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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

04.12.22

Quero cultivar-me. E então, quem te impede, questiona a mesma personagem com outra voz. Nada restou, todavia, da sua poesia.
O bando de estorninhos lesa-nos o intelecto com o seu circo de formas. Reparem como é belo o medo e o falcão. K. naturalmente faz parte do cânone eleito. O olhar caído na folha tem por fito iluminar um pouco mais o corpo feito lacunas de Deus, o qual sobreviveu graças às citações enviesadas das aves negras. Em não faltando coragem, será o estudo introdutório dedicado às fontes das cicatrizes e, em ganhando balanço, havemos de desmentir Ovídio. Ponham lá um sorriso nessa cara desfeita, arranjem lá espaço para mais uma leva de feridas.
Fartinho dessa prosa atrelada ao lugar e ao tempo e, aproveitando que pusemos a cabeça no cepo, da altura a reboque da fama. Desta feita, farei aquilo que acabei de condenar.
Aqui estou, vindo do bafo do Deus das Moscas. Cacemos então grilos com mimos de caça, façamos do empecilho ratoeira.
Hermes, do outro lado da porta, deus dos gonzos. Acaso deliras?
Ali onde as máscaras foram penduradas jaz um sem-número de artes. Já aqui andas? Não escapaste há pouco do cadafalso? Não me envergonho de ser esta triste figura, sem Rocinante mas com pança tenho vencido os meus ágeis moinhos.
Um dia essas palavras por-me-ão a correr. A minutos do fim todos os versos soarão a profecia. Entretanto não confundas putas com Hécate. Estou arruinado: fui visto a escrever uma frase genial.
Abreviadamente, podes dizer, quanto ao estilo da canção que te chega aos ouvidos, que é uma perífrase para 'amo-te'. Hei-de fermentar as mais magras migalhas, até lá não expulsarei as mandíbulas da escrita.
Em nome de costumes mais antigos, comunicar-vos-ei que 'escapadela' era o nome dado a uma dança cómica de natureza obscena. Daqui até ao sexo vai um mal-entendido, diria um pau friorento.
Há mais de mil anos que o Helleborus deixou de fazer efeito.
Onde antes havia um mero buraco há hoje um báratro, um poço onde eram atirados os criminosos em Atenas. Para evitar a hiperinterpretação do termo, digamos que nunca fui a Atenas e troquei os criminosos por fantasmas. Estás com azia, não é?
As mulheres interditam o reino do baixo ventre
isto ouvi eu quando fui à Antiga Grécia
altares ontem quentes hoje abandonados.
A fruta que amadureceu antes de o Homem lhe dar nome, pesada pela mão desonesta do poeta, lida por quem confunde gotas com oceanos.
Ideias prensadas num instante. Examinarei isso com os meus melhores olhos, prometo, mentimos nós descaradamente.
Foda, competente vocábulo; serve-te do meu corpo e da minha língua desfivelada. Ó tolo, sussurra a deusa, anda cá, livra-te dessa cegueira. Seja amor ou mais uma maquinação de Empusa, a partir daí tudo o que vier é ganho.
Buscando a mulher, aqui chegamos. A solidão já nos permite outros folguedos. Nota-se uma falta de vocabulário após o império do calor. Empusa, rainha da metamorfose, alimenta-se de carne de homem.
Em todo o caso, não teríamos escapado inteiros até aqui. Não tiro uma vírgula ao meu desnorte.
 

roberto gamito


Roberto Gamito

27.11.22

O inferno concretiza-se por meio das obras que lhe caem dos dedos, amiúde já com cabeças capazes de fundar novas escolas de desespero. A temporada no Círculo dos Gigantes protege-o de um envenenamento excessivo, graças aos gumes, persiste unido aos demónios; as asas derretidas e a queda, outro nome para metamorfose.
 
A cólera é dotada de luz própria. Apesar de encarregada de canalizar os animais para a arca das ideias, ela é igualmente o que fica de fora, as sobras clandestinas com a mania de grandeza, o que torna o imensurável em ilha, que é como quem diz, o dilúvio posto em obra de sangue. Do mal o menos.
 
Quando a poesia é encostada contra à parede, esmagada pela pressão de todas as eras, as bolorentas e as que hão-de vir, o poeta não tem outra escapatória senão torna-se um cachalote albino. Fazer gato-sapato da profundidade, florescer onde a luz se extingue não está altura do peixe miúdo.
 
Tentam engaiolá-lo numa definição, todavia ele extravasa do molde da descrição. Metal fundente e zero absoluto em simultâneo.
 
Ó bobo canoro, não te limitaste a gerar confusões, empecilhos e fogueiras do bem. O homem à mercê do desconhecido, o mesmo bicho assustado do início.
 
O homem não viu nada que o fizesse esquecer a fome. Ainda assim, engordou. A solidão engordada pelos fracassos amorosos.
Vingança? Qual quê? Um menu frio de lamber os dedos, eis as palavras do Diabo diante do cadáver de Deus.
 
Uma única linha de um gigante serve como alimento para um enxame de artistas. As postas do legado fervilham de fome e mediocridade alheias. O desmantelamento pacífico do cachalote albino por formigas oportunistas é apenas uma paródia ao oitavo círculo de Dante. E solução? Calma, primeiro tenho de engolir o cosmos, sussurra Dioniso aos ouvidos da morte. Mesclem-se então as máscaras, as vagas de heterónimos, eis chegada a altura de fundir as infinitas possibilidades num único rosto.
 

Círculo dos Gigantes, primeiro rascunho


Roberto Gamito

13.11.22

Não resisti e dei-lhe um murro nas trombas. A culpa foi dele, começou a pensar antes de cada frase. O silêncio enoja-me. Ele que venha agora dizer-me que gosta de poesia e reforço-lhe a dose. A paciência tem limites.
Dei voltas ao miolo, não vi outra solução senão pegar na cabeça dele e ensaiar um xilofone no balcão da taberna. Não correu como esperava, a música não é ofício de uma tarde, é para se ir fazendo.
Poucas pessoas sabem o que é poesia, confundem-na com uma chave que destranca pernas exigentes, e até que não desgosto do engano. É altura de colonizar o espaço mental com tempestades, lâminas e arrancar ao perfume os nomes conducentes aos passos em falso. Metade do trabalho está feito, o resto é convosco. Fiz o mais difícil, concretizar sem medos uma frase sem nexo.
Se apanhou e calou, a culpa é dele. Já há meses que anunciava a leva de carinhos ásperos. Teve mais que tempo para se preparar. A melhor defesa é...apanhou logo, nem o deixei acabar. Tanta forma de se defender e o gajo recorre a uma frase rançosa? Apanhou foi poucas. Afastar-me dele por causa disso? Que estupidez, nunca estivemos tão amigos. A coça afinou-o por dentro, até dá gosto, parece um relógio suíço. Juro-vos pela saúde do meu Piruças que, no que depender de mim, Deus me dê forças e as finanças não mas retirem, hei-de manter esta amizade dê por onde der.

*

à parte os galos amealhados em petiz, permanecia cabeça dura. uma cabecinha esculpida pela queda que até metia dó. o coração, tão confiável como um economista a mandar palpites na televisão, de queixo caído a cada esquina, confundindo as didascálias do quotidiano com a voz das musas, a braços com o judo poético, usava o força do mundo contra ele. a força poderia parecer, aos olhos dos ciclopes contemporâneos, insuportavelmente tóxica.
X., cercado pelo destino qual chouriço encurralado por uma família de alentejanos, pensei eu na pausa de outro conto, tipo personagem saída das goelas de Xerazade. não confiem nessas lengalengas: não há forma de adiar a lâmina.
temos de acabar, carpe a mulher, espera, riposta o macho, se aguentaste dez anos de uma relação de merda também aguentas mais dez minutos, agora ouves o que calei durante este tempo todo.
amor...
querido, ou melhor, ex-querido, estraguei a juventude a aturar-te, só de acordar ao teu lado esfrangalhava-me os nervos durante o resto do dia, metes-me nojo e está tudo bem. casei com um homem que mais parece um caniche a quem lhe foi ensinado a andar na vertical num circo de vão de escada. no campeonato dos medíocres, és um campeão, palmas para ti. o nosso amor foi um flop. afadigavas-te em cama alheia, não é, ornitólogo de pássaras implumes? e o pior é que nem foder sabes. e agora: o que digo às minhas amigas? como explicar esta relação de dez anos?
quero acabar.
isso não é assim, minha amiga, retruca o homem, tens de dar dois meses à casa.

*
 
O livro: abro-o conforme a sede, sepulto-me nele e eis-me regressado das águas com outro nome com a cabeça de João Baptista às costas. A memória é uma estante inacessível.
Ando por aí
amparado em ficções
a fazer dos cornos do Diabo as andas
com que simulo a intrepidez em cima das áscuas.
Sou o cornaca do meu inferno.
O marcador dos livros é a caneta. O apeadeiro da leitura transformado em semente de montanha. Pedi-Lhe a sombra. A interpretação é uma farsa, todas as frases são ruas de sentido único. O que me falta para ser igual aos outros mortos? A sombra foi-me concedida. A verdade tem um certo gosto em encurralar-nos. Estamos de novo nas vésperas de uma nova página, nós que, após o êxodo das mãos esquerdas rumo ao Hades, ficámos maravilhosamente indefesos contra o ignoto. Com efeito, escrever e ser descrente é a mesma coisa.

Cornaca do meu inferno, Roberto Gamito

 
 


Roberto Gamito

13.11.22

Filho de dois homens imaginários, condição que o livrava dos vieses dos artistas contemporâneos, perdia as tardes a esgaravatar no mármore à procura do rosto do homem. Adulterando a frase de Borges, bradava a quem quisesse ouvir: o ser humano vive da ficção que todos os dias acontece algo diferente.

Numa ocasião forense atípica durante a qual vacilava no cadáver de um anjo caído, um desumano exercício de restauração, gania afinado: hei-de ressuscitar o mal nem que seja a última coisa que faça.
 
De um lado Fernando Pessoa e a sua tanga: "eu sou uma antologia", do outro, o anónimo: "em calhando, serei uma nota de rodapé".
 
Um dia chegaremos à conclusão que a arte não é senão um complexo, tortuoso e labiríntico manual de tortura com vista a esfrangalhar o projecto das inúmeras levas de Narcisos.
 
Também não é preciso abrir as asas, a ficção de gigantismo não afasta a fome fulminante do predador alado. O tom deste século é o de uma velha solteirona que deixou a vida escapar-se-lhe entre os dedos.
 
Ser anónimo, actualmente, é experimentar a coreografia do neutrino: não interagir com nada nem com ninguém. Eis a pureza que ninguém esperava.
 
Agrilhoado a uma cona esfomeada, qual Prometeu que ignorava tudo sobre o fogo. Ao longe, as águias de Zeus parecem corvos e abutres. Mas alegrem-se, tenho uma boa notícia para vos dar: vi um homem vergado sob o peso do seu conhecimento. Que aldrabão!
 
Salvem as cartolinas e o mundo que se foda. Assim se esgotam as alternativas. Coragem! Confiem nos vossos instintos, sejam vocês mesmos, amanhã o trend poderá ser outro.
 
Afectivamente falando, considero-me canibal. Estão cá dentro.
 
O importante não é achar o amor, é não parar de o procurar em todas as casas.
 
A vida adulta é o suicídio colectivo das perguntas. É abanar a cabeça para evitar problemas. É cada vez mais difícil fazer destrinça entre um resignado e um doente de Parkinson.
 
O aplauso serve tão-somente para ocultar o barulho do disparo. Lindo, o artista despediu-se com um sorriso nos lábios.
 
Curei-me da depressão, já não vou ao fundo. Sou o homem de cortiça. O poder terapêutico da parvoíce.
 
O humorista é pródigo em três coisas: disparates, choradinhos e regras dos três.
 
A minha mediocridade nunca cessa de me espantar: adapta-se a tudo o que faço. Isso há-de ter algum valor.
 
Nova profissão: porteiro de redes sociais. Alguém cuja incumbência é controlar as saídas e as entradas deste teatro de doidos.
 
Se Kafka tivesse nascido em Portugal, teria sido apenas um tipo com orelhas grandes. E isso só revela a escassez actual de capachos monumentais.
 
O artista sobe a palco e berra: não tenho nada interessante para vos contar. Bem, vamos à minha vida. Para o que havíamos de estar guardados.
Na sociedade do espectáculo vertiginoso, não confundir com a do Guy Debord, a arte não é uma arma, é uma faca de plástico de cor garrida.
 
Agradeço ao twitter por ter acabado com o mito do artista inspirado. Parece que ouço o meu avô, não tens nada nos cornos.
 
Mais uma errata. Porra, Fernando Pessoa, não acertas uma.
Só a arte é inútil.
 
Tenho três cães e mil fantasmas, sonhos esmagados e coração desfeito e pouca paciência para rodriguinhos. Há três coisas infinitas: o universo, a estupidez humana e as versões desta frase de Einstein.
 
Isto é tudo muito bonito, empatia, privilégio e os demais vocábulos de papagaio mas o que é certo é que basta uma noite mal dormida para o diplomata pôr a sua carreira em risco. E quem diz carreira diz pescoço.
 
Está bem, Confúcio, é melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão, mas porra, um gajo desfeito tem de se entreter com alguma coisa.
 
Oxímoro: modesta opinião. Se é opinião não pode ser modesta. Estamos conversados.
 
Não vou na cantiga dos artistas genuínos, só acredito quando vejo um homem esmagado pela vida. O resto é performance. Não me bombardeiem as vistas com teatros medíocres.
 
Se o humor desaparecer, a gigante começará a temer o anão.
 
Adie tudo, a menos que seja uma discussão. Evite ofuscar os medíocres, preferencialmente se não estiver disposto a levar no focinho.
 
Será que é mesmo necessário? Eis a minha resposta universal às ordens que me lançam.
 
Isto está uma merda, dir-me-ão. Já estava assim quando eu cheguei, eis uma das poucas frases que nunca poderá ser dita por Deus.
 

Império das Aspas


Roberto Gamito

13.11.22

O mundo não desconfia que se move conforme o meu plano. Fantoche assíduo nas mãos de Deus. O mentecapto explica:
a capacidade de alfabetizar o público com o fogo pertence ao passado. Contentem-se com esse refrão de aleijados.
 
Se não vos inquieta nem um pouco este bloco de gelo feito crisálida, apelidados por uns por outros de século XXI, dentro do qual mamutes e bichos cacaquéticos catequizam as cabeças em flor, cérebros empanturrados de factos cuja mão emperra a ponto da catástrofe diante da necessidade de dar o salto. O poeta explica: as Sibérias caseiras satirizam o dia em que o Diabo não se conseguiu efectivar diante Deus.
O inferno é tão-somente uma paródia de uma gaiola.
 
O gigante que lutava contra o alfabeto assassino calou-se. Romantizámos os pequeninos. Cada um é tanto Liliputiano quanto Gulliver. Tens medo da escuridão? Nada temas, basta um homem para iluminar o mundo. Do Paraíso não colhi nada a não ser o desespero de Botticelli ao dar-se conta que lhe faltava talento para pintar a salvação no abismo de Dante.
 
Falemos antes do dia em que omnipotência de Deus foi posta em causa. Temos de recuar bastante até um tempo em que o Narciso era uma figura patusca e marginal. Houve um momento em que o riso cilindrou a cólera divina. Quando, no inferno, Luciano e Diógenes riam sem entraves: eis o pesadelo dos deuses, poetas de perna curta e comediantes acagaçados. Urge recuperar um riso capaz abalar os pilares da criação, um riso qual seta envenenada rumo ao coração da ordem postiça.
 
*
 
Ó meu animal sem direito a nada, desdenhando uns e divinizando outros à queima-roupa, atulhando o teu desnorte com notas de rodapé, teimoso até mesmo com olheiras, aguentemos a porrada, os insultos e os aplausos, o sabor da vida passou-se para o lado da lendas; risos enlatados, textos enlatados, personagens e deuses enlatados, artistas que mais valia estarem numa lata, eis o miolo afadigado do homem contemporâneo.
 
Ridicularizo-me segundo as normas. Isso humaniza-me e ajuda-me a ingressar na feira das vaidades. Enquanto uns semeiam ódio, há quem seja mais prático e semeie dinamite nas entrelinhas, há-de rebentar com fileiras inteiras de exegetas, haters e bajuladores, o século há-de rebentar, uma pirotécnica de afónicos e papagaios. Não vos guardo rancor, guardo-vos num ponto para que nunca me esqueça da vossa dimensão, a parte boa é que trarão à tona as cosmicómicas de ITALO CALVINO, um tipo incontornável nestes temas.
 
O currículo é um tratado de humor se for proferido com a cabeça no cepo. Onde pensam que eu tenho estado este tempo todo?
 
Desentulhar obras como quem procura cadáveres de deuses caídos debaixo de migalhas. Eis um labor como qualquer outro.
 
Tens de humanizar o personagem. Humanizar mas é o caralho. Não vos guardo rancor, guarda-vos antes numa câmara anecoica, talvez assim compreendam. Com que então agarrados às vossas certezas? Quer me parecer que só precisam de estar a sós com o vosso sangue para enlouquecerem.
 

refrão de aleijados, Roberto Gamito


Roberto Gamito

12.11.22

A narrativa tem molde de sarcófago mutante. A sede do outro propõe-nos negociação, algumas soluções finais, a saber: um directo para as redes sociais com a morte, em que cadáver e Ceifeira sorriem para a câmara. Mercadejemos, meus irmãos ontem verticais, o inferno inesgotável, à revelia do Canhoto. Recuemos uns milénios, decapitemo-lo, ao Diabo, mas primeiro urge lavar as mãos, seria uma pena contaminar a cabeça do chifrudo com as nossas noções de paz. De seguida, espero que estejam a acompanhar a receita, diz o bárbaro-poeta cuja mão canora, feita machado, é um poema de Kaváfis, pousem o cérebro nas placas de argila, no papiro, no pergaminho, no papel ou no ecrã, é à vontade do freguês.
 
A interpretação é uma farsa, uma ficção suprema, mas é tudo o que temos.
As coisas como são
mudam na viola azul, traduz Wallace Stevens.
 
Esquecendo os comediógrafos afogados pelos alvos das piadas, esquecendo o rígido Platão, e o mais maleável Aristóteles, descartando o nado-morto que foi a Comédia Nova de Menandro, sublinhando a bufonaria dos banquetes, Aristófanes que soube dançar ao rés do cadafalso, Demócrito, o sábio, cujo riso desorientava os medíocres, ou respeitando o apodo da altura, o hilário de Abdera, que apoucava tudo e Heráclito, o chorão de Éfeso, que dramatizava tudo, qual activista à frente do seu tempo, sobra-nos a relação tensa entre o riso e a lucidez. Eis-nos chegados ao núcleo.
 
O comediante encontra na folha a sua harpa, mesmo no arengar dos seus engodos. A hipocrisia colectiva não é senão uma sinfonia de iscos. A arte, que há dias tornava o fardo suportável, escapou-se-nos entre os dedos, doridos de tantos afagos. Acariciar o ego alheio com vista a saltinhos na hierarquia ficcionada tem o seu preço. O coração rufa como um tambor nas mãos do amador. O discurso apinhado de alíneas, o paleio pós-moderno, armou uma cilada às crianças aperaltadas de adulto. A má-fé, erva daninha que armadilha o diálogo antes da asfixia. Agrimensor ébrio do seu próprio eu, eis o retrato do homem contemporâneo.
 
Enquanto arranho o assunto, recordo-me de Luciano de Samósata, que ressuscitou o riso triunfante vindo dos deuses, o riso enquanto dialecto do caos. A liberdade tornada som.
 
Platão nunca perdoou Homero o riso inextinguível dos Deuses. Por conseguinte, vingou-se em levas de rabugice da poesia e da comédia. Não me espantaria nada se se descobrisse que há dedinho do filósofo sisudo no desaparecimento da segunda parte da poética de Aristóteles. O sorriso é neto de Platão. Uma das suas maiores conquistas.
 
Durante uma das muitas incursões às profundezas do eu, esse grande império povoado de fantasmas, esse abismo sem pés nem cabeça, recordei-me do riso selvagem de Luciano, de quem se disse tudo, excepto coisas boas. Luciano, o humorista supremo, que troçava de tudo, superiores e inferiores, era bordoada de três em pipa que era uma maravilha, e nem os deuses escapavam. Para alguns, Luciano era filho do diabo, de tantas vezes que entrou e saiu do inferno. Aquele riso não podia ser humano.
 
Romantizam-se os colhões, argumentará um discípulo de Menandro. Face ao monstro cujos barrocos cacarejos se destinam a domesticar o riso, a reduzi-lo a mais um traço de um rosto maquinal, necessitamos que o dinamite faça das suas na arte do parasitismo, é a única solução. Como disse o outro, filosofar com o martelo. Sei que custa engolir, mas a confusão nunca será resolvida com um refrão, ó fantoches do eco.
 

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Roberto Gamito

02.11.22

Seja por falta de discernimento, seja por má vontade ou, quiçá, somente falta de treino, o discurso reinante das redes sociais, outrora múltiplo e hoje saído das mesmas goelas, encrespou-se, armadilhou-se, tornando o diálogo insustentável. Diariamente, travam-se debates humoristicamente interessantes como quem sai de casa de manhã para comprar pão: cada facção na sua trincheira, cada qual aproveitando uma hesitação ou um passo em falso do opositor para lançar mais uma granada branca, símbolo da paz contemporânea. A violência assoma-se entre as sílabas: a indignação, o pão nosso de cada dia. Depois do século passado, em que o homem, ao pressentir as grandes guerras e ao passar por elas de gatas, levou o cérebro às cordas, não se vê uma figura de envergadura intelectual capaz de pulverizar as várias matilhas, a saber: lamentação, indignação, estupidificação. Isso e outras coisas fazem-nos suspeitar que a província dos génios ficou para trás, irremediavelmente para trás e teremos, doravante, de pugnar pateticamente com a prata da casa. Falta-nos um homem — já nem peço mais — daquele calibre impossível de domar, bata ele de frente com um homem, uma multidão ou o mundo. Realizando um olhar panorâmico sobre este século que nos coube, damo-nos conta que, com a excepção de meia dúzia, toda a gente está receptiva à patranha. De facto, pondo a verdade e a mentira lado a lado, a última é suspeitosamente mais tragável que a verdade. Com receio de lascar os dentes e o sorriso, o qual é o cartão de visita da hipocrisia, ninguém lhe joga os dentes. Sustento teimosamente que, se encararmos por estes dias um homem desta estirpe, a sua intransigência seja sintoma mais que suficiente para lhe diagnosticarmos a loucura. A isto, o génio deve responder não, fazendo um pacto de sangue com a noite, a morte e o silêncio. Até com o Diabo, se tiver que ser. Na mente do génio: Nem todas as lâminas do mundo me poderão calar ou, sequer, adicionar uma palavra ao meu discurso. Contudo, independentemente da dimensão da luta, o Outro terá de entrar na equação sob pena de a matemática sair coxa da ardósia. Enfrentá-lo a cada linha, não consentir que os embusteiros persistam, alegres e cheios de esperanças, na sua campanha desenfreada pelas terras outrora pertencentes à razão. Como pôr o outro na equação quando este se nega a ouvir o que quer que seja? Como lidar com quem faz orelhas moucas a tudo o que não seja o seu reflexo ou uma imagem supremamente elogiosa sobre os seus gestos e pensamentos? Continuo a não ver como se pode harmonizar tudo isto. O ciclo repete-se; já Cícero se debateu com os meus problemas. Se a palavra cura, pressuposto no qual já não aposto as fichas todas, talvez tenha perdido o efeito de outrora ou, mais triste, já não sabemos utilizar a língua plena. Mesmo aquando do milagre de partilhá-la com os outros nos moldes mais auríferos, do outro lado há um Homem obstinadamente surdo.

O primeiro passo para romper o ciclo é compreender que estamos engaiolados num refrão escravizante. Nesse sentido, perceberíamos o Tempo como um larápio que volta pela enésima vez ao lugar do crime para roubar aquilo que roubou das outras vezes. Nisso, o homem é uma vítima prestável, uma fonte inesgotável de “mais do mesmo” apreciado pelo Tempo. Ao compreendermos que estamos num ciclo, seja ele modesto, seja ele de estirpe mítica como o Mito de Sísifo, cria-se uma hipótese de distanciamento, com sorte frutífera. Este distanciamento pode ser de jaez humorístico ou, pelo contrário, acentuar a tragédia. O primeiro passo está dado. O homem só pode ser encarcerado num ciclo infinito se abdicar do voo da imaginação. Outro passo indispensável a fim de obliterar um ciclo é encontrar a paz interior. Aquele que logra encontrar a paz no meio das tormentas é capaz de tudo, até romper uma maldição divina ou demoníaca. Mas é mais fácil falar do que fazer. É preciso não dar sossego à inércia, treinarmo-nos a bater de frente com o Minotauro, fazer com que o labirinto note a nossa presença, aprender a ver a fome e a sede como um bebedouro e não o partilhar com mais nenhum Deus. Dito de outro modo, não dar sossego aos medíocres, não desperdiçar a pólvora em fantasmas, não dar mais um metro que seja aos cultores de absurdidades. Neste terreno mando eu e se ousarem entrar vão levar chumbo. Por fim, consentir que as variadas paixões nos fecundem e...relampejar sem medo que a patifaria recorra à guilhotina para nos cortar o pio. Não abrandar diante de quem quer imobilizar a língua.

 

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Roberto Gamito

27.10.22

O trajecto era simples: passar pela frase de Francis Bacon, o filósofo, a saber: aquele que não quer pensar é um fanático, aquele que não pode pensar é um idiota, aquele que não se atreve a pensar é um covarde; de supetão, rumar, aos solavancos mas cheios de ganas, para um dos quadros asfixiantes de Francis Bacon, o pintor. Não vou fingir que sou seu amigo, leitor que trocou as linhas pelo layout da foto para o instagram, ó tu que trocaste o filtro pelo abismo, não confundam arte com camisolas de lã, só há espaço para a ficção adiabática, são caminhos para lado nenhum. Na minha opinião, que ninguém pediu, as grandes mudanças decidem-se na mesa do acaso, para espanto de ocidentais e orientais.
 
Desde que principiei a empregar a expressão "calçar os sapatos dos outros" já não consigo empatizar com ninguém, salvo palhaços e jogadores de basquetebol. Calço o quarenta e seis e não vou, qual falsa dona do sapato de cristal, à semelhança do conto original da gata borralheira, cortar os dedos para que caiba na perfeição. Deus me livre de acreditar na religião, era sinal que me havia rendido. Ameaçar muito e não concretizar nada, a taberna apinhada de ditadores sem meios.
 
Quanto ao escrutínio da piada, seja ela qual for, venha ela de onde vier, o humorista só pode ser levado a sério quando se reformar.
Como o nosso século é pobre em homens de miolo livre, foda-se, Deus, dai-me paciência, mas não agora, de momento preciso que a raiva me consuma. Acolhemos nos nossos braços a lenda caquética do futuro, e sem prejuízo nenhum para os factos, coitados!, só sabem ser aquilo que são. Se por um lado nos acode à memória o filósofo do farto bigode com a sua célebre frase: "não há factos, só interpretações" e nem ele foi capaz de adentrar no oceano desta descoberta, por outro, temos Machado de Assis: "Proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros".
 
Afinal quem é este que habita o meu nome? Fanático, idiota ou covarde? Adianto uma hipótese: rei pálido no centro deste movediço império das aspas. O homem partilha o nevoeiro com o cadáver de Deus, o amor, a morte, o infinito e os demais exércitos liliputianos de preocupações.
 
Somos tão pequenos; no entanto, farejamos o infinito.
 
Segue-se uma entrada do Diário de Deus.
Estive este tempo todo a caçar com fiéis cães empalhados. É continuar, equipa que ganha não se mexe. Detesto caça, é mais pelo humor de ver os perdigueiros verticais ficarem malucos quando sentem o rasto do infinito. É uma espécie de piada eterna. Como é inglória a vossa demanda, ó meus queridos cães empalhados.
 

Fanático, idiota, covarde


Roberto Gamito

23.10.22

Usualmente, não temos o menor interesse pela conversa do outro, seja esse outro quem for. Não queremos saber como lhe correu o dia, nem a semana, nem tão-pouco um resumo dos melhores momentos da década. Com a excepção dos cenários em que o engate tenta singrar até à cama, ninguém está minimamente disponível para escutar o outro. Infelizmente, poucos são os que, no início de uma conversa que se afigura longa e entediante, possuem a coragem para verbalizar “Não tenho o menor interesse nas tuas palavras. Hoje já ouvi demasiadas frases no trabalho, careço de cabeça para mais. Gostaria de estar em silêncio, espero que me compreendas”.
 
Todavia há fragmentos de conversa que espicaçam o morto em que nos fomos tornando, a saber: “Tenho de começar a ler.”
Antes de mais, é uma intenção pertencente à família “tenho de começar a ir ao ginásio”. Segundo me contaram, começar a ler, isto é, pegar num livro com intenção de ir além da capa, não requer um esforço sobre-humano. Deslocamo-nos a uma livraria, pegamos num livro, que nem precisa ser dos melhores, um franzino para começar não é mau, compramo-lo ou roubamo-lo, abrimo-lo, começamos na primeira linha e vamos, com pausas ou sem elas, até à última. Parece-me um exercício ao alcance do mais humilde dos Homens.
 
O que impede o Homem de ler? Será que levou a cabo um pacto demoníaco em que uma das alíneas era a impossibilidade de pegar num livro? Faz sentido, o diabo esconde-se nos detalhes e não quer ser surpreendido.
Como as pessoas mais vividas saberão, esse tipo de intenção é uma forma encapotada de exibir a culpa. A pessoa em questão sente-se culpada, crê que devia ler mais, porém nunca irá dar o passo em frente para remediar. Pertence à mesma casta daquelas pessoas que, verbalizando a sua vontade de escrever, perguntam em jeito de acrescento: Como começar?
Esse tipo de perguntas guardam em si já a resposta. Ou é de caras ou é impossível explicar. Alguém que pergunta como começar não pretende começar a escrever, está tão-somente a enganar-se a ele próprio. O mesmo sucede com o tipo que, confrontado com alguém que lê, declara: "Tenho de ler mais".
Não vais, não enganas ninguém.
 
Nisto, recordo-me que, em média, o português lê um livro por ano. Se calhar equivoquei-me, fui precipitado. Provavelmente o nosso país está repleto de pessoas que concretizam “tenho de começar a ler”. No entanto, ficam-se sempre pelo primeiro livro. E a cada ano que passa é como se tentassem novamente, porém não logram ultrapassar esse gigante que é o livro isolado.
 

Tenho de começar a ler


Roberto Gamito

19.08.22

Volta e meia emerge a consciência de que o mundo não é como nós o imaginámos e dá-se uma espécie de revolução coperniciana. Por trás do véu do mundo engessado, vislumbram-se novos mundos. Seja a causa uma paixão recém-adquirida, seja um evento traumático, o olhar modifica-se repentinamente, que é como quem diz, o mundo revela-se outro.
Achar que sabemos tudo é sempre uma armadilha. Só o amor pelo conhecimento desfaz esse delírio de grandeza. Numa palavra, o mundo ignorado é imensamente superior ao mundo conhecido.
 
Homero criou uma personagem chamada Margites, que sabia tudo, mas sabia tudo mal. Não rejeitaríamos a ideia de que as redes sociais estão pejadas de Margites. Margites seria a personagem central de um livro com o mesmo nome, cujo autor terá sido, tanto quanto se sabe, Homero. Uma comédia que, segundo as palavras de Aristóteles, ombrearia em qualidade com a Odisseia e a Ilíada. Dela temos apenas míseros fragmentos.
 
Já no passado o problema entre o que se sabe verdadeiramente e o que se julga saber estava presente, embora hoje se ponha com avantajada dramaticidade.
A nossa lógica de zapping é uma renúncia a qualquer aprendizagem activa. Se nos distanciarmos, damos conta que cada um de nós faz figuras involuntariamente cómicas quando fala. Dotados de meia dúzia de factos esfarrapados, discorremos sobre o tema como se fôssemos uma sumidade. Que egos insuflados que nós temos!

Como não nos detemos em nada, somos escravos daquilo que nos aparece à frente. O que nos aparece à frente nas redes aparece graças ao algoritmo, baseado nas nossas interações anteriores. Ou seja, o mundo que se nos atravessa à frente é progressivamente menor, de forma a corresponder aos nossos gostos. O resultado: ficamos escravos do óbvio. Cruzamo-nos com o já visto, com aquilo que nos agrada, em suma, nada do que vemos é capaz de nos causar fricção. Engaiolados nesse mundo sem atritos, tornamo-nos arrogantes. Achamos que aquele microcosmos é o universo. Ao depararmos com um universo contrastante, não conseguimos esconder a raiva. Se nós estamos certos, o outro é inimigo. A certeza é absoluta, logo não há lugar para o diálogo.
O problema reside na nossa relação com a aprendizagem e com tudo o que exige esforço. A palavra é um dos exemplos.

N’A Mancha Humana, de Philip Roth, obtemos um retrato que define com particular pertinência os nossos tempos. “Não consigo aprender, logo deve haver algo de errado naquilo que quero aprender”. Se somos perfeitos, o mundo criado pelo algoritmo assim o ditou, o problema não está em nós.
 
 
escrito em 19 de Agosto de 2020

As Sobras de Homero

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