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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

06.08.22

Incapaz de arquitectar uma crónica ardilosa que possa ser vindimada com gosto pelas pupilas dos vindouros, prenhe de altos e baixos frutíferos aptos a entusiasmar até o mais exigente leitor, criatura capaz de espremer o rouxinol com o fito de despertar o que se acoita nas reticências, resta-me — oxalá as forças não me deixem a patinar neste lago siberiano da escrita onde, círculo após círculo, engrandeço a minha prestação diante dos júris do ridículo — esfrangalhar a mão contra as rochas do quotidiano à espera que o sangue encapelado desse embate me ofereça umas míseras linhas. A vida, supondo que isto não é um sonho, ou um holograma ou uma história engendrada por um deus com pouco que fazer, é pródiga em enganos, fértil em escaramuças e, em havendo tempo para procurar, poiso predilecto de insignificantes pepitas, nomeadamente paixão, amor e banquetes de fazer brilhar o olho ao mais criterioso glutão. Em jeito de súmula, a vida acontece à revelia da nossa vontade.

O bêbedo olha para mim e eu retribuo o olhar e ficamos assim, sem deixas, como dois palermas sem guião. O que não abona muito em favor quer de um, quer de outro. No cume da minha ingenuidade, quase acreditara ter encontrado a nascente da inspiração. Equivoquei-me, é um bêbedo raro, daqueles que não partilham nem por nada as suas histórias e teorias. Assim sendo, lá terei de continuar sem o milho da inspiração terrena, enfim, sou tomado de incertezas quanto aos fados desta crónica. Prossigo, portanto, de mão vazia e a tremelicar.

À minha frente, com uma camisa cujas cores deviam dar prisão sem direito a julgamento, um homem que, se descontarmos os poucos cabelos, que se exibem na tola do animal como um tufo humilde num deserto, é careca. A criatura a que muitos chamam homem é acompanhado por uma mulher que dá ares de esposa, sei-o pela forma severa como repreende o marido, a eterna criança a necessitar de chibatada. A mulher — juro-vos não estar a inventar para fins de comédia — possui uma camisa igual à do marido. Não me perguntem como é que ainda não se criminalizou isso. Uma pessoa inocente, vítima insofismável, olha para esse cenário desconcertantemente garrido e apanha um trauma que o acompanhará até à cova. Até digo mais, sou dotado de um conhecimento enciclopédico no tocante ao gostinho que as mulheres têm em fazer com que os homens passem por parvos, como se fosse uma tarefa que exigisse grande esforço, daí que esteja em condições de afirmar, embora o negue se for confrontado por alguma feminista, que a mulher obrigou o homem a fazê-lo. Até acrescentaria: a mulher detesta a camisa. No fundo, o que a mulher está a declarar com este comportamento é: vejam, casei com um paspalho, consigo vesti-lo com a camisa mais ridícula de todas, mais, vestimo-nos como se fôssemos gémeos carrancudos e ele nem pia. Contemplem o poder da vagina! Um aviso claro às outras mulheres. Vejam, este espécime está totalmente domesticado. Ao depararem com este ser agrilhoado, as mulheres dirão aos maridos: estás como queres, mas isso vai mudar, não me casei contigo para andares aí como se fosses um animal selvagem. Anda comigo ao shopping, vamos comprar as camisas mais medonhas que encontrarmos. Vai-te fazer bem ao ego, murmura a mulher com um sorriso de orelha a orelha.

Mulher, domadora de homens


Roberto Gamito

10.11.21

A mulher levantou a saia e comunicou-me: “algures por aqui encontra-se o grande viveiro das histórias, a fábrica das temperaturas prazerosas, o estaminé dos gemidos onde as palavras perdem a pose”. É tudo muito bonito, ripostei eu com um cigarro a pender dos beiços, todavia não é por aí o caminho. Ah, como a tua coragem literata (melhor dizendo, vegetal) aproxima todos os monstros.

Os precipícios deste diálogo? A minha intenção era soletrá-los desde o início de molde a domesticar a vertigem, ceifar o coro de lamúrias que se acoita nos atalhos jamais trilhados com um sopro à lobo mau. Estou fodido, estou fodido, estou fodido, repetimos nós diante do espelho como se fosse um refrão ritualístico. Que mais posso dizer sobre o que não sucedeu? Num suspiro isolado há famílias inteiras de guilhotinas disciplinadas. Mas com que sacrifício foi adquirida essa disciplina? Isso daria uma biblioteca.

Estudava a carne recém-descoberta com obstinação, paixão e nervosismo, com base no que aprendi nos documentários dos exploradores. Onde é que isto vai parar? Que pergunta ingénua!, disse-me. Ninguém é obrigado a saber tudo. Não nego que a literalidade tirânica que grassa presentemente me oblitera o tesão. É necessário pôr as palavras a dançar antes de estas alcançarem o epicentro das nossas intenções, uma certa fantasia a fim de encontrar as coordenadas derradeiras, um certo fogo antes do fogo para que o relâmpago que faz de ponte entre os olhos famintos nos singularize.

Não me espantaria nada se daqui a alguma décadas a literalidade extingui-se o tesão. Segundo o meu parecer de leigo, as carnes ofegantes apreciam ser prefaciadas numa cama de metáforas, de tangentes que, ao tocar na pele, se desfazem em delicadas carícias. Sou, não escondo, um cultor das entrelinhas — possivelmente o último da minha espécie. Já repararam que as entrelinhas de certos poemas são povoadas por gigantes, deuses, paisagens inconcebíveis que a palavra tenta em vão legendar?
A dimensão do que ficou por dizer faz cócegas até ao cérebro mais dotado. Se quiséssemos, podíamos esconder o mundo entre dois versos.

Todavia o mundo dos homens só ocasionalmente se equipara ao poema. Tal abismo fez-me andar de um lado para o outro, coreografia herdada de um pêndulo, espantando lagartixas que apanhavam banhos de sol nos caminhos de cabras.
Em todo o caso, por onde eu ando já alguém andou.

Irritado, partilhei a minha descoberta com o espelho.
Ficou indignado, trocara o refrão por um deixa inédita.
O reflexo acusou-me de exagero, de invenção, de mistificar o indizível. Recomendou-me que regressasse à lengalenga do costume.

O sofrimento é o meu grande professor. Em boa verdade, não é, mas receio sofrer mais represálias. E a rosa, a rosa polivalente, amiga sempre disponível para fazer uma perninha nos poemas? Era um abuso prendê-la neste pedestal desfalcado onde a carne e as aves se ausentaram.

Na ocasião, algo inédito e gigantesco deve ter-se introduzido na conversa. Infelizmente, não teremos tempo para dissecar o monstro. As conversas murcham quando não alimentadas com fome.
E como nos comportaríamos nós, imaginando a sequela desse encontro, diante desse monstro saído da hesitação de ambos?

Na vida, tal como no poema, semeamos reticências. Delas brotarão o Inverno ou a Primavera, conforme a sorte ou o engenho. É preciso muita paciência para encontrar a deixa certa no meio de um guião prenhe de lengalengas. E continuámos a falar — a papaguear não importa o quê.

 

Cultor das Entrelinhas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

29.01.21

Uma mão aflita que fosse de flor em flor. Estabelecida esta primeira confusão, realizado o contrabando dos perfumes, com os quais seríamos repentinamente destruídos nessa viagem ao passado, sobra-nos um punhado de frases derruídas. O presente é um resíduo do passado. A atitude humana em relação ao passado é aliás de uma aterradora complexidade. Labirintamo-nos. Bocas que nos resgataram do pântano da homogeneidade, tal como o gemido daquela que fornica é, a par do grito, a suprema afirmação de vida. No plano do desânimo, podíamos supor que o gemido, os seus repetidos ensaios em dias que não lembram ao diabo, nos quais deslizamos do tédio para o entusiasmo pelo declive do tesão, é tão-somente um ensaio para o grito derradeiro. Eis duas formas lindas de interromper o silêncio, dado que as palavras já não surtem efeito: gemido e grito.

Quando dois corpos se encontram atraídos pela mesma fome, tendem a formar um mundo tumultuoso, no interior do qual geralmente as diferenças hierárquicas entre presa e predador são poucas. Sexo, olhares, gemidos e outras coisas manuseáveis pelo pensamento, caso a mão esteja fria e longe da carne, postas na folha crivada de riscos. Afastados os corpos, ingressamos no império da sede. O que é afinal a poesia? O ofício de erigir um bebedouro.

A língua gatinha onde ontem era lume. A mão, a qual perdeu a sua dignidade ao trocar a carne pela folha, empobrecida por uma primeira atabalhoada tentativa de procurar nas letras aquilo que lhe escapou. Uma mulher numa métrica a pique, musicada pelo coração elegíaco. No plano da utilidade, um acto maravilhosamente risível.

Mulher Posta na Folha, Roberto Gamito

 

 

 

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