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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

13.07.22

Na escrita, atiro carne podre aos vindouros. Formulei, para uso caseiro, tempestades e incêndios, vandalizei máscaras e escoei venenos. 
Numa das minhas mãos habitam um sem-número de roteiros de desorientação. Vasculhei dentro de mim — reconheço hoje o equívoco — uma família de mapas novinhos em folha. 

Os caminhos alimentam-se de passos, a jornada cresce com o nosso desnorte. 

A mulher suspira, como é usual em muitas histórias. Sabe-se pouco a respeito das entrelinhas da respiração aflita. O talento da respiração é fintar repetidas vezes a morte. 

A senhora de noventa anos descobre que a filha tem Alzheimer. Em minutos perdem-se todas as certezas da última década. 

Cabisbaixo, o meu rosto despenha-se do céu, qual Lúcifer, nas poças de água. 

Rasto cifrado para ludibriar hienas e perdigueiros, passos tapados por folhas, apeadeiros em chamas. Ulisses anónimos com a água das lágrimas a dar-lhes pelo pescoço. A vida a centímetros da morte. 

Toda a gente acorda de manhã como que vinda de um milagre, hesitante, um pouco espantada com mais um dia. Não era esta a imagem que tínhamos do inferno. 

Um ponto. Não há lugar para os pés nem para as mãos, nem tão-pouco para deuses. Encolhemo-nos até ao esquecimento. Novamente nesse ponto primevo, o antes-de-tudo-o-que-conhecemos-e-ignoramos. 

As coisas libertam-se do seu nome emperrado graças ao grito. 

Vencidos os homens, sobram umas migalhas. As sementes preparam uma rebelião há séculos no rés-do-chão do sangue. Até lá sobram-nos as histórias. As línguas despem-se de palavras ao rés do rosto amado. A mão percorre ao de leve o rosto como a brisa a cevada. O seu cheiro invade os campos da minha imaginação.  

A sua verticalidade é postiça, porque teme soltar o animal na escrita. Este alarde a que não falta fanatismo actua como um holofote, elevando o espantalho a celebridade. 

Amor, Deus, morte. A respiração de civilizações inteiras ecoa dentro de certas palavras. 

O falcão olha de cima o labirinto do Homem e confunde-nos com formigas. Agora vamos por aqui: engaiolar na mão a recém-cortada cauda da osga e ver na sua movimentação vã a humanidade. 

A morte, assim como Deus e o amor, é uma semente, está no meio de nós. Envelhecemos por aí, à procura do perdão. 

 

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Roberto Gamito

27.03.22

A morte fê-lo crescer para dentro de vários nomes. Dentes afiados, barriga inchada de vermes, elevando-o ao inquestionável estatuto de animal de museu. A berma para a qual foi atirado pela vida, que, agarrada ao papel de bailarina contemporânea, o catapultou vistosamente, sem esquecer os saltinhos espalhafatosos ao som da música.

Três ou quatro varejeiras pioneiras hão-de chamar outras até se tornarem um nevoeiro fervilhante à roda dos caídos. As varejeiras crepitam no ar inquietas, indecisas entre os mortos e os vivos. Não os distinguem: e isso inquieta-nos. Se não há diferença entre estar vivo e morto, então para quê isto tudo?

Estamos impedidos de tocar no mundo, a repulsão electrónica impede-nos. Poeticamente falando, diríamos a maldição da assimptota. Estamos condenados ao quase. Quase que amei, quase que te toquei, quase que vivi. Saltamos de quase em quase, pelo que o caudal do rio das frustrações transborda até inundar as margens biográficas onde pululavam minúsculos projectos de fauna e flora.

Tento regressar à infância, porém os caminhos por onde andei já não existem. Recordo-me das estradas no Alentejo ladeadas de árvores e olhar para o vidro do carro até ficar enjoado. Às tantas não sabia se era eu que me movia, se eram as árvores. Hoje sobram poucos representantes desses dias, meia dúzia de árvores para contar a história. Neste caso, a luz não é sinónimo de bênção. As sombras daquele cortejo de árvores tranquilizavam-me. O regresso é impossível, contento-me, qual Penélope, a fazer e a desfazer o meu episódio vezes sem conta.

De quando em quando o imprevisível intromete-se no guião das nossas vidas. E o meu passado, escrevi-o noutro texto, foi engolido por um único beijo. Esse amor reinventou-me até ao pormenor, vim à tona das águas com outro nome e outra cabeça. Mas nada dura para sempre, e o amor, tal como deus, não é eterno. Doravante contentar-nos-emos com as sobras de um cadáver imperecível.

Ganharam espinhos, esses dias. Adquiriram o perfume de rosas envenenadas. Encontramo-lo, ao passado, sempre por acaso e parece sempre que andámos a evitá-lo.

No museu da minha vida, vejo tudo com igual desinteresse. Observo as legendas de um quadro a saltarem para outro sem que haja reacção da minha parte: um grande cadáver esquisito em mutação: eis o labor da memória. O que me faz avançar no texto é saber que o vou abandonar, qual cadáver crescido capaz de, mesmo morto, escrever a sua história.

O que era só uma frase inicial tornou-se o regresso à infância. Uma sinfonia de caruncho entoa pela casa dos velhos. O espectáculo de baixo orçamento preludia a morte. A vontade de viver vem-lhe de onde? As ideias veem-lhe de onde? A morte vem-lhe de onde? Onde é que não lhe dói, pergunta o médico.
O escritor ou Homem abeira-se da folha para simular nascimentos e ressurreições.

Por uma frincha na porta, vê-se o velho na cama rodeado por tubos e maquinaria que fazem a conta da luz disparar. Qualquer dia não terei dinheiro para pagar a conta da luz, diz o velho com graves problemas pulmonares. A empresa de electricidade será o seu algoz. Estamos todos presos por arames, eis o que somos: marionetas acamadas.

Um corpo imóvel comentado por uma multidão de cheiros. A última inspiração antes do fim. A vida resumida num estalar de dedos. Acabou, finalmente acabou. Os andaimes — os tubos e as máquinas — que rodeavam a morte em construção foram retirados. Apesar dos sucessivos adiamentos, o projecto foi finalizado. Flores por cima do cadáver, todavia não há flor capaz de fazer as vezes da luz. A noite será daqui em diante para sempre.

A maldição da assimptota


Roberto Gamito

02.02.22

O derradeiro iletrado e Platão são igualmente gagos e inúteis diante da Morte. A caducidade está presente no discurso de génios e mentecaptos: é impossível diluir a morte num leito copioso de palavras, perfumá-la ou maquilhá-la, virar costas e ficcionar a sua ausência. Não há canto apto a arpoar o grande cetáceo. Seja qual for o ardil, a Ceifeira permanece inabordável.

A ineficácia dos termos, das certezas, as nossas obras amadurecidas nas prateleiras da eternidade, o legado dos artistas, isto é, mortos não praticantes, poemas nascidos graças a uma epifania e quadros resgatados do inconsciente ardem num instante. Que ideia, gigante ou enfezada, alguma vez foi capaz de suportar a pressão da morte? Deitado para todo o sempre, o homem horizontal engorda a turba dos silentes. Mudam-se os deuses, mudam-se as vontades, reformulam-se templos e bibliotecas, reformam-se musas, contratam-se fantasias, porém a morte não é mais explicável ou menos desconcertante do que há milhares de anos. A rotatividade das fórmulas e das definições passa a falsa ideia de que o Homem está a desbravar caminho, que se encontra na peugada da definição última de morte, que será uma questão de tempo até a cercar com as nossas melhores palavras. A morte possui o condão de revelar o fracasso da palavra. Nos capítulos das dores e dos amores, a palavra tem mostrado alguma serventia: usamo-la para diluirmos o absurdo de permanecermos vivos. E embora não resolva nada, de persistirmos moribundos no caudal de vocábulos, oferta-nos a sensação de que logramos escapar às suas tormentas. Todavia a morte não se ajoelha diante da palavra, é-lhe imune.

Nós perdemo-nos nos textos, somos encurralados por relatos, somos amaldiçoados por episódios traumáticos: a salvação é impossível caso a morte nos caia ao colo. Caso queiramos conservar alguma da decência intelectual, o entusiasmo pelo amanhã, o fim deve ser banido do espírito, das conversas, espantado como uma ave de mau agoiro. Independentemente da nossa ingenuidade, sabemos que estamos fadados ao fracasso.

No epicentro onde os pensamentos resvalam para o fim, quem é que levou mais longe a sua ousadia de atravessar a morte sem intenção de regressar? Abordamos a fachada, porém ignoramos o que está para lá dela. A presunção contemporânea não tem paralelo na História: tudo é perecível, até as épocas. O Homem actual crê ser capaz de sobreviver à extinção de uma era.

Ao farejar o depois imutável, experienciamos a angústia com toda a parafernália de episódios, palavras, ficções que fomos enceleirando na cabeça durante a vida. Um suspiro antes da morte; no espaço onde florescem as últimas flores, todos os procedimentos para sairmos de nós se revelam infrutíferos. Desafortunadamente, fomos engaiolados na nossa finitude.

Em dias de festa, triunfam crenças e ideias; vencidas pela morte, serão insultadas e substituídas pelo desamparo. Agarro-me a quê, se tudo se esfumou?
A morte transforma a igreja na casa da impotência. Não estamos nem à frente nem atrás do nosso tempo, façamos o que fizermos, seremos sempre contemporâneos da nossa morte.

Contemporâneos da Morte

 


Roberto Gamito

11.12.21

a verticalidade — a ficção suprema

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a verticalidade — a ficção suprema
é sempre a mesma estranheza estremunhada
a interpretação soluçante e com isso a condenação

Continua aqui: Medium

 

este poema não é a música a que tu chamas casa

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este poema não é a música a que tu chamas casa
é um bárbaro ganhando estatura entre o amor e a morte
é o cavalo-súmula de todas as corridas escarnecendo das apostas

Continua aqui: Medium

 


Roberto Gamito

10.12.21

É aceitável dizer-se: consigo ouvir os meus pensamentos, todavia são-me parcialmente inacessíveis. Sou incapaz de os traduzir, de os trazer para o mundo das palavras, porque não sou fluente na sua língua.
Há a possibilidade de os traduzir, porém não é isento de perigos. A minha ocupação, diríamos, é desfigurar o menos possível os meus pensamentos — operação delicada, acrescentaríamos.

Domino-me interiormente quanto mais hábil for a traduzir o mundo interior numa língua ao alcance de todos. Em redor deste ponto, surge a imaginação. Trata-se, com efeito, de formular aqui alguns passos extra. Não contente com a coreografia do pensamento, a imaginação tenta o salto imprevisto.

Dentro de nós, o tigre rodeando pilhas de cabeças de deuses antigos, árvores onde as folhas foram substituídas por penas, insectos do tamanho de galinhas, algumas leis da física suspensas. Cá fora, o homem a olhar, pensa-se, para o vazio.
O conflito entre o mundo exterior e o mundo interior é notório.

Cada migalha é a semente de um mundo ulterior. Não há terrenos estéreis quando a imaginação se apossa deles, o que há é Homens apressados. Do pormenor nasce o gigante.

Estamos vivos ou mortos?, eis o que preocupa o Homem mais desocupado. E se estivermos vivos e mortos ao mesmo tempo? Pegando com pinças na frase de Rilke, “Antigamente sabia-se(…) que se trazia a morte dentro de si; como o fruto o caroço.”
Assim sendo, o Homem não passa de um ataúde nómada, que procura avidamente o melhor sítio para depositar o caroço. Ninguém foge à morte, Ela, ao contrário de Deus, está dentro de nós. A morte é a possibilidade de um recomeço.

Relaciono-me melhor com o mundo quanto mais competente for a aprofundar a minha relação com a morte.
Não me ocupo de mim, diria o homem sem ego, ocupo-me da minha morte. A vida enquanto um ritual funéreo, excessivamente barroco, diga-se. O discurso humano como uma longa perífrase para diluir a morte.

Regressemos mais lúcidos à imaginação. Sei ver, mas também sei viajar a partir do que vejo. Começo nas letras e acabo na carne, diria o poeta a um palmo dos lábios da sua amada.

 

Morte e Imaginação, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

09.11.21

Os caminhos teóricos estão cobertos de mato. Os papas da desconstrução proibiram a construção em altura.
Quem rega, afinal, as flores do mal?

Com o niilismo, o fim nunca será radioso, comenta o corvo empoleirado nesta história. O Senhor P. encontra virtudes nas guilhotinas se estas forem de esquerda. Dentro de momentos, caso não haja atrasos no estafeta, os leitores receberão o electrochoque da surpresa, que pilhará a altura das vossas dúvidas.

Instrui o oceano com a minha fúria, descartei o peixe miúdo e matei de fome o graúdo, condenei igualmente palavra e silêncio e aguardei pela Morte.

Resta-me espalhar a pólvora enquanto se aguarda pelas faíscas.
Sem delongas e sem retoques, ultrapasso o meu nome, eu que nunca o habitei de braços cruzados, rumo à ideia de um eu estupidamente superior a mim.

“Mas nada dura, tudo passa, tudo muda, tudo morre.” Não me façam esperar! Ainda morro com a senha na mão!

Comentário de um entendido em amoques: há uma necessidade de pôr por palavras o fogo predatório que nos faz crescer enquanto bárbaros. Um problema desta estirpe admite uma infinidade de soluções, isto é, uma infinidade de mortes. Seja como for, o espectáculo será grandioso.

Paixão, fazedora de todos os ódios e ópios, caminhos de outra laia. Há infinitas formas de adiamento, diz o burocrata-mor à morte.
A morte do lado de fora do guichet, do outro, o burocrata infalível. Quem morrerá agora? Será que é possível matar a morte de tédio? Em que posso ajudá-lo, pergunta o funcionário. Venho aqui para matá-lo, riposta a Morte ao burocrata. Espere um bocadinho, responde o burocrata, ainda não chegou a sua vez, sente-se ali na sala de espera. Mas ali estão os sonhos da humanidade, comenta a morte. Ao menos não lhe faltarão temas de conversa, retruca o burocrata. E assim se passou uma eternidade.

Burocracia contra a morte

 


Roberto Gamito

07.11.21

Durante muito tempo, virei costas ao oceano da angústia. Só muito mais tarde, após as rugas conquistarem o meu rosto sem que daí resultasse qualquer oposição, esgotadas as rotas e trajectórias, eu que fui célere e letal qual projéctil e lento e paciente qual monge do deserto, descobri a verdade: não era senão uma ilha. Preferia não ter de me cartografar nem inventariar os bichos que me escolheram como habitat.
Destino ou livre-arbítrio são legendas possíveis, porém o quadro não deixa margem para dúvidas. Há um homem no leme, todavia o homem é cego. Assim sendo, o livre-arbítrio é uma paródia sem fôlego do destino.
Sou partidário da ideia de Nietzsche, apesar de tudo, esse magro tudo, urge dançar. É na orla entre a possibilidade e o nada que o mundo se faz. Eis-nos chegados ao país da espera, onde os Homens nascem ou definham. O limiar é, pois, uma máquina de fabricar ou exterminar gigantes.

A angústia é uma luz intermitente, como se fosse um animal que passasse o tempo nos meandros da carne, no nosso corpo, pronto a saltar cá para fora, aproveitando o deslize de um lapso, um gaguejar, um qualquer engarrafamento de temperaturas na língua, bastando para tal que enfrentemos desarmados o nosso reflexo. Com efeito, o nosso reflexo é uma espécie de veneno que se infiltra paulatinamente nas nossas congeminações, um vândalo em crescendo prestes a incendiar as nossas vulneráveis convicções. Basta para isso que nos demoremos diante do espelho.
Se indefesos e sem máscara apta a nos proteger da verdade, o reflexo faz-nos embarcar e navegar nas águas profundas das possibilidades, nas quais passado, presente e futuro se interpenetram tempestuosamente.

A odisseia de Ulisses e o labor de Penélope levam os neurónios à ebulição. A memória que faz e desfaz como Penélope, sabe-se lá à espera do quê ou de quem — Ulisses e a Morte entre os candidatos —, e revela a verdadeira identidade do chão sólido: areias movediças, parentes menos poéticas dos grãos de areia da ampulheta. Nos territórios da memória, situados em coordenadas incertas onde o mar é mais revolto, estamos sozinhos. Quando muito, vemos os outros seguirem-nos nas margens, primeiro como seres humanos, de seguida como vultos, depois nomes, e por fim como sílabas insípidas de um tesouro há muito perdido e indizível. A memória é um labirinto fluído, os demais permanecem na nossa vida como histórias ou como migalhas, à semelhança de Hansel e Gretel. Porém os dois corvos de Ódin, o pensamento e a memória, não nos facilitarão o regresso.

Estamos condenados e o verniz da sanidade ameaça estalar. Amiúde gosto de imaginar a figura de Teseu a dançar no centro do labirinto com a cabeça do Minotauro. Uma vitória magra, suficiente para nos alimentar o ego durante algumas horas. E depois?

Ambicionamos duas coisas: estar à altura da nossa idade e estar satisfeitos com o passado quando chegados à antecâmara da morte. No pino da empáfia, tentamos criogenizar algumas das possibilidades, a maioria engendradas pelos sonhos, elas que, se não lhes cortarem as pernas, podem ser as sementes do melhor mundo possível; entrementes, resgatamo-los, aos sonhos, para um futuro onde, pensamos nós, seremos mais capazes. Ao longo dos anos, o cadáver da vida sonhada mantém-se conservado num caldo de promessas, porém, aos poucos, a mente dá uma guinada rumo a um estágio infernal e, sem darmos conta, consumimos esses ocupantes criogenados. O sonho transforma-se em ração destinada à cólera ou à depressão.

Sobre todos os cumes da dúvida paira, ainda sem rosto, a possibilidade de recompensa. Por conseguinte, andamos aos círculos atiçando a oportunidade de salvação. De cima, os abutres repetem passo a passo a nossa jornada repetitiva, como se escarnecessem da nossa demanda.

Atena é a deusa da sabedoria e da fiação. Sabedoria, fazer e desfazer, eis a memória decomposta em partes mais simples e eis outro modo de retratar Penélope trocando o pincel pela pena. Para cá é para lá, para a frente e para trás, qual barco embalado pelas ondas, um pêndulo ou um baloiço à beira do abismo, um ritual cujo fito é afastar o depois amargo, que é como quem diz, a morte.

Ontem amavam-se e hoje encontram-se num estado de inércia fatalista.

Volvidos alguns capítulos desse romance narrado pelo vento, os dois conversam numa esplanada de um café de toldo carcomido, é trocado um punhadinho de frases feitas onde ontem a paixão ensaiava poesia. É notório que ambos buscam no olhar do outro a ponta solta desse amor que se lhes escapuliu. O mundo goza de uma pausa quando, apenas temporariamente, duas pessoas tentam enlaçar as suas biografias sensaboronas num apetitoso romance de grande fôlego.

Sem que nada o fizesse prever, a década tornara-se numa sala de espera onde animais e homens se acotovelam à espera de uma metamorfose capaz de lhes conferir asas. Eis a promessa do amor: a Metamorfose. Ansiamos despertar do casulo do amor outra criatura, um animal sem grilhões.

A que espécie de hibernação se sujeitam os homens contemporâneos para que deixem fugir o amor durante décadas? Não respondam, mergulhem antes nesse silêncio, ó meus apneístas nocturnos.
Possivelmente, a ideia de ressurreição de Cristo foi a derrocada do amor. A noção de que algo pode esperar — e o mundo contemporâneo é feito de sucessivos adiamentos com vista a uma promessa futura colossal (um paraíso posto nas prateleiras a preço de saldo) — sem sofrer os danos e a erosão das garras do tempo. Em boa verdade, somos confrontados com a acerba realidade: não conseguimos trazer a vida à tona da morte, as sucessivas exumações inúteis levadas a cabo pela memória só alimentou a dor a horas certas e, finalmente, o reconhecimento de que, após uma longa espera, o mais que logramos resgatar das cinzas é o belo mas putrefacto cadáver do amor.

Entre a morte e o amor, o homem só tem duas escapatórias: definha ou cresce. Nesse sermão levado a cabo pelas sombras canoras, também os nossos mortos nos tentam ludibriar — já não bastava o Diabo. No particular do artista, a folha em branco é o ponto de encontro com os nossos mortos, vivos, mundos teóricos e projectos de metamorfose. Embora inútil, o artista não desiste da possibilidade de inventar uma fórmula que faça as vezes do amor. Vivemos empacotados na dúvida de que nunca seremos suficientemente bons para cantar a altura posta em queda que nos devorou as asas. Todavia é preciso continuar a dançar.
Num mundo sem heróis, só os amantes desafiam as proibições e os algozes. Extintos os fogos do amor, o homem foge da transgressão rumo a províncias maquinais. Não é por aqui que me tenciono perder.

Campeões da lamúria, apressados e hesitantes, carambolando entre não ter tempo a perder e o medo de escolher mal, o homem crê ver a Medusa no reflexo e paralisa.

Em face deste jardim de estátuas, devemos ser capazes de manter a dança, o coração e a cabeça, combater a compulsão para a aceleração, esquivarmo-nos das massas e encetar coreografias de autor.

Antes que o tempo nos despache como incapazes, encaremos a vida — o labirinto em expansão — como uma pista de dança apinhada de aves de mau agoiro.

Sopé dos últimos dias, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

29.06.21

Tudo o que é eterno é tão antigo que só pode ser ininteligível.
Traduzir o que ao longe se afigura como ponto em pacífico é um acto excepcionalmente ingénuo. Ao longe até o dragão é um ponto.

Cadáver divino, sangue de um vermelho que não existe na natureza. Vermelho de deidade caída em desgraça. Como pintar então este quadro?

Ninguém conseguirá abolir a Primavera, no máximo, adiá-la. Nesse impasse onde a tribo se bifurca em escolas distintas, as flores discutem sobre hipóteses inéditas de florescimento.

Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala línguas — Coríntios I. Por conseguinte, mesmo que quisesse, seria inábil em traduzir o meu destino para o vosso idioma.

Ao caminhar sobre gelo fino, o corpo transmuta-se em calcanhar de Aquiles. Seria terrível se a sorte nos abandonasse num momento como este. Rezar seria imprudente, trazer o peso de Deus para uma situação destas é pedir a morte.

A cruz está aqui, só que está por montar. Aquando da crucificação de Jesus, Deus ter-se-á virado para Abraão: “Vês, não é assim tão difícil sacrificar um filho”.

O progresso enquanto algoz cuja incumbência fosse abater homens-estátua. O Homem, segundo ele, está programado para dar o passo seguinte. Tenho receio de domesticar o meu coração no ginásio das tarefas vãs. Amedronta-me ter desperdiçado uma vida a treinar o coração com o fito de se bater mano a mano com as ficções.

Escrever até os ossos estalarem e as tripas cantarem de tanta fome. Seguir a frase de Cioran como uma máxima: “A saúde é uma ausência de intensidade”. Emprestar a vida à folha e contentar-me com os restos.

A cólera é o sino apto a convocar o bárbaro acoitado no interior de cada Homem. É preciso fechar a boca de molde a não consentir a saída do selvagem. Cada palavra é um túnel, um indício da selvajaria que se avizinha.
O homem santo, inexperiente no tocante às possibilidades da maldade, foi atropelado por um zoo bíblico — espezinhado após uma dança de cascos. A morte por um lado, o regozijo dos animais, por outro.

Após a fornicação, é preciso dar uma vistoria aos bolsos da mulher, não vá ela ter-vos roubado o coração. E quem diz mulher, diz homem. E quem diz homem, diz larápio da víscera-mor.

O sonho húmido do déspota é transformar o Homem em pedra, em coisa pacatíssima. Mas até a pedra, bicho em princípio imóvel, tem dias em que resvala.

O abismo e o suicídio não são invenções deste século. Dois terços do trabalho está feito — não nos podemos queixar. Como pintar então este quadro? Negro sobre negro povoado tão-somente por um grito lindíssimo?

E o futuro, pergunta ela, no primeiro encontro. Como falar de um lugar tão fundamental com alguém que acabei de conhecer, responde o homem, destoando da atmosfera. Como pintar então este quadro?

Até que ponto vale a pena passear os cotos num mundo morno?
Salta de cama em cama, qual rã da fornicação. A estranha aventura de coleccionar calor em estranhos. Todavia o coração permanecia adiabático. Será isto o purgatório: a província obtusa onde os hóspedes procuram um resgate há milénios? A esperança, irmã do bem e do mal, permite igualmente a acção e a paralisia.
Em parlapié de taberneiro, a esperança é pau para toda a obra. A ninfomaníaca riu-se.

Sou um ninguém cujas letras não pousarão jamais, sou o espectro apinhado de dúvidas entre o nome e a coisa nomeada.

O mundo? Pois, temos aqui muito por onde desesperar. Versos robustos, inquebrantáveis? Que suspeitos, aqui é tudo de partir, para usar e deitar fora. Mesmo calado não digo nada; trata-se de um silêncio sem grandes pretensões literárias.

Todas as jornadas são demandas em círculos: não logramos fugir daqueles que somos. Como pintar então esse quadro?

Entre o socorro posto em prosa elegante que amiúde nos acompanha a fome de carne e a aquiescência sorridente que legenda o avanço da mão marota, instala-se por vezes um instante onde o impossível é degolado.

O canibalismo é impossível entre os Homens. Cada Homem é uma espécie à parte.

Os dias, fartos da mansidão de outrora, abeiram-se de nós com uma catadupa de tempestades. A tempestade faz bem aos medrosos, escorraça-os do território da dúvida. A mão defende-se como pode na folha, mas nunca está inocente. Será esta a culpa inextirpável sentida nos textos de Kafka?

Para onde virar o holofote da minha atenção se o mundo, na sua copiosidade de mundinhos, reclama a minha vida? Estímulos que me sugam vampirescamente os dias gota a gota.

O papel do escritor — quem vem lá com a prosa desembestada sem o açaime das convenções?! — é quebrar a hipnose da paz postiça. O escritor é o carrasco dos paraísos artificiais.

Carrasco dos Paraísos Artificiais, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

27.06.21

O único ser humano sem aspas que sobrevivera às vagas sucessivas de predadores está neste momento a editar a História da humanidade na sua cabeça. Suspiro, uma palavra antes da emenda, um e uma indícios, sementes de caminhos abortados.

Deus extinguiu-se num jogo de pirotecnia canhestro. Uns aplaudiram, outros assustaram-se. Houve até, vejam bem até onde vai a natureza humana, quem fizesse de conta que não aconteceu nada — o mais fácil. A noite pariu uma ninhada de cegos.

A estatura do gigante começava a dar mostras de querer definhar. Dizer o que se pensa é, antes de mais, um desperdício. Ademais, quem de entre nós saberá dizê-lo e, mais difícil, quem de entre nós está em condições de o ouvir.

Aterrando na mão, o beijo inicia o seu êxodo pela pele. Graças à imaginação, alcançar-me-á os lábios dentro de dois batimentos cardíacos, mais coisa, menos coisa.

É inútil medirmo-nos com coisas pequenas, cartografadas da cabeça aos pés, sem esquecer as entranhas. O fogo, esse, agiganta-se ao ouvir falar da minha fome. Poeta e fogo digladiam-se numa miríade de formas. Ambos peregrinam até à extinção enquanto se desdobram num chavascal de formas. Há quem afiance que o Homem pleno e o fogo homenageiam as metamorfoses plasmadas por Ovídio.

Sem ousadia não há pensamento. Não há passo em frente se a bipedia estiver cabisbaixa. O amor, seja ele um texto ou um deus, refugiou-se numa estória estrangeira. Hoje sou incapaz de o soletrar.

Não sei quantos eus dos que fui sendo passarão o crivo da memória. Ser legião é uma despesa inútil. Do muito o tempo faz pouco.

Reinvento a respiração onde o texto é mais lacónico. Venho ensinar-Vos a desistência; sentem-se e não se levantem por nada.
O discurso caudaloso é o primeiro indício da derrocada.

Ninharias empoladas pelos holofotes nada criteriosos.
As metáforas debandaram, esquivaram-se sem mapa nem norte ao jugo do literal. No pino do desespero, pariram um deserto íntimo — o que me sossega.
As gastas, as cheias de dedadas, refiro-me às metáforas convertidas ao literalismo, foram engaioladas como se fossem bichos sem asas. Vingar-vos-ei com a minha queda intraduzível.

O fogo combate-se com fogo. Tenho um inferno na gaveta, é tempo de o publicar. Usa a carne em tudo o que fazes. Põe a carne toda no assador. A bailarina faz dela — da carne — o que bem entende. Não esqueças de a rodar.

Consinto que os corpos encalhem na cama quando, no rescaldo da fornicação, a realidade nos doutrina chapada atrás de chapada.
Usou palavras que ninguém entendeu — Ele sim o estrangeiro.
Ele, o primeiro Meursault. Recordemo-nos do episódio em que Deus estava inclinado a chacinar o seu povo sem porquê. Moisés foi capaz de pôr cobro ao absurdo de Deus. Daí em diante, a lucidez — ou a razão — deixou de ser coisa que se peça.

Barricado nessa miragem, o estudioso de determinada bolha, diz que o mundo é um paraíso sem ângulos mortos. Disse isto, apesar das dúvidas. As penas e a cera escasseiam. Mesmo assim, urge simular outra espécie de Ícaro. Não tenho tempo para morrer, diz K., ao que R. responde, não demora nada. Num instante fazemos a festa.

Alguém soletrou o meu interior noutra língua, no outro lado do mundo. Eis outra espécie de efeito borboleta.
Eu, adianta outra personagem, venho cá para bombardear as sobras de Deus com versos burilados. Está bem, abelha, prossegue lá rumo ao leite e mel.

Foda-se, não estou em condições de ressuscitar ninguém, as palavras carecem de poder para tal.
Nós, os poucos sem tribo, contra o mundo. Resta-nos enlouquecer para equilibrar os números.

Deus está morto. Choca-me que continuem a malhar no cadáver como crianças à volta de uma pinhata. Feliz ou infelizmente, estamos completamente às escuras quanto à doçura do depois.

Não havendo outra anestesia que não a palavra, a agrimensora de lábios infernais percorre-me, metódica, a cicatriz da alma. A fronteira entre o eu palpável e os eus estilhaçados.
Não vás por aí, vais meter-te em sarilhos, comunica-me uma voz prenhe de lábia.

Desço ao fundo de mim mesmo na esperança de não encontrar ninguém conhecido. Nem aí, foda-se!, estou sozinho.
Ao menos ajudou-me a endireitar a prosa.

O Diabo entrou em mim com mandato de captura. Digo-Lhe que deus não está dentro de nós, mas Ele não acredita.

Vigio a minha respiração à procura de falhas. Sinto que posso morrer a qualquer momento. Foi no que deu andar a brincar os criadores.

O Dinheiro, há muito coroado divindade, intromete-se com a errata: Odiai-vos uns aos outros.

A bailarina cai nos abismos do desespero quando o nervosismo se apossa dela. Quem vem lá para me coreografar a carne? A dor, que pode fazer as vezes das musas na poesia, é uma tragédia na dança. Chega ao rés da bailarina a fim de lhe adicionar gestos vãos a uma dança ontem burilada.

Animal de asas magras. Por sorte, a língua é permeável aos ensinamentos do perfume. Enquanto gladiador, sou uma farsa — estou à mercê do tiquetaque.

Sem mestres, o coração aflito marcava o ritmo da prosa.
Uma mão-algoz-do-nevoeiro avançava na folha sem pedir licença, sem se submeter a porteiros e a convenções.

Ninguém encontrava-se fascinado por aquilo que o homem acabara de erigir da página. Deus estava ali, diante dele, qual cachalote encalhado. Prossigo a dissecação sem maiúsculas. Imaginava-o maior, culpa das ficções, das lendas e dos livros. Esventrá-lo não é conhecê-lo. De seguida, deu ordem aos neurónios para desempacotar os futuros abortados do Homem de dentro do cadáver de Deus. Conseguiu salvar um punhado deles, mas isso teve um preço. Por mais que tente, não consegue livrar-se do cheiro nauseabundo de uma luz caída em desgraça.

Deus, o cachalote encalhado, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

23.06.21

Escrevo, à maneira póstuma, sem recear ninguém.
Só fora dos ecrãs é que a vida é vida. Uns fogem, outros desviam-se, consentindo a sedução por parte das sereias do escapismo, enquanto outros, com nomes à espera de serem insuflados pela posteridade, esperam, sentados numa rua deserta, o tsunami das dúvidas.

A maioria dos amputados sofrem daquilo a que medicina chama “membro fantasma”. Lançar o boato de que o Homem do século XXI, o qual foi degolado pela velocidade, padece de cérebro fantasma e ver de camarote o século incendiar-se. O poeta maldito como uma espécie de Nero clandestino.

Diante da montanha aplanada graças ao dinamite da mediocridade, o poeta comenta: “Cume, fazes-me uma falta incalculável. Espero ter estado à tua altura.” Não te subestimes”, diz o sopé em tom de gracejo.

Trocar as pausas para o tabaco por pausas para a comoção.

O silêncio é mais experiente que o mais genial dos Homens. A ideia que hoje formulas, a qual se pavoneia desmembrada na cabeça, saltando de sinapse em sinapse à espera de uma mutação que lhe dê forma, já foi escutada por ele. O silêncio já escutou tudo. O que é novo para o Homem é antigo para o silêncio.

O epitáfio do suicida é a sua própria queda. Naufraga à vontade, o farol foi desactivado. Há frases que são consequência da queda, outras da redenção. Porém a maioria são tentativas vãs de cartografar o nevoeiro. Eis-me mágico doidivanas a retirar da cartola informe gritos, mitos, hidras e heróis.

Entrem e saiam calados da casa do Senhor. Não proponham personagens ao criador, não tentem interferir na história.

Se soubesse que a queda era tão boa nunca teria aprendido a voar, cogita Lúcifer. Doravante o Homem já não toma parte do diálogo. Somos cinzas adiadas nas mãos do fogo.

Não. Uma síntese célere de despojamento. Mais tarde ou mais cedo aquele que for capaz de o pronunciar será o mais rebelde dos Homens. O não enquanto pedra na engrenagem na máquina do progresso. Notícia num século que não lembra ao Diabo: Homem apanha prisão perpétua por ter dito não.

Suspender a visão e lucidez, abdicar da jornada e do cerco, liquidar o texto, as margens e as notas de rodapé dos vindouros simulando a dança da destruição de Shiva. Rir diante do incêndio da memória.

Não basta sublinhares o óbvio para te evidenciares, digo. O século XXI ri-se. Nem só de ecos se fazem as décadas.
A crítica ao eco é quase outro eco. A trecho final da trajectória da humanidade enquanto luta de papagaios.

Não fites o quadro a menos que te fira os olhos. Regressar de um quadro que nos esmaga é como enfrentar um sol e não cegar.
Que arte terá visto Homero? Que quadro, escultura ou poema o terá esmagado a ponto de o cegar? E se as suas duas epopeias não senão um relato desse encontro?

Não reponho a água na jarra, prefiro apressar o definhamento da flor. Identifico-me com o seu murchar. A água, no caso da flor retirada do seu meio, é um paliativo. A flor merece sofrer.

Numa selva de fauna luxuriante, a abarrotar de estímulos, o faro fica preguiçoso. É preciso aprender a caçar no deserto. Aí é preciso inventar as presas para nos mantermos vivos.

Deixem-me ser o mais claro que se pode ser nestas condições: as minhas estratégias de capturar aquele que gostaria de ser fracassaram. Daí em diante as incompatibilidades aumentaram, virei costas ao mundo e fechei-me dentro do meu eremitério privado. Encasulei-me no interior de um pêssego quilométrico. Sou o caroço duro de um mundo que há-de singrar após o meu último suspiro.

Só dar atenção àquilo que cega. Mas não basta olhares para o sol, é necessário vasculhar o mundo de uma ponta à outra à cata de estrelas insuspeitas e terrenas.

É impossível um deus morrer se as carpideiras endeusam essa morte.

Uma província de espectros, sem ninguém para tocar. Andar com as mãos atrás das costas, quiçá atadas, como os velhos. Eis a pandemia. O mundo assombrado.

“Acabe-se com as citações”, disseram os estudantes radicais de Frankfurt. Desculpem, puseram-se a jeito, não escrevo para agradar Ninguém.
Mas já cá que estamos, nas frutuosas paisagens da ecolalia, citemos Canetti: “Ele refugiou-se em Deus. Aí é onde mais gosta de sentir medo”. Isso foi antes d’Ele morrer ou depois? Suponhamos o seguinte cenário, Deus, mudado em cachalote branco, ocupado por gerações e gerações de homens que procuram o santuário onde o seu grito possa ser ouvido. Homem, o qual foi feito à imagem de Deus, unido ao criador (em virtude da morte minúsculo) pela podridão.

O artista confessa ao psicólogo a sua capacidade de exteriorizar o seu mundo interior, porém receia que não haja espaço para tantos planetas. Resta-lhe o voto de silêncio.

Deus está embriagado com a miséria. Fiquem em casa, é mais sensato. Se Ele vos encontra, mata-vos com a conversa mais maçadora de sempre.

Século XXX. À excepção do Homem e de um punhado de animais úteis para o estômago do ser desumano, tudo se extinguiu. Foram anos de muito tumulto para os biólogos. Hoje é comum vê-los camuflados nos arbustos da cidade a documentar a vida de um ser humano anónimo. Calem-se, sussurra o biólogo, está ali um animal raro, o poeta. Mergulhado na escrita, nada nele está noutro sítio. A indústria da compressão de arquivos inspirar-se-á na poesia. A ciência de ser tudo em pouco espaço acabará por florescer, eis o prognóstico do biólogo palavroso.

Procuramos na arte uma espécie de judo metafísico. Quando a vida vem abrutalhada e cheia de pressas, há um meio de a atirar ao chão. Virar do avesso quem nos quer tombar. O artista franzino serve-se da força da vida para a atirar ao chão. A vida com os costados no cimento e o franzino a celebrar a vitória que alguns julgaram inverosímil. Não podemos deixar de sorrir quando vemos o gigante estatelado no chão, o gigante vencido. Sentimo-nos uma espécie de gato das botas. Tudo muito bonito, mas será possível aplicar o judo à morte, a qual vem lá de longe a anunciar-se com uma fúria de mongol? Será a morte o limite do judo?
Peço desculpa pelo incómodo, chamem-me sedentário, mas prefiro adiar esse último confronto. Nunca se sabe quando é que uma nova técnica me vem parar à mão.

 

Judo aplicado à morte, Roberto Gamito

 

 

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