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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

13.04.24

Esse festival pirotécnico de parangonas com que nos entopem os sentidos e nos atravancam a alma com grilhões é um chorrilho de arrotos afinados pela novidade mais fresca, que ao ouvido mais destreinado passa por sinfonia. A manipulação a que estão sujeitas as multidões põe a marioneta em perspectiva, confere-lhe tridimensionalidade, adiciona-lhe chapéu e futuro, ao passo que nós, tão desgraçados quanto alienados, embarcámos numa viagem inspirada em Flatland. Quanto menos dimensões tiver, menos problemas arranjo, há-de congeminar um matemático virado para a ardósia a mando de uma faca de dimensões e gume respeitáveis. A marionete regozija-se pelo seu destino — o primeiro pensamento assim que a fada lhe confere vida e número de contribuinte.

E eu? Na altura, inferior a todos eles, fui ganhando corpulência e testículos à Rabelais, os quais saltaram marotamente de geração em geração, qual tesouro de família, tipo Santo Graal do baixo ventre, rapinando centímetros e coragem a esses poeirentos cadáveres encalhados nas estantes, inspirei-me, não minto, em patilhas célebres e barbas com obra feita. À conta de leituras metamorfoseei-me num cachalote pitosga e camaleónico, nem negro nem branco, confundo-me com águas e marés com o intuito de me aproximar desse enxame de Ahabs gagos de arpão reformado. Daí para a frente é sem mestre, cornos nos cornos com a morte. Posso finalmente desarrolhar o demónio que há dentro do homem. Hoje ninguém dorme, é dia de festa, o Diabo olhou, novamente, para o céu.

A minha luta, sei-o, é contra o tempo. Doravante é um contra-relógio, licra da cabeça aos pés e cores berrantes que não me favorecem seja qual for o ângulo ou o fotógrafo, e vá de dar ao pedal. Pedalo logo suo. Existir fica para depois. Em face do vasto catálogo farfalhante de bichos, no qual as espécies se encavalitam umas nas outras no mesmo ruído, quer dizer, acotovelam-se com a ideia de entrarem no círculo franzino onde o holofote separa, de longe, o trigo do joio, ou, se preferirem, como se o jogo da reputação fosse uma partida de sumo, estamos todos gordos e em trajes menores;  em todo o caso, quem permanece no círculo está em jogo; fora isso, ainda há, ouvi de fonte precariamente segura no entanto subornável, gente a merecer um elogio ou outro. Avancemos com calminha, a senda até ao próximo raciocínio está pejada de buracos e buraquinhos. Ali vai uma gaja que merecia estar comigo, comenta o macho em idade de acasalar — e isto não é de somenos. Confiscando os voos do ego para divãs que valorizam à medida que coleccionam rabos desejosos de desabafar, anos a fio no funambulismo da adolescência, anos à pendura no carrossel da morte, mas sim, os voos, ao relegá-los para a frieza das fórmulas físicas, como quem chama a genialidade ao gabinete da eficácia com o fito de a abençoar com um sermão antes de a despedir. Encasulados no cacho de âmbar da previsibilidade, a enceleirar raiva dentro de pipas de carvalho, a fazer tempo para a mudança — e reparem que os séculos passam num foguete, Camões que era Camões falava de um Portugal com os vícios de hoje, meus queridos Velhos do Restelo em regime pós-laboral.

A fórmula arruma tudo: quando descortinarem a minha posição inicial — o inferno, o inferno! — e a minha aceleração — luciferina, não há outra — hão-de ir ao tapete e se for preciso até ajudam o árbitro na contagem. Hão-de aproveitar o último fôlego para a epifania de vão de escada. O humanismo é uma coisa maravilhosa, mas como mercadoria.

Não há por aí ninguém para me despentear as convicções políticas, pergunta a mulher no bar num tom que, se os tempos fossem outros, diríamos carregadamente sexual. Já ninguém me arrepia com parágrafos, os quais tombam sem agenda do céu tipo caca de pombo e ali ficam à espera que a burocracia das freguesias desatravanque o caminho da ideia de limpeza para a limpeza propriamente dita; esses filhos da puta — calma, não é daí que nascem as dificuldades e as diferenças entre nós — desembarcam à minha beira com o seu refrão de época alta com a gangrena de quem romantizou a inércia e a elevou a musa só para ter uma desculpa de atar as mãos. É o costume. Entretém de pila murcha. Na versão fílmica, haverá uns tipos a quem o declive vai beliscando a frágil verticalidade até que, esgotadas as forças, as quais foram desbaratadas em punhetas líricas ou alheias com o fito de subirem na hierarquia onde só os sopés são palpáveis, encetam a queda com a lágrima no canto do olho. Pensamento novo. Não é a descoberta da pólvora, mas anda lá perto. Mas filho, cogitará o leitor ajeitando os óculos e os colhões de forma síncrona, para quê estes coices metidos a despropósito? Meu puto, estás tão a leste das quezílias, o verniz da tua pretensa sofisticação ingressou em ti como ácido, a princípio educadamente, e está a minutos de chegar aos ossos. A tua propensão para imitares os quadrúpedes quando a política te bate à porta tinha de ter uma razão que não psicanalítica. Está bem que nos fodem, à grande e à estrangeira, mas foste tu, não foi a tua mãe nem Laio, que permitiu que o verniz assentasse arraiais no esqueleto e ganhasse confiança até se tranfigurar num vampiro.

Outro personagem. Tratam-no alternadamente como génio e erro conforme tocam os reclames. Linhas — isso vi eu com olhos incorruptíveis — de pura genuinidade da candonga, elevada a hino. Os aplausos ante tamanha farsa tiraram-me o sono durante décadas. As insónias ensinaram-me tudo o que havia a aprender: meti o bedelho como um felino ferra os dentes nas goelas da presa, eu que antes havia inventado acidentes para abrandar a locomotiva da fome.

Que campeões deste atletismo de aprumadinhos! Deleitados e tontos, medalhas e cérebros nas prateleiras dos troféus. Tantos gráficos e nenhum é capaz de mascarar o nosso desnorte. Tantos pódios atulhados de malta com vertigens.

Cada influencer está convencida — ou convencido, que os há também em formato macho — que dá guarida a uma dinastia na barriga. O puto é endeusado assim que é escorraçado da mãe — agora aguentem este festival de mimados.

Não me quero armar em juiz, estou nisto, na vida e no resto, com ganas de aprender e desaprender. Se possível, munido das palavras mais ígneas. Nada de descambar em projectos ambiciosos, pelo que não esperem destas unhas nenhuma catedral, o vosso Deus que durma na rua — daqui em diante é o evangelho da pólvora. Desapareçam-me da frente mais a vossa gangrena do positivismo.

Andas a catar de cadáveres alheios piolhos para assim teres pretexto para te coçar, dir-me-ão convencidos que o vosso cérebro quer alguma coisa convosco. São empreendimentos deste calibre que nos catapultam para uma antologia do disparate, destacadíssimos. Não retruco. Está certo, até deixar de estar.

Com ou sem bola, isolei-me com fintas de autor, visto que o esférico é artifício para evitarmos andarmos por aí aos tiros, não foi golo, mas. Um mas atestado de cólera. O meu propósito: um susto na grande área. Falho, todos falhamos, o que muda é o equipamento e o teor dos comentários dirigidos ao árbitro; e nada garante que para a próxima falhemos melhor. O susto não passou: cá estou eu na área, uma e outra vez, qual possesso suado e de calções cheios de terra.

Roubei-lhe tempo. Que estupidez, perdi o meu tempo e o dela. Somos larápios de tempo inexperientes. Envergonhe-se já o leitor, as banalidades, estas e outras, serão regadas a gasolina. Das mil, uma: uma horta de chamas e faúlhas — um milagre da sustentabilidade, só precisa ser regada uma vez.

Festival de parangonas


Roberto Gamito

26.11.23

Na estante 
tornada móvel pelo sismo 
aonde vamos acomodar, lado a lado, 
as memórias carunchosas 
desta vida leiloada ao Diabo

Verso devoluto, nem canto, nem tão-pouco feras, 
somente sereias gagas e em princípio afónicas.
Prende-se o Ulisses ao mastro para nada, 
é sempre a mesma cantiga
de tão cansada não nos ilumina nem nos obscurece. 
Para estes lábios, que por estes dias alcançaram o deserto
segundo a rota do analfabetismo, efeito colateral da ausência 
que bom que houvesse tempo para soletrar 
estas e outras palavras rombas 

talvez, inspirados na morte, as limássemos
e déssemos à luz uma ninhada de gumes. 

Sobras de ave, um apelido sem a primeira sílaba, um mito a ganhar ares — nem sequer é piada — de Ícaro. Em todo o lado semeio a minha querida queda. 

Essa vasta cabeça desocupada 
viveiro de demónios por vir 
a simulação de recomeço 
irrefreável número circense 
com que entretenho os demónios.

Por que buracos e redes se escapam os vossos peixes? Este esquelético e camaleónico edifício de rancor a que muitos chamam humano é incapaz de hospedar sonhos e felicidade sem resmungar. 

Escrevo outro poema 
pela necessidade 
ou pelo vício de me libertar 
comparo-te à saída do inferno
aos nomes que a memória vai mesclando 
numa única quimera impronunciável. 

Bicho de um sem-fim de cabeças 
és um livro lançado ao fogo 
com o fito de o educar.

Esta luta entre a vontade de dormir e o café, que, com meros mililitros se opõe à minha vontade, o trabalho que se espraia durante horas e de seguida dias, qual nódoa ingovernável com tiques napoleónicos
tarefas que me devoram horas e a vida na mesma dentada — 
bizarro ritual onde me descubro quilométrico e celeiro de feras interiores.

O uivo que me animaliza e liberta do nome no mesmo fôlego. 
Uma ponte que vou soldando ao teu perfume. Um dia espero completá-la e regressar a esse dia em que nos conhecemos. 
A sentença da qual os animais fogem quando sonham, ao ar livre, com o matadouro. Bebo o meu reflexo do bebedouro como quem extingue a sede 
para que a morte se esqueça de mim. 

A mão destinada 
ao inventário de cacos 
a carne em condições 
de ir para o lixo. 

Tenho o cuidado de passar longe das tuas palavras, não vá ser contaminado com os teus atalhos. Tem paciência, neste reino mando eu. Repara bem: atrás de mim há uma pilha de regicidas. 

 

Pilha de regicidas


Roberto Gamito

08.03.23

O mundo tornara-se turvo; os contornos, políticos; os sacerdotes, açougueiros — que acolhedor! Chamem-me Ninguém, caso não consigam desembaraçar-se do silêncio de outra forma.
Neste ou noutro episódio, apropriamo-nos das fragilidades através da respiração dos demais.
A respiração é o sinal de fumo, quer para o amor, quer para a morte. A perturbação na respiração revela que os capítulos da nossa biografia se revezam fora dos altares da previsibilidade.

O algoritmo assusta-se, todavia tira notas.
Tudo isto vaticinava uma boa diversão, comentaria o bobo se lograsse engendrar a coreografia de cinismo, a qual, feita de passos atrás, não é senão um pedido de socorro vozeado por um afónico.

As soluções que me ocorriam não eram satisfatórias. Eis que, nestes momentos em que podemos deitar tudo a perder e o fio da vida, aquele que fintaria o do Destino, se nos escapa dos dedos, nestes segundos grávidos começam a amadurecer lâminas e cadafalsos, inicialmente camuflados nas flores e nos perfumes da memória, de seguida às escâncaras. O Homem começa a ruir sem que lhe acudam turistas — dá-se o despetalar das amizades, o caruncho prossegue a sua obra num amor do qual sobrou uma chuva de arpões e nem a luz macula a escuridão que se apossou de certos homens. Uma constelação de cicatrizes e nenhuma promessa de ressurreição. Ah, a vida é tão-somente uma catástrofe paulatina.

Alguém deixou a porta aberta. Ao ver ao mastodonte no sofá, veio-me à memória uma linha do livro Baleia de Paul Gadenne: "Julgáramos ver um animal que dera à costa: contemplávamos um planeta morto." Não serei capaz de forjar outra frase capaz de se ocupar da minha primeira impressão ao ver o filme The Whale.
O filme exige um olhar sem arabescos: estamos diante de um cachalote encalhado a desenvincilhar-se da vida numa margem alheia às rotas turísticas. Tal como o mítico cetáceo, pouco ou nada há a fazer quando dá à costa. Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que nem precisam de diálogos. Embora o filme se mova sem pressa no terreno do desconforto, cada deixa é um escape. O retrato fiel só é pintado quando as palavras se ausentam da casa-gaiola de Charlie, interpretado brilhantemente por Brendan Fraser, o qual carrega o filme às costas no interior de uma prótese de última geração que, ironicamente, funciona como sarcófago. Suspeito que as outras personagens são tão-somente artifícios para tornar o filme mais digerível.

Ignoro se o filme foi ou não empobrecido por ecos manhosos de Moby Dick, parece-me um processo similar ao que é usado para insuflar os frangos com água para parecem mais pesados do que são. Seja como for, há uma inquietação nas águas, a baleia branca é manuseada e decomposta por uma rede de interpretações. O inalcançável, o que andamos aqui a fazer, a relação com a religião e como a solidão tem uma visão singular sobre a salvação, o labirinto das interpretações até nos mais pequenos gestos, as manhas de quem persegue e de quem foge. Quiçá exista uma homenagem ao livro de Melville, daí os ensaios, a literatura, o desenlace da história, o romper com os formatos de antanho.
A vida orbita em torno de um desejo de capturar qualquer coisa, uns é mais carapaus, outros baleias brancas. No entanto, é aqui que a Baleia nos oferece uma face pouca explorada por exegetas. A baleia branca é uma promessa de regresso, tem de permanecer incapturável, caso contrário redundará no fado de Ulisses. É impossível regressar a Ítaca, outro nome para passado. 

"Não estou interessado em ser salvo." Quem já ouviu esta frase da boca de um suicida saberá o que é levar com o arpão no lombo. O homem a sós com as suas migalhas, coordenadas onde a maquilhagem e o discurso enaltecedor não singram. Sem a ficção de salvação o que sobra?
Perante uma plêiade de sinais, assistimos, ao longo do filme, à concretização da profecia há muito anunciada. O que é que andamos a fazer com a nossa vida? Houve breves momentos em que a minha cabeça se tornou um festival de ecos durante o qual ricocheteavam frases soltas do conto de Paul Gadenne: "gostava de ser a baleia", "quantas das pessoas que ouviram falar da baleia se contentaram com um encolher de ombros e voltaram às suas vidas. Como se víssemos uma baleia todos os domingos!"; "Somos pequeninos, sem nenhum poder, somos tão pequeninos e impotentes…; Leviatã encalhado; aquela baleia dava a ideia de ser a última da sua espécie, como cada homem cuja vida se extingue nos parece ser o último homem."

 

The Whale

 


Roberto Gamito

04.12.22

Quero cultivar-me. E então, quem te impede, questiona a mesma personagem com outra voz. Nada restou, todavia, da sua poesia.
O bando de estorninhos lesa-nos o intelecto com o seu circo de formas. Reparem como é belo o medo e o falcão. K. naturalmente faz parte do cânone eleito. O olhar caído na folha tem por fito iluminar um pouco mais o corpo feito lacunas de Deus, o qual sobreviveu graças às citações enviesadas das aves negras. Em não faltando coragem, será o estudo introdutório dedicado às fontes das cicatrizes e, em ganhando balanço, havemos de desmentir Ovídio. Ponham lá um sorriso nessa cara desfeita, arranjem lá espaço para mais uma leva de feridas.
Fartinho dessa prosa atrelada ao lugar e ao tempo e, aproveitando que pusemos a cabeça no cepo, da altura a reboque da fama. Desta feita, farei aquilo que acabei de condenar.
Aqui estou, vindo do bafo do Deus das Moscas. Cacemos então grilos com mimos de caça, façamos do empecilho ratoeira.
Hermes, do outro lado da porta, deus dos gonzos. Acaso deliras?
Ali onde as máscaras foram penduradas jaz um sem-número de artes. Já aqui andas? Não escapaste há pouco do cadafalso? Não me envergonho de ser esta triste figura, sem Rocinante mas com pança tenho vencido os meus ágeis moinhos.
Um dia essas palavras por-me-ão a correr. A minutos do fim todos os versos soarão a profecia. Entretanto não confundas putas com Hécate. Estou arruinado: fui visto a escrever uma frase genial.
Abreviadamente, podes dizer, quanto ao estilo da canção que te chega aos ouvidos, que é uma perífrase para 'amo-te'. Hei-de fermentar as mais magras migalhas, até lá não expulsarei as mandíbulas da escrita.
Em nome de costumes mais antigos, comunicar-vos-ei que 'escapadela' era o nome dado a uma dança cómica de natureza obscena. Daqui até ao sexo vai um mal-entendido, diria um pau friorento.
Há mais de mil anos que o Helleborus deixou de fazer efeito.
Onde antes havia um mero buraco há hoje um báratro, um poço onde eram atirados os criminosos em Atenas. Para evitar a hiperinterpretação do termo, digamos que nunca fui a Atenas e troquei os criminosos por fantasmas. Estás com azia, não é?
As mulheres interditam o reino do baixo ventre
isto ouvi eu quando fui à Antiga Grécia
altares ontem quentes hoje abandonados.
A fruta que amadureceu antes de o Homem lhe dar nome, pesada pela mão desonesta do poeta, lida por quem confunde gotas com oceanos.
Ideias prensadas num instante. Examinarei isso com os meus melhores olhos, prometo, mentimos nós descaradamente.
Foda, competente vocábulo; serve-te do meu corpo e da minha língua desfivelada. Ó tolo, sussurra a deusa, anda cá, livra-te dessa cegueira. Seja amor ou mais uma maquinação de Empusa, a partir daí tudo o que vier é ganho.
Buscando a mulher, aqui chegamos. A solidão já nos permite outros folguedos. Nota-se uma falta de vocabulário após o império do calor. Empusa, rainha da metamorfose, alimenta-se de carne de homem.
Em todo o caso, não teríamos escapado inteiros até aqui. Não tiro uma vírgula ao meu desnorte.
 

roberto gamito


Roberto Gamito

27.11.22

O inferno concretiza-se por meio das obras que lhe caem dos dedos, amiúde já com cabeças capazes de fundar novas escolas de desespero. A temporada no Círculo dos Gigantes protege-o de um envenenamento excessivo, graças aos gumes, persiste unido aos demónios; as asas derretidas e a queda, outro nome para metamorfose.
 
A cólera é dotada de luz própria. Apesar de encarregada de canalizar os animais para a arca das ideias, ela é igualmente o que fica de fora, as sobras clandestinas com a mania de grandeza, o que torna o imensurável em ilha, que é como quem diz, o dilúvio posto em obra de sangue. Do mal o menos.
 
Quando a poesia é encostada contra à parede, esmagada pela pressão de todas as eras, as bolorentas e as que hão-de vir, o poeta não tem outra escapatória senão torna-se um cachalote albino. Fazer gato-sapato da profundidade, florescer onde a luz se extingue não está altura do peixe miúdo.
 
Tentam engaiolá-lo numa definição, todavia ele extravasa do molde da descrição. Metal fundente e zero absoluto em simultâneo.
 
Ó bobo canoro, não te limitaste a gerar confusões, empecilhos e fogueiras do bem. O homem à mercê do desconhecido, o mesmo bicho assustado do início.
 
O homem não viu nada que o fizesse esquecer a fome. Ainda assim, engordou. A solidão engordada pelos fracassos amorosos.
Vingança? Qual quê? Um menu frio de lamber os dedos, eis as palavras do Diabo diante do cadáver de Deus.
 
Uma única linha de um gigante serve como alimento para um enxame de artistas. As postas do legado fervilham de fome e mediocridade alheias. O desmantelamento pacífico do cachalote albino por formigas oportunistas é apenas uma paródia ao oitavo círculo de Dante. E solução? Calma, primeiro tenho de engolir o cosmos, sussurra Dioniso aos ouvidos da morte. Mesclem-se então as máscaras, as vagas de heterónimos, eis chegada a altura de fundir as infinitas possibilidades num único rosto.
 

Círculo dos Gigantes, primeiro rascunho


Roberto Gamito

13.11.22

Não resisti e dei-lhe um murro nas trombas. A culpa foi dele, começou a pensar antes de cada frase. O silêncio enoja-me. Ele que venha agora dizer-me que gosta de poesia e reforço-lhe a dose. A paciência tem limites.
Dei voltas ao miolo, não vi outra solução senão pegar na cabeça dele e ensaiar um xilofone no balcão da taberna. Não correu como esperava, a música não é ofício de uma tarde, é para se ir fazendo.
Poucas pessoas sabem o que é poesia, confundem-na com uma chave que destranca pernas exigentes, e até que não desgosto do engano. É altura de colonizar o espaço mental com tempestades, lâminas e arrancar ao perfume os nomes conducentes aos passos em falso. Metade do trabalho está feito, o resto é convosco. Fiz o mais difícil, concretizar sem medos uma frase sem nexo.
Se apanhou e calou, a culpa é dele. Já há meses que anunciava a leva de carinhos ásperos. Teve mais que tempo para se preparar. A melhor defesa é...apanhou logo, nem o deixei acabar. Tanta forma de se defender e o gajo recorre a uma frase rançosa? Apanhou foi poucas. Afastar-me dele por causa disso? Que estupidez, nunca estivemos tão amigos. A coça afinou-o por dentro, até dá gosto, parece um relógio suíço. Juro-vos pela saúde do meu Piruças que, no que depender de mim, Deus me dê forças e as finanças não mas retirem, hei-de manter esta amizade dê por onde der.

*

à parte os galos amealhados em petiz, permanecia cabeça dura. uma cabecinha esculpida pela queda que até metia dó. o coração, tão confiável como um economista a mandar palpites na televisão, de queixo caído a cada esquina, confundindo as didascálias do quotidiano com a voz das musas, a braços com o judo poético, usava o força do mundo contra ele. a força poderia parecer, aos olhos dos ciclopes contemporâneos, insuportavelmente tóxica.
X., cercado pelo destino qual chouriço encurralado por uma família de alentejanos, pensei eu na pausa de outro conto, tipo personagem saída das goelas de Xerazade. não confiem nessas lengalengas: não há forma de adiar a lâmina.
temos de acabar, carpe a mulher, espera, riposta o macho, se aguentaste dez anos de uma relação de merda também aguentas mais dez minutos, agora ouves o que calei durante este tempo todo.
amor...
querido, ou melhor, ex-querido, estraguei a juventude a aturar-te, só de acordar ao teu lado esfrangalhava-me os nervos durante o resto do dia, metes-me nojo e está tudo bem. casei com um homem que mais parece um caniche a quem lhe foi ensinado a andar na vertical num circo de vão de escada. no campeonato dos medíocres, és um campeão, palmas para ti. o nosso amor foi um flop. afadigavas-te em cama alheia, não é, ornitólogo de pássaras implumes? e o pior é que nem foder sabes. e agora: o que digo às minhas amigas? como explicar esta relação de dez anos?
quero acabar.
isso não é assim, minha amiga, retruca o homem, tens de dar dois meses à casa.

*
 
O livro: abro-o conforme a sede, sepulto-me nele e eis-me regressado das águas com outro nome com a cabeça de João Baptista às costas. A memória é uma estante inacessível.
Ando por aí
amparado em ficções
a fazer dos cornos do Diabo as andas
com que simulo a intrepidez em cima das áscuas.
Sou o cornaca do meu inferno.
O marcador dos livros é a caneta. O apeadeiro da leitura transformado em semente de montanha. Pedi-Lhe a sombra. A interpretação é uma farsa, todas as frases são ruas de sentido único. O que me falta para ser igual aos outros mortos? A sombra foi-me concedida. A verdade tem um certo gosto em encurralar-nos. Estamos de novo nas vésperas de uma nova página, nós que, após o êxodo das mãos esquerdas rumo ao Hades, ficámos maravilhosamente indefesos contra o ignoto. Com efeito, escrever e ser descrente é a mesma coisa.

Cornaca do meu inferno, Roberto Gamito

 
 


Roberto Gamito

13.11.22

Filho de dois homens imaginários, condição que o livrava dos vieses dos artistas contemporâneos, perdia as tardes a esgaravatar no mármore à procura do rosto do homem. Adulterando a frase de Borges, bradava a quem quisesse ouvir: o ser humano vive da ficção que todos os dias acontece algo diferente.

Numa ocasião forense atípica durante a qual vacilava no cadáver de um anjo caído, um desumano exercício de restauração, gania afinado: hei-de ressuscitar o mal nem que seja a última coisa que faça.
 
De um lado Fernando Pessoa e a sua tanga: "eu sou uma antologia", do outro, o anónimo: "em calhando, serei uma nota de rodapé".
 
Um dia chegaremos à conclusão que a arte não é senão um complexo, tortuoso e labiríntico manual de tortura com vista a esfrangalhar o projecto das inúmeras levas de Narcisos.
 
Também não é preciso abrir as asas, a ficção de gigantismo não afasta a fome fulminante do predador alado. O tom deste século é o de uma velha solteirona que deixou a vida escapar-se-lhe entre os dedos.
 
Ser anónimo, actualmente, é experimentar a coreografia do neutrino: não interagir com nada nem com ninguém. Eis a pureza que ninguém esperava.
 
Agrilhoado a uma cona esfomeada, qual Prometeu que ignorava tudo sobre o fogo. Ao longe, as águias de Zeus parecem corvos e abutres. Mas alegrem-se, tenho uma boa notícia para vos dar: vi um homem vergado sob o peso do seu conhecimento. Que aldrabão!
 
Salvem as cartolinas e o mundo que se foda. Assim se esgotam as alternativas. Coragem! Confiem nos vossos instintos, sejam vocês mesmos, amanhã o trend poderá ser outro.
 
Afectivamente falando, considero-me canibal. Estão cá dentro.
 
O importante não é achar o amor, é não parar de o procurar em todas as casas.
 
A vida adulta é o suicídio colectivo das perguntas. É abanar a cabeça para evitar problemas. É cada vez mais difícil fazer destrinça entre um resignado e um doente de Parkinson.
 
O aplauso serve tão-somente para ocultar o barulho do disparo. Lindo, o artista despediu-se com um sorriso nos lábios.
 
Curei-me da depressão, já não vou ao fundo. Sou o homem de cortiça. O poder terapêutico da parvoíce.
 
O humorista é pródigo em três coisas: disparates, choradinhos e regras dos três.
 
A minha mediocridade nunca cessa de me espantar: adapta-se a tudo o que faço. Isso há-de ter algum valor.
 
Nova profissão: porteiro de redes sociais. Alguém cuja incumbência é controlar as saídas e as entradas deste teatro de doidos.
 
Se Kafka tivesse nascido em Portugal, teria sido apenas um tipo com orelhas grandes. E isso só revela a escassez actual de capachos monumentais.
 
O artista sobe a palco e berra: não tenho nada interessante para vos contar. Bem, vamos à minha vida. Para o que havíamos de estar guardados.
Na sociedade do espectáculo vertiginoso, não confundir com a do Guy Debord, a arte não é uma arma, é uma faca de plástico de cor garrida.
 
Agradeço ao twitter por ter acabado com o mito do artista inspirado. Parece que ouço o meu avô, não tens nada nos cornos.
 
Mais uma errata. Porra, Fernando Pessoa, não acertas uma.
Só a arte é inútil.
 
Tenho três cães e mil fantasmas, sonhos esmagados e coração desfeito e pouca paciência para rodriguinhos. Há três coisas infinitas: o universo, a estupidez humana e as versões desta frase de Einstein.
 
Isto é tudo muito bonito, empatia, privilégio e os demais vocábulos de papagaio mas o que é certo é que basta uma noite mal dormida para o diplomata pôr a sua carreira em risco. E quem diz carreira diz pescoço.
 
Está bem, Confúcio, é melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão, mas porra, um gajo desfeito tem de se entreter com alguma coisa.
 
Oxímoro: modesta opinião. Se é opinião não pode ser modesta. Estamos conversados.
 
Não vou na cantiga dos artistas genuínos, só acredito quando vejo um homem esmagado pela vida. O resto é performance. Não me bombardeiem as vistas com teatros medíocres.
 
Se o humor desaparecer, a gigante começará a temer o anão.
 
Adie tudo, a menos que seja uma discussão. Evite ofuscar os medíocres, preferencialmente se não estiver disposto a levar no focinho.
 
Será que é mesmo necessário? Eis a minha resposta universal às ordens que me lançam.
 
Isto está uma merda, dir-me-ão. Já estava assim quando eu cheguei, eis uma das poucas frases que nunca poderá ser dita por Deus.
 

Império das Aspas


Roberto Gamito

13.11.22

O mundo não desconfia que se move conforme o meu plano. Fantoche assíduo nas mãos de Deus. O mentecapto explica:
a capacidade de alfabetizar o público com o fogo pertence ao passado. Contentem-se com esse refrão de aleijados.
 
Se não vos inquieta nem um pouco este bloco de gelo feito crisálida, apelidados por uns por outros de século XXI, dentro do qual mamutes e bichos cacaquéticos catequizam as cabeças em flor, cérebros empanturrados de factos cuja mão emperra a ponto da catástrofe diante da necessidade de dar o salto. O poeta explica: as Sibérias caseiras satirizam o dia em que o Diabo não se conseguiu efectivar diante Deus.
O inferno é tão-somente uma paródia de uma gaiola.
 
O gigante que lutava contra o alfabeto assassino calou-se. Romantizámos os pequeninos. Cada um é tanto Liliputiano quanto Gulliver. Tens medo da escuridão? Nada temas, basta um homem para iluminar o mundo. Do Paraíso não colhi nada a não ser o desespero de Botticelli ao dar-se conta que lhe faltava talento para pintar a salvação no abismo de Dante.
 
Falemos antes do dia em que omnipotência de Deus foi posta em causa. Temos de recuar bastante até um tempo em que o Narciso era uma figura patusca e marginal. Houve um momento em que o riso cilindrou a cólera divina. Quando, no inferno, Luciano e Diógenes riam sem entraves: eis o pesadelo dos deuses, poetas de perna curta e comediantes acagaçados. Urge recuperar um riso capaz abalar os pilares da criação, um riso qual seta envenenada rumo ao coração da ordem postiça.
 
*
 
Ó meu animal sem direito a nada, desdenhando uns e divinizando outros à queima-roupa, atulhando o teu desnorte com notas de rodapé, teimoso até mesmo com olheiras, aguentemos a porrada, os insultos e os aplausos, o sabor da vida passou-se para o lado da lendas; risos enlatados, textos enlatados, personagens e deuses enlatados, artistas que mais valia estarem numa lata, eis o miolo afadigado do homem contemporâneo.
 
Ridicularizo-me segundo as normas. Isso humaniza-me e ajuda-me a ingressar na feira das vaidades. Enquanto uns semeiam ódio, há quem seja mais prático e semeie dinamite nas entrelinhas, há-de rebentar com fileiras inteiras de exegetas, haters e bajuladores, o século há-de rebentar, uma pirotécnica de afónicos e papagaios. Não vos guardo rancor, guardo-vos num ponto para que nunca me esqueça da vossa dimensão, a parte boa é que trarão à tona as cosmicómicas de ITALO CALVINO, um tipo incontornável nestes temas.
 
O currículo é um tratado de humor se for proferido com a cabeça no cepo. Onde pensam que eu tenho estado este tempo todo?
 
Desentulhar obras como quem procura cadáveres de deuses caídos debaixo de migalhas. Eis um labor como qualquer outro.
 
Tens de humanizar o personagem. Humanizar mas é o caralho. Não vos guardo rancor, guarda-vos antes numa câmara anecoica, talvez assim compreendam. Com que então agarrados às vossas certezas? Quer me parecer que só precisam de estar a sós com o vosso sangue para enlouquecerem.
 

refrão de aleijados, Roberto Gamito


Roberto Gamito

12.11.22

A narrativa tem molde de sarcófago mutante. A sede do outro propõe-nos negociação, algumas soluções finais, a saber: um directo para as redes sociais com a morte, em que cadáver e Ceifeira sorriem para a câmara. Mercadejemos, meus irmãos ontem verticais, o inferno inesgotável, à revelia do Canhoto. Recuemos uns milénios, decapitemo-lo, ao Diabo, mas primeiro urge lavar as mãos, seria uma pena contaminar a cabeça do chifrudo com as nossas noções de paz. De seguida, espero que estejam a acompanhar a receita, diz o bárbaro-poeta cuja mão canora, feita machado, é um poema de Kaváfis, pousem o cérebro nas placas de argila, no papiro, no pergaminho, no papel ou no ecrã, é à vontade do freguês.
 
A interpretação é uma farsa, uma ficção suprema, mas é tudo o que temos.
As coisas como são
mudam na viola azul, traduz Wallace Stevens.
 
Esquecendo os comediógrafos afogados pelos alvos das piadas, esquecendo o rígido Platão, e o mais maleável Aristóteles, descartando o nado-morto que foi a Comédia Nova de Menandro, sublinhando a bufonaria dos banquetes, Aristófanes que soube dançar ao rés do cadafalso, Demócrito, o sábio, cujo riso desorientava os medíocres, ou respeitando o apodo da altura, o hilário de Abdera, que apoucava tudo e Heráclito, o chorão de Éfeso, que dramatizava tudo, qual activista à frente do seu tempo, sobra-nos a relação tensa entre o riso e a lucidez. Eis-nos chegados ao núcleo.
 
O comediante encontra na folha a sua harpa, mesmo no arengar dos seus engodos. A hipocrisia colectiva não é senão uma sinfonia de iscos. A arte, que há dias tornava o fardo suportável, escapou-se-nos entre os dedos, doridos de tantos afagos. Acariciar o ego alheio com vista a saltinhos na hierarquia ficcionada tem o seu preço. O coração rufa como um tambor nas mãos do amador. O discurso apinhado de alíneas, o paleio pós-moderno, armou uma cilada às crianças aperaltadas de adulto. A má-fé, erva daninha que armadilha o diálogo antes da asfixia. Agrimensor ébrio do seu próprio eu, eis o retrato do homem contemporâneo.
 
Enquanto arranho o assunto, recordo-me de Luciano de Samósata, que ressuscitou o riso triunfante vindo dos deuses, o riso enquanto dialecto do caos. A liberdade tornada som.
 
Platão nunca perdoou Homero o riso inextinguível dos Deuses. Por conseguinte, vingou-se em levas de rabugice da poesia e da comédia. Não me espantaria nada se se descobrisse que há dedinho do filósofo sisudo no desaparecimento da segunda parte da poética de Aristóteles. O sorriso é neto de Platão. Uma das suas maiores conquistas.
 
Durante uma das muitas incursões às profundezas do eu, esse grande império povoado de fantasmas, esse abismo sem pés nem cabeça, recordei-me do riso selvagem de Luciano, de quem se disse tudo, excepto coisas boas. Luciano, o humorista supremo, que troçava de tudo, superiores e inferiores, era bordoada de três em pipa que era uma maravilha, e nem os deuses escapavam. Para alguns, Luciano era filho do diabo, de tantas vezes que entrou e saiu do inferno. Aquele riso não podia ser humano.
 
Romantizam-se os colhões, argumentará um discípulo de Menandro. Face ao monstro cujos barrocos cacarejos se destinam a domesticar o riso, a reduzi-lo a mais um traço de um rosto maquinal, necessitamos que o dinamite faça das suas na arte do parasitismo, é a única solução. Como disse o outro, filosofar com o martelo. Sei que custa engolir, mas a confusão nunca será resolvida com um refrão, ó fantoches do eco.
 

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