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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

21.12.21

Continuando na senda do episódio do ano passado, os melhores livros que li durante 2020, decidi levar a cabo a edição de 2021. Eis uma lista sumária de alguns dos melhores que li durante este ano. Cada livro é acompanhado de um breve comentário. Foi um ano pautado pelos Contos e pelo Ensaio. E muitas releituras, daí que a poesia, o género que é mais querido, não tenha tantos representantes como em anos pretéritos. Ao terminar o episódio, dei-me conta que me esqueci de alguns vultos. Só para citar dois, A Era do Capitalismo da Vigilância de Shoshana Zuboff e Confabulário de Juan José Arreola. 

Túnel de Vento, Roberto Gamito

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.
Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.
De Roberto Gamito e suas vozes.

Espero que gostem do episódio. 

Podem acompanhar o Túnel de vento nas plataformas habituais: Soundcloud, Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts

 

 


Roberto Gamito

16.12.21

Como poeta jovem, promissor e sem talento, fora oficialmente convidado para encetar uma viagem inaugural de uma rota espiritual entre este século e os que hão-de vir, tendo partido do apeadeiro da miséria, que, como é sabido, fica espalmado entre o passado e o futuro, a bordo do magnífico piçalho Cabecinha Especial (que tantas carreiras catapultou para dentro do castelo da fama), assim baptizado em honra do primeiro activista do twitter, Abílio José, que, alegadamente, teve uma boa acção. Qual é a relação entre os dois nomes? Isso é assunto que não domino, só estou aqui para agradar.

Para sair do anonimato, em vez de escrever como os antigos aedos, costume obsoleto, sublinhe-se, deu à luz uma série de danças no TikTok durante as quais dizia em tom esganiçado as passagens mais célebres d’Os Lusíadas. Durante muito tempo pensara que ser poeta era pôr apóstrofos à desgarrada, como se a prosa estivesse sujeita ao espartilho da métrica. Antes isso que fazer poesia com o que está no frigorífico.

Adepto de cilindrar a língua com muletas linguísticas — fanatismo que fez escola —, só descansava quando o verso estivesse a abarrotar delas. O verso que o celebrizou ainda hoje põe a chorar os professores, sobretudo os mais antigos que ameaçam suicidar-se se não o retirarem dos manuais escolares. Todavia a nova escola de críticos é unânime em incluir o verso no Olimpo das coisas belas. Imagina, tipo, mas ya. É de uma beleza simultaneamente estonteante e nauseante. Segundo os entendidos, é o único verso da literatura universal capaz de apresentar ao Homem toda a gama de sensações. Sem ironia, estamos diante de um verso capaz de condensar a condição humana, um verso atrás do qual se acoita a verdade, uma espécie de árvore na qual Deus esvazia a bexiga.

O livro Gluglu e Outras Onomatopeias foi ignorado nos círculos literários e elogiado nos círculos de bebés cultos. De seguida, uma pedrada no charco, Levas uma Chapada nas Trombas que Te Fodo, o canhenho onde, segundo os críticos, moram as sementes de políticas inovadoras. Nele vêem-se referências a poetas selvagens, taberneiros e várias menções a zaragateiros famosos. Mais tarde, sentindo o afastamento dos jovens em relação à, digamos, sua arte, criou a anáfora contínua. Um livro de poemas onde todos os versos começam com “imagina”. No parecer dos mais ilustres críticos cegos, nasceu um novo Italo Calvino. Imagina, seguido de uma coisa óbvia: eis-nos diante de uma proeza ímpar.

Bruno Marante, crítico da altura, chamava-lhe génio implacável, ghostwriter de Deus, ao passo que o pai, mais contido, o chamava “burro do caralho”. Obviamente, as leituras são várias, não podemos agradar a todos.

Como classificar a mão deste poeta? É uma mão feia, com indícios de doenças nos ossos que o hão-de atravancar quando for mais velho, fora isso, era desmistificador aos dias de semana, mitificador ao domingo, iconoclasta e idólatra consoante as estações, moralista e petit savage dependendo dos certames, calado ou prolixo dependendo do peixe que dava à costa nos balcões dos bares. Mas quem é este homem, afinal? Não faço ideia, caro leitor, eu é mais filmes mudos.

 

Poeta de Instagram, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

11.12.21

a verticalidade — a ficção suprema

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a verticalidade — a ficção suprema
é sempre a mesma estranheza estremunhada
a interpretação soluçante e com isso a condenação

Continua aqui: Medium

 

este poema não é a música a que tu chamas casa

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este poema não é a música a que tu chamas casa
é um bárbaro ganhando estatura entre o amor e a morte
é o cavalo-súmula de todas as corridas escarnecendo das apostas

Continua aqui: Medium

 


Roberto Gamito

03.12.21

Em tempos sombrios, o homem é engodado por pirilampos oportunistas. Melhor dizendo, o cadáver de Deus é reaproveitado como marioneta-farol. No caso de sermos ingénuos, diremos: a luz é sempre uma luz. No caso de sermos cínicos, questionar-nos-emos sobre quem comanda a luz.

O Homem é o cadáver esquisito coligido por várias gerações. Tem uma parte subornável, uma parte risível, uma parte medrosa, uma parte heróica, uma parte fluída, uma parte rígida, uma parte animalesca, uma parte cínica, uma parte romântica. Cada uma dessas partes tem a cabeça a prémio: não são apenas frágeis, flutuantes, províncias que podem ser atacadas, destruídas ou convertidas noutras partes.

Nenhuma lei determina o fim da sede de sangue nem tão-pouco extingue o animal que habita em cada um de nós. A lei é, a par de Deus, a maior ficção criada pelo Homem. Segundo Nietzsche, a lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Como vivemos num século em que o Homem é inábil em mastigar verdades mais duras, talvez seja útil amolecer a frase anterior: a aplicação da lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Se assim é, a justiça é uma ficção. Se a lei é incapaz de reparar injustiças, torna-se uma espécie de doença colectiva, pois a doença, nas palavras Deleuze, separa-me também daquilo que posso. É uma selva injusta: há animais livres a matar animais acorrentados.

Em O Homem que era Quinta-Feira, Chesterton, admirável prosador e ironista, chegou primeiro que o século XXI à encruzilhada desarmante: “Não acreditam que o crime criou o castigo, mas sim que o castigo criou o crime”.

A lei é o açaime educado que, ao ser plantada no mundo dos Homens, permite um certo grau estabilidade com o outro, permite a comunicação e o comércio e, no limite, agrilhoa o animal interior — por outras palavras, adia a sede de sangue.
A cobardia ou o cansaço permitem que a nova lei assente arraiais.
A lei torna-se assim, quase perversamente, uma área controlada, como um infantário, um dique que impede a expressão torrencial da força.

A lei é um tranquilizante, mais ou menos potente, disparado contra a fera que é o Homem. O seu fito é acalmar o nosso instinto violento que domina as relações entre seres humanos.
Todavia não tem um efeito duradoiro. O que a lei faz é adiar e não eliminar o instinto animalesco. As doses aumentam, porém a resistência do animal ao tranquilizante também. Até que chega o dia em que o animal apouca o efeito do tranquilizante e a lei se esfuma.

A lei tem como antepassado e herdeiro a violência. A lei é uma pausa entre duas carnificinas. É um recobrar de forças, um afiar de lâminas, é um afinar da barbárie.
O desejo de paz não é suficientemente grande para suplantar a sede de sangue.
A lei não opera no Homem uma conversão moral. Apenas torna o bárbaro mais paciente. Acreditar que a lei consegue domar a lâmina é uma narrativa ilusória.

No entanto, nem nos períodos de paz a violência é abolida.

Ortopedia moral, mais uma vez Foucault, isto é, endireitar o que é violento, porém endireitar é sempre uma operação violenta. O endireita não é senão um algoz de folga. Por ora contenta-se em provocar a dor no outro. Se obtivéssemos a caixa negra destes últimos anos, veríamos a ortopedia moral como ginásio onde espezinhamos os Homens e, indo mais longe, uma violência educada. Uma versão mais subtil da pena de morte que, nas palavras de Gonçalo M. Tavares, é um assassinato educado. Em suma, a lei é um viveiro de perversões subtis, até chegar o dia em que tudo se torna mais claro.

Crime e Castigo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

02.12.21

Sem ousadia estaríamos condenados a repetir o eco mais em voga. Falar, dialogar, escrever com excessiva prudência é prestar vassalagem ao eco, à norma, ao molde. No tocante à arte é um beco sem saída.

Demoro-me nos arredores da certeza. Ausculto disfarçado de médico o peito inchado do eco, palmilho as suas fileiras de lés a lés com o fito de perceber o que organiza os seres humanos, e eis a conclusão: o medo — um medo sem rosto. Se o eco não cresce até perder o rasto da sua origem, estamos diante de um problema. Pensar é engrossar uma ideia, uma frase, é acrescentar anéis concêntricos à árvore raquítica. Se o eco repele novos acrescentos, é seguro postular que enfrentamos um dogma ou algo que se lhe aparente. Pensar é o comércio de ideias, acrescentar frases à frase inicial, que é como quem diz, é desfigurar o eco e engrandecê-lo, parodiá-lo, testar os seus limites.

O Homem contemporâneo, animal assustadiço, está assombrado pelo fantasma da oportunidade perdida. Entretém-se em simulacros, eleva papagaios a messias e por aí vai.
Uma única verdade absoluta, afirma Hannah Arendt, se pudesse existir, representaria a morte de todas as discussões, ou seja, o fim da amizade, e por conseguinte o fim da humanidade.

Sempre que o Homem se convence que alcançou algo aparentado a uma verdade absoluta ingressamos nos palcos da barbárie. É uma questão de tempo até se afiar as lâminas. Em nosso auxílio vem Camus. “O cutelo converte-se em raciocinador; a sua função consiste em refutar. A guilhotina refuta as críticas; é a contra-argumentação do Estado”. Começam paladinos da virtude e acabam no papel de algozes.

As conclusões estão intimamente ligadas à nossa forma de olhar. Se há apenas uma conclusão significa que a biodiversidade de olhares se reduziu e se abeira da extinção. Olhar único é o mesmo que dizer cegueira. Ao contrário da cegueira, digamos, clássica, esta é uma cegueira arrogante. Um cego convencido que vê. Pelo olhar podemos desenhar um retrato acertado do observador. Podemos inventariar os seus medos, as suas obsessões, as suas falhas, os seus sonhos, em suma, no que entra e no que fica de fora do olhar habita o Homem.

Qualquer olhar único é equivocado e dá azo a mal-entendidos. Qualquer fenómeno minúsculo a que se dê muita atenção torna-se num elefante. Perder a noção da dimensão das coisas é um dos sintomas de um pensamento doente. Outro é tentar impedir a ligação. As ideias são como átomos: procuram a estabilidade. Não confundamos com cristalizações. No respeitante às ideias, essa procura pela estabilidade nunca cessa.

O pensamento é bastas vezes diminuído e estropiado, em sítios mal frequentados, substituído por simulacros esfarrapados, de molde a que os embusteiros subam mais um degrau no estatuto.
Qual é o lado risível disto tudo? Cegos para a ironia e para a metáfora (convém relembrar que etimologicamente metáfora significa o transporte de um lado para outro, o salto, se preferirem, ou ainda, a não obrigação de percorrer todos os milímetros entre o ponto A e o ponto B); crêem ser galgos nas pistas da literalidade tão em voga nesta Sociedade do Cansaço, quando na verdade estão de mãos e pés atados à cadeira da sua cegueira.

Com a literalidade o mundo perde espessura, o leque de visões diminui drasticamente, por conseguinte a razão é criogenizada numa hierarquia. Surge, portanto, a ditadura da visão única. Que é como quem diz, o eclipse da razão.

Ditadura da Visão Única

 


Roberto Gamito

04.11.21

Luís Carmelo, Tertúlia de Mentirosos

Luís Carmelo. Escritor.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: livros e livros diluídos, o leitor é um animal em vias de extinção?, verticalidade dinamitada e horizontalidade pós-moderna, Gnaisse, clássicos e livros novos, metáfora e o salto, pensamento nómada, o jornalismo e as redes sociais, um mundo sem memória nem futuro, literatura portuguesa e o humor, o humor envelhece mal?, universalidade e a tentação de responder à própria época, experiências da intensidade.

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.

 


Roberto Gamito

02.11.21

Inspirado na frase de Shiki, poeta japonês, mestre em haikus e em tankas, resolvi aquecer as unhas garatujando uns humildes poemas breves. Citemos, então, a frase: “Sinto a dor e vejo a beleza”.

A ideia da beleza apesar da dor interessa-me muito. A dor, grande ou minúscula, não deve ser capaz de nos cegar. Caso contrário está tudo perdido.


1.
a criança
abriu os braços
e o mundo expandiu-se

2.
na boca um começo
no começo uma vida
na vida a guilhotina

3.
por entre os pinheiros
o vento apresenta-me
os caminhos inéditos

4.
a rã no tanque
a imaginação e de supetão
o cachalote nadando nele

5.
o cio dos gatos
rasga o silêncio nocturno
em mil e um bocados

6.
uma mão
uma só mão
deita abaixo os muros

7.
velha de joelhos
deus surdo
vida inalterada

8.
há uma ponte
mas o cavalo
não se fia em metáforas

9.
da ponte
avisto um muro —
suicídio

10.
pouco peixe no rio
fome duradoura
tornado atulhado de achigãs

11.
que dimensão
tem o amor
num poema tão breve?

12.
mão a laborar
argila desconfiada
busto desfeito

13.
a brisa sopra
todavia é o tornado
que habita o pensamento

14.
o mundo sempre de costas
quando olhas para ele —
não despertas qualquer interesse!

15.
a Primavera chega
e na mesma tarde
os corvos crocitam

16.
cala-se o poeta
todos regressam a casa
sem palavras

17.
esmago mosquitos
contra as folhas
do tratado de paz

18.
fracasso —
uma cama gigante
para um

19.
livros de guerra no chão
e eu no seio deles
a dormir a sesta

20.
herói sazonal
vitória momentânea
guerra duradoura

21.
escrevo
na companhia
dos dias abortados

22.
competindo pela minha atenção
pardal e criança
ambos aos saltinhos

23.
o poeta sazonal
agarrado à Primavera —
que desilusão!

24.
a sombra
inspirada na sombra da casa
à sombra do poema

25.
paixão recente
nova luz
a entrar pela janela

26.
o mundo antigo
é fresco
para quem se demora

27.
o vento
é uma ave
incapturável

28.
sem necessidade de magia
o poema de amor
pôs a mulher a flutuar

29.
sou acordado
pelo ontem
e adormeço sentado

30.
quando a depressão
foi exorcizada
a vida já lá não estava

Dor e a Beleza, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

26.10.21

Túnel de Vento podcast

Estava a bacorejar o episódio 509 - Ensaio sobre a Cegueira, que é como quem diz gravar, quando me lembrei que não havia feito menção ao episódio 500.

Tentar definir este podcast é como tentar engaiolar o vento. O mais que consigo é pedir de empréstimo uma expressão de Horácio, poeta latino. Exército de febres.
Com efeito, o túnel de vento é a tentativa vã de trazer à tona esse exército de febres.
E todavia o arpão continua a fazer tangentes ao grande cetáceo albino. Feliz ou infelizmente, nada parece adentrar no lombo da verdade.

A frase de Diderot, esse filósofo-humorista, tranquiliza-me: "Devem exigir de mim que procure a verdade, mas não que a encontre."

Eis-nos chegados aos apeadeiros do episódio 500:
.Outubro já não é o que era.
.Fiscal da sopa de peixe.
.Escassez e a ganância.
.O leitor é uma figura mitológica.
.Demasiada empatia nas sinopses.
.Possuído pelo espírito da estupidez.
.O valor nutricional do corpo de Cristo.
.A arte do insulto.
.A arte não é um guia turístico.
.Dave Chappelle e privilégio branco.
.Elogio da cicatriz.
.Activista picuinhas.
.A sardinha contra o atum.
.Leonardo da Vinci, o taberneiro frustrado.

Mais 91 episódios e volto a dar notícias.

Podem ouvir o episódio aqui ou em qualquer outra plataforma de podcasts:

 


Roberto Gamito

09.07.21

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.

Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.

De Roberto Gamito e suas vozes.

____

túnel de vento Roberto Gamito

Ep 467 - São Judas, Humor e a Pose Consumista, Génio e Medíocre

Apeadeiros da conversa:

.Amestrar paredes.
.As duas Ceias.
.O abismo entre a palavra e a acção.
.Cabana da felicidade.
.David e Golias.
.Sócrates teve a vida facilitada.
.Falar o bem não é sinónimo de praticar o bem.
.São Judas.
.Olhar múltiplo e uma nesga de realidade.
.Humor, a burla, a pose consumista.
.O Génio e o Medíocre.

 

Podem escutar-me o episódio e seguir-me aqui:

 


Roberto Gamito

09.07.21

Corpo em revolução, figura parva ou geométrica. Redondo ou quadrado, carne para uso, descarte ou disparate. De quanta obsolescência serão dignas as minhas frases? Linhas que aos demais não assentam, nem à justa nem à larga, nem em prosa nem tão-pouco em verso. Lá vão elas rumo aos bastidores da tratantada com as tetas bem apertadas de molde a não desarmonizarem a eufonia, as sílabas, acotovelando-se no meio do texto íngreme e a raiar o inútil, as sílabas, o mundo enquanto lugar de caça e fuga, as sílabas.

Poder ser que seja um acto louco, mas ajo de acordo com o pulsar do texto: eis a minha crença mais arreigada. Já de rastos ou a meio da queda, sintonizava a vida com o respirar da literatura. Éramos, cada um à sua maneira, dois animais aflitos a braços com o fim.

Que mal pode haver em querer escrever e carecer de começo de língua inédita? Ao rés da folha, desenteso ao fitar o inferno do mesmo. Outrora, desentendíamo-nos ao primeiro verso, poeta e leitor dois bichos singularizados pelo desnorte. Um poema perfeito é uma paixão recém-chegada. Salvo o calor e suas múltiplas acepções, não entendemos peva. De joelhos, aquiescemos face à língua ígnea e estrangeira.

Choquei alguns acólitos do gelo, alguns paladinos de coração emperrado, alguns cruzadinhos de espada romba. Morte ou vida é-me igual ao litro, grito ao sacristão. Doravante o sino dobrará sem porquê.

Amor. Terei eu pé mesmo se o tema teimar em aprofundar-se ao ser desnovelado na língua em solavancos tépidos? Nas minhas costas, o mundo.

Disparate: emendar o que quer que seja quando nada é certo. Enumerem, caso haja tempo para futilidades, os sábios que se cruzaram convosco até então. O animal amolece, nada duro e durável. Tento entender a trajectória dos projécteis adiados.

A sedutora 4x4, adaptada a qualquer terreno, fez mais uma vítima. Retirei peso ao seu negrume, confesso-me.
Ao ruminar o que terá acontecido longe do radar das minhas pupilas, as hormonas decidiram entrar-me pela prosa adentro, qual rusga, insuflando-me os verbos outrora flácidos.

Amor ou morte? A ganância tomou conta das mãos indecisas. Nem ouro nem poesia. Temi as consequências, o retorno a um início primevo, desta vez de mãos vazias e afónicas.

Imaginava-me de pés e mãos atados, encimado por um carnaval de flechas desejosas de se abaterem sobre mim. Voar é um exercício vão quando o céu principia a dar mostras de querer ruir.

A carne, a eterna suspeita. De um lado os idólatras, do outro, os iconoclastas. Sou um entre a multidão de anónimos. Espero pacientemente a minha vez de arder na pira. Palavras demasiado concludentes. Em tempos idos, fui ensinado a deixar o mundo de fora da língua. Não digas isto, isto e isto. Então falo do quê?, respondia. Ninguém me sabia responder, o gato finalmente comera-a.

O rei dos oportunistas palmilhava a estrada do sucesso com a sua corte de sequazes que, espante-se, massajava-lhe os nobres tintins sem descanso.

Ninguém me ensinou a afogar — tudo o que ignoro aprendi sozinho.
Respirar para tão pouco. Cá estamos, camaradas náufragos, neste mar vindimado pelo medo.

Desisto da minha condição de estátua. Inicio a dança, faço as pazes com o movimento. Não é comum depararmo-nos com uma magia consumada que não aproveite o momento para mamar da teta dos holofotes.

Tardava o confronto com o tempo. Entretanto, ia-se entretendo a lutar contra espantalhos e pardais. Se quiseres ser homem-estátua, pára, se continuares assim, a andar feito parvo, não vais a lado nenhum.

Não temo a morte, tenho um ataúde à sua medida à sua espera em cada esquina do texto. Como afiançam os místicos, não é o Homem que entra no templo, é o templo que entra no Homem.

Terei de me assumir inábil para lidar com o amor. Já o tive nas mãos mas…
Volta para a direita, volta para esquerda, hesitação, simulo a volta para a direita e volto para a esquerda. Um tiquetaque obnóxio, uma tentativa de abrir o cofre da alma e pôr o Homem — o que poderia ter sido se a plenitude fosse alcançável — diante do Tempo vertebrado para avaliação.

Uma vez descalçada a bota que é confeccionar o primeiro verso, o poema anda sozinho, quase sem ajuda. As sílabas que colho da mão suada: frutos em botão.

Constato que o hábito recente deixara o monge inacabado.
Ao contrário do que nos foi ensinado nas redes sociais, é impossível reduzir o Homem a uma característica. Resumir um ser humano a uma palavra é um acto criminoso, sem direito a redenção, ó cruzadinhos da empatia.

O que é afinal o Homem? Animal exemplar, domesticado em dias de festa — sexo! —, de pronto solto no seu habitat penumbroso apinhado de olhos inquisidores.

A luz fraqueja diante das palavras maiores. Os anjos não se pronunciam. Esta manhã, graças ao nervosismo face à situação que me poderia pôr em cheque — e logo eu que nunca tive queda para rei —, aprendi, enquanto remexia as nádegas na cadeira, o samba da sala de espera — dança que, quanto a mim, merecia outro prestígio.

Suspeitem de asas tão franzinas. Estou certo de já ter passado por esta ideia. Por sorte, a cabeça será outra e a frase, resultante da observação, sairá noutros moldes. Não me questionem se tal constitui um ganho. Sim, distraio-me com o que estiver mais à mão.

Fugir ao medo? Com o calor que está? Não sejas estúpido. Aninha-te aqui e vamos lá ver se há material para erigir uma história de amor. Finda a fornicação, posso ocupar-me de outros assuntos. Não houvesse período refractário e o homem nunca teria inventado a burocracia. Sem período refractário não haveria Kafka, pensei eu após a ejaculação.

Não sei formular um pedido de socorro sem parecer uma causa perdida. Não sei pedir ajuda sem que me dêem extrema-unção.

O passado é fértil. Tanto é uma barragem contra fantasmas como se transmuda num viveiro deles.

A desconfiança tomou conta das minhas definições. Tento fintar o cinismo, todavia ele arranja constantemente forma de entrar a pés juntos na frase. Combatê-lo com ironia é engrandecê-lo. As armas para nos defendermos dele ou estão extintas ou ainda não foram inventadas.

As cabeças dos gigantes derrotados. Tê-las à cabeceira, sob a forma de rosário, é, a espaços, reconfortante.
À parte isso, sou, incontestavelmente, farinha do mesmo saco. Porém, ao estar em contacto com os meus semelhantes, fui impelido rumo à singularização. Não me peçam mais explicações, não estão em idade de compreender a minha jornada.

A abstracção de decantar a música cantada ao coração numa noite como nenhuma outra. Prosa atafulhada de inseguranças, perífrases atrás de perífrases, o nada mais copioso possível.

Mas…não vim ao mundo com o fito de moer palavras adultas e diluí-las em frases mansas, de pacote. A língua selvagem descansa. Ao entrar em casa, penduro-a, por fim, não na folha, mas no cabide, como coisa que só faça sentido ser usada na rua.

Peso infinito sobre os ombros. Já disse ao médico uma ou duas vezes. Não há meio do teste de ADN chegar, não me espantava nada que fosse filho de Atlas. Que vida é esta afinal? Carregar o cosmos às costas — façanha ao alcance de tão poucos — e suplicar ajuda às sanguessugas para que me cocem os tomates. O gigante mirra a cada súplica. Dentro de pouco tempo poderá ser derrubado por qualquer um: eis o destino dos grandes.

Tenho os dias pretéritos como reféns na memória. Sinto que levei a cabo um crime imperdoável que não cessa de engrossar.

Na folha, dou as voltas que o mundo não deu. Cada um foi para seu lado; um permanece no tabuleiro, o outro, comido.

Martelei-lhe a carne, conta a mulher A à mulher B, mas nem por isso ficou mais tenro — continuou, aliás, duríssimo. Mistério que intrigava todos os talhantes com que se cruzara.

Poeta: Planeio cada pormenor como quem arquitecta uma catedral.
Escrever ajuda-nos a exercitar a mão, que é por onde a humanidade abre o leque dos mundos possíveis.

O meu marido deixou de me procurar, comentou a mulher à amiga. Cessaram as buscas, fui dada como morta. E agora? O que faço eu à minha vida?

Para muitos, a vida é andar em manada, de mamada em mamada, um tudo ou nada de quatro ou de joelhos.

Este lugar, que assumiríamos meu, será, postumamente, ocupado por um sismo.

Corpo em revolução, Roberto Gamito

 

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