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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.01.22

Novo episódio de Tertúlia de Mentirosos.

Tertúlia de Mentirosos com Rui Cruz

Hupo Pinto. Realizador.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber:
Censura diluída?, segurança e pedantismo, pedantismo lisboeta, piada e o twitter, o mundo flutuante da arte, o poder do estatuto, Mozart e o comentário no YouTube, a miopia do génio, o circo do ego, o rescaldo do roast, produtores de conteúdo precários, o mundo da Twitch, Humor, Homem e narcisismo, comédia sem surpresa, Dave Chappelle, comediantes de textos e comediantes de aparato, Zelig e Woody Allen, Riso de Mozart, artista infeliz, escrever crónicas, o mundo dos podcasts, Adam Sandler 100% FRESH, solo Como Todos Fazem, o próximo solo, sociedade da estatística.

(Partilhem, sigam o Tertúlia de Mentirosos no Spotify e dêem 5 estrelinhas no itunes)
 
Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.


Roberto Gamito

16.01.22

Ó néscio, rabujam vocês, ó tu cuja mão afónica se entrega ao bailarico da descrição e pintas o mundo de cores cadavéricas, tu enganas e reduzes os homens a pilhas de bagatelas. Acaso não há por aí um magote de figuras inspiradoras que te ensinem a verticalidade heróica? À luz dos critérios actuais, vocês nem sequer existem, dado que não falam coloquialmente. Frases como “a tua nudez irá iluminar-me, mesmo havendo a possibilidade de ser pronunciada por um escroto mais inspirado — a testosterona enquanto musa ignorada —, os pais e os fiscais da ficção proíbem-nos tais galanteios barrocos. Em suma, citando um velhote cá do sítio, o último sábio residente que passa recibos, sendo que o resto da turma do cume são sábios precários obrigados a vergar a mola e aconselhados a ver na sabedoria um biscate sem fins lucrativos — demasiada batata, pouca carne. Está aqui um caldinho!

Encheram-nos os bolsos de promessas e musicaram-nos o esqueleto com pancadinhas nas costas, seguimos as pessoas erradas até aos sítios certos. A mãe levava-lhe um tupperware de bons conselhos semana sim, semana não e mesmo assim ingressou na má vida. Que é como quem diz, atrás da rata de Hamelin, uma fila pirilau de flautistas reformados. Concordo, esta crónica dá guarida ao disparate. Agora caladinhos que nem ratos que o meu coração vai cantar o fado.

Que lides mais estranhas são estas em nossa casa?, pergunta o cérebro ao coração apaixonado. O homem, o qual fazia gato-sapato do cérebro para não tropeçar no primeiro vigarista que lhe aparecesse à frente, dirigiu-se cavalheirescamente à mulher: “Princesa de garra afiada, posso adicionar uma quantidade generosa de chouriço à sua vida?” Ao que a pretensa princesa ripostou, sou vegetariana. É o que eu digo, a mulher actual é imune ao romantismo. O século XXI é um terreno estéril no tocante à plantação de amor e de nabos. Como homem feio e solitário, isto é, agricultor caseiro, que passa a vida a enterrar o nabo em ficções, exijo um subsídio hábil em cobrir as despesas da minha fome.

E depois? Enquanto poeta-sapateiro armado em menino de ginásio tenho cabedal para um único poema. Eis as sobras em discurso.
Ao darem-se conta do engodo, os átomos da fila metamorfosearam-se num ápice sem auxílio de fadas. Do balcão para a pista de dança, o orçamento da imaginação não dá para mais.
Eis a magia da zaragata: indivíduos aparentemente civilizados transformados em animais graças ao álcool. A magia existe é preciso é saber procurá-la. Finda a rixa, distribuídos os papo-secos pelos carenciados, o velho sábio legenda o quadro: demasiada batata, pouca carne.

demasiada batata, pouca carne

 


Roberto Gamito

14.01.22

Desafortunadamente, o mundo das letras e por arrasto o das carnes estão a ficar doentiamente chatos. De há uns tempos para cá, é raro ver uma ratita alegre e um piçalho folgazão a espreguiçarem-se sem rédeas numas linhas de texto sacrílegas.
Pôr Jesus por extenso, que é como quem diz, ressuscitar Lázaros de baixo ventre com meia dúzia de palavras: eis um labor digno a que poucos se devotam. Ai meu Deus, o que pensarão de nós. Resultado: uma população de colhões e clítoris ou clitóris agrilhoada, obrigada a discursar numa língua sem pinga de tesão. Esta mão e a sua entourage pouco dada à pureza — refiro-me aos neurónios, não sejam porcalhões — dar-nos-á um nobre contributo: uma palmada nas nádegas do mundo com vista a espicaçá-lo e a catapultá-lo para as paradisíacas margens do prazer.

Seguem-se alguns fragmentos, os quais oscilam entre o relato e a ficção mais disparatada.

Mesmo nas barbas do abade, a freira entregava-se a um esfrega-esfrega sem parança. Segundo o ornitólogo, a pássara estava na muda da pena. Deus é amor, comentou a freira ao dar-se por satisfeita.

Num aposento menos religioso, o homem de picha brincalhona malhava com amor a cona húmida. Tudo isto acompanhado de gritos e deixas: “Fode-me, caralho, mais depressa! Fodes-me como se eu fosse de porcelana. Não metes o suficiente, gemia a fêmea. É o que tenho, ripostava o macho, onde é que vou arranjar mais caralho a umas horas destas — está tudo fechado ao Domingo.”
Em todo o caso, introduziu-lha na racha cantante, mergulhou-a até ao fundo, como se procurasse uma civilização perdida, e ela, não sei se séria, se a gracejar: “como é longa e traquinas”.
E vieram-se por inteiro.

O que importa é fazer amor
ora nas torres de marfim
encontrar entretém numa punhetita
ora num chavascal animado
por uma turba de conas famintas.

Como adorador de fanesga,
introduz a gaita
e seja nossa a tua música.

Será sempre uma distracção frutífera apresentar ao outro o que se acoita sob a farpela. Não há necessidade de votar a cona ao anonimato. Se há fome de celebridade, é encorajá-la a perseguir esse sonho.

Entretanto, num quarto numa dessas vilas de nome orelhudo, ouvia-se: “Lambe o néctar testicular, minha linda, pois amanhã apetecer-te-á esporra e eu posso já cá não estar. A mulher comparava a picha do parceiro com as que havia guardado na arca da memória e suspirou: ”Esta cona já viu melhores espécimes, enfim, é trabalhar com o que temos”. E todavia ela contorce-se, como diria Galileu se tivesse trocado a Física pelo mundo da pornografia. A porta de casa abre-se e o tesão sublima-se, passa de sólido a gasoso. O calmeirão foge com passinhos de bailarina com a picha tesa na mão, ao passo que a cona desolada cantará elegias que atravessarão os séculos. Foda interrompida é tragédia merecedora de todas as nossas lágrimas. Venham-se até se converterem em animais, até se esquecerem que sabem falar, não consintam menos que isso.

As fodas abortadas pela ingenuidade ou pela falta de traquejo na arte do engate amanhã roer-te-ão os tomates, meu caro homenzinho inexperiente. Propagandeia o vergalho, o teu moço de recados solícito, sem descanso, faz com que a agenda cresça em horas para acomodar fodas de última hora.

Enquanto as carpideiras choravam o enterro do caralho, o menino da cidade moveu-se para o campo à procura de cona biológica.
O que só prova que a malta nova liga muito à alimentação.

Quando ela ficou tesa como um cadáver, a princesa de anca travessa sovou o mangalho com a fenda palpitante. Malhou com tal fervor que fez lembrar um ferreiro da Idade Média. Só química nesta relação! De seguida, mamou esforçadamente o mangalho para deleite do homem. Por todo o lado espirravam moles de descendentes, por assim dizer, jaziam esporrados pelos quatro cantos do quarto vários projectos de futuras civilizações.

A queda do êxtase ocasionou alguns pensamentos pouco dignos, a saber: o almoço de amanhã, ter de levar o carro à revisão entre outras bagatelas. O homem tentava animar o soldado esforçado recorrendo à memória, bisbilhotando a secção das conas de colecção, na caixa e por abrir, de molde a não desvalorizar.

Após extenuantes negociações, a cona apossou-se do fundibulário murcho. E ensacou, tipo esquilo, caralho e colhões na bochecha. Não me perguntem se tal é possível, estou a vender o peixe ao mesmo preço que mo venderam.

O nível da esporra continuava a subir, os noticiários não passavam outra coisa. Ai o aquecimento global a chegar ao reino das cuecas húmidas. As terras foram conquistadas a pouco e pouco por cursos de sémen. As castores abandonaram os rios convencionais e mudaram-se para o rio argênteo — e os mais galhofeiros foram a correr construir um dique.

Reunidas na cave de uma cona experiente, as conas aprendizes formaram a guilda do pipi. Ao longo de séculos, este grupo secreto tentou engendrar uma prática que muitos julgaram impossível. Grosso modo, um pontapé nos tomates que, além de provocar a proverbial dor, obrigava o homem a esporrar-se. Se bem feito, isto é, se todos os colhões do mundo fossem brindados ao mesmo tempo com esse pontapé, o planeta seria inundado de leite de macho. Tal como nas esmolas, cada um contribuiria com a sua pinguinha.

Em menos de um ai, as mulheres dos quatro cantos do mundo (nessa altura o mundo era demasiado quadrado para ser redondo) abeiraram-se dos homens que viam naquela aproximação um prelúdio de festa rija, desabotoaram-lhes as calças, apoderam-se dos colhões ingénuos, sopesando-os qual merceeiros, e vá de pontapé nos abonos. Reza a lenda que, após o dilúvio, até o deserto começou a dar fruta.

Dilúvio de esporra, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

13.01.22

Amadurecem os frutos da imaginação quando passam pelo crivo do desejo. Eis uma frase descabida sobre a qual não vou acrescentar pevide. Mudemos de mão. Estava eu a roçar os colhões na corcunda da velha quando, de chofre, fui assaltado por um bando de ideias brincalhonas. Eu, líder indestronável dos palermas, encabeçando com lérias bandos de patos bravos, ia dotar o muro velho, pintalgado de palavras de ordem, de mais uma camada de esporra. A estafada metáfora, o muro, merecia um novo recomeço — e eis-me disponível, de piçalho no ar, fazendo jus à celebre frase segundo a qual o homem é um animal político. De rostos escancarados pelo pecado, as mulheres humedeciam-se à custa de poesia sacana que joeiravam, à sorrelfa, da conversa dos machos de braguilha entrevada. Cercadas de rebotalho, e com a cona em condições de semear arroz, fechavam os olhos e imaginavam os homens e os caralhos em falta.

Bem perto dali, a picha vegetava nas calças, qual guerreiro após longa batalha. Depois de ter pelejado com uma turbamulta de cricas assanhadas, consentiu que a vitória o murchasse e começou a escrever as suas crónicas. Citemos uma nesga do livro que há-de ficar bem enterrado nos anais da História. “Um jacto de esperma que, após cumprir a sua trajectória, a qual surpreendeu físicos teóricos, purificou a cara da fêmea que cantarolava um refrão animalesco.”

Reza a lenda que o macho endiabrado tatuou uma cruz no escroto. Segundo o parecer de gente entediada e por conseguinte à cata de boatos, a sua ambição era proporcionar ao parceiro de cama uma foda santa. Outro personagem esgalhava pívias nas pausas do tabaco — nunca conseguia estar parado: o que lhe valeu uma promoção na indústria pornográfica.

A pandemia — perdoem-me o salto inesperado, mas eu não consigo estar parado — transformou o mundo num estúdio de filmes pornográficos: estamos com os colhões na mão. E cá estamos, nervosos, de calças em baixo, à espera que alguém peide um pequeno equívoco para içarmos o cadáver da humanidade das águas estagnadas.

Formigueiro nos colhões, picha entorpecida.
E a Joana? A Joana teve por várias vezes a honra de me ir às trombas. Mas isso são águas passadas. Hoje somos pessoas diferentes, de colhões e cona domesticados. Há quem, mais medroso, se veja obrigado a preencher inquéritos antes de erigir o pau. Ao rés do guichet de uma nova repartição pública, há quem negoceie paus feitos, sendo que a resposta é sempre a mesma: o sistema está em baixo, passe cá amanhã. A burocracia apossou-se do tesão. Longe vão aos tempos onde a fama do vergalho tinha o condão de levar o homem muito longe, nem que fosse a toque de porrada. Presentemente, tiramos senhas e tentamos sossegar a flauta selvagem com a patranha: “Calma, és a seguir”.


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Roberto Gamito

12.01.22

Ao contrário de outras crónicas tendentes a afagar educadamente os neurónios mais exigentes, revelando-lhes o princípio de uma profundidade outrora oculta, este texto às três pancadas presta-se à folia vertiginosa, que é como quem diz, vamos discorrer marotamente sobre o reino ebuliente do baixo ventre, quando em contacto com as oportunidades certas. Justifica-se que tome estas e outras precauções, não para exibir o lado puritano armado ao pingarelho, tão ao gosto do Homem contemporâneo, mas porque tal constitui uma chance de despertar uma horda de pequenos Lázaros em horário de trabalho — nunca me perdoaria que tal acontecesse.

O Altíssimo é amor, pelo que Deus é o sponsor desta crónica.
E cá vai, mais uma vez, este gato travesso no seu obstinado funambulismo humorístico que o há-de acompanhar até se extinguir a centelha que o põe de pé.

As crónicas do piçalho, livro com muita saída — e entrada — num desses séculos em que os historiadores trocaram o apontar de episódios relevantes pela imemorial arte de coçá-los, começava nestes preparos: “vivi na obscuridade e sem um tostão, e volta e meia conhecia a luz, sendo que a luz era tão-somente a distância que me separava da noite onde o meu mestre me enceleirava da fenda hospitaleira. Apesar de ser um livro merecedor dos nossos mais rasgados elogios, optemos, antes, por uma questiúncula que já acometeu todos os homens: O que é que me eriçará mais espontaneamente a picha? Não é de estranhar que homens de todas as eras e coordenadas tenham partido à aventura, o chamado aventureiro de portinhola aberta, com o fito de hierarquizar os estímulos que cutucam o marsapo. Se o estímulo for uma espécie de Jesus, isto é, vulto luminoso capaz de levantar um morto, então estaremos em condições de estabelecer uma espécie de espectro da luz. Quanto mais intensa for a luz, mais rapidamente despertará o nabo. Não será descabido declarar que a ciência não tem passado cartão aos temas que interessam ao homem minúsculo.

Bem sei que há grandes fatias da civilização que se estão bem marimbando para a felicidade do pénis abstracto. Se assim é, vou abreviar a história do contabilista e da beata. Para beata era uma bela mulher, tinha uma saia levantada, nem muito nem pouco, exactamente onde o tesão se engendra e deixa espaço para a imaginação cultivar as suas imagens escaldantes. O seu caralho, teso qual português de classe média, disponibilizou-se para o labor mal foi pendurado o quadro sexual no miolo. Com efeito, em breve estariam a fornicar a bom fornicar. Sim, minha linda, gemeu o contabilista à beata, venho-me assim que preencher os papéis. Deus me perdoe, mas que bela piça!, gritou cristãmente a beata. Vá, minha luminosa fodilhona, vem-te depressa que amanhã é dia de trabalho e não podemos ficar toda a noite nisto.

Enquanto isso, os anões — porque não?! — vinham-se onde podiam, uns nas orelhas, outros nos sapatos, outros em cuecas que povoavam o chão do quarto. Não me perguntem como é que os anões ingressaram no quarto. Possivelmente — uma teoria da minha lavra —, atraídos pelo cagaçal da fodanga.

O velho, que fora aquecer a beata para o contabilista, e se fosse outro teria começado a história por aqui, avesso a segundas vezes, passou de actor a comentador pornográfico.
Num banco ao rés da cena infernal, havia cachos de mulheres com as cuecas em pantanas, umas davam à língua, outras ao dedo, ensaiando os primeiros acordes no clitóris. Artur, tímido de nascença, não achando nada mais interessante para fazer, decidiu passar o tempo a punhetear a sua chouricinha da felicidade. Os mais entendidos na velhacaria, apodam-na de sarapitola de adulto.
O adulto está ao corrente da volatilidade do tesão — é preciso agarrá-lo, não vá ele fugir e nunca mais voltar. Levantou-se, deu umas voltas, e enquanto pensava na vida, perseverou a punhetear-se enquanto dizia: “ainda há coisas boas na vida”.

Um gajo vestido de burro, cujo nome não interessa para a história, o qual estava na pausa do tabaco, dado que o quarto há muito se havia metamorfoseado num apinhado bar em virtude de uma fadinha embriagada que, ao ver a cena a pegar fogo, percebeu que era necessário expandir o espaço a fim de lhe fornecer verosimilhança. E o gajo vestido de burro? O gajo enfarpelado de burro pensou: Não é tarde nem é cedo, vou deixar de fumar. Assim sendo, aproveito estes dez minutos para exercitar maravilhosamente o sacana — e lançou-se sobre uma cona desocupada que andava, segundo os anúncios de emprego fixados numa das paredes do estaminé, a pedir colaboradores. Ao dar-se conta do homem-burro, latiu de prazer, qual alegre cadela fodilhona. Hospitaleira — porra!, ainda há quem saiba receber —, meteu-o entre as pernas, protegendo-o do frio que grassava naquela noite de chavascal.

Há detractores que alegam que a história está mal contada, que se iniciara no bar e não havia fada nenhuma — enfim, gentalha que não acredita na existência da fadinha da fodinha. Segundo a versão desses bandidos, uma mulher deslumbrante, cujas carnes eram dignas de figurar naqueles talhos cheios de marketing frequentados por ricos, apareceu e contaminou o bar de olhares famintos. Nisto, ouviu-se um inchar de mil piças.

Entrementes, começou a dar o jornal da noite, o que caiu qual guilhotina em cima do pescoço daquela cena. De facto, a situação económica do país é pouco estimulante e extingue mesmo o mais resistente tesão. As mulheres cessaram as guitarradas na pevide, a agricultura de nabos cessou, as pichas regressaram às cuecas, os anões foram exportados para um conto infantil, o homem-burro regressou ao seu part-time de mascote, o velho continuou a ser velho, o contabilista mergulhou nos seus papéis, e a beata agradeceu a Deus, em suma, o regresso à pasmaceira — eis o desfecho do episódio.

Será que não há outra versão, questiona o leitor enquanto toca xilofone com a pila. Há um desfecho apócrifo segundo o qual houve uma fusão à la Power Rangers, melhor dizendo, gerou-se um Megazord de Pichas, tipo obelisco cabeçudo que avançou rumo ao gajedo com ganas de lhes estancar o desejo de uma vez por todas. Todavia parece-me pouco credível. Uma coisa é acreditar na fada da fodinha, outra bem diferente é acreditar na união entre os homens.

Fada de Marotice, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.01.22

Senhores e senhoras, meninos e meninas, palhaços licenciados e palhaços autodidactas, teólogos da velha e da nova escola, evangelistas e microevangelistas, vândalos e fazedores, leitores e míopes, pedreiros do cânone e construtores apócrifos, caguinchas notáveis e caguinchas em princípio de carreira, parvos eternos e parvos provisórios, taberneiros de lábia treinada e taberneiros calados, leitores de poesia e leitores ávidos de gordas, dançarinos e atletas de atoleiro, hienas e cadáveres putrefactos, alquimistas e homens de mãos atadas, fodilhões e puritanos, demónios dos círculos infernais e anjos dos círculos correctos, caçadores e presas esventradas, novos e extintos, vigilantes de incubadoras e fiscais de desertos interiores, clientela amorfa e vendedores linguarudos, humoristas manetas e público surdo, Lázaros dorminhocos e Jesus armado em carapau de corrida, histéricos e cultores do entusiasmo nulo, devotos e despertos, negacionistas e colaboracionistas, autores de todas as coisas e papagaios uruguaios, oportunistas versáteis e peças de engrenagem, activistas de sofá e activistas de poltrona, burros em dias de festa e burros sem mais apodos, tragediógrafos amadores e tragediógrafos imortais, comediógrafos das pequenas coisas e comediógrafos das grandes, descendentes das sobras e herdeiros da abastança, felizardos e portugueses, incréus e crentes, fanáticos e carpideiras, intelectuais reformados e intelectuais de fazer de conta, poetas de casa de banho e poetas de manjericos, discípulos do norte e pupilos do desnorte, iluminados e apagados, escravos e homens eventualmente livres, vigiados e vigilantes, pais adoptivos e filhos por conceber, crucificados de pacotilha e Cristos de fim-de-semana, grávidas de ideias e prosadores enfadonhos, carteiristas infalíveis e criaturas que põem os pés pelas mãos, funâmbulos de fios de raciocínio e ecos emplumados, sonhadores e acocorados, infalivelmente imortais e tragicamente mortais, camaradas de gráficos de excel e sacerdotes do palpite, aprendizes em coisas de baixo ventre e vagas prostitutas calejadas, românticos e cínicos, ser humanos e youtubers, líderes isolados e turbas aos saltos, sujeitos despojados de eu e compinchas insuflados de eu, inquilinos da verdade e clandestinos, purificadores e conspurcadores, virtuosos presos por arames e criaturas devotadas ao pecado, terapeutas gagos e pacientes impacientes, criaturas horizontais e animais verticais, jornalistas pornográficos e cronistas contidos, zaragateiros e árbitros estagiários, cromos repetidos e cromos repetidos, apóstolos do afrouxamento e paladinos da intensidade, testemunhas e sinistrados, grandes achados e pequenas migalhas, contemporâneos da morte de Deus e saudosistas da luz cantante, artistas e ofendidos peço que me escutem: careço de tema para a crónica de hoje.

Império dos Chatos, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

07.01.22

Como o pensamento é próprio de tempos antigos, qualquer Homem que o use de forma voluntária transgride a ordem de uma taberna: desviriliza-se, que é como quem diz, abandona os tomatinhos, abdica do seu estatuto de palhaço versátil e perde a oportunidade de gritar sem ter razão. Um desperdício para quem, como eu, assiste regalado às escaramuças verbais típicas desses locais.

Não é comum tropeçar numa ideia digna de nota aquando de uma visita a uma taberna, assim como não procuro um Homem sábio no século XXI, tal demanda levar-me-ia aos cumes da depressão. O século XXI tornou-se, perdoem-me a franqueza, um pomar de palermas. De resto, tais palavras têm um sentido sensivelmente impreciso, e se estou a pôr toda a humanidade no mesmo saco é porque desejo atirá-la ao rio amarrado a uma rocha. Mas esta hipótese — que tantas alegrias me traria — parece-me bastante frágil. Parecendo que não, faço parte — friso-o a contragosto — da humanidade. Tanta história de homens adoptados por animais nos livros de todas as eras e eu continuo rodeado de Homens. Será que não há por aí uma família de javalis que me queira como filho? Sou corpulento, feio e sei espatifar hortas: eis o meu currículo.

Saltando para outra divisão da memória, recordo-me da infância e dos marmelos. Pela altura do verão, era comum ver-me a correr nas estradas de gravilha do interior do Baixo Alentejo. Volta e meia ia ao chão chorar um bocado. Caía puto e levantava-me mártir dos joelhos esfolados. O marmelo estava omnipresente nas mesas das pessoas da aldeia. Na minha cabeça de petiz, engendrava tratados sobre o marmelo. Devia existir uma espécie de lei que obrigava as pessoas a ter marmelos nas fruteiras, caso contrário iam presas. Além disso havia o pau de marmeleiro, o qual parecia ter um grande apreço pelas nádegas dos putinhos. Ou portas-te bem ou levas com a vara de marmeleiro nas nalgas, berrava a minha avó.

Careço de estudos para pôr por extenso as mutações necessariamente lentas e complexas do marmelo. Como é que passou de um lugar de prestígio para o anonimato em poucas décadas é algo que me escapa. Talvez o zénite do marmelo tenha morrido com os velhos, os vassalos carinhosos do marmeleiro. Em seu lugar foram plantadas outras árvores, a saber: laranjeiras e limoeiros.

E temos ainda a marmelada. De facto, o marmelo está connosco nos bons e nos maus momentos. É difícil ser mais laudatório sobre este fruto. Vale a pena determo-nos neste ponto: as crianças actuais não passam cartão ao marmelo. Olham, gulosos e de olhos esbugalhados, para bananas, maçãs, pêras, clementinas e poucas são as que pedem à mãe: “Progenitora, descasca-me aí um marmelo”. Mas não é exclusivo dos putinhos, os adultos afastaram-se igualmente do marmelo sem dizer adeus. Onde andam as mães que faziam marmelada caseira? Já para não falar da contribuição para o vocabulário da paixão. Que outro fruto pode ombrear com o marmelo no campeonato da marmelada? Nenhum, digo eu amargamente. Creio que sou o último paladino do marmelo.

 

Paladino do Marmelo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

06.01.22

Da falsidade à traição vai um passo, pelo que nunca me vão apanhar a dançar. Posteriormente, o seu caso difunde-se e a dança extingue-se. Os traidores passaram um mau bocado.
Desconfiado, vestiu um fato de salsicha gigante. Assim disfarçado, julgara fugir à morte. A literatura não fornece pistas sólidas para responder a esta nova vida de salsicha nómada — cogita o nosso personagem —, sou um inaugurador. A salsicha é boa companheira e não me vai atraiçoar, pensava.

Havia dias bons e dias maus. Quando deu conta, tornara-se amigo de todas as ninfomaníacas da vila, tirando dividendos impalpáveis desses novos laços infernais. Do outro lado, passava por um mau bocado sempre que se cruzava com cães e alemães. Houve um dia em que passou a tarde a correr à beira-mar, em Albufeira, à frente de um grupo de alemães famintos. Ia acabando em tragédia. Felizmente, um bar nas redondezas anunciou a happy hour, que é como quem diz, cerveja barata, e os predadores louros debandaram.

A salsicha, forma fálica por excelência, ajudara-o a criar ligações mas também a criar tensões. A título de exemplo, o nosso personagem, que antes era um homem muito religioso, fora impedido de entrar em igrejas. Segundo os padres, dava mau aspecto e não conseguia levar a cabo a missa com cachos de beatas babosas. Não estou à altura de doutrinar salsichas, continuava o pastor.

As mulheres padeciam de sonhos húmidos com a nossa salsicha, digo, com a salsicha ambulante. Com efeito, a nossa salsicha transformou-se num detector de humidade. Os piropos eram tantos que começou a ponderar abandonar o fato. A expressão “és um pão” desapareceu e deu lugar à “és uma salsicha”. A contribuição para a história do vocabulário do engate foi inegável.

Todavia essa vida prenhe de tensões atormentava-o. Há muito que não se via ao espelho como um homem.
Tornou-se uma salsicha depressiva, sem qualquer frescura. Pensava tão profundamente sobre a sua vida que não dera conta que deambulava pelas ruas com uma chusma cães vadios agarrados ao fato. Eis a vida do Homem Salsicha.

Homem salsicha

 


Roberto Gamito

05.01.22

Platão era detrator da maquilhagem e da poesia. Unindo os pontos de forma humorística, tudo leva a crer que o menino Platão era contra tudo o que embelezasse a língua e o corpo e só investia numa relação se a mulher se apresentasse nua e, em vez de falar, grunhisse, dado que a palavra maquilha o pensamento humano.

Segundo o pupilo de Sócrates, a beleza é simples, pura, sem misturas, estranha à perversão das cores e a todas as vaidades humanas. E ainda Platão: “procurar embelezar-se através do vestuário é uma prática malfazeja, hipócrita, baixa, servil”.
“Qualquer trapinho te fica bem” é um elogio que pode ir beber a Platão. Olha que há destinos.
Platão, gigante entre os gigantes, sumidade na filosofia ocidental, passou ao lado de uma grande carreira de crítico de, termo da altura, modas bárbaras. Imaginá-lo hoje nas caixas de comentários das fotos de influencers dá-me uma barrigada de boa disposição.

Imaginemo-lo nos dias de hoje a comentar as típicas fotos de influencer no Instagram.

Influencer publica uma foto toda maquilhada.
Platão: Excelsa mulher de peito farto, trata-se de um simulacro perverso que deve ser rejeitado o quanto antes. Tanto as cores como as formas do rosto foram manipuladas pela maquilhagem. Fico à espera de uma foto em que surja sem pós milagrosos nas trombas.

Influencer publica uma foto de soutien.
Platão: Curioso, explorou habilmente a fraqueza da percepção masculina, criando ilusões e revitalizando o rei das terras baixas. Não sei como consegue dormir à noite quando sabe que engana a vista dos ingénuos e perturba o espírito de tão frágeis homens. Faça um favor à humanidade e não especule o tamanho das tetas.

Influencer publica uma foto com grande ênfase no nalguedo.
Platão: Procurar enfatizar as nádegas, tão ao gosto do selvagem, ainda por cima com filtro de Instagram, é uma prática degradante. Acaso o faça, faça-o sem artifícios. Um rabo sem auxílios da maquilhagem e da tecnologia. Um rabo como o seu não necessita disso, é como a luz no seu zénite capaz de fertilizar e encher a cabeça do homem de ideias fecundas. Como sabe, não sou leigo em matéria de rabos. Não me querendo gabar, mas cá vai alho: sou o pontífice máximo do assunto. Não é o homem que escreve estas linhas, mas um estudioso neutro do cu.

Influencer publica uma foto com as tetas de fora.
Platão: Apesar do inegável prestígio do mamaçal, ocultar os mamilos é uma prática condenável, porque priva a mama do seu epicentro. O olho masculino, carente de um ponto de referência, vê-se perdido ao abarcar tamanho decote. A forma como põe os braços, de molde a que as tetas pareçam maiores, apesar de visualmente estimulante para o animal faminto, é altamente desaconselhável. As mamas merecem a verdade.

Influencer publica uma foto em que surge com o cabelo louro.
Platão: Ao contrário de Afrodite que se banhou no rio Escamandro a fim de tingir o cabelo de louro, resultando o título da mais bela das deusas atribuído por Páris, em si não surtiu qualquer efeito: continua feia como uma bota gasta. Não fosse dotada de um rabo olímpico e estaria condenada ao anonimato. Faça o favor de modificar a sua postura na próxima fotografia.

Influencer publica uma foto de jardineiras.
Platão: Apague a foto, essa farpela está a ferir-me as vistas. Os seus adoradores não merecem tão excruciante experiência. Admita o seu erro. Para compensar, contento-me com uma nude na caixa de mensagens. Deleitar-me-ia a descrever minuciosamente as delicadas nuances amiúde ocultadas pelas suas tristes farpelas.
A roupa, minha cara musa, trata-se de uma excentricidade tardia.
E a conversa segue na caixa de mensagens do Instagram.
Influencer: Meu bandalho, és igual aos outros, só me queres ver nua.
Platão: Tenciono ver o teu corpo desnudo, porém, ao contrário dos outros, procuro igualmente a verdade. Seria uma alegria para mim encontrar a verdade no teu corpo ao léu.
Influencer: Não vou cair na tua cantiga.
Platão: Cantigas? Poesia? Isso é que não, vou bloquear-te. Mas primeiro manda a nude.

Platão e a Influencer

 


Roberto Gamito

04.01.22

Definir o que vale ou não a pena é uma tarefa difícil. O coração, armado em autor, tem sempre grandes dificuldades em propor definições pertinentes, sólidas e contidas; na verdade, chafurda com grande aparato num sem-número de linhas amadoramente poéticas sem nos trazer a luz da certeza. Upa, degrau inesperado. Atlas fornicou a Noite e teve três ninfas, as Hespérides. Detenhamo-nos neste episódio. O poeta, principalmente o maldito, fode a bom fornicar a mãe, a Noite. Ou pelo menos tenta. Que criatura esquisita: Poeta-fornicador-da-Noite-armado-em-Édipo-filho-de-Atlas-carregador-do-seu-cosmos. Que frutuoso intercâmbio de nuances!

Primeiro era o vermelho, de seguida o branco e o preto. A primeira tríade de cores. Só mais tarde chegaram o amarelo e o verde. E só depois o azul, eis o que nos ensina Michel Pastoureau.

É útil recordar que houve um tempo em que o vermelho era pau para toda a obra: era amor, morte, vida e o mais que vocês conseguirem pensar. Outro acrescento: em tempos muito recuados, os frutos de polpa eram designados de maçã. Tentemos viajar até esses tempos. Duas personagens passeiam num pomar.

— Belo pomar que aqui tens. Que fruto é este?
— Maçã.
— E aquele?
— Maçã.
— E aquele lá ao fundo?
— Maçã.
— Tudo maçãs? Estás a mangar comigo.
— Tudo maçãs, meu amigo.
— São todas diferentes, estás burro?!
— Amigo, não há mais palavras para designar fruta polpuda. Por ora é tudo corrido a maçãs.
— Ao menos chamavas-lhes prosa de Roberto.

Pensar em maçãs é o mesmo que pensar em Héracles e o seu décimo primeiro trabalho no Jardim das Hespérides. Em jeito de súmula, Hera, a célebre deusa rabugenta, deu-lhe um trabalhinho que era capturar as maçãs de ouro. Ora, Héracles (ou Hércules, se preferirem a versão romana) é um tipo sem sorte nenhuma. É uma espécie de trabalhador precário. Vem com a ideia de cumprir uma tarefa pequenita e cai-lhe tudo em cima. São os colegas que não vêm, são as tarefas que se agigantam e, na maioria dos casos, não compensa e o salário continua magro. Isto ainda vai ser o meu fim, pensa Héracles e o trabalhador português.

Desdobremos o décimo primeiro trabalho de Héracles nos seus diversos episódios. A luta contra o monstro Anteu, uma rixa rija com um dragão dotado de cem cabeças, uma pugna contra os pigmeus, a libertação de Prometeu e, como se isso não bastasse, ainda ajudou Atlas a suportar a abóbada celeste. Segundo uma fonte próxima, as costas de Héracles nunca mais foram as mesmas — é o que dá carregar o peso do mundo sem aquecer primeiro.

Ao cumprir esta demanda prenhe de perigos, finalmente alcançou as maçãs de ouro. Trá-las a Eristeu, que ignora o que fazer com elas e as abandona. Belo trabalho! Um pouco abananado, Herácles dá as maçãs a Atena, de molde a agradecer-lhe a ajuda que lhe prestou em várias ocasiões. Atena, rata até ao tutano, não quer arranjar problemas com Hera, a possuída, e manda devolver as maçãs de ouro ao Jardim das Hespérides, lugar do qual nunca deveriam ter saído. Sim senhor, sujeito a morrer pelos frutos dourados e tudo isso para nada — para voltar à casa de partida. Humano, demasiado humano. E já agora: apanhar frutos não é um acto reversível. Assim que são apanhados, não há forma de os voltar a pôr na árvore. Essas maçãs douradas deviam ser mesmo boas para terem tantos guarda-costas.
A Hera que me perdoe, mas fiquei com vontade de comer uma.

o décimo primeiro trabalho de Herácles

 

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