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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

23.06.22

“Tens graça, muita graça.”
Eram palavras de mau augúrio para aquele simplório, o qual as recebeu como sinal divino, nunca pronunciadas com tal vivacidade; palavras mágicas conducentes a uma vida desgraçada de laracheador profissional regada ora a apupos, ora a aplausos. Planta bizarra, pensará o leitor mais macaco.

Veio para cá, para os arrabaldes das redes sociais, com uma grande reputação de humorista. Mas não se aguentou muito tempo agarrado ao apodo, à decima piada já havia sido despromovido a burro do caralho — e tal não espanta ninguém. Num mundo em que os critérios são voláteis e em que a competição entre franzinos norteia chapadas e diálogos, as pessoas valem tão-somente a sua reputação. A fama é uma longa estrada ensaboada para o desastre. 

Findo o espectáculo despovoado de gargalhadas, o bicho ontem intitulado hilário esmoreceu prematuramente. Realisticamente falando, podemos observar que o homem perdera meio metro de confiança. Supondo que começara com 2 metros — hipótese improvável neste país de pequerruchos talentos —, teria somente mais três tentativas falhadas antes de desaparecer. 

O ponto de viragem sucedeu numa interação com o público. Engodado por um comentário de uma mulher de fartos seios e com um sorriso carregadinho de luxúria, abalançou-se inocentemente para uma deixa achavascada que lhe valeu o silêncio sepulcral da sala. És muito interessante, disse ela entre piadas, guilhotinando o silêncio. Aproveitando o comentário, o humorista lançou-se barbaramente à presa: “É em mim que pensas quando estás sozinha no quarto a tocar uma guitarrada de clitóris? Com que então o desejo armado em ventríloquo dos teus dedos”. Arrepia ver tanta estupidez e tanta falta de timing concentrada numa única frase; a segunda, convenhamos, ainda escapa. Suou adverbiosamente tentando reparar o sobressalto de braguilha, porém o mal estava feito.
A postura alterou-se de chofre. O passeio sem falhas no palco deu lugar a um manquejar próprio de putinho com sapatinhos de croché. 

Tudo se desconjunta ao som do apupo e da crítica inflamada, por mais incisiva que fosse a piada, era incapaz de pôr cobro ao chamejar daquele vasto incêndio. O “sai do palco” gritado a mil e a uma goelas erigira uma pira na qual ele seria consumido até ao esquecimento. 

Apagadas as labaredas, arruinado o palco, silenciada a cólera, cada algoz à paisana voltara à sua vidinha e aos ódios miudinhos.

 

ódio miudinho


Roberto Gamito

08.01.19

Marcelo Rebelo de Sousa, bloco de plasticina assiduamente moldado por mãos nervosas e políticas, Presidente da República de Portugal, segundo a wikipédia, confesso, tive de ir ver, não me interesso por aí além por esses assuntos, eu é mais gastronomia alentejana, observação de passarada e estudo rigoroso de mamas saltitantes em sites credenciados. Levo muito a sério a minha formação, evito, de facto, assistir às aulas dadas em sites se estes não me garantirem oportunidades de deleite. Em que medida é que isto tem a ver com o senhor Marcelo? No mínimo, tem tudo a ver. Se tudo é política, então o visionamento de mamas saltitantes confere-me um grau equiparável a um catedrático de um cadeira de política internacional. Então, sem mais delongas, vamos a isso, antes que o tema arrefeça.

 

O empregado do mês da empresa de distribuição de beijocas ligou para o programa da senhora Cristina Ferreira, a qual confessou há dias ou semanas, segundo o confiável Correio da Manhã, que era uma mulher árdua de aturar. Comovi-me e meditei: Aturar-te-ia de bom grado, voluptuosa Cristina Ferreira, até porque suspeito que estou a caminhar para moco e isso, parecendo que não, só nos compatibiliza. Devido a burocracias, tais como o facto de não ter o contacto dela, e haver uma hipótese remota de, mesmo que houvesse um número de telefone, ela não querer nada comigo, abortei o meu magnífico plano de uma relação que seria, no mínimo, perfeita. Sou bastante inseguro, ela é que perde.

 

O que não sucede com o galã Marcelo, calejado na arte do beijinho, treinado na arte do afecto, uma anaconda especializada no abraço asfixiante, sempre solícito a distribuir calor ou aparecer, qual penetra, numa selfie, providenciando a qualquer anónimo um bom engajamento nas redes sociais. Segundo se conta, Marcelo terá querido estabelecer alguma paridade entre SIC e TVI, marcando, desse modo, embora de formas distintas, presença nos dois canais. Em linguagem de pessoa crescida, não quis que nenhuma criança ficasse sem o chupa. Preveniu o choro de uma estação televisiva que, como é sabido, é pior que uma manada de putos atrás de um chupa gigante. Essa é uma interpretação. A outra, uma mais cínica, mais adequada ao nosso século, é que o Doutor Marcelo adora ficar bem na fotografia. Seja ela literal ou simbólica. O senhor Rebelo não faz cá distinções. Desconfio que, dentro de pouco tempo, alguém lhe entregará o prémio de modelo fotográfico mais calejado, apesar de a concorrência feroz não lhe dar tréguas, nomeadamente as mulheres divorciadas, as quais tiram umas poucas centenas de fotos atrás da mesma árvore, e de pitas que confundem o twitter com uma sessão fotográfica para um catálogo infinito. Seja como for, não estando o senhor Sousa na flor da idade, tem fôlego de sobra de forma a deixar para trás a concorrência. Merece todo o meu respeito. Quando é para dizer bem, é para dizer bem. Não ganho nada em ficar com os elogios guardados no miolo.

 

Embora a situação não me provoque comichão, em virtude do uso de uma pomada preventiva chamada tenho-mais-merdas-em-que-pensar, o senhor Presidente aterrou num ninho de cobras. A justificação usada, a da paridade, pô-lo num sítio deveras pantanoso. Agora terá de mandar uma carta ao Malato, partilhar um post da página de facebook da RTP2, dar um linguado ao Pedro Boucherie, da SIC Radical, levar a cabo qualquer coisa sem visibilidade no Canal Q, convidar para um encontro literário uma actriz de um canal erótico, ser o duplo de Deus por um dia, ser o Stan Lee nos próximos filmes da Marvel, aparecer numa prank do youtuber João Sousa, abrir o espectáculo do Nilton com piadas escatológicas, limpar as lágrimas ao Filipe Vieira com uma toalha de piquenique, emprestar-me 1 milhão de euros (dispenso os afectos), elogiar a ginga da Bumba na Fofinha, ser o servente numa obra que se arrasta há anos ao pé de minha casa, aconselhar os velhotes, nas compras lá para casa, apalpando politicamente a fruta, e assim por diante, até confundirmos a sua agenda política com um meme.

 

E, em havendo tempo, talvez fazer as folgas do José Figueiras.

 

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Túnel de Vento (podcast): https://soundcloud.com/tuneldevento


Roberto Gamito

16.07.18

Fagundes_2.0_Rei do gado_história _.png

 

 

Organizada segundo uma ordem só sua, que outros, na retranca interpretativa, mais fraquinhos de miolo, encafuados em mansardas nas quais transacionam títulos académicos por chouriços, apodavam de caos, Abílio Fagundes, jovem herdeiro do título "rei do gado", coisa que só fora possível devido aos préstimos ululantes de variadíssimas senhoras prenhes de qualidades visuais, donas de coreografias íntimas que nos ficam a pairar para sempre em ambas as cabeças, vá, na cachimónia, para não ajavardar, algumas das quais dignas de figurarem no panteão das putas, a vida era, segundo Fagundes, uma fonte de prodígios, quer em qualidade, quer em qualidade, quer também em qualidade. A quantidade vem por arrasto, como gostava, a espaços, de gracejar. Uma fonte cujo líquido mudava de quando em quando. Ora vinho, ora cerveja, ora água, ora urina, só para dar alguns exemplos.

 

Fagundes era um homem rijo, daqueles que já não se fazem, até porque foi resultado de uma experiência científica clandestina - perdoem-me o pleonasmo - e a equipa de cientistas foi dispersada a toque de porrada e com uma saraivada de chumbo.
À frente do seu tempo, baptizou a sua ferramenta de trabalho como "Desconhecido". Porque carrega as duas coisas que uma mulher mais aprecia num homem: grandeza e mistério.

 

Chilrear que ele não percebia nada do mundo - afirmação cuja magnitude só pode ser equiparada ao disparate de Jesus querer mudar as pessoas com uma farpela de pedinte - é grave e só pode ser atenuada - isto são palavras do próprio Fagundes, não são minhas, sou tão-somente o seu biógrafo - se o abusador, o herege, principalmente se pertencer à casta feminina, sofrer reiteradamente o castigo, não divino, mas satânico, se é que me faço entender.

 

Fagundes tinha um sucesso tão estrondoso com as mulheres, que o seu pénis estava cotado em bolsa. Só para terem uma ideia do bicho do bicho. O pénis de Fagundes era o combustível, o motor, o carro, o condutor e os passageiros da economia do seu país. Era, como direi, um pénis sacro. Ergueram-se, mas de forma mais humilde, cultos à volta do falo de Fagundes, os quais disseminavam os gemidos e os uivos dos senhor. E algum sémen, à revelia do visado.

 

Há uma história apócrifa, contada pelo próprio, que, apesar de ter todos os ingredientes da verosimilhança, me parece inverosímil porque assim o desejo, uma vez que tal estragaria a minha linha de discurso como biógrafo.

 

Disse Fagundes, num tom elevado, próprio dos escolhidos: Certo dia encontrei uma mulher cujo corpo era isento de defeitos e apliquei-lhe, como cavalheiro pejado de qualidades que sou, respiração boca-a-boca, mesmo ela não precisando, coisa que não deu qualquer resultado a não ser uma bela bofetada nas ventas. Cogitei, alcançando um estado de consciência mais elevado que o Nirvana, o chamado Red Hot Chili Peppers: Um tipo como eu, com provas dadas no campeonato da marotice, irrefutavelmente educado, calejado no existencialismo das miudezas da vida, não me lixem, uma pessoa nunca está bem à tona da vida. Está sempre em baixo, a sufocar. Ao facultar-lhe um beijo sentido, um beijo experimentado, estaria a trazê-la para um patamar de uma vida mais plena. Mas pronto, fui mal interpretado.
É o destino dos escolhidos.

 

Ela chamava-se Cátia, ou Andreia, ou Susana, ou Ana, ou Sofia, ou Sónia, ou Inês, ou Mariana, Marisa?, Cláudia, o que consegui decorar mesmo foi cada milímetro do seu corpo.
Sou mau com nomes, mas agora em epidermes não há quem compita comigo, concluiu Fagundes ou o biógrafo.

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