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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

29.06.21

Tudo o que é eterno é tão antigo que só pode ser ininteligível.
Traduzir o que ao longe se afigura como ponto em pacífico é um acto excepcionalmente ingénuo. Ao longe até o dragão é um ponto.

Cadáver divino, sangue de um vermelho que não existe na natureza. Vermelho de deidade caída em desgraça. Como pintar então este quadro?

Ninguém conseguirá abolir a Primavera, no máximo, adiá-la. Nesse impasse onde a tribo se bifurca em escolas distintas, as flores discutem sobre hipóteses inéditas de florescimento.

Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala línguas — Coríntios I. Por conseguinte, mesmo que quisesse, seria inábil em traduzir o meu destino para o vosso idioma.

Ao caminhar sobre gelo fino, o corpo transmuta-se em calcanhar de Aquiles. Seria terrível se a sorte nos abandonasse num momento como este. Rezar seria imprudente, trazer o peso de Deus para uma situação destas é pedir a morte.

A cruz está aqui, só que está por montar. Aquando da crucificação de Jesus, Deus ter-se-á virado para Abraão: “Vês, não é assim tão difícil sacrificar um filho”.

O progresso enquanto algoz cuja incumbência fosse abater homens-estátua. O Homem, segundo ele, está programado para dar o passo seguinte. Tenho receio de domesticar o meu coração no ginásio das tarefas vãs. Amedronta-me ter desperdiçado uma vida a treinar o coração com o fito de se bater mano a mano com as ficções.

Escrever até os ossos estalarem e as tripas cantarem de tanta fome. Seguir a frase de Cioran como uma máxima: “A saúde é uma ausência de intensidade”. Emprestar a vida à folha e contentar-me com os restos.

A cólera é o sino apto a convocar o bárbaro acoitado no interior de cada Homem. É preciso fechar a boca de molde a não consentir a saída do selvagem. Cada palavra é um túnel, um indício da selvajaria que se avizinha.
O homem santo, inexperiente no tocante às possibilidades da maldade, foi atropelado por um zoo bíblico — espezinhado após uma dança de cascos. A morte por um lado, o regozijo dos animais, por outro.

Após a fornicação, é preciso dar uma vistoria aos bolsos da mulher, não vá ela ter-vos roubado o coração. E quem diz mulher, diz homem. E quem diz homem, diz larápio da víscera-mor.

O sonho húmido do déspota é transformar o Homem em pedra, em coisa pacatíssima. Mas até a pedra, bicho em princípio imóvel, tem dias em que resvala.

O abismo e o suicídio não são invenções deste século. Dois terços do trabalho está feito — não nos podemos queixar. Como pintar então este quadro? Negro sobre negro povoado tão-somente por um grito lindíssimo?

E o futuro, pergunta ela, no primeiro encontro. Como falar de um lugar tão fundamental com alguém que acabei de conhecer, responde o homem, destoando da atmosfera. Como pintar então este quadro?

Até que ponto vale a pena passear os cotos num mundo morno?
Salta de cama em cama, qual rã da fornicação. A estranha aventura de coleccionar calor em estranhos. Todavia o coração permanecia adiabático. Será isto o purgatório: a província obtusa onde os hóspedes procuram um resgate há milénios? A esperança, irmã do bem e do mal, permite igualmente a acção e a paralisia.
Em parlapié de taberneiro, a esperança é pau para toda a obra. A ninfomaníaca riu-se.

Sou um ninguém cujas letras não pousarão jamais, sou o espectro apinhado de dúvidas entre o nome e a coisa nomeada.

O mundo? Pois, temos aqui muito por onde desesperar. Versos robustos, inquebrantáveis? Que suspeitos, aqui é tudo de partir, para usar e deitar fora. Mesmo calado não digo nada; trata-se de um silêncio sem grandes pretensões literárias.

Todas as jornadas são demandas em círculos: não logramos fugir daqueles que somos. Como pintar então esse quadro?

Entre o socorro posto em prosa elegante que amiúde nos acompanha a fome de carne e a aquiescência sorridente que legenda o avanço da mão marota, instala-se por vezes um instante onde o impossível é degolado.

O canibalismo é impossível entre os Homens. Cada Homem é uma espécie à parte.

Os dias, fartos da mansidão de outrora, abeiram-se de nós com uma catadupa de tempestades. A tempestade faz bem aos medrosos, escorraça-os do território da dúvida. A mão defende-se como pode na folha, mas nunca está inocente. Será esta a culpa inextirpável sentida nos textos de Kafka?

Para onde virar o holofote da minha atenção se o mundo, na sua copiosidade de mundinhos, reclama a minha vida? Estímulos que me sugam vampirescamente os dias gota a gota.

O papel do escritor — quem vem lá com a prosa desembestada sem o açaime das convenções?! — é quebrar a hipnose da paz postiça. O escritor é o carrasco dos paraísos artificiais.

Carrasco dos Paraísos Artificiais, Roberto Gamito

 

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