Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

19.12.20

Frequentemente, dado que somos exímios a desperdiçar tempo, iniciamos já suados a concretização de uma tarefa que há muito devia estar feita — uma crónica, por exemplo —, e encetamos a alucinação xamânica durante a qual nos deixamos possuir, à vez e sem rebuço, por um cardápio avantajado de demónios. Somos ingénuos a ponto de acreditarmos que o bombardeamento de estímulos nos conduzirá até aos altos cumes da inspiração.

À beira do desastre, que é como quem diz, o melhor já passou, orlamos o precipício e suas redondezas em passo de vadio à cata de tetas susceptíveis de nos nutrirem, sejam elas oriundas do mundo real ou do mundo virtual. Tempos houve em que esta questiúncula decisiva nem sequer existia. O mundo virtual, antes ínfimo e risível, estava longe de ser um rival à altura do mundo palpável. Entrementes, o século que nos saiu na rifa deu um coice, catapultando-nos para formas inéditas de nos relacionarmos connosco e com os outros. Não vos minto se postular que o tempo dedicado ao mundo virtual cresce espantosamente e o mundo real é cada vez mais um mundo de recurso, ao qual recorremos para coisas monótonas, pouco dignas de figurar no panteão das redes virtuais, a saber: carregar os telemóveis e viver a vida sem a pirotecnia da artificialidade.
O mundo real, sem adornos, não gera engajamento.
Eis o quadro pintado até então: o mundo real de joelhos diante da ficção.

Será isto a consequência de um ego que procura avidamente nas redes sociais aquilo que o mundo real lhe nega? A melhor imagem de si mesmo. Ou é algo mais primitivo? Será que o Homem sente ter esgotado as histórias do mundo real e hoje procura noutras paragens, qual navegador da nova escola, género pirata de sofá, uma história que o faça sair de si mesmo?

Ficaram apenas as cinzas de velhas pontes. Quão loucos teríamos de ser para principiar um puzzle com as sobras do velho mundo?

O mundo real é cruel, amesquinha-nos e apouca-nos sem parança. Não se acanha aquando do inventário das limitações e defeitos. Este pormo-nos de joelhos, esta rebelião escoada pelos dias, sem quebramos a nossa pose de mimo, da qual não sairão herdeiros, não dá sequer para o primeiro verso de uma elegia. Será que não conseguimos melhor que isto?

Como nota elucidativa dos nossos propósitos para esta crónica apraz-me dizer que, infelizmente, a última pergunta ficará sem resposta.

Um qualquer olhar estrangeiro capaz de resgatar o coração da sua vida em suspenso, como que uma instrução que devolvesse a vida e suas maravilhas à carne corrompida pelos dias ficcionais. Eis possivelmente uma escapatória.

 

Mundo virtual, Roberto Gamito

 

2


Roberto Gamito

11.03.16

Os textos deste blog são escritos (se houver boa vontade da vossa parte concordarão comigo; suponho que, doravante, especulando sobre a evolução da nossa relação autor-leitor, estes nacos amorfos, estas talhadas de nada, progridam qualitativamente em matéria de disparate; e sim, criei este parênteses graúdo tão-só por pirraça) enquanto a inspiração não chega. É compreensível que se atrase, nunca esquecer que a inspiração é feminina. É um texto intersticial, um tapa-buracos, impressionantemente ambíguo que, com sorte e com a ajuda competente do acaso, há-de adquirir algo aparentado a uma forma, algo que culmine numa identificação, algo que incite os meninos a arreganhar as beiças. Não vale a pena tirar as manitas dos bolsos, está muito frio lá fora como diz a cantilena, e além disso, o ruído estorva-me; lá para o finalzinho do texto perceberão o porquê. Alhures convencionou-se que a Comédia, assim em maiúscula para meter cagaço, tem que ver com identificação; alegra-me sumamente perceber que a lógica de cortar as goelas ao jogral caso o jogral não mexa com as nossas referências não sofreu grandes mudanças. Nunca é de mais relembrar que a internet não é senão uma lâmina. Falar para o boneco, a menos que o boneco seja o Pinóquio, é sempre ridículo, salvo quem se dedica ao ventriloquismo, mas esses, ao contrário dos demais, enfrentam um ridículo que rende algum.

 

Extraordinário!, volvido um punhado maneirinho de linhas, ainda não foi, admitamo-lo, nada nitidamente dito. Se por acaso se deparar com algum episódio da sua vida enquanto calcorreia o texto com o olhar maroto enquanto pensa este indivíduo é um ser cujo cérebro foi substituído por um vazio inconspurcável, então, desculpe-me a franqueza, mas tem sérios problemas mentais. Recomendo-lhe um psiquiatra ou uma marretada nos dedos, dependendo se gosta ou não de comprimidos. Se forem como eu, escolhem a marreta: custo a engolir os ditos. E como ganho ficam com as mãos maiores. Que, se formos a ver bem, é uma coisa boa: funciona como engodo para aquelas mulheres que estimam o comprimento da sarda baseando-se na dimensão da mão.

 

Ainda estão aqui?, não tem de ser necessariamente aqui, um aqui vago, um aqui-aí, vocês sabem como a parvoíce funciona. Bom, se adentrarem no nevoeiro, encontrarão as minhas respostas a todas as grandes questões da Humanidade, como podem ver, nada de muito significativo, nada que possa encetar uma primeira página do Correio da Manhã. Prosseguindo, tenho muitas opiniões, a bem dizer, um pouco sobre tudo, tal qual um canal generalista. Feitas as contas, as opiniões anulam-se umas às outras e pouco se aproveita. Género rescaldo de uma pista de dança aquando o encerramento de uma discoteca. O refugo do refugo. O que ninguém quer. Escusado será dizer que me sinto assim todos os dias.
Deus desligou a omnipresença só porque já não conseguia lidar com o meu semblante taciturno. Foi isso ou o facto de estar muitas horas de pé, já estava a ficar com varizes na barba.

 

A vida é exageradamente difícil. Aqui devia entrar a piada, mas julgo que não faz muito sentido contrariar os ensinamentos dos dias, esses tipos que surgem, em pilha, uns atrás dos outros, sem nos oferecerem nada de especial. Ao menos podiam trazer mirra, sempre mostravam algum interesse por nós. Tenho uma fotografia dos dias encimada por uma moça de seios fartos e firmes, o chamado calendário, e o que é que eu recebo em troca? Ensinamentos?

 

O mundo está à beira do precipício e, segundo sei, o mundo não é um animal com asas. Basta abrir um canhenho de astronomia para verificar o quão vero é a sentença anterior. Nem precisa de ser italiano. Nada me chateia mais do que entrar num bar e perceber postumamente que o estabelecimento é uma sapataria e compreender que bater os meus sapatinhos vermelhos não me leva de volta para a referência com a qual decidi engendrar esta piada.

 

O comediante, ou seja eu, volta e meia parece um amontoado de cacos, cactos corrigirá o disléxico. À semelhança do sujeito comum, finalizarão os outros. A diferença é que uns juntam os cacos com o intuito de gerar uma piada enquanto os outros juntam os cacos para arrumar a vida.

 

Dizer que a morte é certa é uma expressão apressada. Tenho para ali duas arcas a ganhar gelo a fim de, daqui a uns tempos, abrir o meu laboratório de criogenia. Não me dava jeito nenhum morrer. Pelo menos enquanto não descobrir a fórmula para a juventude eterna. Se bem que ser perenemente jovem, sem grandes expectativas de ir em direcção a um estado mais lúcido, dar-me-ia vontade de cometer suicídio.
De vocês espero aquela reacção de enfado, do género: ”Lá está um tipo a propagandear que vamos morrer”, que enfado, ao menos metias isso num meme ou assim, uma imagem de um bichano de maneira a ficar um pensamento encorpado.
Não quero que se macem, mas prefiro o tédio espesso a ter uma conversa com alguém que está constantemente a empecilhar o silêncio.

 

photo-1456428199391-a3b1cb5e93ab.jpeg

 

1


Roberto Gamito

09.03.16

Não querendo entrar em detalhes, até porque o detalhe é, por norma, uma coisa minúscula e pouco dada a dilatações e eu sou, vamos supor, o parente mais afastado do pequeno, isto é, um sujeito inequivocamente circular, de raio considerável, e perdi-me: ei-la, a primeira frase do blog. Mais: se a gordura fosse ainda formosura, atribuir-me-iam decerto o cognome O Grande, o grande saqueador de frigoríficos. O que, bem vistas as coisas, ir-me-ia impossibilitar a tarefa de penetrar em detalhes; nem veredas quanto mais detalhes. Sucintamente, um início pouco propício a coisas — um precipício ambíguo e enjorcado a transbordar de palavras. Avancemos para as verdades insofismáveis: são crescidinhos e pressinto — sou uma referência internacional nas premonições — em vocês um invejável caparro para aguentar os meus raciocínios.

 

 

Entrei à socapa numa sala desprovida de detalhes, que é como quem diz, uma sala vazia, e empreendi durante largos segundos e outros tantos delgados uma meditação azeda acerca do mundo, do grande até às minudências que lutam dia e noite por um lugar ao sol — ou à sombra — num dos rodapés da História, todavia, tendo bem presente o pensamento filosófico do séc. XXI, o qual postula este tempo como a era das contradições, não fui muito longe na meditação, para não chatear ninguém. Agora que penso no que pensei, admito que foi tempo perdido. Cronos leva sempre a melhor. Correr contra o tempo é pueril, além de cansativo. E a parte chata é que não vamos poder estar presentes na cerimónia de entrega das medalhas, por motivos de força maior. Compromissos profissionais. Se não fosse pelo aparato que designamos erroneamente de vida, e outros particularmente sabujos, nomeadamente os taberneiros, designam por ‘esta merda’, não estaríamos aqui; nem acolá, e desconfio que nem tampouco na casa do caralho. É a vida que nos trouxe cá, o fruto de uma fodanga ocasional, o fruto do acaso, ou fruto do amor, o fruto da inseminação artificial: uma salada de frutas em que muitos passam impecavelmente por bananas. Somos o fruto de uma árvore genealógica outrora regada por um númen, o qual, corre o boato, foi assassinado por um senhor de farto bigode. Basta de elucubrações acerca da temática morte; já demonstrei que sou dotado em matéria de parvoíce, marotamente parvo, apesar de curvado, vergastado pelo destino ou pelo quotidiano, não sei, os gajos revezam-se; a idade já pesa para lá de muito, e tudo isto me confere uma postura ecológica irrepreensível, basta para isso que me pinte de verde.

 


Fomos sequestrados ao nada por instantes e ninguém deu pela nossa falta. Deus morreu, Freud morreu, o Woody Allen não se está a sentir muito bem e eu para aqui a escrever um blog em vez de estar a ganhar dinheiro. Opções.

photo-1454678904372-2ca94103eca4.jpeg

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog