os barcos da virtude dá um tiro no pé. Ao reagir à piada que detesta estupidamente, deseja a morte ao comediante. É como adquirir uma bomba atómica para matar uma mosca.

Uma última palavra aos agrimensores da piada: amor. Desejo-vos tudo de bom. Não estou a ser irónico. Não desejo mal a nenhum de vocês, nem à vossa família, nem tão-pouco que os vossos cães morram da forma mais cruel possível. Não desejo isso a ninguém, mesmo que sejam indignados profissionais.

 

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Roberto Gamito

23.06.22

“Tens graça, muita graça.”
Eram palavras de mau augúrio para aquele simplório, o qual as recebeu como sinal divino, nunca pronunciadas com tal vivacidade; palavras mágicas conducentes a uma vida desgraçada de laracheador profissional regada ora a apupos, ora a aplausos. Planta bizarra, pensará o leitor mais macaco.

Veio para cá, para os arrabaldes das redes sociais, com uma grande reputação de humorista. Mas não se aguentou muito tempo agarrado ao apodo, à decima piada já havia sido despromovido a burro do caralho — e tal não espanta ninguém. Num mundo em que os critérios são voláteis e em que a competição entre franzinos norteia chapadas e diálogos, as pessoas valem tão-somente a sua reputação. A fama é uma longa estrada ensaboada para o desastre. 

Findo o espectáculo despovoado de gargalhadas, o bicho ontem intitulado hilário esmoreceu prematuramente. Realisticamente falando, podemos observar que o homem perdera meio metro de confiança. Supondo que começara com 2 metros — hipótese improvável neste país de pequerruchos talentos —, teria somente mais três tentativas falhadas antes de desaparecer. 

O ponto de viragem sucedeu numa interação com o público. Engodado por um comentário de uma mulher de fartos seios e com um sorriso carregadinho de luxúria, abalançou-se inocentemente para uma deixa achavascada que lhe valeu o silêncio sepulcral da sala. És muito interessante, disse ela entre piadas, guilhotinando o silêncio. Aproveitando o comentário, o humorista lançou-se barbaramente à presa: “É em mim que pensas quando estás sozinha no quarto a tocar uma guitarrada de clitóris? Com que então o desejo armado em ventríloquo dos teus dedos”. Arrepia ver tanta estupidez e tanta falta de timing concentrada numa única frase; a segunda, convenhamos, ainda escapa. Suou adverbiosamente tentando reparar o sobressalto de braguilha, porém o mal estava feito.
A postura alterou-se de chofre. O passeio sem falhas no palco deu lugar a um manquejar próprio de putinho com sapatinhos de croché. 

Tudo se desconjunta ao som do apupo e da crítica inflamada, por mais incisiva que fosse a piada, era incapaz de pôr cobro ao chamejar daquele vasto incêndio. O “sai do palco” gritado a mil e a uma goelas erigira uma pira na qual ele seria consumido até ao esquecimento. 

Apagadas as labaredas, arruinado o palco, silenciada a cólera, cada algoz à paisana voltara à sua vidinha e aos ódios miudinhos.

 

ódio miudinho


Roberto Gamito

21.06.22

Carne!, que bela palavra — melhor só saboreando cada sílaba apoeticamente, que é como quem diz, no prato ou no pão. Deixada à sua própria sorte num universo sem Deus nem acólitos da chicha, foi perdendo envergadura e a pouco e pouco foi relegada para o escaninho dos diálogos. Certamente é esse hábito de procurar a luz (leiam virtude se não quiserem recuar tanto) em sítios  insuspeitos — essa obsessão com a pureza e a genealogia dos actos que nos empobreceu o prato. Caso fosse amigo das saladas, e os meus ídolos mais saudáveis e pródigos em desculpas, e entoasse o canto desafinado, entornando-o sobre os frágeis carnívoros, os quais, banqueteando-se sem vontade nesse rodízio de explicações enobrecedoras, tais como, o meio ambiente isto, os animais aquilo, coisas que lhe sabem ao mesmo, frases sem sal incapazes de espicaçar a gula.

À medida que o palco da carne foi sendo vandalizado e surripiado pelos mongóis das couves, e a responsabilidade se transfigurou numa deidade vingativa e tonitruante, os amantes do churrasco foram estigmatizados, pelo que o acto de nos passearmos de tronco nu com uma bejeca à volta do barbecue pode estar votado à extinção. A indústria da culpa cilindrou mais um inocente: o amante da chicha.
Contudo, os devotos da carne impacientam-se em guetos, provavelmente engendrando uma teoria capaz de ombrear com a das verduras— até hoje sem sucesso. Longa vida à dinastia das saladas. Resta-nos esperar pelo Evangelho da Febra.

Invadir o círculo encantado dos paladinos das verduras e resgatar um pouco de razoabilidade não é tarefa fácil. A cólera catapultada desses seres de paz, assim diz a brochura, é inesperada e inesgotável. Os vegans vociferantes espezinham qualquer um que tenha a má decisão de levar uma entremeada à boca. Como diz o escritor, cada passada é um acto de tomar posse, as solas rangem de impaciência. Os rodízios metamorfosear-se-ão em casas de sopas.
Citando outro ilustre, é necessário uivar com os lobos, acrescento da minha lavra, improvisar a nossa animalidade enquanto palitamos os dentes e damos aos restos a oportunidade de ingressar no estômago. A tensão entre vegans e amantes da carne é, à falta de melhor termo, um afastamento da mensagem cristã. Onde antes havia uma maçã interdita agora há uma entremeada. Assim estamos de regresso à infância: quando os crescidos nos interditavam as vitrines apinhadas nas pastelarias: “isto não, nem aquilo nem nada do que está exposto, os bolos fazem mal à saúde, ou pedes um bagaço ou estás calado”, eis como se trabalha no Baixo Alentejo. 

Cabe-me a mim, enquanto historiador cujo labor é coleccionar os cumes da estupidez humana, citar um momento alto das cabecinhas contemporâneas, as quais atafulham as redes sociais com ecos estropiados. "Não se deve brincar com o veganismo." Hoje, para ganhar o favor dos críticos de pacotilha, devemos evitar fazer algo bonito do domínio do humor e baixar orelhas a tudo e todos. Felizmente, não sou daqui, sou turista neste século arruinado. Quando o pensamento e as ideias evaporam, como inevitavelmente acontece quando o eco se torna rei e senhor, o conhecimento e o pensamento é substituído por uma cultura de pechisbeque. Somos filhos do urinol, mas calma lá: ainda não joguei a toalha ao chão; a arte está morta, mas só descanso quando a ressuscitar, nem que para isso tenha de recorrer ao chapadão. À partida, isso parece difícil, porém é por aí o caminho do inédito. Nestes temas, o falso intelectual convida-nos à crucificação de molde a gerar a sua auto-ilusão, abatidos pelo linchamento, os comediantes são a bateria viva do seu mundo de fantasia. Chega de ver o século do alto, vamos lá ao humor. 

Migremos para este cenário: uma mesa rodeada em princípio por portugueses (1) sob a qual jaz um cão sonolento. Saliente-se um detalhe crucial: são portugueses vegans. Estão a sorrir e a dialogar ao som de dentadas nos vegetais— que selvagens, pensarão os amantes da febra, e com razão. Outro detalhe: o cão foi recentemente adoptado por um dos elementos da mesa, ou seja, não está ciente dos costumes dos sacerdotes dos legumes. Entretanto, cai uma cena da mesa. O cão desperta da sua vigia sonolenta, entusiasma-se e de seguida descobre que é só um bocado de repolho. Foda-se, que vida de cão (2), cogita o patudo (3), para isso tinham-me deixado na rua. Suspeito que, após a viver este inferno, que é ouvir uma coisa a cair da mesa vezes sem conta e dar-se conta que são legumes, há cães a apanhar depressões profundas.
Eu não merecia isto, cogita o canídeo, pensava que éramos os melhores amigos. Sejamos humanos, comamos animais — tantos animais quanto pudermos — para cumprir o propósito de fazer os nossos cães felizes. 

Como se isto não bastasse, os alimentos estão a perder sabor. O zénite deste desconsolo é comer um belo bife divorciado do seu sabor num prato sem alegria e harmonia no tocante às cores. Há designers que têm AVC só de olhar para a combinação de cores de certos pratos. 

Tal desarmonia no prato revela um profundo ódio ao glutão, o qual é incapaz de ignorar o ideal de beleza. Mandamos vir um prato cujo intuito é nos recordar o Nascimento de Vénus de Botticelli e apresentam-nos uma Guernica. É assim que as depressões aparecem. Mas onde mora o problema, perguntam vocês com a pança a dar horas. 

O mal disto tudo reside nos restaurantes gourmet, melhor dizendo, a tentativa de imitação por parte de restaurantes modestos. O empratamento que é artístico no gourmet é, no estaminé modesto, um terreno no qual foi despejado entulho. Se os olhos também comem, e daí que faça questão de armar a puta numa cabana gourmet e sair de lá com um olho roxo para não envergonhar o ditado, é igualmente verdade que, alguns restaurantes, ganhávamos mais se comêssemos de olhos vendados. O empregado de mesa chega-nos com uma tragédia no centro do prato e pensamos: "este prato não é resposta aos meus problemas de auto-estima". Quero comida capaz de transformar o mais ferrenho sedentário numa lebre turista. Regressemos aos fanáticos das sopas. Nunca viajei entre colheradas no caldo verde; todavia já me senti um Fernão de Magalhães num rodízio de carne. Os habitantes deste século dotados de horror ao naco, cuja labuta é injectar vergonha nos carnívoros, não podem descartar este lado: a jornada. Quando ferro o dente no naco, sinto-me a passear nos versos da Odisseia de Homero enquanto trinco e arroto poeticamente: “Pénelope, já vou, deixa-me só comer mais uma dose de picanha”. 

Apontemos o nosso cérebro enfezado para o restaurante gourmet. O que é aquilo? Eis a pergunta que fazemos diante de um quadro de Hieronymus Bosch ou de uma pratada sofisticada. Consintam que seja possuído pelo senhor Eça de Queiroz. Eis-me preparado para descrever o prato: no centro do prato jaz um objecto não identificado, que às vezes não é carne nem é peixe, e outras ambas, coberto de várias camadas de sofisticação e barroquismos, a saber: molhangas compósitas, caramba, nunca é um molho que caiba numa palavra, do seu nome não podemos esperar menos que um Homem Sem Qualidades de Musil; o cadáver incógnito é polvilhado por ervas que, não contentes com o seu nome original, são rebaptizadas como se fossem um nobre. Não é suficiente nomear a erva, é preciso acrescentar os mil apelidos, o seu nome em latim, a sua origem, a hora em que foi colhida. Calma, eu vim para comer, não sou médico de família, não me atravanque a cabeça com as suas dores. O prato parece uma mulher enfarpelada para ir a um casamento — enverga um penteado só para aquele dia. 

Nunca fui a um restaurante gourmet por vontade própria, sou gordo e tenho outras necessidades, mas há um pormenor que merece ser abordado. 

Eu, como outros indivíduos mais desconfiados, tenho medo que as ervas me firam as tripas. Como tal, caso me apanhe nessa situação, irei encetar uma operação delicada de modo a remover essa bagunça daquilo que, a meu ver, é comestível — uma migalha. Começo a suar e digo: “bem, vamos lá avançar para uma cirurgia delicada.” Objectivo: remover com segurança a chicha desses escombros barrocos.

Se nos tirarem a carne, tirar-nos-ão o lado social. Falo por mim, só socializo porque vou comer carne. Não me vão arrancar do sofá se o jantar for alcaparras e alcachofras. Resido neste corpo vai para três décadas, a contragosto, as rendas estão caríssimas, e não posso escapar às obrigações que a gula me impõe. Não ignoro que vivemos numa era em que a maçã é fluída, é carne, peixe e o mais. Se fosse hoje, Eva teria sido expulsa aquando da primeira trinca na entremeada. Disse-te para comeres a puta da maçã, Eva, grita Deus, era a única coisa que podias comer e tu não me deste ouvidos. Eu como aquilo que me faz salivar, retruca a Eva. Então come-me, brame o autor desta crónica.

 

  1. Reza a lenda que os nobres britânicos, fartos da caça à raposa, arranjaram um método de caçar portugueses. Punham uma mesa farta de acepipes no mato e era vê-los, aos tugas, a sair aos pinotes dos arbustos. 
  2. Isto não é ficção, é a tradução dos seus latidos. Tirei um workshop de fabulista na Golegã e encontro-me certificado para entender profissionalmente qualquer bicho doméstico. O próximo passo será entender os selvagens para que, de uma vez por todas, perceba a razão pela qual os bichos buzinam assim que o sinal verde do semáforo cai. 

  3. A primeira vez — e deus queira a última — que escrevo patudo. 

 

comam carne


Roberto Gamito

09.06.22

"Não é o homem que cai que ri da sua própria queda, a não ser que seja um filósofo, um homem que haja adquirido, por hábito, a força de se desdobrar rapidamente e de assistir desinteressado aos fenómenos do seu eu."
- Baudelaire
 
Permita-se-me uma achega que me servirá para mesclar algumas coisas que, na clandestinidade, tenho tentado irmanar.
Vou fazê-lo muito de passagem e por conseguinte não estranhem os saltos de raciocínio.
Partilho da ideia de Baudelaire, da proximidade da comédia com a filosofia. O comediante, tal como o filósofo, é aquele que começa a questionar exactamente onde os demais adquiriram as suas certezas. Segundo Baudelaire, e para outros antes dele, o riso tem o seu quê de satânico. Os comediantes são, empregando uma expressão sua, Satãs em flor. O comediante é uma espécie de agrimensor que tenta decidir, pelo seu próprio pé, qual é o território do bem e do mal. Ora é um trabalho que, a ser bem feito, carrega os seus perigos. A dose faz o veneno, e o comediante quer sempre mais.

Outra ajuda de Baudelaire: "O riso é essencialmente infinito, é sinal de uma grandeza infinita e ao mesmo tempo de uma miséria infinita. É do choque permanente entre este dois infinitos que se solta o riso." Daí as oscilações de humor — perdoem-me a simplificação — características de um humorista. Ninguém consegue ficar imune a tamanha amplitude.
Outra coisa que os comentadores de porcelana se esquecem quando tocam no assunto é a natureza mais funda da arte. A comédia pode ser somente — e tanto universo que carrega este somente — um animal ferido a tentar sobreviver. Opera com o medo, a hipótese possível de redenção. E isso pode ser projectado para o medo em si, ou para algo totalmente distinto.
Eu clarifico: um comediante carrega um medo absurdo de morrer de cancro, então tenta parir piadas sobre esse assunto para tentar a sua vitória de Pirro. O comediante não ignora que essas vitórias são infinitesimais. Nunca vencerá a morte, que tanto o amedronta, nunca vencerá os seus medos, nunca vencerá nada. Mas isso não o impede de experimentar tudo o que estiver ao seu alcance para obter essas "vitórias fictícias" sobre a morte. Pode, como atrás mencionei, ter medo de morrer, e projectar esse medo em piadas sobre cadeiras; o medo estará presente na fúria e no olhar com que debita a piada, por exemplo. A sua relação com o medo move-se nos meandros da piada aparentemente inócua. O riso é a libertação da sua cólera e do seu sofrimento. Como a dor não passa, precisará sempre de mais e mais risos.

Façamos agora aqui uma pequena ponte, pois é de suicídio que iremos falar. E sim, a frase anterior está envernizada humoristicamente, pois esta é a forma de abrandar o poder da morte.
O suicídio, no tocante a quem procura o riso no outro, frise-se procura o riso no outro, é quando o laracheador se dá conta do exercício inútil que é tentar a redenção através desse método. Observem a recorrência do verbo tentar. É uma tentativa perpétua. De se livrar da dor — particularmente a depressão — que é invencível. Nunca é extinta, quando muito adormece.
Faça o que fizer, continuará o mesmo. Quando esta ideia lhe surge clara na mente, então, meus amigos, é normalmente o fim.
Mas regressemos ao primeiro excerto.

O desdobramento — uma espécie de projecção astral, para piscar o olho a quem viu o Doctor Strange — é só uma forma de entre muitas formas de ver, de comunicar com aquilo que está a acontecer. Há o perigo de nos afastarmos tanto que doravante tudo nos parecerá igual. É nas imediações do acontecimento que podemos aceder aos detalhes. Longe, por si só, não tem grande valor. É um artifício usado em metaconsiderações quando se pretende discorrer de um assunto de uma forma que ofereça menos propostas de retaliação. Então cria-se um assunto sobre o assunto, e assim sucessivamente, dependendo do medo do comentador.
Esse distanciamento barroco, curioso exercício de estilo, é a forma natural de exibir uma erudição postiça, muito comum nos dias que correm. É possível pairar bem alto sobre um assunto, qual falcão, todavia tem de chegar o momento em que o falcão inicia a queda vertiginosa sobre a presa — aquilo que realmente interessa. Ora ver de fora só tem sentido se houver a intenção de voltar a entrar no circo — naquilo que lhe causou uma perturbação — com novas abordagens, novas ideias, novo fôlego.
E mais: isto — a comédia e a filosofia — dificilmente acaba no eu.

É mais o que está para lá do eu. Tal propensão pode gerar um cardápio de leis só aplicáveis ao seu eu, todavia desajustadas ao mundo real. Pode igualmente embeiçar-se pelo seu eu — ei-lo, o mundo polido dos Narcisos.
A rapidez com que o realiza pode ser igualmente problemática. Há que deixar o veneno actuar, se quiserem realmente arrepiar o tecido da realidade. A não ser que seja só um comediante ou filósofo de superfície. É preciso deixar que o mundo entre em nós, que se entranhe. E para tal necessitamos de tempo. Daí o estado actual da comédia, por exemplo. Não pensa, reage, mas isso são outros quinhentos. O olhar desinteressado não é tão benigno como se afigura à primeira vista. À medida que o tempo corre, se o comediante se aperfeiçoar nessa forma de olhar o mundo, dar-se-á conta que tudo é igual, sem sabor, sem cheiro, que nada lhe suscita interesse. Outro itinerário para alcançar o suicídio.
Parece que Baudelaire não leu o que escrevinhou. Noutra altura escreveu que a arte, a ser arte, tem de ser parcial.
Assim já nos entendemos, senhor B. E só nos podemos comprometer com o amor. Quiçá por aí dê para o comediante se esquivar à depressão e ao suicídio. Vale a pena tentar.

O compromisso eterno com aquilo que nos promete a salvação.
Escrever como se cada frase tivesse o poder de mudar o mundo. E insistir, insistir até partir os braços e ficar afónico.
Volta e meia desdobramo-nos até à loucura, e somos o coliseu, um homem inerme a lutar com a fera, o público, cada elemento com as suas nuances, o imperador. Somos uma legião, cada um a lidar de forma distinta com a morte. Num só instante podemos morrer, aplaudir, rir, matar, sofrer. Essa é a natureza do combate interior. O Homem é múltiplo. Mesmo que o esventres até ao átomo, nada saberás sobre ele, não sabes os seus apeadeiros da queda, que lutas travou, o seu portefólio de derrotas. Nunca conhecerás um homem —
mulher — a não ser que a ames. Nunca conhecerás o que é a comédia — a filosofia — a não ser que a ames. O amor, esse, deve ser o ponto de partida para tudo. O único dogma. A tua Ítaca, se preferires. Quando se sentires perdido, tenta regressar.

Mas calma, não se levem demasiado a sério, somos todos personagens risíveis. Soa estranho, não é?

Humorista, o Satã em flor

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