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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

17.02.22

A timidez impede-me de ligar para o aspirante a verdugo a altas horas da noite com o fito de o convidar para excessos. O bom do vício, arena dentro da qual álcool e fornicação andam de mãos dadas aos pinotes, quais duas cabrinhas folionas, não entra. O maior excesso ao qual podemos recorrer é — observe-se a ousadia — cuspir umas piadas. Se hipócritas, a relação com o aprendiz de verdugo funciona às mil maravilhas, quase a raiar o idílio. O problema — inverosímil em virtude de nos passearmos turisticamente neste século de miolos afadigados — é pensarmos pela nossa própria cabeça. E se o homem, no pino do seu delírio, salta do molde da convenção como metal fundente e leva a cabo um comentário à legenda tida como dogma? Temos a burra e restante família nas couves. Além do acto iconoclasta de pegar na marreta e bramir “alto e pára o baile”, o comentário é já de si, a menos que seja um judeu a fazê-lo, apropriação cultural. Abstenho-me de comentar seja o que for, não sou judeu, não faço tenções de o ser nas próximas vidas, pelo que não sou a criatura mais indicada para opinar por escrito. As minhas humildes origens só me permitem apanhar e calar e comer nos dias santos. Mamar as escrituras e sucedâneos sem acrescentos da minha lavra, não impor-lhe erratas nem adendas. Quando muito, vestir o fato de papagaio e ser acólito do eco e andar para aí descansado a papaguear as baboseiras mais em voga.

Uma das características mais nocivas do nosso tempo é o medo posto por extenso, seja sob a forma de aspas, redundâncias, eufemismos, perífrases e por aí vai. A diluição da tensão verbal é sintoma da relação conturbada com a palavra. Tenho, portanto, de ser escrupuloso ao máximo na hora de beneficiar a turba burra de algozes com epítetos, não vá a guilhotina tombar-me nos punhos e ser obrigado a finalizar o texto com os cotos em sangue. Há uma personagem com muita saída por estes dias: o virtuoso histriónico e hiperbólico ao pé do qual antigos sábios e santos parecem canalhas. Se aterrássemos neste século vindos sabe-se lá de onde, por exemplo, escorraçados do paraíso ou da cona da mãe, ficaríamos com a impressão que o bem só é bem se for gritado ao megafone. É a sociedade do grito na qual o sensato é posto no saco dos mimos — e com isto já fica tudo dito sobre o olho de lince da nova casta de virtuosos.

Há dias, estava eu nas minhas lides de escrita, que é como quem diz, a tropeçar nos vocábulos de molde a provocar uma faísca, com o focinho enterrado em livros e cadernos, qual perdigueiro viciado nas minudências do pó — ai meu Deus, para o que havia de estar destinado este rapaz! —, a cofiar esta barbinha de esquerdalho asmático, a gingar este bigodinho nada fotogénico em virtude da comichão, quando, finalmente posso contar-vos algo com pés e cabeça, vejo uma mulher abeirar-se do meu coração com a carne aperaltada para o desastre, expressão muito literata, quase enfadonha, ralhou-me o péni mais tarde — pénis à Cláudio Ramos, não esquecer que é o homem do téni — me marimbo nas croniquetas e na versalhada e transformo o meu olhar em batedores liliputianos cujo o labor seria, doravante, percorrer o corpo da fêmea em busca de um sítio para pernoitarmos juntamente com as ideias mais acesas; farejei, não escondo, o atractivo decote como quem procura as musas no fundo de um poço. A boçalidade, amiúde condenada por esse bando de censores que nos impedem de simular o pecado, é saudável para a postura, isto contou-me uma enfermeira que me tratou do inchaço do príncipe do baixo ventre. Eu, que pouco sei da vida e ainda menos sobre a morte, endireitei a postura, adiei a marreca característica de quem é parvo o suficiente para esfrangalhar o esqueleto em leituras e, mais saudável, com o fôlego no máximo, mudei-me para aquele olhar hospitaleiro e magiquei uma epopeia de ancas dançarinas, a qual me ocuparia nos próximos tempos.

A ver se o humor morre, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.01.22

Definir o que vale ou não a pena é uma tarefa difícil. O coração, armado em autor, tem sempre grandes dificuldades em propor definições pertinentes, sólidas e contidas; na verdade, chafurda com grande aparato num sem-número de linhas amadoramente poéticas sem nos trazer a luz da certeza. Upa, degrau inesperado. Atlas fornicou a Noite e teve três ninfas, as Hespérides. Detenhamo-nos neste episódio. O poeta, principalmente o maldito, fode a bom fornicar a mãe, a Noite. Ou pelo menos tenta. Que criatura esquisita: Poeta-fornicador-da-Noite-armado-em-Édipo-filho-de-Atlas-carregador-do-seu-cosmos. Que frutuoso intercâmbio de nuances!

Primeiro era o vermelho, de seguida o branco e o preto. A primeira tríade de cores. Só mais tarde chegaram o amarelo e o verde. E só depois o azul, eis o que nos ensina Michel Pastoureau.

É útil recordar que houve um tempo em que o vermelho era pau para toda a obra: era amor, morte, vida e o mais que vocês conseguirem pensar. Outro acrescento: em tempos muito recuados, os frutos de polpa eram designados de maçã. Tentemos viajar até esses tempos. Duas personagens passeiam num pomar.

— Belo pomar que aqui tens. Que fruto é este?
— Maçã.
— E aquele?
— Maçã.
— E aquele lá ao fundo?
— Maçã.
— Tudo maçãs? Estás a mangar comigo.
— Tudo maçãs, meu amigo.
— São todas diferentes, estás burro?!
— Amigo, não há mais palavras para designar fruta polpuda. Por ora é tudo corrido a maçãs.
— Ao menos chamavas-lhes prosa de Roberto.

Pensar em maçãs é o mesmo que pensar em Héracles e o seu décimo primeiro trabalho no Jardim das Hespérides. Em jeito de súmula, Hera, a célebre deusa rabugenta, deu-lhe um trabalhinho que era capturar as maçãs de ouro. Ora, Héracles (ou Hércules, se preferirem a versão romana) é um tipo sem sorte nenhuma. É uma espécie de trabalhador precário. Vem com a ideia de cumprir uma tarefa pequenita e cai-lhe tudo em cima. São os colegas que não vêm, são as tarefas que se agigantam e, na maioria dos casos, não compensa e o salário continua magro. Isto ainda vai ser o meu fim, pensa Héracles e o trabalhador português.

Desdobremos o décimo primeiro trabalho de Héracles nos seus diversos episódios. A luta contra o monstro Anteu, uma rixa rija com um dragão dotado de cem cabeças, uma pugna contra os pigmeus, a libertação de Prometeu e, como se isso não bastasse, ainda ajudou Atlas a suportar a abóbada celeste. Segundo uma fonte próxima, as costas de Héracles nunca mais foram as mesmas — é o que dá carregar o peso do mundo sem aquecer primeiro.

Ao cumprir esta demanda prenhe de perigos, finalmente alcançou as maçãs de ouro. Trá-las a Eristeu, que ignora o que fazer com elas e as abandona. Belo trabalho! Um pouco abananado, Herácles dá as maçãs a Atena, de molde a agradecer-lhe a ajuda que lhe prestou em várias ocasiões. Atena, rata até ao tutano, não quer arranjar problemas com Hera, a possuída, e manda devolver as maçãs de ouro ao Jardim das Hespérides, lugar do qual nunca deveriam ter saído. Sim senhor, sujeito a morrer pelos frutos dourados e tudo isso para nada — para voltar à casa de partida. Humano, demasiado humano. E já agora: apanhar frutos não é um acto reversível. Assim que são apanhados, não há forma de os voltar a pôr na árvore. Essas maçãs douradas deviam ser mesmo boas para terem tantos guarda-costas.
A Hera que me perdoe, mas fiquei com vontade de comer uma.

o décimo primeiro trabalho de Herácles

 


Roberto Gamito

31.12.21

Não é um ajuste de contas com o ano que me desfalcou até ao tutano, rapinando-me as sobras da alma — mesmo assim, está longe de ser uma tragédia. Isto em si é uma comédia na medida em que a minha vida é uma comédia. A frase anterior não é fruto de ponderação anterior, foi parida no momento, sem olhar para trás para corrigir eventuais falhas de percepção. Estabelecendo assim as intenções, o autor destas coxas linhas lamenta que, no decorrer da crónica, tudo se desintegre. As próximas linhas serão prenhes de apontamentos de pastelaria, filosofia barata, poesia entre aspas, humor e coisas destituídas de nome.

A identificação à pressa com algo que nos beneficia é provincianismo; conduz também ao tumulto das proporções e relações entre o Homem e o mundo. Se há muita coisa parecida connosco (descartamos as outras), logo somos grandes.

Para citar Witold Gombrowicz, entendermo-nos por meio da arte é um mal-entendido divertido. A identificação, tão ao gosto do homem contemporâneo, é, por conseguinte, o atestado de não-arte. Se é múltipla, não nos entendemos; se tem apenas uma leitura, não é arte. Acrescente-se: o papel da arte é turvar as águas. Aquilo que não perturba as águas estagnadas é uma performance medíocre. A arte abre-nos a cabeça à vez, para uns usa o machado, outros uma navalha, outros um tijolo, uma garrafa, um piano e por aí vai. A forma como somos espancados pela arte maiúscula varia de pessoa para pessoa porque cada um de nós é um compêndio singular de forças e fraquezas. No respeitante à arte, não há dois lutadores iguais. Convém frisar que o Homem irá sempre ao tapete num confronto com a arte.

De há uma década a esta parte, é comum passear-me toscamente com livros e cadernos debaixo do sovaco, não para fins ornamentais ou para fotos de Instagram, mas para absorver os seus sucos com o miolo, do qual se exige o papel de esponja. O sujeito curvado diante da folha, seja ela branca ou prenhe de letras, é motivo de curiosidade. Em certos sítios, o leitor é mais raro que unicórnios. Ler é uma actividade tão exótica como praticar xamanismo num centro comercial. Ler para quê, eis uma das perguntas que me atiram à queima-roupa. No capítulo da escrita há sempre uma desconfiança, típica de Narciso. Ele deve estar a escrever sobre mim, pensam os cachos de pessoas à minha volta. Feliz ou infelizmente, poucas são as pessoas e as acções do quotidiano que despertam o meu interesse. Para o Narciso, todo o garatujador é um potencial biógrafo.

De longe em longe surgem excepções. A senhora Feliz — é mesmo o nome da velha — foi ao pomar dar com o marido pendurado pelo pescoço. Há ironias danadas — e esta é uma das mais fortes. Ao relatar o episódio, outra velha responde: “o céu está a pedir por todos nós”.

Chegámos ao último dia do ano. O cabrão apanhou-me desprevenido deitado na cama. Instante dramático em que passei em revista os projectos falhados e os muitos por conceber. Mais um ano para a sucata. Apressei-me como toda a gente, afinal não sou senão um átomo da turba, o destino fintou-me e eu fintei-o, porém empurrou-me estrondosamente de um ano para outro e, quando dei conta, já estava mais velho. O calendário não dá mostras de abrandar. Observo a mão invisível do tempo a marcar cruzinhas no calendário — a liquidar dias como se fossem moscas lerdas. A vida escapa-se através das datas, tal como a areia escorre pelos dedos.

A minha história em vias de chegar ao fim principia a dar-me um prazer quase inenarrável. Com efeito, produzi doidamente uma quantidade absurda de episódios do meu podcast Túnel de Vento, salvo erro mais de duzentos episódios. O rol de temas por onde os meus neurónios vagabundearam é assoberbante. Embora irrelevante para as massas, digo, sem erro, que evoluí um nadinha. Mas um passo seguro em direcção ao Nada. De quando em quando houve episódios em que acariciei os cumes daquilo que projectei para o Túnel de Vento. O improviso total fez de mim um funâmbulo a fazer pouco da morte. Quão estranho: finalmente, finalmente começo a entrever as primeiras sílabas do meu próprio rosto a sair do espelho.
Fora isso, há o Roberto Gamito, outro podcast, uma espécie de diário interior. O Tertúlia de Mentirosos, as conversas, arte da qual pouco ou nada percebo, começa a ganhar robustez. Há ainda o Evangelho segundo o Vergalho (sucesso inesperado), Bárbaro (onde digo alguns dos meus poemas) e Onde há Pessoas há Merda, este último criado a duas cabeças com o Gonçalo Patrício.

Sou frequentado por duas ou três ideias que tenciono concretizar no próximo ano. De resto, é prosseguir com as que já sairam da inércia, seja podcast, vídeo, crónicas e o mais. Chegou a hora de pôr a carne toda no assador. Até para o ano.

motel do bizarro

 


Roberto Gamito

30.12.21

Imaginei-me irremediavelmente pobre. Vasculhei os bolsos como quem procura as sobras de uma civilização perdida. Tinha para cima de setenta cêntimos; sorri, estava economicamente livre. É a sorte de viver no passado, quando o dinheiro ainda tinha valor.

Após nova busca, fiz outra descoberta. Encontrei as ossadas de um antepassado. Um antigo eu que havia esquecido. Um misto de horror e exaltação, aquele ulular engolido pela vergonha, o qual vem à tona para nos assombrar, apossou-se de mim. Apesar de marmóreo, que é o consolo dos fracassados, não podia deixar de sentir um certo desassossego.
Entretive-me a arear o passado e, findo esse trabalho, comecei a namoriscar o futuro. Perdera um ror de tempo a inventariar possibilidades, ângulos perfeitos e trajectórias para as minhas ideias-bala.

Quanto ao amor, nada de poético há a confessar. Não suporto sucedâneos nem versões diluídas, nem na vida nem nos livros, irei protestar — embora à minha maneira, cifrada ou escancarada, todavia à minha maneira — quando me tentarem ludibriar. O gato por lebre no tocante às verdades mais apetecíveis, a saber: amor, Deus e morte não me seduz.

Quando um amor antigo me escorraçou pela porta das traseiras com um pontapé magnifico no traseiro, talvez não tenha sido assim tão mau para a minha postura. O desmame foi custoso. Reerguermo-nos das cinzas é um trabalho hercúleo. Quem sabe se a solidão amarga não me terá afinado o miolo? Ou pelo menos dado condições para que, em certos momentos, consiga trampolinar até novas alturas.

Os anos passam, entre eles um salão de festas — de vaidades —, de meias-verdades, de meia-vida, de meia-altura, de meia-verticalidade; em suma, uma província de fogo incompleto na qual os seres humanos, inebriando-se com as aparências, estatutos, dogmas, reputações pensam exorcizar a morte — e todavia.

Usando o nomenclatura deles, sou um falhado. Rapinaram-me até ao tutano. Coisas há que escrevi há mais de dez anos que conheceram sucesso pela mão e pela boca de papagaios paraguaios destituídos de talento. Usando o dicionário deles, sou irrelevante. As hienas sofisticadas souberam ocultar a sua gula por cadáveres.

Tento esvaziar a cabeça de todas as guilhotinas e venenos que me povoam. Não tenciono atafulhar o silêncio de obstáculos e lâminas ou retirar-lhe a habilidade de se espreguiçar e de receber o desconhecido. Não foi a minha intenção transformar a minha mente numa câmara de tortura onde, dia e noite, a depressão e a ansiedade me torturam longe dos olhares dos demais. Seja como for, aconteceu, fugiu-me do controlo. Mais uma vez a História do Homem repete-se no homem.

Terá um travo amargo que eu, criatura apta a ir ao fundo qual cachalote, tenha de — isto é mais forte do que eu — insistir nisto, tentar afogar-me. Na profundidade onde a luz não é bem-vinda, a calma e a fúria, verdade e mentira equivalem-se, e a grandeza e a pequenez são lentas. No fundo, onde a luz foi escorraçada, a morte não tem pressa.

Regressemos à paixão. Os lábios aproximam-se fogosamente do meu pescoço, um coro de relâmpagos, gerado no coração, percorre o corpo de lés a lés. Paixão. Digo demasiado cioso da ideia perturbadora que esta palavrinha contém. Um fogo que se apresenta mínimo e cresce num estalar de dedos. Poeticamente, estou inclinado a afirmar: a paixão é a temperatura a que a carne humana arde.

À mercê dessas sensações, umas conquistadas outras imaginadas, o ser humano é obrigado a metamorfosear-se. Aquilo que sou não é suficiente, é preciso mudar.

A impotência total face ao que nos rodeia, com efeito, somos animais sem qualidades à beira da extinção. A incapacidade de chegar à nossa forma derradeira aprisiona-nos numa camisa-de-forças. Ou será um casulo? Sem comentários. A camisa-de-forças não merece qualquer apontamento.

Reservo as minhas horas mais obscuras para aprender a dançar com toda a espécie de verdugos. A morte defende-me da vida com unhas e dentes. Aproveito todos os instantes para desistir. Gostaria de poder espreitar para o interior do cadáver de Deus e perceber se há algo parecido comigo nas suas vísceras. Será possível asfixiar o futuro de tal modo que o mundo seja obrigado a inverter a marcha?

Então e se eu, nas traseiras mal-iluminadas deste século, de gatas e aos apalpões, dado que vendi a verticalidade ao Diabo, praticamente míope, fosse ao lixo catar uma nova espécie de luz?!!! Apesar de abundantes pontos de exclamação, a frase não chegou a ninguém.

Não se faz literatura com queixumes. Engulo oceano e cachalotes de um trago e prossigo, espero, fértil e criativo. Recomendaria uma cautela excepcional aos abutres, ou, pelo menos, uma inteligência ímpar no tratamento do meu cadáver aquando do saque. Um passo em falso e a minha morte trar-vos-á o dilúvio.

pobre em ouro mas rico em coisa nenhuma

 


Roberto Gamito

27.12.21

A publicação desta croniqueta alarmará os aspirantes a virtuoso, que os há em qualquer buraco, salvo conas, que aí mora o pecado, mas é esse mesmo o meu intento. A sociedade de cavalheiros de piça engessada tem dado à luz pelo orifício não convencional uma prosa a direito (redundância, se formos vasculhar ao latim o significado de prosa; foda-se, escrevem como se fossem viver para sempre) de tal forma enfadonha que o comércio de calmantes está nas ruas da amargura. Há dias caiu-me no colo um relato segundo o qual um distraído, um daqueles ingénuos que acredita que a ida ao bar com os amigos é sinónimo de troca de piadas e comércio de alarvidades, sentou-se e de supetão, ao embrenhar-se na conversa com os convivas, murchou-se-lhe o sorriso. As histórias acaloradas de sexo, amiúde inventadas (ninguém fode assim tanto, até o caralho mais trabalhador tem dias de folga), deram lugar a discursos propagandísticos, quer dizer, troca de bolas, as típicas de activistas de sofá. Se acreditarmos em tal coisa, essa coisa torna-se verdade, não era essa uma ideia-chave no Elogio da Loucura? O que faço eu com este manancial de piadas a formigar no meu miolo, cogitava o ingénuo que aos poucos, para se irmanar no grupúsculo de virtuosos, se despojava de tais pensamentos pecaminosos.

Longe vão os tempos em que Swift sugeriu que, em tempos de escassez, se comessem crianças. Bem apanhado: pequenitas, carne tenra e fáceis de caçar. A piada é hoje um lince ibérico. Um bicho em vias de extinção que ignora como se acasala. Não preciso, porém, de me dar ao trabalho de descrever o cenário trágico em que o Humor se encontra. É na forca, a escassos minutos do fim, que me coube a honra de ser escolhido pelas musas mais coxas, ao que pude apurar, dado que é o momento capital onde a cabeça é habitada de pontas soltas, legaram-me o difícil papel de contar o que é a vida.
E a comédia, por arrasto. Quem não consegue ironizar a sua própria imagem, desconhece-se por completo. Perde espessura e torna-se tão magro quanto uma folha branca.

O fã contemporâneo de comédia recorda-me o rico apinhado de manias que vai ao campo pela primeira vez e diz: “Venho ao campo e é só arvoredo; não há nada para ver.” No tocante ao diletante do humor, a frase é mais fina: “Venho ao sítio onde se pratica comédia e é só comédia; não há nada para ver.” Pelas suas tendências, podemos muito bem chamá-la Sociedade para o Incitamento ao Chapadão nas Fuças. Não condeno o humorista que, após ouvir tamanha baboseira, desça do palco e comece a distribuir papo-secos de qualidade, qual padeiro parisiense, ao seu público. Querem humanidade?, vocifera o comediante, tomem-na toda, agora engulam este caldo de porrada — e só vos faz é bem.

A literalidade é rei e senhor desta ligação entre artista-público. Mas não vejo rei nenhum, questiona o público. No máximo, rainha, opina outro gatuno de lugares no pódio. Seja como for, este mundo veio parar-me às mãos por acaso, logo eu que vivia no passado, apesar de todo o cuidado posto em esconder-me do presente e nunca ter agarrado nenhum papel activo no teatro da sociedade. Contentar-me-ia com o magro papel de figurante. E todavia.

Torna-se evidente que o público exigente (como se auto-intitula, ah, as ofuscantes proezas de um umbigo inchado — o médico que veja isso) e sem dentes exigirá da comédia um estilo que não lhe pertence. A comédia pode continuar a laborar desde que deixe de ser comédia. É como que declarar: “Gosto de tudo em ti, mas mudemos cada pedacinho de ti, assim não pode continuar”. O Narciso contemporâneo é um Deus tardio. Não descansa enquanto não fizer o outro à sua imagem.

O mundo evolui e a comédia deve evoluir também, como se ouve por aí em qualquer beco deste século. Evoluir para onde? Para tapar os buracos da vossa fragilidade narcísica — a qual é recebida pela mente como um narcótico? Vamos lá ver uma coisa, meus campeões: a arte não está ao serviço de ninguém. A arte não veio ao mundo do Homem para ser aia do vosso ego, não está cá para fazer festinhas — o seu verdadeiro papel é conduzir-vos, em virtude de um soco imprevisto, ao tapete.

E a arte? A arte também tem culpas no cartório. Nunca pensei que meia dúzia de néscios palavrosos, três para dizer bacoradas, três para funcionar como coro, pudessem pôr de joelhos algo tão esquivo e tão tentacular como a arte.

Mas quem é esta gente, a qual ouve as sereias pelo megafone do seu umbigo a comunicar magotes de patacoadas? A comédia não pode continuar a ser o que sempre foi? Ignoro como responder a esta questão senão com: a arte nunca é aquilo que pensamos dela, está sempre um passo atrás ou à frente. Abaixo os inteligentes! Abaixo a metáfora! Abaixo aquilo que não for um reflexo enaltecedor de nós próprios! Dinamitem os cumes, preencham os vales, não queremos sentir o desconforto da vertigem, gritam uns e outros a cavalo do pónei amputado da empatia.

Platão, como muito bem se sabe, é o maior mentecapto de todos os tempos, nem todos podemos ser brilhantes na vida, contradiz — atentem no descaramento deste bandalho — os activistas mutantes no respeitante à palavra. Então quer dizer que o problema permanece indecidido. Quer dizer que a verdade nos é inacessível, como nos afiança Goethe? Mais luz, mais luz, mais empatia, diz o Werther contemporâneo antes de estoirar os miolos. Era só o que faltava a verdade ser-nos inacessível! É possível que, uma vez por outra, já tenha mandado esta nova casta de bípedes para a casa do senhor do baixo ventre. Se isto não é ser virtuoso, e Aristóteles não me deixa mentir, gostava então de saber o que é.

Por isso lhe disse logo: Carlota (Diogo ou Rodrigo, tanto faz), estás enganado a meu respeito. Eu sou um vulto, já morri faz trinta e sete anos. Simpatizo com a tua tristeza, mas estás impossibilitado de me assassinar. É muito melhor contentares-te com uma solução mais humilde, porém com resultados mais imediatos, do que andares para aí armado em parvo — atitude que te celebrizou —, a saber: estar caladinho até te surgir uma ideia, ó traficante de citações.

A ideia prevalecente era a de que se enforcara há muito, mas nem por isso deixara de contar a sua história. Ah, caramba, fomos apanhados na esparrela da ficção, numa espécie de desdobramento literário. Quer dizer que todos estes personagens são apenas várias faces de um tipo?, questiona-se Deus ao olhar-se ao espelho enquanto pensa na humanidade.

Avancemos uns belos anos. Começou, como a História do século XXII nos há-de elucidar, com o encontro fatídico de um homem puro com uma piada no twitter. Riu-se e cometeu a imprudência de seguir o humorista para, veja-se a loucura, pôr os olhos em mais piadas. O homem puro como um anjo foi adquirindo maldade em virtude das piadas — facto confirmado por aquilo que, daqui a uns anos, se chamará “Ciência”. Achou graça a uma piada na qual a velha era espancada; começou a espancar velhos depois das cinco, que era quando saía do trabalho; riu-se de uma piada de pedofilia, tornou-se pedófilo, ele que nunca se havia aproximado de uma criança para encetar uma conversa; gargalhou com uma piada de violação, tornou-se, como esperado, violador. Semanas mais tarde escutou uma piada sobre ditadores, tornou-se ditador (esses eram os anos de ouro da ditadura, qualquer um podia mandar vir um starter pack ditador da Amazon). Por azar, num dia que até lhe estava a correr bem, escutou uma piada de suicídio e não teve outra escolha senão matar-se. Doravante a comédia como hoje a conhecemos foi proibida. Surgem rumores da existência de um punhado de locais nos subterrâneos — nos esgotos, melhor dizendo — onde se reúnem os últimos apreciadores de comédia e um cacho de humoristas que logrou escapar à purga. Na superfície, persistem os Clubes de Comédia nos quais são permitidas — apenas — piadas sobre marcas de bonés.

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Roberto Gamito

24.12.21

O Natal modifica a fauna da pastelaria — dão à costa novas espécies de peixes. Uns ficam com os olhos esbugalhados a olhar para a vitrine apinhada de bolos natalícios, quais peixes hipnotizados, outros, mais indecisos, são uma espécie de zorros que apontam o dedo qual florete a qualquer coisa que se assemelhe a um doce.

Há velhos em fila indiana a babar-se enquanto namoram o bolo-rei. Há os que, mais bebidos, escrevem quadras em homenagem ao bolo-rainha. E não vai um escangalhado?, pergunta o pasteleiro. Escangalhado já eu estou, riposta agilmente o velho. O Natal é época de ter mais olhos que barriga. Por esta altura, o português é uma criatura cheia de olhos. Eu, que de burro tenho sempre um pouco, olho para a cena como para um hieróglifo, tentando decifrar a sua razão de ser, da qual sei apenas que é tradição, que existe e está aí para as curvas. Não sou nem quero ser o detractor do bolo nem do Natal. Cada um é livre de encher o cu com o que mais gosta. Estranho. O Natal, exortando ao amor e à autenticidade, conduz-nos a gigantescas falsidades. Se usamos a comida para nos refugiarmos do mundo, não será o Natal a época do ano em que o Homem atinge o cume da falsidade?

Preenchemos o vazio existencial com comida, todavia ele cresce.
Teorias, teorias. Intrometem-se na minha existência e não me deixam saborear o pudim de mente vazia. Será que não consigo esquecer a morte entre garfadas? As várias teses de que o Homem é capaz de se transcender em épocas como esta poderão revelar-se meras verbosidades. É o costume, porém com uma mesa repleta.

Entrementes, chega a minha sobremesa preferida. Amaina, por agora, a tempestade.

Peixe fora de água

 


Roberto Gamito

22.12.21

Careço de meios financeiros para contactar com a vida. Não é com cafés e garrafinhas de água que a engodo. Não estou a lamuriar-me por ser pai solteiro de uma carteira anoréctica, limito-me a dissertar que uma coisa está dependente da outra. Sem carteira gorda é difícil aproximarmo-nos da vida com a pose certa. Cada passo que damos tem um custo associado. Em havendo cabeça, tal dá origem a uma atmosfera fantástica, uma trapalhada sofisticada que intoxica a mente com mundos baratuchos, os quais nos consolam nos períodos de carência.

Enquanto turista do mundo anterior, passeio-me enfarpelado como um rei, montado num unicórnio barrocamente adornado, enquanto saúdo as gentes que choram de alegria ao contactarem comigo. À medida que avançamos na feitura desse mundo consolador, afogamo-nos por completo numa massa de abstrações — em suma, um mundo almofadado onde as arestas cortantes foram abolidas.

É difícil assistir, sem sentir embaraço, à sua demanda rumo à trapalhada fantasiosa e à transmutação da gata borralheira em princesa, cogita quem está de fora. Se ele tivesse conservado o ouvido, a vida tê-lo-ia posto ao corrente de alegrias mais em conta. Ao estreitar laços com a fantasia, enceta a dramatização do real, tornando-o inacessível pelo seu próprio pé. A imaginação fértil — a rede de onde escapa todo o peixe miúdo. De olhos fechados, acredita ser caçador de episódios mirabolantes, rastreador de perfumes que o conduzirão ao amor, uma espécie de flautista de Hamelin atrás do qual seguem, em fila, todos os sonhos da humanidade.

Ele, que não tinha nada de génio e tudo de estúpido, começou por remendar a sua biografia com pequenos fogachos da imaginação e acabou por se aprisionar num mundo mirífico. Foi um período de existência fervilhante, um período de grandes tumultos — as ideias ultrapassavam os obstáculos à primeira. Todavia o mundo permanecia o mesmo.

Mundo interior

 


Roberto Gamito

21.12.21

Continuando na senda do episódio do ano passado, os melhores livros que li durante 2020, decidi levar a cabo a edição de 2021. Eis uma lista sumária de alguns dos melhores que li durante este ano. Cada livro é acompanhado de um breve comentário. Foi um ano pautado pelos Contos e pelo Ensaio. E muitas releituras, daí que a poesia, o género que é mais querido, não tenha tantos representantes como em anos pretéritos. Ao terminar o episódio, dei-me conta que me esqueci de alguns vultos. Só para citar dois, A Era do Capitalismo da Vigilância de Shoshana Zuboff e Confabulário de Juan José Arreola. 

Túnel de Vento, Roberto Gamito

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.
Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.
De Roberto Gamito e suas vozes.

Espero que gostem do episódio. 

Podem acompanhar o Túnel de vento nas plataformas habituais: Soundcloud, Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts

 

 


Roberto Gamito

21.12.21

Não pretendo levar-vos pela mão em excursão à minha vida íntima, isso deixo para os outros, despojados de mundo interior e imaginação. Que coordenadas são estas, afinal? Primeiro, o instante sugere-me a harmonização com o alheio, o corpo estrangeiro — quer dizer, a carne cantante — aproxima-se com a sua coreografia. Quão ridícula e vasta é a impotência das palavras face à carne em ebulição? Antes, uma noite vertical, de seguida, a vida despontante. E enquanto isso, dando o salto do episódio para o seu rescaldo, o meu mito desenvolvia-se no percurso no decorrer do qual inspeccionava cadáveres míticos. Qual sucateiro lírico, ficava com as partes que me interessavam e desprezava o resto. Cabeça de Medusa: um clássico. Prepúcio de Jesus: outro.

Terminada a relação sem deixas dignas de figurar em película, a vida escorraçou-me da província do amor, qual Adão expulso do Paraíso, mergulhei em apneia na minha mortalidade, porventura chateado com a farsa da luz, e tornei-me criatura dos abismos. Aprendi com os peixes o gigantismo, a lentidão e a bizarria. O fundo do oceano introduziu-me nos bastidores da morte. Povoado de carcaças de mastodontes, os quais serviam de apartamentos para famílias de polvos albinos, o oceano era um sítio onde é impossível semear um novo amor.

Ficara evidente que eu não fora capaz de aprender nem a civilizar o negrume que se apossou de mim. Bastava ouvir o nome dela para entrar em transe qual xamã siberiano possuído por uma nuvem de espíritos. O que tinha eu em mente? Um novelo de mundos abortados? Um formigueiro de derrocadas? Não tenho dúvidas de que a morte me liquidaria se acaso farejasse em mim um pingo de futuro. Felizmente não é o caso.

 

Formigueiro de derrocada

 


Roberto Gamito

20.12.21

À custa de derrotas, humilhações e facadas várias, tantas que transmudaram as minhas tenras costas num faqueiro — ao menos o sofrimento conferiu-me uma aura de utilidade —, relações sólidas que se esfumaram num estalar de dedos sem que houvesse fadas envolvidas no processo, vi-me atolado no lodaçal das traições — erros de paralaxe, dado que o traído possui sempre algo de míope e desleixado, quer dizer, falta-se ciência no capítulo da observação e, uma vez que já são horas de terminar a frase, tornei-me um estranho para mim próprio. Longe vão os tempos em que me deixava subornar pela simpatia. Em resultado dessas experiências tortuosas, tornei-me um misto de gato desconfiado e cão encharcado, em suma: sou uma imagem triste e saltitante e doente e incapturável. Não será uma imagem enaltecedora, só faço isto por amor à estética. Com isto, pretendo que me guardem numa gaveta à parte, afastado da luz. Sou um quadro no pino da fragilidade: a luz podia corromper a imagem que tenho de mim próprio. O amor, tal como o sofrimento, não pode basear-se em equívocos. Caso contrário pode conduzir à loucura. E não estamos, questionam os mais lúcidos, condenados de antemão ao fracasso? O que é o sucesso senão um apeadeiro antes do fracasso — eis uma das mais intragáveis desmistificações.

A minha biografia é filha da minha impaciência — eu, o pai, fugi de casa à cata de novos declives. Ele embriagar-se-á com a minha prosa façanhuda, cogita o escritor em relação ao leitor enquanto dá valentes cabeçadas na mesa, comover-se-á com as minhas quedas passadas a limpo, deliciar-se-á com a dança e a contradança do meu coração. Nessas circunstâncias, não há hipótese de que nasça algo que faça as vezes de um farol. Eclipsamo-nos ao rés do milagre; definhamos a um palmo da metamorfose. Um dia ainda hei-de revelar o que se passa nos bastidores da verticalidade.

bastidores da verticalidade

 

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