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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

23.06.22

“Tens graça, muita graça.”
Eram palavras de mau augúrio para aquele simplório, o qual as recebeu como sinal divino, nunca pronunciadas com tal vivacidade; palavras mágicas conducentes a uma vida desgraçada de laracheador profissional regada ora a apupos, ora a aplausos. Planta bizarra, pensará o leitor mais macaco.

Veio para cá, para os arrabaldes das redes sociais, com uma grande reputação de humorista. Mas não se aguentou muito tempo agarrado ao apodo, à decima piada já havia sido despromovido a burro do caralho — e tal não espanta ninguém. Num mundo em que os critérios são voláteis e em que a competição entre franzinos norteia chapadas e diálogos, as pessoas valem tão-somente a sua reputação. A fama é uma longa estrada ensaboada para o desastre. 

Findo o espectáculo despovoado de gargalhadas, o bicho ontem intitulado hilário esmoreceu prematuramente. Realisticamente falando, podemos observar que o homem perdera meio metro de confiança. Supondo que começara com 2 metros — hipótese improvável neste país de pequerruchos talentos —, teria somente mais três tentativas falhadas antes de desaparecer. 

O ponto de viragem sucedeu numa interação com o público. Engodado por um comentário de uma mulher de fartos seios e com um sorriso carregadinho de luxúria, abalançou-se inocentemente para uma deixa achavascada que lhe valeu o silêncio sepulcral da sala. És muito interessante, disse ela entre piadas, guilhotinando o silêncio. Aproveitando o comentário, o humorista lançou-se barbaramente à presa: “É em mim que pensas quando estás sozinha no quarto a tocar uma guitarrada de clitóris? Com que então o desejo armado em ventríloquo dos teus dedos”. Arrepia ver tanta estupidez e tanta falta de timing concentrada numa única frase; a segunda, convenhamos, ainda escapa. Suou adverbiosamente tentando reparar o sobressalto de braguilha, porém o mal estava feito.
A postura alterou-se de chofre. O passeio sem falhas no palco deu lugar a um manquejar próprio de putinho com sapatinhos de croché. 

Tudo se desconjunta ao som do apupo e da crítica inflamada, por mais incisiva que fosse a piada, era incapaz de pôr cobro ao chamejar daquele vasto incêndio. O “sai do palco” gritado a mil e a uma goelas erigira uma pira na qual ele seria consumido até ao esquecimento. 

Apagadas as labaredas, arruinado o palco, silenciada a cólera, cada algoz à paisana voltara à sua vidinha e aos ódios miudinhos.

 

ódio miudinho


Roberto Gamito

21.06.22

Carne!, que bela palavra — melhor só saboreando cada sílaba apoeticamente, que é como quem diz, no prato ou no pão. Deixada à sua própria sorte num universo sem Deus nem acólitos da chicha, foi perdendo envergadura e a pouco e pouco foi relegada para o escaninho dos diálogos. Certamente é esse hábito de procurar a luz (leiam virtude se não quiserem recuar tanto) em sítios  insuspeitos — essa obsessão com a pureza e a genealogia dos actos que nos empobreceu o prato. Caso fosse amigo das saladas, e os meus ídolos mais saudáveis e pródigos em desculpas, e entoasse o canto desafinado, entornando-o sobre os frágeis carnívoros, os quais, banqueteando-se sem vontade nesse rodízio de explicações enobrecedoras, tais como, o meio ambiente isto, os animais aquilo, coisas que lhe sabem ao mesmo, frases sem sal incapazes de espicaçar a gula.

À medida que o palco da carne foi sendo vandalizado e surripiado pelos mongóis das couves, e a responsabilidade se transfigurou numa deidade vingativa e tonitruante, os amantes do churrasco foram estigmatizados, pelo que o acto de nos passearmos de tronco nu com uma bejeca à volta do barbecue pode estar votado à extinção. A indústria da culpa cilindrou mais um inocente: o amante da chicha.
Contudo, os devotos da carne impacientam-se em guetos, provavelmente engendrando uma teoria capaz de ombrear com a das verduras— até hoje sem sucesso. Longa vida à dinastia das saladas. Resta-nos esperar pelo Evangelho da Febra.

Invadir o círculo encantado dos paladinos das verduras e resgatar um pouco de razoabilidade não é tarefa fácil. A cólera catapultada desses seres de paz, assim diz a brochura, é inesperada e inesgotável. Os vegans vociferantes espezinham qualquer um que tenha a má decisão de levar uma entremeada à boca. Como diz o escritor, cada passada é um acto de tomar posse, as solas rangem de impaciência. Os rodízios metamorfosear-se-ão em casas de sopas.
Citando outro ilustre, é necessário uivar com os lobos, acrescento da minha lavra, improvisar a nossa animalidade enquanto palitamos os dentes e damos aos restos a oportunidade de ingressar no estômago. A tensão entre vegans e amantes da carne é, à falta de melhor termo, um afastamento da mensagem cristã. Onde antes havia uma maçã interdita agora há uma entremeada. Assim estamos de regresso à infância: quando os crescidos nos interditavam as vitrines apinhadas nas pastelarias: “isto não, nem aquilo nem nada do que está exposto, os bolos fazem mal à saúde, ou pedes um bagaço ou estás calado”, eis como se trabalha no Baixo Alentejo. 

Cabe-me a mim, enquanto historiador cujo labor é coleccionar os cumes da estupidez humana, citar um momento alto das cabecinhas contemporâneas, as quais atafulham as redes sociais com ecos estropiados. "Não se deve brincar com o veganismo." Hoje, para ganhar o favor dos críticos de pacotilha, devemos evitar fazer algo bonito do domínio do humor e baixar orelhas a tudo e todos. Felizmente, não sou daqui, sou turista neste século arruinado. Quando o pensamento e as ideias evaporam, como inevitavelmente acontece quando o eco se torna rei e senhor, o conhecimento e o pensamento é substituído por uma cultura de pechisbeque. Somos filhos do urinol, mas calma lá: ainda não joguei a toalha ao chão; a arte está morta, mas só descanso quando a ressuscitar, nem que para isso tenha de recorrer ao chapadão. À partida, isso parece difícil, porém é por aí o caminho do inédito. Nestes temas, o falso intelectual convida-nos à crucificação de molde a gerar a sua auto-ilusão, abatidos pelo linchamento, os comediantes são a bateria viva do seu mundo de fantasia. Chega de ver o século do alto, vamos lá ao humor. 

Migremos para este cenário: uma mesa rodeada em princípio por portugueses (1) sob a qual jaz um cão sonolento. Saliente-se um detalhe crucial: são portugueses vegans. Estão a sorrir e a dialogar ao som de dentadas nos vegetais— que selvagens, pensarão os amantes da febra, e com razão. Outro detalhe: o cão foi recentemente adoptado por um dos elementos da mesa, ou seja, não está ciente dos costumes dos sacerdotes dos legumes. Entretanto, cai uma cena da mesa. O cão desperta da sua vigia sonolenta, entusiasma-se e de seguida descobre que é só um bocado de repolho. Foda-se, que vida de cão (2), cogita o patudo (3), para isso tinham-me deixado na rua. Suspeito que, após a viver este inferno, que é ouvir uma coisa a cair da mesa vezes sem conta e dar-se conta que são legumes, há cães a apanhar depressões profundas.
Eu não merecia isto, cogita o canídeo, pensava que éramos os melhores amigos. Sejamos humanos, comamos animais — tantos animais quanto pudermos — para cumprir o propósito de fazer os nossos cães felizes. 

Como se isto não bastasse, os alimentos estão a perder sabor. O zénite deste desconsolo é comer um belo bife divorciado do seu sabor num prato sem alegria e harmonia no tocante às cores. Há designers que têm AVC só de olhar para a combinação de cores de certos pratos. 

Tal desarmonia no prato revela um profundo ódio ao glutão, o qual é incapaz de ignorar o ideal de beleza. Mandamos vir um prato cujo intuito é nos recordar o Nascimento de Vénus de Botticelli e apresentam-nos uma Guernica. É assim que as depressões aparecem. Mas onde mora o problema, perguntam vocês com a pança a dar horas. 

O mal disto tudo reside nos restaurantes gourmet, melhor dizendo, a tentativa de imitação por parte de restaurantes modestos. O empratamento que é artístico no gourmet é, no estaminé modesto, um terreno no qual foi despejado entulho. Se os olhos também comem, e daí que faça questão de armar a puta numa cabana gourmet e sair de lá com um olho roxo para não envergonhar o ditado, é igualmente verdade que, alguns restaurantes, ganhávamos mais se comêssemos de olhos vendados. O empregado de mesa chega-nos com uma tragédia no centro do prato e pensamos: "este prato não é resposta aos meus problemas de auto-estima". Quero comida capaz de transformar o mais ferrenho sedentário numa lebre turista. Regressemos aos fanáticos das sopas. Nunca viajei entre colheradas no caldo verde; todavia já me senti um Fernão de Magalhães num rodízio de carne. Os habitantes deste século dotados de horror ao naco, cuja labuta é injectar vergonha nos carnívoros, não podem descartar este lado: a jornada. Quando ferro o dente no naco, sinto-me a passear nos versos da Odisseia de Homero enquanto trinco e arroto poeticamente: “Pénelope, já vou, deixa-me só comer mais uma dose de picanha”. 

Apontemos o nosso cérebro enfezado para o restaurante gourmet. O que é aquilo? Eis a pergunta que fazemos diante de um quadro de Hieronymus Bosch ou de uma pratada sofisticada. Consintam que seja possuído pelo senhor Eça de Queiroz. Eis-me preparado para descrever o prato: no centro do prato jaz um objecto não identificado, que às vezes não é carne nem é peixe, e outras ambas, coberto de várias camadas de sofisticação e barroquismos, a saber: molhangas compósitas, caramba, nunca é um molho que caiba numa palavra, do seu nome não podemos esperar menos que um Homem Sem Qualidades de Musil; o cadáver incógnito é polvilhado por ervas que, não contentes com o seu nome original, são rebaptizadas como se fossem um nobre. Não é suficiente nomear a erva, é preciso acrescentar os mil apelidos, o seu nome em latim, a sua origem, a hora em que foi colhida. Calma, eu vim para comer, não sou médico de família, não me atravanque a cabeça com as suas dores. O prato parece uma mulher enfarpelada para ir a um casamento — enverga um penteado só para aquele dia. 

Nunca fui a um restaurante gourmet por vontade própria, sou gordo e tenho outras necessidades, mas há um pormenor que merece ser abordado. 

Eu, como outros indivíduos mais desconfiados, tenho medo que as ervas me firam as tripas. Como tal, caso me apanhe nessa situação, irei encetar uma operação delicada de modo a remover essa bagunça daquilo que, a meu ver, é comestível — uma migalha. Começo a suar e digo: “bem, vamos lá avançar para uma cirurgia delicada.” Objectivo: remover com segurança a chicha desses escombros barrocos.

Se nos tirarem a carne, tirar-nos-ão o lado social. Falo por mim, só socializo porque vou comer carne. Não me vão arrancar do sofá se o jantar for alcaparras e alcachofras. Resido neste corpo vai para três décadas, a contragosto, as rendas estão caríssimas, e não posso escapar às obrigações que a gula me impõe. Não ignoro que vivemos numa era em que a maçã é fluída, é carne, peixe e o mais. Se fosse hoje, Eva teria sido expulsa aquando da primeira trinca na entremeada. Disse-te para comeres a puta da maçã, Eva, grita Deus, era a única coisa que podias comer e tu não me deste ouvidos. Eu como aquilo que me faz salivar, retruca a Eva. Então come-me, brame o autor desta crónica.

 

  1. Reza a lenda que os nobres britânicos, fartos da caça à raposa, arranjaram um método de caçar portugueses. Punham uma mesa farta de acepipes no mato e era vê-los, aos tugas, a sair aos pinotes dos arbustos. 
  2. Isto não é ficção, é a tradução dos seus latidos. Tirei um workshop de fabulista na Golegã e encontro-me certificado para entender profissionalmente qualquer bicho doméstico. O próximo passo será entender os selvagens para que, de uma vez por todas, perceba a razão pela qual os bichos buzinam assim que o sinal verde do semáforo cai. 

  3. A primeira vez — e deus queira a última — que escrevo patudo. 

 

comam carne


Roberto Gamito

09.06.22

"Não é o homem que cai que ri da sua própria queda, a não ser que seja um filósofo, um homem que haja adquirido, por hábito, a força de se desdobrar rapidamente e de assistir desinteressado aos fenómenos do seu eu."
- Baudelaire
 
Permita-se-me uma achega que me servirá para mesclar algumas coisas que, na clandestinidade, tenho tentado irmanar.
Vou fazê-lo muito de passagem e por conseguinte não estranhem os saltos de raciocínio.
Partilho da ideia de Baudelaire, da proximidade da comédia com a filosofia. O comediante, tal como o filósofo, é aquele que começa a questionar exactamente onde os demais adquiriram as suas certezas. Segundo Baudelaire, e para outros antes dele, o riso tem o seu quê de satânico. Os comediantes são, empregando uma expressão sua, Satãs em flor. O comediante é uma espécie de agrimensor que tenta decidir, pelo seu próprio pé, qual é o território do bem e do mal. Ora é um trabalho que, a ser bem feito, carrega os seus perigos. A dose faz o veneno, e o comediante quer sempre mais.

Outra ajuda de Baudelaire: "O riso é essencialmente infinito, é sinal de uma grandeza infinita e ao mesmo tempo de uma miséria infinita. É do choque permanente entre este dois infinitos que se solta o riso." Daí as oscilações de humor — perdoem-me a simplificação — características de um humorista. Ninguém consegue ficar imune a tamanha amplitude.
Outra coisa que os comentadores de porcelana se esquecem quando tocam no assunto é a natureza mais funda da arte. A comédia pode ser somente — e tanto universo que carrega este somente — um animal ferido a tentar sobreviver. Opera com o medo, a hipótese possível de redenção. E isso pode ser projectado para o medo em si, ou para algo totalmente distinto.
Eu clarifico: um comediante carrega um medo absurdo de morrer de cancro, então tenta parir piadas sobre esse assunto para tentar a sua vitória de Pirro. O comediante não ignora que essas vitórias são infinitesimais. Nunca vencerá a morte, que tanto o amedronta, nunca vencerá os seus medos, nunca vencerá nada. Mas isso não o impede de experimentar tudo o que estiver ao seu alcance para obter essas "vitórias fictícias" sobre a morte. Pode, como atrás mencionei, ter medo de morrer, e projectar esse medo em piadas sobre cadeiras; o medo estará presente na fúria e no olhar com que debita a piada, por exemplo. A sua relação com o medo move-se nos meandros da piada aparentemente inócua. O riso é a libertação da sua cólera e do seu sofrimento. Como a dor não passa, precisará sempre de mais e mais risos.

Façamos agora aqui uma pequena ponte, pois é de suicídio que iremos falar. E sim, a frase anterior está envernizada humoristicamente, pois esta é a forma de abrandar o poder da morte.
O suicídio, no tocante a quem procura o riso no outro, frise-se procura o riso no outro, é quando o laracheador se dá conta do exercício inútil que é tentar a redenção através desse método. Observem a recorrência do verbo tentar. É uma tentativa perpétua. De se livrar da dor — particularmente a depressão — que é invencível. Nunca é extinta, quando muito adormece.
Faça o que fizer, continuará o mesmo. Quando esta ideia lhe surge clara na mente, então, meus amigos, é normalmente o fim.
Mas regressemos ao primeiro excerto.

O desdobramento — uma espécie de projecção astral, para piscar o olho a quem viu o Doctor Strange — é só uma forma de entre muitas formas de ver, de comunicar com aquilo que está a acontecer. Há o perigo de nos afastarmos tanto que doravante tudo nos parecerá igual. É nas imediações do acontecimento que podemos aceder aos detalhes. Longe, por si só, não tem grande valor. É um artifício usado em metaconsiderações quando se pretende discorrer de um assunto de uma forma que ofereça menos propostas de retaliação. Então cria-se um assunto sobre o assunto, e assim sucessivamente, dependendo do medo do comentador.
Esse distanciamento barroco, curioso exercício de estilo, é a forma natural de exibir uma erudição postiça, muito comum nos dias que correm. É possível pairar bem alto sobre um assunto, qual falcão, todavia tem de chegar o momento em que o falcão inicia a queda vertiginosa sobre a presa — aquilo que realmente interessa. Ora ver de fora só tem sentido se houver a intenção de voltar a entrar no circo — naquilo que lhe causou uma perturbação — com novas abordagens, novas ideias, novo fôlego.
E mais: isto — a comédia e a filosofia — dificilmente acaba no eu.

É mais o que está para lá do eu. Tal propensão pode gerar um cardápio de leis só aplicáveis ao seu eu, todavia desajustadas ao mundo real. Pode igualmente embeiçar-se pelo seu eu — ei-lo, o mundo polido dos Narcisos.
A rapidez com que o realiza pode ser igualmente problemática. Há que deixar o veneno actuar, se quiserem realmente arrepiar o tecido da realidade. A não ser que seja só um comediante ou filósofo de superfície. É preciso deixar que o mundo entre em nós, que se entranhe. E para tal necessitamos de tempo. Daí o estado actual da comédia, por exemplo. Não pensa, reage, mas isso são outros quinhentos. O olhar desinteressado não é tão benigno como se afigura à primeira vista. À medida que o tempo corre, se o comediante se aperfeiçoar nessa forma de olhar o mundo, dar-se-á conta que tudo é igual, sem sabor, sem cheiro, que nada lhe suscita interesse. Outro itinerário para alcançar o suicídio.
Parece que Baudelaire não leu o que escrevinhou. Noutra altura escreveu que a arte, a ser arte, tem de ser parcial.
Assim já nos entendemos, senhor B. E só nos podemos comprometer com o amor. Quiçá por aí dê para o comediante se esquivar à depressão e ao suicídio. Vale a pena tentar.

O compromisso eterno com aquilo que nos promete a salvação.
Escrever como se cada frase tivesse o poder de mudar o mundo. E insistir, insistir até partir os braços e ficar afónico.
Volta e meia desdobramo-nos até à loucura, e somos o coliseu, um homem inerme a lutar com a fera, o público, cada elemento com as suas nuances, o imperador. Somos uma legião, cada um a lidar de forma distinta com a morte. Num só instante podemos morrer, aplaudir, rir, matar, sofrer. Essa é a natureza do combate interior. O Homem é múltiplo. Mesmo que o esventres até ao átomo, nada saberás sobre ele, não sabes os seus apeadeiros da queda, que lutas travou, o seu portefólio de derrotas. Nunca conhecerás um homem —
mulher — a não ser que a ames. Nunca conhecerás o que é a comédia — a filosofia — a não ser que a ames. O amor, esse, deve ser o ponto de partida para tudo. O único dogma. A tua Ítaca, se preferires. Quando se sentires perdido, tenta regressar.

Mas calma, não se levem demasiado a sério, somos todos personagens risíveis. Soa estranho, não é?

Humorista, o Satã em flor


Roberto Gamito

17.04.22

Procura que a tua frágil cabecinha não se desequilibre, qual aprendiz de funâmbulo e permaneça acólita do eco sensaborão deste mundo doravante incendiado. A Queda ou Idade de Ouro depende do enquadramento. A pedra do dominó em vias de cair aparece ou não aparece na foto? Uma coisa é certa: ela existe.
A objectividade é um logro dizem uns, outros ou os mesmos, não contentes com o silêncio, ripostam que a subjectividade é um embuste. De longe, todas as cidades são povoadas por anões. Para quem não sai de casa, até a padaria no final da rua fica no estrangeiro. A distância extinguiu os gigantes? Por mais que tente, não consigo empatizar com estes papagaios castrados. Aqui e ali teorizam-se tomates impontuais. Segundo X, o biógrafo mais autorizado de Deus, o sangue de Cristo fermenta em pipas de massa. Próprio deste tempo de gagos e afónicos, onde o agonizantemente óbvio foi elevado a genialidade, seria de esperar que o livro que catapultou o filósofo se chamasse Catapulta. O seu irmão António Luís acabou por perder um braço num jogo de sueca mais aceso, o que afectou tragicamente o seu ofício de pianista e o seu passatempo de punheteiro. Para viver feliz, tenho de estar em concordância com o mundo, disse o filósofo saído da primeira grande guerra. Começamos mal, quero é que o mundo se foda. Quando jovem, foi levado pela ideia de que sob as máscaras se acoitava uma humanidade comum e só viu cobras e lagartos. Há sempre algo aproveitável no passado, disse o filósofo ao seu terapeuta.
Um cacho de gajos que não ficará para a história — e esta já perdeu a sumptuosidade da maiúscula por se dar demasiado com o homem — encontram-se no jardim de candeeiros intactos, uma vez que a pedrada é como o amor: atrasa-se sempre; retomando logo no sítio mais desinteressante da narração, encontram-se no tal jardim para desfrutar do debate intelectual — oxalá os cândidos nunca se extingam! — e acabam a noite —isto sim já merece o meu tempo — numa troca acesa de sopapos — coisa que desassossega a face mais franzina. Com sorte, a porrada dar-te-á a possibilidade de sair do mundo para, a partir de fora, explorares tudo. Ai temos filósofos, riposta o homem feito cão encolerizado, só por isso levas mais. As alturas estão carcomidas pelo vício e pela vaidade. Perdoem-me, o tempo dos sacerdotes da virtude já lá vai. Fodam tudo e à vossa maneira.
E como dizia David Hume, e isto sou eu numa carta de amor ou num e-mail, que os carteiros e os cães nunca se entenderam, (epifania entre parênteses: enquanto Actéon abocanhado pelo que amei, encontrei forma de passar a perna à maldição divina: entrar num armazém dos CTT pejado de carteiros e é vê-los, aos cães, a soltarem-se de mim quais pétalas a feder a sangue) se o amor e a amizade desaparecem, o que sobra no mundo que valha a pena? Pão e circo, senhor David.
Em anexo envio a minha dick pic para consideração da sua excelsa cona. Estás cá dentro, meu amor, no meu coração. Aguardo a minha vez para estar dentro de ti.
E encontrar um recomeço neste arraial de pontas soltas? A vida é dor e tédio, escreveu o alegre Schopenhauer, e séries de merda na Netflix com as quais torramos o nosso tempo, acrescentaria eu se quisesse professar as primeiras linhas do Evangelho Abreviado da Escaramuça. O conhecimento há-de triunfar?! Bebe mais uma e esquece isso, camarada de esquecimento.
Se somos o que pensamos, como disse Buda, eu sou as contas a bater certinhas ao final do mês. O humorista, embora gostasse de cultivar erudição em redor dos nabos e pensamento ao lado da salsa, era um banana da nova escola. Banana gigante qual picha insuflável nas mãos tremelicantes das inglesas que nunca ninguém viu sóbrias nas ruas de Albufeira. Não obstante o tamanho, é só ar. Aproveitemos o momento solene e abordemos o tema grande deste texto: a picha insuflável tem uma pichinha chamada pipo, pela qual incha até exibir um tamanho inverosímil.
Atormentamo-nos com bagatelas, vemos nelas gigantes insuperáveis quando na verdade não passam de dióspiros maduros que podem ser aniquilados com um murrinho de fedelho cuja pança ronca de fraqueza.
E aqui vem outra frase tremenda: desapareceram-me os ícones do ambiente de trabalho, pronto, acabou-se a angústia da influência. Em linguagem leiga, estamos fodidos. Doravante é fazer como os mosquitos e ver em qualquer candeeiro um farol. Seja como for, não passamos de náufragos a boiar em cima de náufragos antigos.
 

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Roberto Gamito

08.04.22

Fazendo fé nas conclusões de travo alimentício da consultora Nielsen, a qual monitoriza as compras de três mil lares portugueses, e futuramente as compras de três mil hostels, o consumo de frutas e legumes diminuiu nas famílias com filhos, privilegiando a aquisição dos produtos de conveniência, a saber: refrigerantes, conservas e take-away, que são, para usar a expressão de Clara Viana, do Público, facilitadores do dia-a-dia. Aqui principiamos a divergir ligeiramente. Embora reconheça que alguns dos produtos nos tornem a vida mais fácil, cito como exemplo uma lata de atum, a qual é uma espécie de MacGyver que desempecilha a refeição em situações que de outra forma seriam impossíveis de resolver para uma pessoa cujo lema da vida é “mexer-me o menos possível”. Se a vida melhorou drasticamente após termos conhecido a lata de atum? Não nos precipitemos na resposta. É uma relação longa, começa na universidade ou até antes e acompanhar-nos-á, suspeito, o resto da vida. Logo terá todas as características de uma relação duradoira, tanto as boas como as más. Creio ser despiciendo sublinhar que a aura romântica que paira sobre as conservas rapidamente desaparece. Falo por mim, sempre que desfruto desse singelo pitéu que consta no menu do desenrascanço, sou arrastado aos solavancos por uma imaginação contrariada rumo a um cenário de guerra em que estou a fruir da minha última refeição. E eis que choro profusamente. Não adivinharia, nem nos meus mais célebres pesadelos, que a minha vida seria essa. Acabar os meus dias a comer atum num casebre abandonado enquanto espero pela morte e ouço Maria Leal.

Há, continuando a pastorear os olhos no artigo, motivo pelo qual encetei esta prosa suculenta, um aumento dos produtos exímios em insuflar a pança, tais como: chocolates, batatas fritas, bolachas que existem para, momentaneamente, tapar o buraquinho existencial. O número de suicídios seria mais elevado se não houvesse estes paliativos. Nunca tive, que me lembre, ideias suicidas enquanto estou a estraçalhar uma tablete de chocolate. Depois de a comer é outra conversa, mas é uma questão de comprar a maior tablete possível. Teorizando um nadinha, posso assegurar que, se comprarem uma tablete de chocolate infinita, nunca mais pensarão em coisas tristes.

Que vida a criança teria se, além do típico conselho paternal “não fumes, não bebas, não te drogues” fosse aconselhado a enveredar pela via marginal logo desaconselhável da fruta. A criança não teria alegria nenhuma para continuar a viver neste mundo empestado de regras. E sabem como são as crianças. Pode acontecer, não digo que em cem mil catraios não haja um que goste de fruta, que se delicie em abocanhar citrinos e assim, mas, debaixo da mira do olhar desdenhoso e inquisitório dos seus ranhosos colegas, opta por recalcar o seu amor pelos legumes e pela fruta. Moro no Algarve, onde há citrinos aos pontapés, e do que me lembro dos tempos de escola, descartando as memórias das pessoas boas e das professoras boas, supondo que são coisas diferentes, não me lembro de muitos episódios em que o Dário ou o Alexandre pudessem descascar clementinas sem serem importunados. Supondo que a geração actual de putos é superior à minha nesse aspecto, sim, estou disponível para realizar esse salto de fé, que não importunam os outros, pois têm assuntos mais sérios a tratar, como estar concentradamente alienados ao smartphone, ou a realizar directos para o Instagram, levanta-se outra questão. A questão da socialização. A fruta não promove a socialização. Ninguém se aproxima de um puto e diz: Orienta-me aí um gomo de tangerina. Ninguém. Nós queremos relacionar-nos com os outros e a fruta e os legumes não constituem grandes catalisadores. Pelo contrário: são inibidores. Daí não constituir espanto para mim que os putos enveredem pelos Kit Kats e pelo tabaco. É o que levamos da vida. Histórias. Histórias com outras pessoas. De que me serve morrer com um corpo a abarrotar de vitaminas se ninguém quer meter conversa comigo? Isolei-me do mundo por via de ter criado uma barreira de clementinas, bananas e maçãs, pensará o miúdo que seguiu uma vida saudável. Viverá dentro de um casulo de fruta e um dia brotará, de dentro do casulo, uma borboleta bisonha da espécie Carmen Miranda.

E a mãe que diz “comprei estes abacates a pensar no meu filho” é uma mãe que não ama a sua cria. Ai eu faço-te lembrar um abacate?, pensará o filho quando confrontado com esse pensamento. Mãe, não me conheces. Eu sou um ser doce, dirá o garoto. Daqui em diante quero que te lembres de mim quando passares pela secção das gomas, concluirá o puto.

Ou então os pais detestam os filhos e estão a tentar matá-los seguindo os trâmites legais, a única forma socialmente aceite de matar um petiz: não lhe providenciar comida saudável. Não me oponho, só quero saber se é preciso aquecer o biberão de coca-cola.

A fruta não é amiga das crianças, Roberto Gamito


Roberto Gamito

11.03.22

— Concordas com estas palavras?
— Quais?
— Estas: concordas com estas palavras.
— Acho-as admiráveis, todavia careço de paciência para me alongar em justificações.
— Uma justificação breve, não te peço mais.
— Oponho-me com todas as forças a tudo o que saia da tua boca.
— E se for uma ideia brilhante?
— Ainda pior. O ser humano quando possuído por ideias brilhantes torna-se abundantemente chato.
— Então opto pela mediocridade.
— É a escolha acertada, ao menos falamos a mesma língua. Seria uma pena recorrer ao exorcismo da ideia brilhante via crítica mesquinha.
— Há margem para a tentativa de suicídio ou acreditas no regresso da felicidade?
— Margem há sempre, é preciso acreditar e não baixar os braços. Quanto à felicidade, não contava muito com ela, não é de fiar — só nos quer nos momentos bons.

Nesse instante, o padre administrou água benta aos executantes do diálogo e de seguida regressou ao jogo de sueca que havia interrompido.

— Mamarracho não é uma das tuas palavras preferidas?
— Tem dias. Quem é que te contou?
— Quem faz as perguntas aqui sou eu.
— Ai é?
— É.
— Não posso fazer mais perguntas?
— É uma prática a evitar se quiseres manter a nossa amizade.
— Então é mesmo para parar?
— Agradecia que parasses.
— Vou já parar, alguma vez te desobedeci?
— Nunca.

concordas com estas palavras


Roberto Gamito

01.03.22

O tradutor é possivelmente o mestre supremo na arte das desculpas. Traduz uma obra de 50 páginas e desculpa-se em 100. Aqui está o meu trabalho, mas digo-vos já que está uma bela porcaria, eis o resumo das notas introdutórias. Seria impensável o mesmo noutras profissões.
Imaginemos o médico em cenário de cirurgia. Aí está o homem operado, comenta o médico aos familiares, mas digo-vos já que agora tem a pila na testa, também não faz diferença, tem 80 anos. A pila caiu durante a cirurgia e como estava a operar as virilhas decidi pô-la noutro sítio para não atrapalhar. Espero que haja compreensão da vossa parte.

Começo a achar que a morosidade da maioria das traduções se deve ao tradutor precisar de tempo para erigir um monumental pedido de desculpas. Já que foi incapaz de brilhar na tradução, que, segundo as palavras dele, é deficiente por estar cercada de possibilidades, pretende ficar na história da literatura graças às justificações. Se a coisa fosse feita às escâncaras, em vez de prémios para as melhores traduções, existiria prémios para as melhores notas do tradutor — que é um eufemismo pomposo para ‘peço desculpa, fui incapaz de realizar o meu trabalho em condições’.

O prémio de melhor pedido de desculpas de 2021 vai para…António Samuel, que traduziu a comédia perdida de Homero. O trabalho sublime e apatetado — perdoem-me a escolha de palavras — é de inegável valor para as nossas letras. Verteu para português uma das obras fundamentais da literatura universal com um rigor característico de bêbado. O poema original fala de alhos, enquanto a tradução refere-se a bugalhos. Não há qualquer relação de parentesco entre a obra original e a tradução, não acertou numa linha sequer. Se houvesse leitores neste país, seria apedrejado na rua dia sim, dia não. Não obstante a sua mediocridade como tradutor, transcendeu-se no maior pedido de desculpas de que há memória. No decorrer das quinhentas páginas, onde pôs as suas deficiências por extenso num tom barroco e indecifrável, vemos toda a sua veia de caguinchas virtuoso, o que não é de somenos. Este prémio serve para recompensar o seu falhanço estrondoso.

Por decisão conjunta do tradutor, editor e uma pessoa ao calhas, optou-se por um lamiré do texto original, a fim de não pôr o prestígio da obra original e de Homero em causa. Como alguns devem saber, o original encontra-se perdido e ninguém ganha o suficiente no meio literário para inventar. Bem vistas as coisas, temos um pedido de desculpas e uma tradução a uma obra de n páginas que ficou por um parágrafo traduzido, e uma resma de páginas em branco — para encher. Decisão acertada.

tradutor é um traidor, Roberto Gamito


Roberto Gamito

28.02.22

Num ano que já lá vai e a memória não acode houve uma viragem monumental na vida de Carlitos: abandonou o espaço exíguo da barriga da mãe, desistiu do ofício de contorcionista e fez aquilo que à época se chamava nascer. Brindou os presentes com um valente choro de tenor, dos quais pouco há dizer em seu abono senão que respeitaram escrupulosamente o dress code da maternidade: bata, crocs e sensualidade inexistente. Carlitos colheu algumas lágrimas, sorrisos de orelha a orelha e um “finalmente” abafado pela máscara do médico, o qual, segundo as más línguas, tinha um pastel de nata à espera no bar do hospital. Artisticamente falando, o choro não foi merecedor de uma recepção de tal natureza. Noutro contexto, teria sido recebido com gritos, pedradas e apupos embrulhados em palavrões. Felizmente, o recém-nascido foi abençoado com um público fácil. Há artistas que levam uma vida à procura de uma noite dessas. Rezo para que este episódio não fique marcado no seu inconsciente, caso contrário vai pensar que o mundo é fácil e ele um génio do canto. A vida encarregar-se-á de lhe facultar os obstáculos com os quais vamos depurando a nossa visão sobre o nosso valor, em havendo tempo, talento ou paciência para tal.

Mas avancemos nos anos, pois bebés nascem todos os dias, com mais ou menos berros e, não fossem os likes que garantem aos pais nas redes sociais, ninguém se lembraria deles, nem tão-pouco de fazê-los. Vinte anos volvidos após o nascimento, Carlitos abandonou a vida de taberneiro, negócio que havia estado na família desde há séculos. Fora criado como um homem desde que gatinhava numa família de bêbedos e havia quem dissesse, nas alturas em que a coscuvilhice amainava e os temas do dia perdiam o viço, que a árvore genealógica daquela família se assemelhava ao medronheiro. O nosso ex-taberneiro decidiu abraçar o sonho (mas em casa, para não passar vergonhas) e concretizá-lo. Desde os 10 anos que ambicionava ser o merceeiro com mais freguesia da vila. Actualmente, o antigo tasco, ponto de encontro de putanheiros calejados na arte “ai se eu tivesse a tua idade”, assumia-se como taberna gourmet, cujas transformações, a saber: bifanas a saber a sola de sapato de marca branca e o taberneiro não ser um virtuoso do palavrão, transtornaram a antiga freguesia a ponto de promover diálogo e algumas zaragatas. Embora se quisesse manter afastado do passado, Carlitos não pôde desperdiçar a renda baixa da loja ao lado. Entre o passado e o presente de Carlitos havia uma parede, que nem era das mais grossas. Mas já chega de poesia. Assim, à distância, a mudança de vida de Carlitos parece uma parvoíce, capricho próprio de malta jovem, contudo, à época, a mudança foi recebida com um misto de admiração e inveja. Quando pensou ter alcançado a felicidade, essa que só vem a meio dos livros como uma respiração antes da morte, foi surpreendido com a abertura de um hipermercado nas redondezas. A sua freguesia sumiu-se e ficou com a mercearia às moscas e com um ou outro camaleão, os quais sempre foram muito ligados ao comércio tradicional. À medida que o desespero de Carlitos se agudizava, apareciam tabernas, daquelas à antiga, por todo o lado, como se fossem cogumelos. Talvez a humidade da tristeza fosse a causa das tabernas, mas que sabemos nós da vida? Seja como for, continuamos na mesa da taberna a mandar bitaites.

O Sonho de Carlitos


Roberto Gamito

27.02.22


Roberto Gamito

25.02.22

Está um belo dia para dar em maluco. O influencer é a figura capital destes últimos anos, de tal forma importante que em redor dela gravitam uma série de émulos, cópias medrosas, aspirantes e todo um mar de variações que ambiciona alcançar o pedestal da insipez máxima. Movidos pela crença de que é possível fazer dinheiro fácil, a saber: pôr versos de Pessoa como legenda de um nobre mamaçal, ou celebrar o óbvio ululante, o homem contemporâneo abandonou o mundo palpável, usando-o apenas para carregar os seus gadgets. Desembaraçado dos grilhões do homem lúcido, partiu rumo ao mundo fantástico das redes sociais. Por conseguinte, como leva a vida a levitar entre patrocínios, é o animal mais desligado do mundo, move-se e pensa segundo uma lógica só sua. O disparate é o seu idioma. Apesar de temer como ninguém o ridículo, bate recordes nessa modalidade dia sim, dia não. É o atleta do ridículo contra o qual nem o humorista pode competir. Estamos diante de um Mozart, um virtuoso-mor do disparate diante do qual só nos resta ajoelhar.

O influencer tem no seu arsenal várias magias, sendo que uma das mais inesperadas é a de tornar aborrecido qualquer tema, até a guerra. Como nele não habita qualquer nexo entre a palavra e a acção, é capaz de condenar quem promove um produto graças à guerra e no segundo seguinte promover a sua marca. Vamos tentar dissecar o raciocínio do bicho. 1) Importa mostrar o mais rapidamente possível, qual político, que estamos contra determinado comportamento, dizê-lo de forma veemente, ainda que nada mude na prática, de seguida, receber os aplausos e insuflar o ego; 2) fazer exactamente aquilo que condenou, dado que só andamos nesta vida para fazer carcanhol. Só o que faltava a indústria bélica ganhar rios de dinheiro em virtude das guerras e eu não aproveitar para ganhar algum com os meus cremes e a minha marca de pijamas, eis o pensamento do influenciador.

Em certas províncias, os apóstolos da virtude não têm mãos a medir: há um concurso para ver quem é que se importa mais com a guerra. O policiamento da virtude atingiu o zénite. Debitam-se obviedades sobre o episódio bélico entre Rússia e Ucrânia, comentam-se as obviedades com outras obviedades, fazem-se piadas óbvias sobre esses comentários e ninguém é capaz de dizer nada que não seja parente do eco.

A minha solidariedade está com o povo ucraniano, corta para “vejam bem esta promoção imperdível”. O povo russo não é todo como o Putin, corta para “vejam este filme”. Não é obrigatório ser uma carpideira a tempo inteiro, mas essa postura fluída é o retrato perfeito do homem do século XXI. Há batalhas de emojis, corações partidos — transformamos a guerra num concerto do Tony Carreira; uma tempestade de emojis a simular a reza, e transformamos as redes sociais numa grande igreja. Mas o quadro do ridículo não acaba aí: os youtubers comentam a guerra — a chamada react — sem saber uma migalha do que se passa. Ficaríamos melhor servidos se o trocássemos por um bêbedo ou por um taberneiro furioso.

A influencer queixa-se, logo após as primeiras horas, que não está a aguentar, segundo ela, a sua saúde mental está a deteriorar-se. Minutos antes, convém sublinhar, mostrou-se solidária com os inocentes. É uma solidariedade à TikTok: no máximo dura 30 segundos. Só consigo sentir empatia durante uma janela de tempo muito curta, caso contrário dou em maluco. Expliquem-me a guerra em dancinhas ou através de memes. Só conseguimos saborear o mundo em finíssimas fatias.

O Carnaval vem em boa altura. Creio que a música “ você acha que cachaça é água? Cachaça não é água não” é a banda sonora ideal para o fim do mundo. Isto só está bom para o Hulk e para as gajas que fantasiam marotices com gajos fardados.

Influencer e a Guerra

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