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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

06.08.22

Homens, estamos a ficar fartos dos prazeres fáceis do mundo contemporâneo, a saber, pornografia e Instagram de mulheres cujos seios apetitosos (se os olhos comem, os dos homens estão sempre de pança cheia) nos levam a comentar a sua actividade virtual com frases descabidas do género: "tu inspiras-me", "és a luz da minha vida" e assim por diante até invocarmos toda uma literatura de cordel capaz de provocar rubor no mais Chagas de entre todos os Chagas. Como escrevia o outro estudioso, nada muda, as verdades actualizam-se e é preciso estar

— isto é um acrescento da minha lavra — de olhinho bem aberto para não comprarmos teorias usadas a preço de novas.

"És a luz da minha vida" é uma expressão degenerada e higiénica da frase "mandas grandes faróis". Embora grande parte dos teólogos discordem, "és a luz da minha vida" é pôr as mamas a ocupar o lugar de Deus. Nada a apontar, é um raciocínio ao qual não oferecerei resistência, até porque o raciocínio é meu. Um gajo anda no terreno e sabe como as coisas se processam. Se as mamas tornam os homens melhores então merecem o papel do Deus, de Jesus e dessa pandilha cujo intuito é salvar o homem. As mamas salvam. Estampem isso numa t-shirt.
É claro que, pegando no início no texto, carecemos de registos de que o homem possa ter dito na sua história algo como "estou farto de mamas, preciso de parar de olhar para elas, caso contrário vou acabar na desgraça." Nunca houve um homem saturado de mamas, ao ponto de até o feed do Instagram o deixar indiferente.

Antes de adentrar no raciocínio anterior, acho que não é totalmente descabido catapultar uma ideia. Criar um "mamómetro", um dispositivo que permitiria ao homem saber, no recato do seu lar, o grau dependência de que padece relativamente às mamas. Pois tal pode vir a ser problemático.
De momento não me preocupo com espécimes masculinos que teriam alcançado patamares de excelência se não tivessem perdido décadas inteiras a vistoriar tetas, não, esses ficarão para outro texto. Interessa-me, sim, os casos extremos, teóricos, uma vez que não conheço nenhum caso.

De Paracelso chega-nos a frase catita, a dose faz o veneno. Se assim é, há um nível a partir do qual as mamas se transformam em veneno (não veneno simbólico, isso já foi reportado pela poesia). Um veneno à séria. Então vamos lá atacar as mamas, salvo seja.
Imagino alguém a dar as últimas numa cama sob o olhar atento de um médico, o qual ignora o que está a acontecer ao seu doente, uma vez que a medicina está muito atrasada para se bater de igual para igual neste terreno pantanoso.
E eis que o morto-vivo declara: Senhor doutor, eu vi demasiadas mamas. Isso envenenou-me. Devia ter parado enquanto era tempo, agora é demasiado tarde. Sabe lá quantos telepatas eu enlouqueci. A minha vida gravitou em torno das tetas, esse foi, declaro sem medo, o meu sol.
No fundo, tornei-me no melhor olheiro de tetas do mundo. Podia ter ganho rios de dinheiro com isso, mas isto é como a droga, se uma pessoa principia a consumir está tudo estragado. Com efeito, sou um devoto das tetas.
Não é preciso ser nenhum Newton, respondeu o médico, para saber que você entrou no plano inclinado da desgraça e não há forma de impedir que vá parar ao outro mundo.
Quer dizer ou fazer alguma coisa antes de morrer, continuou o médico.

Pretendo deixar uma dica aos vindouros, o meu legado para os beneficiários de um antídoto que há-de vir. Cá vai.
Entram num sítio atafulhado de mulheres, arranjam, mal entrem, uma boa posição estratégica a fim de examinar o território, como um chefe de uma tribo ou um predador, e de seguida podem passar a noite a vistoriar fruta com um ar particularmente delicioso. E não me lixem, não estou a coisificar as mulheres. Fruta é fixe, faz bem, você é um profissional da saúde não me deixa mentir.
Mas isso já nós sabemos, retrucou o médico.
Então a minha vida não teve qualquer significado, finalizou o devoto das tetas, fechando os olhos.

O textinho acabou: estou saturado de mamas.
 

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Roberto Gamito

06.04.21

Não me importo de o reconhecer: há dias em que sou incapaz de escrever sobre os ditos temas sérios, a saber: vida, morte e amor. Os medonhos chamarizes — sereias, se preferirem — que nos acenam e saracoteiam de molde a engessar-nos, amiúde engendrados pelo tédio, impedem a expansão da língua. E todavia. Admiro a paciência do mundo, esse cabrão balofo não desiste facilmente de nós. Ao rés da mesa, encalhado qual cachalote no areal, entre copos, o bêbedo estrebucha o seu canto de cisne furibundo.
Talvez sejam antes de mais nada, refiro-me ao cérebro e o coração, apêndices decorativos, principalmente quando não ocupados a ofertar-nos dor em doses de elefante. Há coisas boas na vida, uma frase que costumo gritar nas ruas desertas — eu já não faço número. Repito essa magia uma e outra vez, mas nos recantos íntimos onde as máscaras descansam e revelam a precariedade do rosto insinua-se uma incerteza crescente.

O escritor — há quem, em pleno século XXI, o apode de artista — entra em trabalho de parto de cada vez que se aproxima de uma folha em branco. Sabem lá as mulheres (as não artistas, que as há) o que é a dor da criação. Sabem lá o que é dar à luz quando o mundo nos quer ver pelas costas. Deixei que o vento, às vezes lobo no seu linguajar nocturno, outras apenas vento a necessitar de edição, fizesse de mim o que bem entendesse. Consenti que pegasse em mim como quem pega num papagaio-de-papel e o eleva. Se esquecermos as tentativas goradas, os voos abortados e os enguiços até que é uma bela vida. Em havendo tempo, nesta ou noutra vida, havemos de debater todas as questiúnculas na entrevista, quem é como quem diz, no julgamento final. Apesar disso, respiro. De certo modo, achei isto significativo. Seria fútil descrever a respiração. Contentemo-nos com a sua fruição, que não é coisa pouca. Nunca vi, escrito ou gritado, ninguém a pronunciar-se desta maneira: "A respiração é o meu orgulho, a minha alegria, fui eu que, apesar das adversidades, mortes, amores caídos no esquecimento, a amestrei, contudo é ela que me borda a memória".

Mas raio de crónica vem a ser esta afinal? Considerem-na um prelúdio armado ao pingarelho. Ataquemos, finalmente, a carne: as mamas. Antigamente, as mamas eram abordadas directamente, hoje, neste império de fracalhotes, no qual a cabeça propícia ao cultivo de bambochatas singra, são, quando muito, cantadas tangencialmente. Aedos com medo de levar a língua às cordas.
Vamos fazer de conta que isto acontece. Aparecem as mamas no radar do homem. Este, armado em paladino da vulva, desbobina parvamente: toda montes de inteligência, montes de talento, montes de sofisticação. Mas que conversa vem a ser esta? O caralho está a pagar alguma promessa? Conheces a mulher de algum lado para lhe presenteares com tamanhas patranhas, para a sufocares com esse novelo de apodos?

A maior parte das palavras do meu repertório são demasiado simpáticas para caracterizar esse novo espécime masculino, esse filho da puta.

Ó Roberto, questiona o leitor espicaçado pela curiosidade, serás porventura um entendido em tetas? Sim, mas digo-lo com modéstia. Não adquiri a reputação de olheiro de mamaçal por meios desonestos, não levei a cabo trafulhas nem tive acesso a cunhas, se hoje sou uma sumidade no assunto é graças ao meu esforço incessante no tocante à vistoria de decotes. Entretanto o mar de leitores — dois ou três, mas o ego presta-se a delírios — é invadido napoleonicamente por uma convicção de que o homem está de posse de uma singular desenvoltura capaz de extrair poesia até do par de mamas mais parco, embora não saibam com certeza se esse conhecimento é transmissível para criaturas inexperientes, daí os soluços na hesitação.

Em jeito de achega existencial, as mamas são o guru que necessitam na vossa vida. Acompanhados pelas mamas, os altos e baixos da vida levam-se bem. Essa dança de úberes ensina-nos a ver o lado positivo até nos dias mais negros. Eis o que qualquer manual de brejeirice nos ensina, caso o leitor tenha paciência para o ler devidamente.

Estão mais alegres? Óptimo. Contudo, não é uma alegria qualquer, é uma alegria serpentiforme.

 

Mamas e os altos e baixos da vida, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

05.02.21

Hoje não me apetece escrever sobre marotice. Acaso estás são de cabeça e de espírito por estares a recusar essa proposta? É que agir de maneira parva e falar-se estupidamente em certas ocasiões, nenhuma das duas coisas dá saúde por si só. A magia, concedo, surge quando, na jigajoga da estupidez, abrimos a mente para terrenos mais ebulientes. Nem uma pitada do meu tempo, cogita o ilustre leitor, se é para não inculcar sexo na prosa. Aí, continua o leitor, decide-se acerca do divino e do humano. Vou ser sincero convosco: não me sinto inspirado de molde a dar uma pincelada à altura do tema. Seria espantoso se me conseguisse calar e levar as minhas palavras para o fundo do oceano e nunca mais regressasse. Apesar de merecer esse menosprezo da vossa parte, a minha posição não se equipara à vossa. Sinto um prazer macabro ao ler uma pessoa que tenta manter-se no fio do interesse sem recorrer às magias da cópula. É tempo de eu me acercar com unhas e dentes da monotonia. Ora aí está uma frase que pode funcionar como remédio para as insónias. Não estou a conhecer-te, exclamará o freguês habitual do blog. Veja-se o trabalho em que me fui meter com a minha necessidade de fugir aos temas com provas dadas. Mamas, uma só palavra, terá mais peso nesta prosa do que mil palavras minhas. Estarei a prestar-vos um favor enorme e de nenhum outro modo poderia auxiliar-vos tão vantajosamente. Há mundo para além do sexo.

Eu poderia encontrar uma pontinha de argumentação e expô-la com grandiloquência durante milhares de linhas, mesclando céu e inferno, frio e calor, intelecto e instinto, todavia mamas.

 

Todavia mamas, Roberto Gamito

 

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