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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

21.06.22

Carne!, que bela palavra — melhor só saboreando cada sílaba apoeticamente, que é como quem diz, no prato ou no pão. Deixada à sua própria sorte num universo sem Deus nem acólitos da chicha, foi perdendo envergadura e a pouco e pouco foi relegada para o escaninho dos diálogos. Certamente é esse hábito de procurar a luz (leiam virtude se não quiserem recuar tanto) em sítios  insuspeitos — essa obsessão com a pureza e a genealogia dos actos que nos empobreceu o prato. Caso fosse amigo das saladas, e os meus ídolos mais saudáveis e pródigos em desculpas, e entoasse o canto desafinado, entornando-o sobre os frágeis carnívoros, os quais, banqueteando-se sem vontade nesse rodízio de explicações enobrecedoras, tais como, o meio ambiente isto, os animais aquilo, coisas que lhe sabem ao mesmo, frases sem sal incapazes de espicaçar a gula.

À medida que o palco da carne foi sendo vandalizado e surripiado pelos mongóis das couves, e a responsabilidade se transfigurou numa deidade vingativa e tonitruante, os amantes do churrasco foram estigmatizados, pelo que o acto de nos passearmos de tronco nu com uma bejeca à volta do barbecue pode estar votado à extinção. A indústria da culpa cilindrou mais um inocente: o amante da chicha.
Contudo, os devotos da carne impacientam-se em guetos, provavelmente engendrando uma teoria capaz de ombrear com a das verduras— até hoje sem sucesso. Longa vida à dinastia das saladas. Resta-nos esperar pelo Evangelho da Febra.

Invadir o círculo encantado dos paladinos das verduras e resgatar um pouco de razoabilidade não é tarefa fácil. A cólera catapultada desses seres de paz, assim diz a brochura, é inesperada e inesgotável. Os vegans vociferantes espezinham qualquer um que tenha a má decisão de levar uma entremeada à boca. Como diz o escritor, cada passada é um acto de tomar posse, as solas rangem de impaciência. Os rodízios metamorfosear-se-ão em casas de sopas.
Citando outro ilustre, é necessário uivar com os lobos, acrescento da minha lavra, improvisar a nossa animalidade enquanto palitamos os dentes e damos aos restos a oportunidade de ingressar no estômago. A tensão entre vegans e amantes da carne é, à falta de melhor termo, um afastamento da mensagem cristã. Onde antes havia uma maçã interdita agora há uma entremeada. Assim estamos de regresso à infância: quando os crescidos nos interditavam as vitrines apinhadas nas pastelarias: “isto não, nem aquilo nem nada do que está exposto, os bolos fazem mal à saúde, ou pedes um bagaço ou estás calado”, eis como se trabalha no Baixo Alentejo. 

Cabe-me a mim, enquanto historiador cujo labor é coleccionar os cumes da estupidez humana, citar um momento alto das cabecinhas contemporâneas, as quais atafulham as redes sociais com ecos estropiados. "Não se deve brincar com o veganismo." Hoje, para ganhar o favor dos críticos de pacotilha, devemos evitar fazer algo bonito do domínio do humor e baixar orelhas a tudo e todos. Felizmente, não sou daqui, sou turista neste século arruinado. Quando o pensamento e as ideias evaporam, como inevitavelmente acontece quando o eco se torna rei e senhor, o conhecimento e o pensamento é substituído por uma cultura de pechisbeque. Somos filhos do urinol, mas calma lá: ainda não joguei a toalha ao chão; a arte está morta, mas só descanso quando a ressuscitar, nem que para isso tenha de recorrer ao chapadão. À partida, isso parece difícil, porém é por aí o caminho do inédito. Nestes temas, o falso intelectual convida-nos à crucificação de molde a gerar a sua auto-ilusão, abatidos pelo linchamento, os comediantes são a bateria viva do seu mundo de fantasia. Chega de ver o século do alto, vamos lá ao humor. 

Migremos para este cenário: uma mesa rodeada em princípio por portugueses (1) sob a qual jaz um cão sonolento. Saliente-se um detalhe crucial: são portugueses vegans. Estão a sorrir e a dialogar ao som de dentadas nos vegetais— que selvagens, pensarão os amantes da febra, e com razão. Outro detalhe: o cão foi recentemente adoptado por um dos elementos da mesa, ou seja, não está ciente dos costumes dos sacerdotes dos legumes. Entretanto, cai uma cena da mesa. O cão desperta da sua vigia sonolenta, entusiasma-se e de seguida descobre que é só um bocado de repolho. Foda-se, que vida de cão (2), cogita o patudo (3), para isso tinham-me deixado na rua. Suspeito que, após a viver este inferno, que é ouvir uma coisa a cair da mesa vezes sem conta e dar-se conta que são legumes, há cães a apanhar depressões profundas.
Eu não merecia isto, cogita o canídeo, pensava que éramos os melhores amigos. Sejamos humanos, comamos animais — tantos animais quanto pudermos — para cumprir o propósito de fazer os nossos cães felizes. 

Como se isto não bastasse, os alimentos estão a perder sabor. O zénite deste desconsolo é comer um belo bife divorciado do seu sabor num prato sem alegria e harmonia no tocante às cores. Há designers que têm AVC só de olhar para a combinação de cores de certos pratos. 

Tal desarmonia no prato revela um profundo ódio ao glutão, o qual é incapaz de ignorar o ideal de beleza. Mandamos vir um prato cujo intuito é nos recordar o Nascimento de Vénus de Botticelli e apresentam-nos uma Guernica. É assim que as depressões aparecem. Mas onde mora o problema, perguntam vocês com a pança a dar horas. 

O mal disto tudo reside nos restaurantes gourmet, melhor dizendo, a tentativa de imitação por parte de restaurantes modestos. O empratamento que é artístico no gourmet é, no estaminé modesto, um terreno no qual foi despejado entulho. Se os olhos também comem, e daí que faça questão de armar a puta numa cabana gourmet e sair de lá com um olho roxo para não envergonhar o ditado, é igualmente verdade que, alguns restaurantes, ganhávamos mais se comêssemos de olhos vendados. O empregado de mesa chega-nos com uma tragédia no centro do prato e pensamos: "este prato não é resposta aos meus problemas de auto-estima". Quero comida capaz de transformar o mais ferrenho sedentário numa lebre turista. Regressemos aos fanáticos das sopas. Nunca viajei entre colheradas no caldo verde; todavia já me senti um Fernão de Magalhães num rodízio de carne. Os habitantes deste século dotados de horror ao naco, cuja labuta é injectar vergonha nos carnívoros, não podem descartar este lado: a jornada. Quando ferro o dente no naco, sinto-me a passear nos versos da Odisseia de Homero enquanto trinco e arroto poeticamente: “Pénelope, já vou, deixa-me só comer mais uma dose de picanha”. 

Apontemos o nosso cérebro enfezado para o restaurante gourmet. O que é aquilo? Eis a pergunta que fazemos diante de um quadro de Hieronymus Bosch ou de uma pratada sofisticada. Consintam que seja possuído pelo senhor Eça de Queiroz. Eis-me preparado para descrever o prato: no centro do prato jaz um objecto não identificado, que às vezes não é carne nem é peixe, e outras ambas, coberto de várias camadas de sofisticação e barroquismos, a saber: molhangas compósitas, caramba, nunca é um molho que caiba numa palavra, do seu nome não podemos esperar menos que um Homem Sem Qualidades de Musil; o cadáver incógnito é polvilhado por ervas que, não contentes com o seu nome original, são rebaptizadas como se fossem um nobre. Não é suficiente nomear a erva, é preciso acrescentar os mil apelidos, o seu nome em latim, a sua origem, a hora em que foi colhida. Calma, eu vim para comer, não sou médico de família, não me atravanque a cabeça com as suas dores. O prato parece uma mulher enfarpelada para ir a um casamento — enverga um penteado só para aquele dia. 

Nunca fui a um restaurante gourmet por vontade própria, sou gordo e tenho outras necessidades, mas há um pormenor que merece ser abordado. 

Eu, como outros indivíduos mais desconfiados, tenho medo que as ervas me firam as tripas. Como tal, caso me apanhe nessa situação, irei encetar uma operação delicada de modo a remover essa bagunça daquilo que, a meu ver, é comestível — uma migalha. Começo a suar e digo: “bem, vamos lá avançar para uma cirurgia delicada.” Objectivo: remover com segurança a chicha desses escombros barrocos.

Se nos tirarem a carne, tirar-nos-ão o lado social. Falo por mim, só socializo porque vou comer carne. Não me vão arrancar do sofá se o jantar for alcaparras e alcachofras. Resido neste corpo vai para três décadas, a contragosto, as rendas estão caríssimas, e não posso escapar às obrigações que a gula me impõe. Não ignoro que vivemos numa era em que a maçã é fluída, é carne, peixe e o mais. Se fosse hoje, Eva teria sido expulsa aquando da primeira trinca na entremeada. Disse-te para comeres a puta da maçã, Eva, grita Deus, era a única coisa que podias comer e tu não me deste ouvidos. Eu como aquilo que me faz salivar, retruca a Eva. Então come-me, brame o autor desta crónica.

 

  1. Reza a lenda que os nobres britânicos, fartos da caça à raposa, arranjaram um método de caçar portugueses. Punham uma mesa farta de acepipes no mato e era vê-los, aos tugas, a sair aos pinotes dos arbustos. 
  2. Isto não é ficção, é a tradução dos seus latidos. Tirei um workshop de fabulista na Golegã e encontro-me certificado para entender profissionalmente qualquer bicho doméstico. O próximo passo será entender os selvagens para que, de uma vez por todas, perceba a razão pela qual os bichos buzinam assim que o sinal verde do semáforo cai. 

  3. A primeira vez — e deus queira a última — que escrevo patudo. 

 

comam carne


Roberto Gamito

28.01.22

Quem nasceu primeiro: o voto ou o influencer? Se vadiarmos pelas redes sociais por estes dias dá a ideia que o influencer inventou a democracia num guardanapo, cinco minutos antes de mais uma sessão fotográfica. Nada o fazia prever: promotores de cremes, divulgadores de banalidades requentadas, papagaios versados em língua inglesa, empresários de filhos bochechudos, capazes de ir até aos confins do útero para monetizar o crescimento do pintelhito com vida, brindam o circo dos papalvos, não com imagens de locais paradisíacos, as tais migalhas para o bico do pobretanas, mas com a democracia — essa coisa pouco fotogénica, pelo menos segundo os padrões do World Press Photo. Ora, eu, enquanto privilegiado não praticante, não tenho voto na matéria, nem voto na luz. Seja como for, não é disparatado comunicar-vos que o influencer pegou no ceptro da condescendência e transformou-se numa espécie de missionário em terras de selvagens. Não sabem o que é o amor? Eu catequizo. Não sabem onde fica a Tailândia? Eu mostro. Ignoram que farpela escolher para um date? Eu auxilio. Não sabem distinguir o bem do mal? Eu doutrino. Não sabem ser verdadeiros e genuínos? Eu ensino-vos, deixem-me só acertar no tom de voz.

Se, na hierarquia dos estúpidos, o influencer ocupa o primeiro lugar, o tal cume reservado os antigos sábios, os quais foram escorraçados pelo Altíssimo por não terem pago as despesas do Nirvana, o sensato é uma figura que não destoa na prateleira dos mitos. Haverá algo mais humilhante para o Homem do que sentir que a voz que vem de cima é a de um boneco cujo cu é disputado por uma multidão de ventríloquos? Trata-se de um cu cantante regateado pelas marcas.

É necessário possuir um ego do tamanho do cosmos de molde a pensar da seguinte forma: caso eu não diga nada, estes labregos com a quarta classe mal tirada até se esquecem de ir votar. Eis a constelação de umbigos enobrecidos pelos números das redes sociais a cuspir pepitas das suas torres de marfim. Na cabeça deles, mudam o mundo; fora do seu mundo, o mundo permanece o mesmo.

Prosseguindo com tiques de vedeta nessa senda do Outro, disfarçamos bem a nossa loucura. Pensam, em nome de um mundo melhor, esmagar o eu, quando, na verdade, não passa de uma sofisticada manobra de diversão. Que grandes sonhos, comparados com os dos influencers, não se revelariam insignificantes. Alexandre, o Grande não é ninguém ao pé de um influencer com um milhão de seguidores, o qual, numa legenda de uma foto de rabo engalanado pelos filtros, educa os seus adeptos analfabetos.
A vontade de doutrinar a toda a hora, levada até aos meandros das sílabas, enoja-me. Desmascara o falso paladino da humanidade. Com efeito, não acredita no Homem, na melhor das hipóteses, vê nele um semi-boneco de plasticina que, graças às suas mãos divinas, tornar-se-á uma criatura apresentável.

Rejeito a sedução de um Eu cantante. A megalomania dos novos conventos apinhados de puritanos cheios de manhas, quando nos bastidores funciona um bordel, dá-me vontade de dinamitar o mundo. Nas palavras de Cioran, o niilista entre os niilistas, quem não admite o seu nada é um doente mental. Creio que estamos diante de um diagnóstico acertado. Malucos a doutrinar malucos: o universo cresce para albergar tanta loucura.

A opinião pública, isto é, os curadores de deuses, deixa-se ludibriar pelo espectáculo das luzes e pelo corrupio de sofrimentos de pacotilha. Mártires por geração espontânea, agendam dores para receberem a bênção do algoritmo. Obrigado, caros influencers, meus excelsos lembretes com pernas.

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Roberto Gamito

27.01.22

É impossível respirar num domínio estranho à metáfora. É vital transportar a urgência do salto para as palavras — elas que vivam a vida que fomos incapazes de alcançar, elas que voem por nós.

Qual moço de recados, o intelectual actual, mais amigo do entretenimento do que da arte, recebe sem entraves as ideias do cliente, mudando a sua postura e preço conforme as ocasiões. As pernas abertas substituíram as mentes abertas. Concedo, é uma atitude muito mais lucrativa. Prodigalizando os seus gemidos, simulando orgasmos de cada vez que ouve um papalvo pronunciar uma baboseira, apressa-se a montar a ponte fantasiosa da empatia, em suma, propõe modelos de comportamento que rivalizam com os de uma gelatina. Adapta-se a tudo como um rato. Se fosse sério, diria: “tudo quanto sei aprendi-o com uma prostituta”.

Embora não perceba peva de humor, especializa-se no riso difícil. Os Homens, para ele, não passam de pichas endinheiradas. Tenta pôr à venda a sua amargura de pacotilha, a qual em tempos já teve mais saída, deitado, ficciona a sua cruz, qual dragão, no topo de uma montanha de dinheiro amiúde sonhada. Foge dos problemas essenciais, dado que é conhecedor desta verdade absoluta: quando alcançamos as profundezas, os problemas conduzem à bancarrota e deixam a fragilidade do intelecto à mostra. Presentemente, ir ao fundo é interdito.

Pintemos o retrato do intelectual contemporâneo. Tudo lhe é hostil: a sua solidão, a intrepidez de rasgar as convenções, os deuses que povoam o silêncio, os demónios que lhe segredam aos ouvidos e o manifesto nada. É um ilustre embusteiro. Ignoro como logra ficcionar a sua verticalidade sem se desfazer em lágrimas. Ele, e os seus confrades mais acanhados, os quais pararam a meio caminho, uma vez que não profetizaram qualquer gratificação no cume, fecundam com esporra importada, isto é, citações, o percurso dos néscios. Ei-los, papagaios armados ao pingarelho, investigadores da superfície e agricultores sem mão, amantes de vertigens desérticas, destituídas de frutos, angariadores de cus ambiciosos, entretidos a transplantar a sua mediocridade para o plano universal.

Se o pensamento se assoma à ponta da língua, fazem marcha-atrás e arrumam o discurso na trivialidade. Escravo da visão literal, o intelectual fica cercado pelo seu próprio ego. Epígonos estéreis do primeiro papagaio virtuoso. Depois de tais palavras sobre o intelectual e seus filhos, uns e outros tão maravilhosamente amontoados na pilha dos inúteis, creio termos adquirido o direito à banalidade sem nos sentirmos culpados.

Intelectual contemporâneo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

10.01.22

De qualquer perspectiva imparcial, tenha ou não existido com poderes dignos de figurar nos filmes da Marvel, Jesus é reconhecido por crentes e incréus como tipo porreiro. Jesus, como mensageiro do amor, tornou-se uma figura excepcionalmente popular e hoje é o ponta-de-lança da religião com mais adeptos.

Versátil, pronto a curar leprosos e erigir pequenos e grandes Lázaros de ataúdes, Cristo foi amealhando simpatias graças à cinética dos alegados milagres. Nos bastidores desses episódios — e isso fá-lo palpavelmente humano — foi enceleirando detractores mais ou menos subtis.

Para citar Lotário di Segni, isto é, o Papa Inocêncio III, todos os seres humanos são Job. É uma bela ponte entre o filho de Deus e o Homem. Dou-me conta da ousadia. Discorremos sobre Jesus, como se não houvesse séculos a separar-nos. Eis-me retratista do quase impossível.

Ingressarmos nas questões de Deus constitui um laboratório no qual, a partir de uma vaga inquietude, se destilam várias espécies de gritos. Para lá de todos os precipícios, encontra-se uma vontade primitiva de dar nome a essa luz que não cessa.
A meio da queda, com o auxílio in extremis do Altíssimo, o Homem adquire asas que o afastam, por momentos, da morte. Até quando?, questiona o mais impaciente.

Segundo o crente pacificado com o silêncio, encontrarmo-nos com Deus é um relaxamento face à ideia de morte. Para lá de toda a trivialidade, para lá de todas as cacofonias que enformam o nosso parlapié de futuro defunto, há uma migalha com ânsias de germinar, hábil em iluminar o nosso humilde caminho.

Em jeito de súmula, o Homem aproxima-se de Deus porque procura domesticar o que lhe foge. O problema não reside em acreditar ou não acreditar, mas sim na consequência nefasta do narcisismo galopante. Nas palavras de Peter Sloterdijk, ao deixar de pôr Deus acima de todas as coisas, o Homem ingénuo ou ganancioso, semelhantemente a Satã, escolhe-se a si mesmo como o seu objecto de eleição. E eis a queda.

Abandonemos a esfera da queda, quase não exige esforço desmontar a pose ficticiamente vertical do homem contemporâneo. Depois de Deus, a verticalidade é uma fabricação suspeita, engendrada por hipócritas que se pavoneiam em frente a uma turba de ingénuos.

Detenhamo-nos por um momento em histórias paralelas, uma das quais engendradas por Judeus. Há uma história apócrifa — que é como quem diz, rumor — segundo a qual Jesus é filho de um soldado chamado Pantera — belo nome —, resultando daí que Maria era uma espécie de prostituta disponível nas pausas dos eventos bélicos.

Só há duas formas de estar na vida, dois estilos diametralmente opostos: 1) passar por tudo, 2) prescindir de tudo.

O jejum do coração e do cérebro, quanto a mim, não me parece escolha saudável. Afastarmo-nos cinicamente das coisas não me parece a coreografia certa — é antes uma arma romba da sapiência contemporânea. O cínico olímpico cai na esparrela de florear a seguinte ideia: tudo é outra coisa, tudo o que vejo é pretexto para outra coisa. Têm predilecção por polemizar tudo aquilo que tocam. Afadigam-se na teorização da jornada e do cerco. Fazem de tudo para não dar um passo em frente. O cinismo, de facto, é porta-voz da ruína interior. Entronizam-se venenos a fim de dar consistência ao nosso desnorte, eis a criatividade pós-queda.

A palavra, doença ou terapia tartamudeada por outro, encontra-se hoje numa situação frágil. Tanto pode repelir como aproximar dois estrangeiros. Gaguejada não pode constituir promessa alguma, ao passo que se vier categórica é-nos suspeita.

A paixão, o amor, amizade, por assim dizer, nessas províncias de difícil acesso ao homem contemporâneo, carecem de itinerários fixos. Falar é importante, abrirmos o coração é indispensável, pôr o miolo em canção é necessário. Tudo isto para andar às voltas do dito Agostiniano: “A recompensa da confissão é que quem diz a verdade chega à verdade.” Longe do domínio senhorial do umbigo, habitar essa verdade é passar a dor a limpo, purificá-la e fazer as pazes com o passado.

Mas estaremos nós a pensar bem? Deixarmo-nos inundar pelas palavras de Deus conduzir-nos-á a um sítio melhor? A tensão intelectual associada à resposta começa a desaparecer, dado que não pode ser articulada em palavras. Mas regressemos a Jesus, será ele um representante imaculado do Amor?

Com efeito, Jesus foi alvo, ao longo das eras, de sucessivos retoques enaltecedores claramente tendenciosos. Fizemo-lo crescer em luz com os restos da realidade e exagerámo-lo como quem não tem escapatória senão a hipérbole.

Jesus. (João 2:4)
“O que tem isso que ver contigo, mulher?”, deixa com a qual cortou a palavra à Mãe, Maria, nas bodas de Caná.
Não me parece que tenha ficado muito bem na fotografia.

De um ponto de vista embriagador, uma das questões mais decisivas, presente no livro de Lucas. Outra vez Jesus:
“Julgais que vim para estabelecer a paz na terra?”

E por último, não me recordo o livro:
“Se alguém vem ter comigo e não odeia o seu pai, a sua mãe, a sua mulher, os seus filhos, os seus irmãos, as suas irmãs e até a sua própria vida, não consegue ser meu discípulo.”
Dá ideia de que o amor ficou para segundo plano.

Neste ponto, a distância temporal é mãe de todas as interpretações. O Homem lá foi tentando suavizar a postura de Jesus com contratextos, porém a dúvida persiste. Em todo o caso, há sempre a hipótese de nos tornarmos outro. Com ou sem auxílio divino, a metamorfose continua alcançável.
“Em toda a parte se encontra um Jordão.”

Deus dissecado pelo depois, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

28.12.21

Eis o nosso assassino. De estatura mediana, era de compleição delgada, a tender para o magro mas sem ferir as vistas, braços capazes de carregar uma saca de cimento sem lamúrias, naturalmente musculado, que é como quem diz, músculos criados no campo sem recorrer a rações cheias de químicos, sem carnes adicionais que, em ocasiões de disparos fotográficos, nos envergonham a bom envergonhar. Todavia, esta não é a descrição do assassino. O nosso personagem era um tipo normal, tão normal que é impossível decompô-lo em atributos sem adormecer.

Sob outros aspectos, porém, a sua aparência tinha algo de encantador. Refiro-me, pois, ao inventário mental. Aquela cabecinha era um hotel de demónios e fantasmas. Pelo menos é assim que o vejo e não há tempo para o confirmar — por ora contentemo-nos com a especulação. Dir-se-ia, admitiu a minha confiável informadora, a qual estava vestida de enguia, que naquelas veias corria sangue vermelho. E — ousadia da parte dela— o sangue de um verdadeiro assassino e poeta. De que modo as veias deste sujeito conseguiam albergar tanto sangue permanece ainda hoje um mistério.

Não daria o meu patrocínio a tão absurda informadora, confidenciam-me. Em boa verdade, tenho de labutar com o que tenho, não há orçamento para contratar melhor. Se tivesse meios, adquiria os serviços de uma informadora enfarpelada de hiena.

Embora me contradiga um pouco, felizmente estamos no século XXI em que a contradição é o prato do dia, urge dar-vos um lamiré sobre o nosso assassino. A cara dele foi o que o conduziu a essa vida. De facto, a face, que a turba via como velhaca apesar de ser uma jóia de moço, contribuiu desde tenra idade para o seu êxito junto de alguns dos zaragateiros mais famosos da aldeia. E de soco em soco lá traçou o seu caminho. Humilde, principiou pelo soco, avançou com a medicinal cadeira nas costas, passando pela cabeçada carinhosa. Um dia foi acometido por uma epifania, qual pessoa devotada à sua arte, e disse: “Se quero continuar a progredir na carreira de zaragateiro, não posso continuar a distribuir papo-seco a qualquer macaco, preciso, como se diz hoje, de expandir o meu portefólio de velhacarias. Vou começar a matar pessoas." Os três ou quatro gatos-pingados esmurrados minutos antes concordaram com a sua decisão e de seguida foram para casa inventariar nódoas negras.

Ao contrário do que costuma suceder quando abrimos negócio, o nosso assassino, vamos chamá-lo Irineu, teve a ajuda do seu melhor amigo — o qual se ofereceu para morrer às suas mãos.

Sobre a história que correu, na altura, sobre as relações de ambos, e que, verdadeira ou inventada, nunca foi oficialmente desmentida, nada tenho a acrescentar de extraordinário. Há quem afiance — atentem bem nas más-línguas —, que não passou de um ajuste de contas. Poucos são os que vêem no sucedido um acto de verdadeira amizade, do género: “Precisas de ganhar confiança na tua arte, terá dito a vítima, ofereço-me, assim como assim já não faço nada de jeito com a minha vida”.

Entretanto, os minutos perderam a noção do tempo e passam a horas, as horas a dias, e a areia vai escorrendo da ampulheta a um ritmo estonteante, tanto que nos mijamos nas cuecas — sim, envelhecemos. Caramba, não avancemos já para o fim; recuemos para idades menos provectas.

Como qualquer pessoa metida em negócios, o assassino tinha as suas preocupações. Começamos com sonhos e acabamos com dívidas.
As dívidas atormentavam-no, o lucro que retirava dos assassínios não dava para cobrir as despesas. Irineu não era menino para desanimar. Porém não há forma de fugir à realidade. Com efeito, o dinheiro começa a escassear e principiou a cortar — perdoem-me a brincadeira — na qualidade das facas. Era vê-lo, de madrugada, colado à televisão a babar-se ante os anúncios de facas supostamente fantásticas. Nunca vou poder exercer a minha profissão na sua plenitude. Ai, que triste fado o meu, lamentava-se o nosso assassino sem posses.

A qualidade das suas ferramentas diminuíra a ponto de começar a assassinar por prestações. Por sorte, a vítima não era alheia à situação financeira de alguém nascido num berço de palha. Ao ver o assassino desolado, consolava-o: “Não chores, camarada, já me fizeste um corte no pescoço, o mais difícil está feito, amanhã vens cá e acabas o trabalho.”

Evidentemente, havia quem não quisesse morrer — gente dessa há em todo o lado. Não morrer, comentava Irineu, acarreta uma certa má vontade e, consequentemente, um maior dispêndio de energia e tempo. Veja lá se percebe o meu lado, sou assassino, não sou palestrante, o meu ofício não é convencer pessoas a ir desta para melhor. O que quer que eu lhe diga, ripostava a eventual vítima, não acho jeito ser assassinado. Pronto, vai obrigar-me a nomear as vantagens de permanecer morto. Convença-me, tenho todo o tempo do mundo, retruca a vítima, tem o senhor, comenta Irineu, mas eu não tenho, ainda queria matar outro desgraçado antes do jantar.

Irineu não logrou acompanhar o mundo. Os preços das facas aumentaram (já para não falar da mania de muscular os pescoços) e ele, que matava por amor à arte, já assassinava — ou melhor, tentava — com faquinhas de plástico, daquelas que levamos para o piquenique. De respeitado carniceiro passou a anedota. Ali vai o ex-assassino, gritava a turba com uma toalha de piquenique a servir de turbante.

Foram tempos difíceis, começou a aceitar trabalhinhos, ele que antes dizimava uns e outros sem receber algum. Na melhor das hipóteses, rapinava o que havia na carteira. O seu tesouro? Uma arrecadação apinhada de caixas de sapatos nas quais abundavam talões multibanco. Seja como for, teve de se fazer à vida.

Certo dia, encarregue de apertar o gasganete a um gajo qualquer, foi dar com o sacana dentro de um poço. Sentiu que a morte se adiantara, que lhe andava a retirar o pão da boca. Pode ser que dê, pensou Irineu. Com efeito, era indispensável que o cadáver fosse içado cuidadosamente do poço para que não raspasse nas paredes do poço. Esfoliei-o até à morte, eis uma frase que estava fora de questão. Teria de dar um jeito à cara verde — lá teria de recorrer à maquilhagem da filha mais nova. Uma vez levada a cabo esta precaução preliminar, apresentou o corpo a quem era de direito de molde a receber os 50 paus — sim, neste país não se dá valor aos artistas. Ah, mas este não é o Carlos. Foda-se, disse Irineu num tom de tenor. Cansado de tantas dificuldades, desistiu do nobre ramo do assassinato e abriu uma rulote de bifanas, negócio que gere com êxito estrondoso desde então. Ao que parece, as pessoas estão mais dispostas a comer bifanas que a morrer.

assassino sem posses

 


Roberto Gamito

11.12.21

a verticalidade — a ficção suprema

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a verticalidade — a ficção suprema
é sempre a mesma estranheza estremunhada
a interpretação soluçante e com isso a condenação

Continua aqui: Medium

 

este poema não é a música a que tu chamas casa

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este poema não é a música a que tu chamas casa
é um bárbaro ganhando estatura entre o amor e a morte
é o cavalo-súmula de todas as corridas escarnecendo das apostas

Continua aqui: Medium

 


Roberto Gamito

03.12.21

Em tempos sombrios, o homem é engodado por pirilampos oportunistas. Melhor dizendo, o cadáver de Deus é reaproveitado como marioneta-farol. No caso de sermos ingénuos, diremos: a luz é sempre uma luz. No caso de sermos cínicos, questionar-nos-emos sobre quem comanda a luz.

O Homem é o cadáver esquisito coligido por várias gerações. Tem uma parte subornável, uma parte risível, uma parte medrosa, uma parte heróica, uma parte fluída, uma parte rígida, uma parte animalesca, uma parte cínica, uma parte romântica. Cada uma dessas partes tem a cabeça a prémio: não são apenas frágeis, flutuantes, províncias que podem ser atacadas, destruídas ou convertidas noutras partes.

Nenhuma lei determina o fim da sede de sangue nem tão-pouco extingue o animal que habita em cada um de nós. A lei é, a par de Deus, a maior ficção criada pelo Homem. Segundo Nietzsche, a lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Como vivemos num século em que o Homem é inábil em mastigar verdades mais duras, talvez seja útil amolecer a frase anterior: a aplicação da lei exprime o triunfo dos fortes sobre os fracos. Se assim é, a justiça é uma ficção. Se a lei é incapaz de reparar injustiças, torna-se uma espécie de doença colectiva, pois a doença, nas palavras Deleuze, separa-me também daquilo que posso. É uma selva injusta: há animais livres a matar animais acorrentados.

Em O Homem que era Quinta-Feira, Chesterton, admirável prosador e ironista, chegou primeiro que o século XXI à encruzilhada desarmante: “Não acreditam que o crime criou o castigo, mas sim que o castigo criou o crime”.

A lei é o açaime educado que, ao ser plantada no mundo dos Homens, permite um certo grau estabilidade com o outro, permite a comunicação e o comércio e, no limite, agrilhoa o animal interior — por outras palavras, adia a sede de sangue.
A cobardia ou o cansaço permitem que a nova lei assente arraiais.
A lei torna-se assim, quase perversamente, uma área controlada, como um infantário, um dique que impede a expressão torrencial da força.

A lei é um tranquilizante, mais ou menos potente, disparado contra a fera que é o Homem. O seu fito é acalmar o nosso instinto violento que domina as relações entre seres humanos.
Todavia não tem um efeito duradoiro. O que a lei faz é adiar e não eliminar o instinto animalesco. As doses aumentam, porém a resistência do animal ao tranquilizante também. Até que chega o dia em que o animal apouca o efeito do tranquilizante e a lei se esfuma.

A lei tem como antepassado e herdeiro a violência. A lei é uma pausa entre duas carnificinas. É um recobrar de forças, um afiar de lâminas, é um afinar da barbárie.
O desejo de paz não é suficientemente grande para suplantar a sede de sangue.
A lei não opera no Homem uma conversão moral. Apenas torna o bárbaro mais paciente. Acreditar que a lei consegue domar a lâmina é uma narrativa ilusória.

No entanto, nem nos períodos de paz a violência é abolida.

Ortopedia moral, mais uma vez Foucault, isto é, endireitar o que é violento, porém endireitar é sempre uma operação violenta. O endireita não é senão um algoz de folga. Por ora contenta-se em provocar a dor no outro. Se obtivéssemos a caixa negra destes últimos anos, veríamos a ortopedia moral como ginásio onde espezinhamos os Homens e, indo mais longe, uma violência educada. Uma versão mais subtil da pena de morte que, nas palavras de Gonçalo M. Tavares, é um assassinato educado. Em suma, a lei é um viveiro de perversões subtis, até chegar o dia em que tudo se torna mais claro.

Crime e Castigo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

09.07.21

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.

Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.

De Roberto Gamito e suas vozes.

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túnel de vento Roberto Gamito

Ep 467 - São Judas, Humor e a Pose Consumista, Génio e Medíocre

Apeadeiros da conversa:

.Amestrar paredes.
.As duas Ceias.
.O abismo entre a palavra e a acção.
.Cabana da felicidade.
.David e Golias.
.Sócrates teve a vida facilitada.
.Falar o bem não é sinónimo de praticar o bem.
.São Judas.
.Olhar múltiplo e uma nesga de realidade.
.Humor, a burla, a pose consumista.
.O Génio e o Medíocre.

 

Podem escutar-me o episódio e seguir-me aqui:

 


Roberto Gamito

09.07.21

Corpo em revolução, figura parva ou geométrica. Redondo ou quadrado, carne para uso, descarte ou disparate. De quanta obsolescência serão dignas as minhas frases? Linhas que aos demais não assentam, nem à justa nem à larga, nem em prosa nem tão-pouco em verso. Lá vão elas rumo aos bastidores da tratantada com as tetas bem apertadas de molde a não desarmonizarem a eufonia, as sílabas, acotovelando-se no meio do texto íngreme e a raiar o inútil, as sílabas, o mundo enquanto lugar de caça e fuga, as sílabas.

Poder ser que seja um acto louco, mas ajo de acordo com o pulsar do texto: eis a minha crença mais arreigada. Já de rastos ou a meio da queda, sintonizava a vida com o respirar da literatura. Éramos, cada um à sua maneira, dois animais aflitos a braços com o fim.

Que mal pode haver em querer escrever e carecer de começo de língua inédita? Ao rés da folha, desenteso ao fitar o inferno do mesmo. Outrora, desentendíamo-nos ao primeiro verso, poeta e leitor dois bichos singularizados pelo desnorte. Um poema perfeito é uma paixão recém-chegada. Salvo o calor e suas múltiplas acepções, não entendemos peva. De joelhos, aquiescemos face à língua ígnea e estrangeira.

Choquei alguns acólitos do gelo, alguns paladinos de coração emperrado, alguns cruzadinhos de espada romba. Morte ou vida é-me igual ao litro, grito ao sacristão. Doravante o sino dobrará sem porquê.

Amor. Terei eu pé mesmo se o tema teimar em aprofundar-se ao ser desnovelado na língua em solavancos tépidos? Nas minhas costas, o mundo.

Disparate: emendar o que quer que seja quando nada é certo. Enumerem, caso haja tempo para futilidades, os sábios que se cruzaram convosco até então. O animal amolece, nada duro e durável. Tento entender a trajectória dos projécteis adiados.

A sedutora 4x4, adaptada a qualquer terreno, fez mais uma vítima. Retirei peso ao seu negrume, confesso-me.
Ao ruminar o que terá acontecido longe do radar das minhas pupilas, as hormonas decidiram entrar-me pela prosa adentro, qual rusga, insuflando-me os verbos outrora flácidos.

Amor ou morte? A ganância tomou conta das mãos indecisas. Nem ouro nem poesia. Temi as consequências, o retorno a um início primevo, desta vez de mãos vazias e afónicas.

Imaginava-me de pés e mãos atados, encimado por um carnaval de flechas desejosas de se abaterem sobre mim. Voar é um exercício vão quando o céu principia a dar mostras de querer ruir.

A carne, a eterna suspeita. De um lado os idólatras, do outro, os iconoclastas. Sou um entre a multidão de anónimos. Espero pacientemente a minha vez de arder na pira. Palavras demasiado concludentes. Em tempos idos, fui ensinado a deixar o mundo de fora da língua. Não digas isto, isto e isto. Então falo do quê?, respondia. Ninguém me sabia responder, o gato finalmente comera-a.

O rei dos oportunistas palmilhava a estrada do sucesso com a sua corte de sequazes que, espante-se, massajava-lhe os nobres tintins sem descanso.

Ninguém me ensinou a afogar — tudo o que ignoro aprendi sozinho.
Respirar para tão pouco. Cá estamos, camaradas náufragos, neste mar vindimado pelo medo.

Desisto da minha condição de estátua. Inicio a dança, faço as pazes com o movimento. Não é comum depararmo-nos com uma magia consumada que não aproveite o momento para mamar da teta dos holofotes.

Tardava o confronto com o tempo. Entretanto, ia-se entretendo a lutar contra espantalhos e pardais. Se quiseres ser homem-estátua, pára, se continuares assim, a andar feito parvo, não vais a lado nenhum.

Não temo a morte, tenho um ataúde à sua medida à sua espera em cada esquina do texto. Como afiançam os místicos, não é o Homem que entra no templo, é o templo que entra no Homem.

Terei de me assumir inábil para lidar com o amor. Já o tive nas mãos mas…
Volta para a direita, volta para esquerda, hesitação, simulo a volta para a direita e volto para a esquerda. Um tiquetaque obnóxio, uma tentativa de abrir o cofre da alma e pôr o Homem — o que poderia ter sido se a plenitude fosse alcançável — diante do Tempo vertebrado para avaliação.

Uma vez descalçada a bota que é confeccionar o primeiro verso, o poema anda sozinho, quase sem ajuda. As sílabas que colho da mão suada: frutos em botão.

Constato que o hábito recente deixara o monge inacabado.
Ao contrário do que nos foi ensinado nas redes sociais, é impossível reduzir o Homem a uma característica. Resumir um ser humano a uma palavra é um acto criminoso, sem direito a redenção, ó cruzadinhos da empatia.

O que é afinal o Homem? Animal exemplar, domesticado em dias de festa — sexo! —, de pronto solto no seu habitat penumbroso apinhado de olhos inquisidores.

A luz fraqueja diante das palavras maiores. Os anjos não se pronunciam. Esta manhã, graças ao nervosismo face à situação que me poderia pôr em cheque — e logo eu que nunca tive queda para rei —, aprendi, enquanto remexia as nádegas na cadeira, o samba da sala de espera — dança que, quanto a mim, merecia outro prestígio.

Suspeitem de asas tão franzinas. Estou certo de já ter passado por esta ideia. Por sorte, a cabeça será outra e a frase, resultante da observação, sairá noutros moldes. Não me questionem se tal constitui um ganho. Sim, distraio-me com o que estiver mais à mão.

Fugir ao medo? Com o calor que está? Não sejas estúpido. Aninha-te aqui e vamos lá ver se há material para erigir uma história de amor. Finda a fornicação, posso ocupar-me de outros assuntos. Não houvesse período refractário e o homem nunca teria inventado a burocracia. Sem período refractário não haveria Kafka, pensei eu após a ejaculação.

Não sei formular um pedido de socorro sem parecer uma causa perdida. Não sei pedir ajuda sem que me dêem extrema-unção.

O passado é fértil. Tanto é uma barragem contra fantasmas como se transmuda num viveiro deles.

A desconfiança tomou conta das minhas definições. Tento fintar o cinismo, todavia ele arranja constantemente forma de entrar a pés juntos na frase. Combatê-lo com ironia é engrandecê-lo. As armas para nos defendermos dele ou estão extintas ou ainda não foram inventadas.

As cabeças dos gigantes derrotados. Tê-las à cabeceira, sob a forma de rosário, é, a espaços, reconfortante.
À parte isso, sou, incontestavelmente, farinha do mesmo saco. Porém, ao estar em contacto com os meus semelhantes, fui impelido rumo à singularização. Não me peçam mais explicações, não estão em idade de compreender a minha jornada.

A abstracção de decantar a música cantada ao coração numa noite como nenhuma outra. Prosa atafulhada de inseguranças, perífrases atrás de perífrases, o nada mais copioso possível.

Mas…não vim ao mundo com o fito de moer palavras adultas e diluí-las em frases mansas, de pacote. A língua selvagem descansa. Ao entrar em casa, penduro-a, por fim, não na folha, mas no cabide, como coisa que só faça sentido ser usada na rua.

Peso infinito sobre os ombros. Já disse ao médico uma ou duas vezes. Não há meio do teste de ADN chegar, não me espantava nada que fosse filho de Atlas. Que vida é esta afinal? Carregar o cosmos às costas — façanha ao alcance de tão poucos — e suplicar ajuda às sanguessugas para que me cocem os tomates. O gigante mirra a cada súplica. Dentro de pouco tempo poderá ser derrubado por qualquer um: eis o destino dos grandes.

Tenho os dias pretéritos como reféns na memória. Sinto que levei a cabo um crime imperdoável que não cessa de engrossar.

Na folha, dou as voltas que o mundo não deu. Cada um foi para seu lado; um permanece no tabuleiro, o outro, comido.

Martelei-lhe a carne, conta a mulher A à mulher B, mas nem por isso ficou mais tenro — continuou, aliás, duríssimo. Mistério que intrigava todos os talhantes com que se cruzara.

Poeta: Planeio cada pormenor como quem arquitecta uma catedral.
Escrever ajuda-nos a exercitar a mão, que é por onde a humanidade abre o leque dos mundos possíveis.

O meu marido deixou de me procurar, comentou a mulher à amiga. Cessaram as buscas, fui dada como morta. E agora? O que faço eu à minha vida?

Para muitos, a vida é andar em manada, de mamada em mamada, um tudo ou nada de quatro ou de joelhos.

Este lugar, que assumiríamos meu, será, postumamente, ocupado por um sismo.

Corpo em revolução, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

07.07.21

António Careca levou a cabo uma proeza alto lá com ela. Segundo reza as gordas do jornal, escorraçou com um pontapé bem metido nas nalgas o Caído-Mor, o Senhor Satã, o qual replicou degrau a degrau a sua célebre queda. Escapou por um triz ao elogio do vulgo, o visado acanhava — sempre acanhou — os bajuladores. Os demónios menores caíram-lhe em cima como lobos esfomeados. Em vez de o matar, desfecho que o aliviaria, obrigaram-no, então, a vestir-se com um oleado verde e amarelo, isolando-o cromaticamente do resto do mundo. As redes sociais, blindadas que estão ao pensamento, não souberam como reagir a tal acontecimento. Assim enfarpelado, o homem cumpriu o seu destino de fazer-nos rir.

É uma criatura submissa, entre o homem e o cão, pacata e inofensiva, cuja arte lhe chega, no máximo, para coçar os tomates em dias de palestra. Ao que parece, é insuficiente se o fito for fundar uma vanguarda.

A modéstia impede-me de revelar os maiores cumes entre os estúpidos. Todavia uma coisa vos digo, a competição nunca esteve tão renhida. Não é fácil deixar um legado neste campo.

O árbitro de comportamentos interrompia momentos tensos como se a vida dos outros fosse um filme dirigido por ele. Movido por um fervor religioso, o figurão eclesiástico das redes comunicava às pessoas como deviam viver a sua vida. Ninguém diz nada, esse juiz de meia-tigela é o orgulho do Homem, a menina dos olhos do século XXI. Todos fingem concordar, perpetuando assim a farsa. Mais burros não ficamos, pensavam eles.

O seu nome vem à baila de vez em quando, fazendo o soalho estalar com o sapateado da sua grandeza, é um nome demasiado grande para ser menosprezado pelo círculo de medíocres calejados. Corre o boato que a conversa só é conversa quando o seu nome é chamado ao barulho.

Homens sazonalmente verticais tentam passar por escritores. Estão a braços com uma língua que não é a deles, espremem-na até à última gota, mal dá para um copo, quanto mais para uma obra.

À míngua de espectáculos e demandas dignas de figurar em currículos de heróis, ocupam os dias a apadrinhar guilhotinas. As redes sociais são o lar, como alguém há-de postular um dia, de algozes enfezados. Incapazes de ver sangue, arranjaram um ardil destinado a provocar a morte à distância.

Oh, K., receio bem que o senhor seja demasiado hilariante para este século. Amanhã falamos, primeiro é necessário seduzir o coração do castelo.

À excepção do linchamento digital, somos burocratas até ao tutano. Burocratizamos o coração, o sexo e o mais. A picha e a cona traumatizados, acoitados em cima da pilha de papéis. E que alívio é abrirmos a porta à morte e saltar pela janela do quinto andar.
Os suicidas dariam a vida para poder ver as feições da morte ao perceber a fífia do Homem.
Os génios do século XXI ocupam um lugar muito importante na História, e é extremamente árdua a tarefa de os descrever — são papagaios uns dos outros.

Mais uma corrente literária, mais uma ninhada de papagaios.
À medida que envelhecem, os Homens vêem com mais nitidez o discurso do seu reflexo. Olha como estás acabado, meu animal esfrangalhado, comenta o reflexo alojado no espelho.

Recuso-me a ser ludibriado por uma fatia de nada, por mais apetitosa que se me afigure. Logo que os víveres começarem a ser desmentidos pelos sábios, os suicídios vão subir em flecha.

Esquece a verticalidade, se quiseres prosperar no teu ofício, e é por estas dicas que os aspirantes a homenzinhos de valor vendem a alma ao diabo, agacha-te e reza a tudo o que não te for familiar. Pudesse eu ao menos usar um faca nos dentes — sucessora da rosa no tango —, a fim de fazer boa figura na dança das cadeiras. Regicídio, deicídio, não importa. Fui contratado pelo destino para trabalhar, que é como quem diz, colher cabeças dos arbustos penumbrosos.

Não há ninguém capaz de puxar fogo ao século? Estes anos apinhados de escritores de prosa desdentada é incapaz de deixar marca. Tanta carne à espera de ser mordida.

Se apreciares o meu poema, sou menina de te abrir as pernas. Manjar silábico, digno de um não-sei-das-quantas. A cavalo dado não se lhe olha o dente e ficamos assim, cada um com o seu quinhão. A tão desejada aprovação, emprestar a rata por tuta-e-meia, dar minutos de voo ao vergalho, o costume, réchauffés.

Se pudesse fazer aquilo que quero, e o meu caminho fosse exequível, não restariam deuses nem demónios para contar a História. No entanto, é útil editar o pensamento antes de o verbalizar, enfatizá-lo com prosa hipócrita, elevar o paralítico das artes aos píncaros, tudo comportamentos com provas dadas, os quais fazem com que nós sejamos populares quando rodeados de uma matilha a salivar de aprovação. Para brilhar à mesa não é preciso suar o miolo, basta dizer aquilo que os demais ambicionam ouvir.

Quando cumpridas as várias salvas de elogios, aí sim, podem começar a pavonear-se. A vossa grandeza fictícia entrará sem atrito nessa atmosfera carregada de empáfia. Hipnotizados, os anões julgar-se-ão gigantes. Inimigos, nem vos passa pela cabeça a verdadeira estatura do Homem.

E eis que prossegue o artista nas andas da publicidade, papando elogios qual parasita, saracoteando-se com o pedigree dos iluminados. Atrás dele, uma comitiva de carraças, em cima, uma ou outra pulga.

Mas está tudo mal para ti? Nada disso, sou como uma criança que brinca na praia de pilinha ao léu. Tudo me alegra, tudo capta a minha atenção.

Ninhada de papagaios, Roberto Gamito

 

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