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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

08.04.22

Fazendo fé nas conclusões de travo alimentício da consultora Nielsen, a qual monitoriza as compras de três mil lares portugueses, e futuramente as compras de três mil hostels, o consumo de frutas e legumes diminuiu nas famílias com filhos, privilegiando a aquisição dos produtos de conveniência, a saber: refrigerantes, conservas e take-away, que são, para usar a expressão de Clara Viana, do Público, facilitadores do dia-a-dia. Aqui principiamos a divergir ligeiramente. Embora reconheça que alguns dos produtos nos tornem a vida mais fácil, cito como exemplo uma lata de atum, a qual é uma espécie de MacGyver que desempecilha a refeição em situações que de outra forma seriam impossíveis de resolver para uma pessoa cujo lema da vida é “mexer-me o menos possível”. Se a vida melhorou drasticamente após termos conhecido a lata de atum? Não nos precipitemos na resposta. É uma relação longa, começa na universidade ou até antes e acompanhar-nos-á, suspeito, o resto da vida. Logo terá todas as características de uma relação duradoira, tanto as boas como as más. Creio ser despiciendo sublinhar que a aura romântica que paira sobre as conservas rapidamente desaparece. Falo por mim, sempre que desfruto desse singelo pitéu que consta no menu do desenrascanço, sou arrastado aos solavancos por uma imaginação contrariada rumo a um cenário de guerra em que estou a fruir da minha última refeição. E eis que choro profusamente. Não adivinharia, nem nos meus mais célebres pesadelos, que a minha vida seria essa. Acabar os meus dias a comer atum num casebre abandonado enquanto espero pela morte e ouço Maria Leal.

Há, continuando a pastorear os olhos no artigo, motivo pelo qual encetei esta prosa suculenta, um aumento dos produtos exímios em insuflar a pança, tais como: chocolates, batatas fritas, bolachas que existem para, momentaneamente, tapar o buraquinho existencial. O número de suicídios seria mais elevado se não houvesse estes paliativos. Nunca tive, que me lembre, ideias suicidas enquanto estou a estraçalhar uma tablete de chocolate. Depois de a comer é outra conversa, mas é uma questão de comprar a maior tablete possível. Teorizando um nadinha, posso assegurar que, se comprarem uma tablete de chocolate infinita, nunca mais pensarão em coisas tristes.

Que vida a criança teria se, além do típico conselho paternal “não fumes, não bebas, não te drogues” fosse aconselhado a enveredar pela via marginal logo desaconselhável da fruta. A criança não teria alegria nenhuma para continuar a viver neste mundo empestado de regras. E sabem como são as crianças. Pode acontecer, não digo que em cem mil catraios não haja um que goste de fruta, que se delicie em abocanhar citrinos e assim, mas, debaixo da mira do olhar desdenhoso e inquisitório dos seus ranhosos colegas, opta por recalcar o seu amor pelos legumes e pela fruta. Moro no Algarve, onde há citrinos aos pontapés, e do que me lembro dos tempos de escola, descartando as memórias das pessoas boas e das professoras boas, supondo que são coisas diferentes, não me lembro de muitos episódios em que o Dário ou o Alexandre pudessem descascar clementinas sem serem importunados. Supondo que a geração actual de putos é superior à minha nesse aspecto, sim, estou disponível para realizar esse salto de fé, que não importunam os outros, pois têm assuntos mais sérios a tratar, como estar concentradamente alienados ao smartphone, ou a realizar directos para o Instagram, levanta-se outra questão. A questão da socialização. A fruta não promove a socialização. Ninguém se aproxima de um puto e diz: Orienta-me aí um gomo de tangerina. Ninguém. Nós queremos relacionar-nos com os outros e a fruta e os legumes não constituem grandes catalisadores. Pelo contrário: são inibidores. Daí não constituir espanto para mim que os putos enveredem pelos Kit Kats e pelo tabaco. É o que levamos da vida. Histórias. Histórias com outras pessoas. De que me serve morrer com um corpo a abarrotar de vitaminas se ninguém quer meter conversa comigo? Isolei-me do mundo por via de ter criado uma barreira de clementinas, bananas e maçãs, pensará o miúdo que seguiu uma vida saudável. Viverá dentro de um casulo de fruta e um dia brotará, de dentro do casulo, uma borboleta bisonha da espécie Carmen Miranda.

E a mãe que diz “comprei estes abacates a pensar no meu filho” é uma mãe que não ama a sua cria. Ai eu faço-te lembrar um abacate?, pensará o filho quando confrontado com esse pensamento. Mãe, não me conheces. Eu sou um ser doce, dirá o garoto. Daqui em diante quero que te lembres de mim quando passares pela secção das gomas, concluirá o puto.

Ou então os pais detestam os filhos e estão a tentar matá-los seguindo os trâmites legais, a única forma socialmente aceite de matar um petiz: não lhe providenciar comida saudável. Não me oponho, só quero saber se é preciso aquecer o biberão de coca-cola.

A fruta não é amiga das crianças, Roberto Gamito


Roberto Gamito

23.02.22

A vida, a obra inacabada de Deus.
Raramente descortinamos o trajecto das suas ideias, a forma como mais tarde as há-de articular num edifício cantante. Apesar de independentes, semelhantemente a versos crescidos, são blocos de uma arquitectura monumental. Um novo século não faz nada senão inaugurar novas travessias para o inferno.

Escrever é tão inútil como semear gotas de água na neve. Na cidade dos suicidas, os nomes das ruas eram escritos a sangue. Percorremo-las cabisbaixos, sem olhar para cima, não vá o nosso olhar cruzar-se com mais um pássaro implume.

Pouco ou nada se escreveu sobre a hierarquia dos bobos. Sabemos que, tal como os homens, há pelo menos três categorias: grandes, pequenos e médios. Em todo o caso, é despiciendo pensar em tal, como se houvesse hierarquias no grito, castas entre as migalhas.

Os monstros vão ao encontro dos grandes caçadores, e não o contrário. Na embriaguez da escrita, o teu nome espraiou-se qual nódoa até preencher o poema. Esta prosa é o efeito de uma miríade de naufrágios, muitas braçadas dadas em vão rumo a um lugar nenhum. Na margem deste texto, o homem desbrava territórios virgens nos quais até agora só pululava o pesadelo.

O desejo de novidade apressa o pó, o qual cai em cima dos recém-chegados mal façam as apresentações. Fruto de diversas intermitências, semáforo nómada que oscila entre o aceso e o apagado. A última frase é a legenda de um quadro que nunca chegou a vir à tona da tela branca.

No quadro ao lado, o homem nada tranquilamente no mar de cadáveres que foi sendo, as várias versões testadas durante a vida, as abortadas, as imaginadas, todas as possibilidades postas em cadáver repousam sem expressão quais peixes envenenados. E todavia ele nada.

O século XXI é pródigo a gerar deuses de passagem. Nem para os deuses temos tempo. O verdadeiro método de prestigiar um deus é: imaginá-lo num combate com o poeta maldito. Abrir uma casa de apostas, esperar pelo desenlace e escrever a crónica dessa pugna.

Já ninguém sabe escrever um poema que nos afaste da ideia de suicídio. Eis o capital na arte de larachear: surpreender o abismo com o outro tipo de queda. Substituir o grito pelo riso — eis o papel do humor. Seja como for, a tragédia mantém-se intacta. Toda a actividade artística mais não é do que a tentativa gorada de fugir à morte. Ante tais descrições, apetece-nos incendiar o museu. Não há nada nele que nos ensine a rota da salvação. E há quem chame isto templo.

Recuemos para terrenos mais respiráveis. Mamas e cus, e eu armado em Aldous Huxley, vendo nelas e neles substâncias estupefacientes capazes de ampliar a visão e abrir, de chofre, as portas da percepção.

Aquele livro, aquele filme, aquele poeta, aquela citação, aquela jarra, aquele quadro, aquela pessoa, aquele animal — precisas de ver tudo isto, dizemos nós ao primeiro coitado que cair nas malhas da nossa conversa, garanto-te que a vida vai tomar um rumo se seguires à risca esta receita. A hipertrofia das recomendações asfixia os textos, os homens, as obras e o mais. Urge consumir o outro sem auxílio de legendas. Seja como for, o outro permanecer-nos-á inacessível.

O mais profundo sonho do artista: exorcizar o mal do passado, de tal modo que as memórias ressurjam com novo fôlego e nos ensinem, de uma vez por todas, a sair da pedra graças a um novo estremecimento. O drama barroco de esculpir cidades em migalhas.

Somos um animal que se confunde com a paisagem, a simpatia ou hipocrisia como meio de camuflagem, não obstante, barragem onde se acumula a cólera, essa deusa fluída.

O ser humano actual espera ansiosamente pelo segundo que, com ardil, a palavra se irá soltar da sua boca de molde a elevá-lo aos píncaros. O homem contemporâneo é na verdade medieval: só consegue pensar em termos de magia.

O tédio é a fronteira que separa o presente do futuro, isto se trocarmos a cabeça do artista por um prisma e registarmos a decomposição da luz branca. Acordava sempre com a mesma frase na cabeça: sou contemporâneo de um sem-número de tragédias. Dá a ideia que o século XXI é a zona de passagem das tropas do XX para o XXII.

Após a morte de Deus, ficámos muito pobres de experiências redentoras. Armamo-nos em ventríloquos deste e daquele, tentamos endireitar em conversa a vida deste e daquele, porém não é a mesma coisa. Deus foi o maior ventríloquo de todos os tempos, ficaram os bonecos.

Recuar ao passado, mesmo se for com o objectivo de resgatar quadros esquecidos, não poderá ser entendido como profanação?
Se assim for, a memória é a musa cujo papel é recordar-nos do nosso fado de larápio. Entretanto, confraternizo com os deuses que hão-de vir no mundo entre a intenção e a concretização.

O problema foi o progressivo endeusamento do norte, futuro, se detestarem rosas. Se nos dissessem que o futuro é, a par de Deus, a maior ficção inventada pelo Homem, não teríamos forma de desmentir e teríamos de arranjar forma de prosperar no aqui e no agora, neste reino de cacos.

Tornei-me áugure e arúspice, do voo e das tripas tirei as minhas lições. Apesar da febre da higienização, o Homem não consegue disfarçar o nojo que sente diante do espelho, o que temos é um século inteiro a cheirar a mofo.

Não me contento com o som e com a fúria, pretendo — reconheço a ousadia — inspirar-me no jazz onde o ruído se emancipa. Emancipar o sangue, cortar-lhe o vínculo que o ligava à obra de Homero. Afastar o sangue do cerco e da jornada. Tentar uma nova via para o canto. Mas que sei eu disto tudo? Não passo de um papagaio numa câmara anecoica a falar-vos sobre os Ecos do Homem.

Deuses de Passagem, Roberto Gamito


Roberto Gamito

22.02.22

Nas esplanadas vêem-se os últimos espécimes verticais desta era de sobras.

Conheço uma sala afastada do centro, longe dos olhares curiosos e ávidos de boatos. Deseja encontrar-se comigo num sítio onde nos podemos agredir sem o empecilho de terceiros nem a grandiloquência das variações levadas a cabo pelas testemunhas?

A rua espreguiça-se graças ao comércio. À noite, encolhe graças ao vaivém nervoso do bêbedo. A rua simula o coração.
Do alto da torre, as pessoas cá em baixo transformam-se em formigas. Suicido-me e durante a queda as formigas readquirem a sua antiga forma. A procissão de migalhas humanizada pelo suicídio de quem se atira do alto.

A paixão, vocacionada para o disparate, arredonda-nos por excesso. Nada de extraordinário, tão-somente outra manifestação do fascínio pelos precipícios.

Apesar disso, o bárbaro persiste no armário a tirar notas.

O galão arrefece, vigiado pelo olhar inocente — ou faminto? — do catraio. Lá fora a guerra é encetada com ganas de ficar para a História.

Uma mesa para os maiores, outra para os menores e uma terceira para quem hesita entre categorias. A dor crónica de quem se senta na mesma mesa menor, faça sol ou chuva, faça ou não proezas dignas de génio. O destino é como ter lugares marcados.

Já é altura de deslindar o que se acoita no coração de um homem colérico.

A casa é um pavilhão multiúsos em miniatura. Há folia, bailes, banquetes, desporto, teatro e o mais.

A linha a fazer as vezes da cicatriz. Em lugar algum encontrei aquilo que perdi. A frase, ricamente povoada de cadáveres, simula uma capital vandalizada pela escoada piroclástica. Cada verso uma Pompeia.

Os anos passam e o discurso, outrora prolixo e inchado de certezas, dá lugar às ruínas cantantes, caso a veia poética se interponha entre nós e o mundo. Reduzir ao essencial, o ofício de espremer cadáveres com o fito de lhes beber o sumo.

O Diabo foi possuído pelo demónio da depressão. Os poetas malditos, sua única freguesia, estão a caminhar para a mansidão. Do nono círculo de Dante chega-nos um choro que abalroa o canto das sereias. Conheço um quarto humilde, sussurro à mulher, onde nos podíamos seduzir sem recurso a adjectivos. Uma sedução pejada de verbos seria do teu agrado, excelsa donzela?

Somos o somatório das despedidas e pouco mais.

A relação acabou. Aí disse adeus, não apenas à mulher com a qual partilhei a tumultuosa província dos lençóis que a fome enrodilha, burlada pelo tempo até não sobrar nenhum detalhe que possa povoar a mais magra das molduras, oh, a fotografia-memória da qual nos pudéssemos orgulhar quando a vida nos visitasse, mas também as cenas que dinamitei pela minha falta de jeito como actor.

Este século é solo pouco propício ao sonho. É difícil alimentá-lo numa terra de doidos.

Terra de Doidos


Roberto Gamito

21.02.22

Escusado será dizer que estamos todos meio queimadinhos dos cornos. À minha frente, à distância de duas mesas, está uma mãe a educar a sua filha enquanto come um palmier de faca e garfo. Está aqui um belo trabalho! De que vale vozear ‘sê uma criatura porreira com os teus semelhantes’ se depois come um palmier de faca e garfo? Tremo só de pensar que adulto será esta criança.

Aproveitando que estou numa maré de saúde, detenhamo-nos na fauna de pastelaria. A velhota a cheirar o bolo de arroz, a senhora que molha a torrada no galão, o velho que fala aos gritos e o palhaço agarrado aos livros. Não queria ser eu a levantar a perdiz do restolho, porém não podemos continuar a ignorar o problema. Presentemente, ninguém come o bolo da forma tradicional, isto é, com as mãos. E isso é preocupante. Faltará pouco — profecia minha — para que um novo costume ganhe adeptos: comer cu de faca e garfo. Seremos todos uma espécie de apóstolo da etiqueta, atravancando a fornicação com rituais de novo-rico.
Burocratizar a foda é uma tragédia: temos de estar alerta.

A outra hipótese, quiçá menos descabida, é a necessidade de fazer render o peixe. Comer à selvagem é devorar um bolo em menos de um foguete, com faca e garfo consigo fazê-lo durar indefinidamente. Consigo racionar o pastel e assim tenho desculpa para ficar alapado numa pastelaria durante horas: estou a consumir. Eu próprio sou adepto dessa técnica de fazer render o peixe no capítulo dos iogurtes. Enquanto gordo praticante, volta e meia preciso de racionar o que ponho no bucho, não vá tornar-me um gordo surrealista pintado por Salvador Dalí, daqueles que derretem à temperatura ambiente. Como gosto de iogurtes, e por minha vontade comia aos packs de 6 de cada vez, arranjei um estratagema — a minha maior obra até à dada — que é usar a menor colher possível. A colher minúscula faz com que me demore no mesmo iogurte, dando a impressão de comer um de uma arroba. Engano o cérebro — por sorte é um daqueles que se deixa ludibriar facilmente — com um iogurte. E além disso faço exercício em virtude do sem-número de colheradas que levei à boca.

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Roberto Gamito

18.02.22

Partilho da crença de que a maneira de falar nos fornece um belo retrato do miolo. Não obstante a qualidade da tradução, há que evidenciá-lo, passar as carambolas a limpo, verter o metal fundente da cachola para a língua é um processo no mínimo imperfeito. Seja como for, fornece-nos uma imagem segura do que se passa cá dentro. Do outro lado da barricada, perdoem-me a minúcia, mas não é descabido analisar este pormenor, a grandiloquência com tiques teatrais pode igualmente facultar-nos a mesma imagem. A preguiça intelectual, a qual se pavoneia papagueando as bacoradas mais em voga, dispensando o pensamento (jogada inesperadamente inteligente, dado que o cérebro é um electrodoméstico que consome demasiada energia) não é mais nem menos danosa que o barroquismo armado ao pingarelho associado às migalhas. Cumpre-se sempre uma de duas profecias: 1) o Homem aproxima-se da figura do poeta, encontra as palavras certas, embora a verdade lhe faça caralhadas do alto da torre de marfim, profecia de Agostinho da Silva, melhor dizendo, vai às cordas do humanamente possível de maneira a dizer o máximo com o mínimo de palavras; 2) o pensamento transforma-se em coisa de museu, profecia de Byung-Chul Han, e todo o discurso se torna parente de um refrão de música brasileira, daqueles apinhados de palavras desconexas e onomatopeias.

No entanto, como nada pode ser esclarecido com dois ou três palpites de taberneiro, necessitamos de afinar o modelo do mundo de tempos a tempos. Há factores que contribuem para o barroquismo ou para o vácuo, sendo o mais proeminente o cansaço. Quantas e quantas vezes já me aconteceu estar de tal maneira esporrado de miolo — no Baixo Alentejo esporrado significa também cansado até dizer chega, não conheço outro termo que lhe chegue aos calcanhares — e pôr os pés pelas mãos, armar-me em contorcionista quando de mim esperavam um tenor calejado. O cansaço só me faz passar vergonhas. Quanto a vocês não sei, mas a mim o cansaço retira-me habilitações literárias. Houve dias em que, graças ao cansaço, não tinha mais que a quarta classe. É preferível largar os livros e os estudos e dormir mais uma hora. De que me vale palmilhar a Biblioteca de Alexandria se depois estou demasiado afadigado para falar e pensar sobre as minhas descobertas? Proponho mais descanso e menos livros.

Como já foi dito por pessoas interessantes e humoristas, se um político ou aspirante a tal usa o refrão nauseante “portugueses e portuguesas”, sei, de fonte segura, que é um embusteiro amiúde fanfarrão e um caguinchas ignorante da gramática. Se escreve “amig@s”, além de estúpido, é também merecedor de um carnaval de chapadas no focinho. Apreciações da minha lavra, evidentemente, há quem se erice se não semearmos um ‘x’ ou um ‘@‘ em palavras que já nos deram tantas alegrias. No fundo, somos iguais: gatos assanhados a disfarçar o cio, uns e outros a ensaiar danças contemporâneas às tantas da noite.

O discurso dos hóspedes deste século leva-me a acalentar, quando muito, um resíduo de esperança. Tal como todas as grandes parvoíces, é um processo imparável. Uma batalha perdida.
O que tenho vindo a observar, à distância, postura não muito sapiente da minha parte, dado que sou míope, porém não me quero envolver com a malta deste século, ou seja, observo estes anos do último miradouro do século XX, são várias tendências deprimentes: o pedantismo postiço, a inclinação para o cadáver esquisito por parte de surrealistas desprovidos de imaginação, a afectação espontânea, os trejeitos de genialidade, esta última tão bem descrita por Javier Marías.

De cada vez que ouço ou leio um influencer armado em escritor, que os há aos magotes, e parece não haver crítico capaz de desparasitar as prateleiras dessa praga, a falar sobre poesia, tenho vontade de me alistar no Daesh. A fanfarronice misturada com o não faço puto de ideia do que é a poesia levam-me aos arames. É com cada fanfarronada que os génios até dançam samba no caixão. Resultado: uma subjectividade típica de ignorante barbudo. Detenhamo-nos neste aparte: até a barba foi desprestigiada por estes dias. Quem diria que um dia teríamos esta espécie improvável: o barbudo analfabeto, que é como quem diz, o hipster. Resumidamente, o hipster tenta compensar a sua falta de cultura com bigodes e patilhas disparatadas.

Observemos, qual biólogo, a ninhada deste século: o activista ecléctico, o esquerdista teatral, os filhos do Trump, isto é, os poetas da baboseira, o humorista assustadiço, o artista marreco, o pensador sem cabeça, o espalha-brasas polivalente (antes de importarmos a palavra bully era este o termo utilizado), o apóstolo enfurecido da empatia, o paladino do óbvio, o cientista do palpável, o negacionista, o pseudo-intelectual, o pseudo-gigante, estúpidos de todos os sabores e o liliputiano em bicos de pés. Peguemos com jeitinho no pseudo-intelectual e atiremos o resto pelo penhasco. São os que açambarcam com afectação típica de actriz de novela qualquer termo inglês como se fosse a pedra filosofal, como se antes de eles descobrirem o vocábulo na língua do novo deus, o denominado por ele jamais tivesse existido onde quer que fosse. Teríamos de citar Eça de Queirós de manhã à noite a fim de perceber os novos voos do provincianismo que sempre nos caracterizou. O apego doentio pelo francês passou para o inglês. No português é que ninguém lhe pega. Há a crença de que, se enxertarmos a nossa frase anémica com vocábulos ingleses, a nossa deixa será entendida como brilhante. De uma assentada, mascara o óbvio e a ausência de ideias. Uma das consequências, raramente abordadas pelos vigilantes da língua, é que há muita gente que sabe pronunciar correctamente os termos ingleses e, todavia, quando se encontra com o termo português, esse embate provoca-lhe estranhamento.

Não será descabido abrandarmos a marcha e comermos uma bucha no apeadeiro da marotice. Palpita-me que as gerações mais novas já não fornicam em português. Por milhares de vezes fui espectador do seguinte espectáculo posto em discurso: o português carece de vocábulos capazes na esfera da fodanga. A segunda coisa que pensei, sendo que a primeira foi o suicídio: estamos irremediavelmente perdidos. Que país é este que vota o caralho e a cona ao ostracismo? Não quero ser obrigado a foder em estrangeiro.
Não quero viver num país que viu nascer Bocage, O Pauzinho do Matrimónio e agora sente pudor em vir-se na língua lusa. Sinto que falta uma espécie de activista da cona e do caralho para combater eficazmente o preconceito.

Eis-nos chegados ao tema da crónica. O novo pedante. Em tempos idos, o pedante era um gajo chato, porém sabia muito de muita coisa, hoje é apenas chato e vazio. Hoje não se lê, decora-se nomes de escritores; hoje não se tenta adentrar no filme, surripiamos uma frame, tipo homenagem ao tumblr, porém sem a parte boa que é a pornografia; não se interpreta um poema, sublinha-se um verso, utiliza-se a subjectividade como muleta de molde a não ter de responder a nada, carece-se de opinião sobre tudo ou então citamos o rabugento estrangeiro mais à mão, não vá alguém chatear-se e perdermos seguidores — a maldição do século.

Vamos lá ver uma coisa, como diz o bardo eleito pelo povo, o conhecimento, o pensamento — e a arte por arrasto — dão trabalho. No entanto, não abdicamos da aura — queremos continuar a ser apodados de instruídos, pensadores, poetas, artistas e o mais que se lembrarem sem suar nem queimar pestanas. Em todo o caso, ninguém liga, estamos todos embrenhados neste zapping de doidivanas, a saltar de coisa em coisa qual sapo em ácidos, quando vemos um filme não vemos o filme, estamos nas redes e o mais, abrimos um livro de poesia não com a vontade de nos perdermos mas com a preocupação de sacar a melhor fotografia para o Instagram, vemos citações de pendor existencialista a servir de legenda a rabudas — não critico, bela aliança —, mas se tentássemos fazer sumo com o homem contemporâneo seria um trabalho votado ao fracasso. Seriam necessários dias para obter meia dúzia de pingas. Eu, que nunca saí deste mundo para ir a Marte, digo-vos: falta rigor aos filhos do século XXI, isso vi eu num filme iraniano ou num poema ou numa citação que acompanhava um culto mamaçal.

Comunidade Cultura e Arte, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

17.02.22

A timidez impede-me de ligar para o aspirante a verdugo a altas horas da noite com o fito de o convidar para excessos. O bom do vício, arena dentro da qual álcool e fornicação andam de mãos dadas aos pinotes, quais duas cabrinhas folionas, não entra. O maior excesso ao qual podemos recorrer é — observe-se a ousadia — cuspir umas piadas. Se hipócritas, a relação com o aprendiz de verdugo funciona às mil maravilhas, quase a raiar o idílio. O problema — inverosímil em virtude de nos passearmos turisticamente neste século de miolos afadigados — é pensarmos pela nossa própria cabeça. E se o homem, no pino do seu delírio, salta do molde da convenção como metal fundente e leva a cabo um comentário à legenda tida como dogma? Temos a burra e restante família nas couves. Além do acto iconoclasta de pegar na marreta e bramir “alto e pára o baile”, o comentário é já de si, a menos que seja um judeu a fazê-lo, apropriação cultural. Abstenho-me de comentar seja o que for, não sou judeu, não faço tenções de o ser nas próximas vidas, pelo que não sou a criatura mais indicada para opinar por escrito. As minhas humildes origens só me permitem apanhar e calar e comer nos dias santos. Mamar as escrituras e sucedâneos sem acrescentos da minha lavra, não impor-lhe erratas nem adendas. Quando muito, vestir o fato de papagaio e ser acólito do eco e andar para aí descansado a papaguear as baboseiras mais em voga.

Uma das características mais nocivas do nosso tempo é o medo posto por extenso, seja sob a forma de aspas, redundâncias, eufemismos, perífrases e por aí vai. A diluição da tensão verbal é sintoma da relação conturbada com a palavra. Tenho, portanto, de ser escrupuloso ao máximo na hora de beneficiar a turba burra de algozes com epítetos, não vá a guilhotina tombar-me nos punhos e ser obrigado a finalizar o texto com os cotos em sangue. Há uma personagem com muita saída por estes dias: o virtuoso histriónico e hiperbólico ao pé do qual antigos sábios e santos parecem canalhas. Se aterrássemos neste século vindos sabe-se lá de onde, por exemplo, escorraçados do paraíso ou da cona da mãe, ficaríamos com a impressão que o bem só é bem se for gritado ao megafone. É a sociedade do grito na qual o sensato é posto no saco dos mimos — e com isto já fica tudo dito sobre o olho de lince da nova casta de virtuosos.

Há dias, estava eu nas minhas lides de escrita, que é como quem diz, a tropeçar nos vocábulos de molde a provocar uma faísca, com o focinho enterrado em livros e cadernos, qual perdigueiro viciado nas minudências do pó — ai meu Deus, para o que havia de estar destinado este rapaz! —, a cofiar esta barbinha de esquerdalho asmático, a gingar este bigodinho nada fotogénico em virtude da comichão, quando, finalmente posso contar-vos algo com pés e cabeça, vejo uma mulher abeirar-se do meu coração com a carne aperaltada para o desastre, expressão muito literata, quase enfadonha, ralhou-me o péni mais tarde — pénis à Cláudio Ramos, não esquecer que é o homem do téni — me marimbo nas croniquetas e na versalhada e transformo o meu olhar em batedores liliputianos cujo o labor seria, doravante, percorrer o corpo da fêmea em busca de um sítio para pernoitarmos juntamente com as ideias mais acesas; farejei, não escondo, o atractivo decote como quem procura as musas no fundo de um poço. A boçalidade, amiúde condenada por esse bando de censores que nos impedem de simular o pecado, é saudável para a postura, isto contou-me uma enfermeira que me tratou do inchaço do príncipe do baixo ventre. Eu, que pouco sei da vida e ainda menos sobre a morte, endireitei a postura, adiei a marreca característica de quem é parvo o suficiente para esfrangalhar o esqueleto em leituras e, mais saudável, com o fôlego no máximo, mudei-me para aquele olhar hospitaleiro e magiquei uma epopeia de ancas dançarinas, a qual me ocuparia nos próximos tempos.

A ver se o humor morre, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

16.02.22

O movimento deixou de ser o objectivo; em vez disso fortaleceram-se as estratégias de propagandear o futuro movimento. O homem-estátua grita que um dia será maratonista.

Ninguém é imune ao grito. A primeira palavra após o bramido é decisiva: é teatro ou não é teatro? Há na espera uma delicadeza raramente elogiada. Por que espera aquele que podia estar em qualquer parte do mundo?

O mundo escondeu os seus podres, diz uma hiena a outra. Já não pertencemos a este século, prossegue o necrófago. Aquilo que era efémero porque humano foi banido e agora é quadro de museu.

Antes de o mundo ser mundo — estranho e povoado de possibilidades —, talvez houvesse apenas uma palavra dentro da qual se acoitava o infinito. Sentimos falta dessa arrumação.

Uma vida a endireitar demónios é cansativo, diz o paciente ao psicanalista. A cabeça do homem contemporâneo é um congresso de demónios ilustres, comentou o psicanalista, isto é, rebentos do eu.

A estupidez é um diplomata sem talento: a sua tentativa de aproximar dois povos sai gorada.

O início e o final são duas formas distintas de pronunciar nada.

Neste panorama pouco animador, talvez o pior seja a constatação de que os bolos fazem as vezes dos messias. O bolo salvar-nos-á?, pergunta a velha ao padre. Não fale de boca cheia, riposta o pastor-fabulista à ovelha do seu rebanho.

Diálogo de Hienas

 


Roberto Gamito

11.02.22

O longo somatório de zeros que é a vida deprime o animal ocasionalmente vertical. O que nos sobra é o ofício de poeta rezingão, em última instância, fingir intensidade numa casa mortuária. À margem dos episódios outrora marcantes, desenhamos uma aldeia de bonecos e rabiscos, eis o nosso acrescento ao guião do século.

O espanto é quando o mundo nos mostra o forro do casaco pejado de relógios e nos damos conta do aumento de possibilidades. Estar espantado é abrir as portas da perceção ao ignoto, fornecer-lhe as condições necessárias para que ele espevite os neurónios mais dorminhocos. O Homem do século XXI? Deitado será mais útil às gerações seguintes.

Separar o trigo do joio tornou-se um ofício de poucos. O pensamento ou o seu sósia é administrado como quem dá navalhadas à papo-seco na pança mais à mão. O inteligente é um estúpido em formação. Ao imprevisto que te atinge e rasga o plano poderás exclamar: mas eu tinha o papel! Tinha outra ideia para o futuro, mas o mundo não passou cartão.

Sem separar o genial do medíocre, a esquerda da direita, o alto do baixo, o gigante do anão, o morto do vivo, a cana rachada do cantor, o manjerico de Dante estamos a passar um atestado de loucura à humanidade. Não reconhecer as diferenças é um dos primeiros sintomas de que algo de muito errado se passa na mente colectiva.

O Homem está louco quando damos conta que há nele distúrbios na medição do mundo. Eis-nos no epicentro da batalha entre Humor e Narciso. O Narciso crê que o seu mundo é do tamanho do universo, ao passo que o humor põe a sua cabeça no cepo e faz pouco da procissão de liliputianos. A arte — o humor à cabeça como agrimensor das províncias de Narciso — abate-se sobre os ossos da humanidade de supetão. E assim se perde meio metro num estalar de dedos. Ora, num território de gigantes postiços a arte é interdita. O soco no estômago como que nos obriga a curva-nos: perdemos estatura. Levar com o mundo no estômago torna-nos menos fotogénicos — e ninguém merece passar por tamanha aflição.

No feed de Instagram, os retratos sangram pelas feridas do ego e interferem assim nas declarações sensivelmente pacifistas dos evangelistas da empatia. Começo a achar que a mão é a maior ficção de todos os tempos. O Homem não faz nada do que diz, não porque é ocupado, mas porque carece de membros superiores.

Ele e ela são dois. Contabilisticamente falando, é uma frase inatacável. Mas sei de casos, comentará o negacionista das somas, em que é zero. É só uma questão de tempo: a relação não produz um resultado estável. Perto do limiar da tristeza, somamos restos de um com os restos de outro. Cada resultado é um diagnóstico.

Pára de chorar, diz o morto, não compreendes o meu sofrimento. Não mereces ser a minha carpideira. Ninguém é imune à quantidade, gritou o eremita. Como afiançam alguns filósofos contemporâneos, a verdade, o pensamento já não pertencem a este século. O pensamento não é espectacular, a verdade, essa, safa-se in extremis. Não fosse o espectáculo da morte do outro e já nos havíamos matado a todos.

Antes de o universo ser universo — vasto e sem sentido como é —, talvez fosse apenas um ponto. Imagino o início — o ponto — povoado com tudo o que há. O universo absurdamente contorcionista: Deus em cima de um elefante que por sua vez estava em cima de uma tartaruga, todos os animais encavalitados uns nos outros, nenhum espaço por ocupar, a língua, uma mixórdia de vocábulos, música, zumbidos, grunhidos, rugidos, ondas que ao rebentar silenciavam cigarras, cigarras a competir com erupções, sismos com corações. O cérebro do Homem é herdeiro desse ponto. Patrono do mundo onde Deus se acoita no centro da rosa em redor da qual orbitam planetas e dragões.

Nas vésperas do fim, estou dividido entre o nada e a vida.
A verdade final não nos engrandece, só nos dinamita. A vida é uma trajectória de rugas: o início e o fim são assombrosamente distintos. Embarcar na senda pela juventude eterna é cortarmos relações como o mundo. À medida que envelhecemos, a ficção da verticalidade torna-se um fardo e tornamo-nos corcundas.

A nossa é sem dúvida uma época estranha, confusa e sem grandes inícios. Neste panorama pouco animador, excepção feita aos vampiros e demais oportunistas da catástrofe, talvez o pior seja a constatação da profecia de Cioran concretizada — para ele uma verdade absoluta — de que a humanidade não passa de um mal-entendido; de que as pessoas, salvo raríssimas excepções, se encontram espectacularmente desinformadas em plena era da informação, uma vez que só lemos, ouvimos e vemos parangonas que enobreçam o nosso reflexo. Na verdade, mentalmente falidos e derrotados, entrincheirados na comodidade de um refrão infantil segundo o qual a vida é isto, a política é isto, o amor é isto, entre outras bacoradas sincronizadas e fluídas que povoam o ar qual bando de estorninhos estamos desgraçadamente sós.

A estupidez, a qual nunca terminou nem abrandou, é a língua oficial do século. Não é que os inteligentes alguma vez tenham sido demasiado de fiar. O que difere entre o estúpido e o inteligente é o arsenal de manhas e patranhas. O curioso é que, apesar de todas as variantes da estupidez, com ou sem miolo ginasticado, os homens estão empenhados a saturar os seus diálogos — corrijo, monólogos — com termos ingleses, citações da moda, pronunciadas ou escritas, enxertadas com talhadas biográficas, num estilo em que a razão fica irreconhecível, de tão desfigurada que fica com os pontapés, quer da gramática, quer da agenda política. O provincianismo, tão epicamente sovado por Eça de Queiroz, atingiu o zingamocho: povoamos os nossos discursos de termos estrangeiros, não vá o outro chamar-nos inútil ou ignorante. Bem analisada, a frase é incapaz de se pôr de pé: não é por lhe adicionar miríades de próteses inglesas que a ideia é capaz de caminhar rumo às cabeças ocas.
Extintos os poetas, a língua dá à luz uma multidão de cantos nados-mortos.

Eis-nos no seio de uma largada de vocábulos, à grande e à francesa, ou melhor, à grande e à inglesa como se este século não passasse de uma monumental peça do último dadaísta. Dadas as nossas limitações para perceber o que quer que seja, ficamos com os cabelos em pé — felizmente, a calvície assentou arraiais na minha generosa cabeça e já careço de meios para me irritar como em tempos idos — só de imaginar as aulas leccionadas por esses analfabetos grandiloquentes. Inspirado na prática dos nossos pares, repetimo-la nos nossos moldes e damos largas aos queixumes: a internet, essa fábrica de produzir papalvos, essa guilda de bárbaros assustadiços, essa metrópole de parolos e por aí vai. São mil reis a um osso e o osso nem sequer existe.

Mil Reis a um Osso

 


Roberto Gamito

10.02.22

Se dermos uma vista de olhos pelas publicações deixadas ao abandono nas redes sociais, as quais julgámos pepitas e não passaram de nacos de prosa que não suscitaram interesse nem no carnívoro menos criterioso, vemos uma esmagadora maioria de insultos, frequentemente disparatados, tipo erratas rezingonas cujo fito é restituir a verdade — imagine-se — à piada. Nem sequer há margem para o benefício da dúvida. Afortunadamente, vivemos na Idade de Ouro do Eclipse da razão, é impossível enganarmo-nos: somos acólitos da verdade, da empatia tonitruante, da pessoa e da vida humana e, fintando a lógica, chacinaremos qualquer papalvo que se atravesse no nosso caminho com uma borrasca de redundâncias, frases sem nexo, em suma, seremos animais dotados de uma cólera desafinada, isto é, desajustada tendo em conta o cenário. Faltará pouco para que uma piada seja o motivo pelo qual se inicia uma guerra. Quem riu são os maus, os sisudos os bons. Será apelidada pelos historiadores do futuro como a Guerra do Respeitinho.

Volta e meia dá a impressão de que a única coisa que o homem contemporâneo faz apaixonadamente é queixar-se. Remodelou o mundo, esvaziou-o de oportunidades e de deuses, dinamitou os cumes e extingui as vertigens, chacinou os algozes e tomou o seu lugar e hoje leva a cabo uns biscates e metamorfoseou o globo numa grande sala de espera onde a tensão, burocracia e a maluquice estão entrosadas maravilhosamente.
Admirar o outro? Se for do meu quadrante é impensável. Melhor: ninguém é merecedor de aplausos. Ainda melhor: façam o favor de deixar de respirar, o oxigénio é escasso e é uma crise humanitária vê-lo desperdiçado em humoristas.

Como nos afiançam os livros, a maior desgraça que pode acontecer à Humanidade é alguém sair-se com uma piada. O rei pode esboçar um sorriso e é por aí que o Diabo entra para escavacar uma Era Opulenta. Dizer o bem quando algo está mal ou vice-versa é impensável para quem é primo dos ciclopes, os descendentes marrecos da visão única — os literalistas enfurecidos. Que fresca figura fazem aqueles que, face a uma piada, não fazem nada senão rir. Patéticos — ignoram como obter lucro do humor.

O problema deste filme é que não puxa por mim, não me revejo na identificação, embuste comparável aos maiores da Igreja, e torço o nariz ao Evangelho da Empatia. A arte não é um reflexo. Não me mates, ó grande Narciso, mas a escrita, tal como qualquer arte, é o ofício de turvar as águas. A ambição de fazer das águas calmas — Diógenes, o Cínico talvez dissesse estagnadas — uma espécie de estante de egos é uma forma caquética de fugir à morte.

E outra coisa: o filme não é sobre ti, a morte do artista não tem que ver contigo. Façam o favor de não me relatar o que se passa — grande teatro, sublinhe-se — no vosso coração aquando da morte de um escritor há horas ignorado, que já me chegam as minhas tripas com as suas traquinices a tentar impingir-me gato por lebre no capítulo do amor.

A pose consumista, isto é, a de catraio fanfarrão está presente em todas as esferas. Veja-se o exemplo de Ricardo Araújo Pereira e seus detractores. A piada dele, tal como a de qualquer humorista, pode oscilar entre o medíocre e o genial, porém o problema é outro. A questão é partir do princípio de que quem se atreveu a verbalizar qualquer coisa em tom humorístico pretende vigarizar-nos, afastar-nos da suposta verdade e vender-nos gato por lebre. De chofre, aparecem cachos de árbitros de narizes de empinados com o seu apito, prontos a assinalar as supostas ilegalidades, leia-se piadas.

Eis-nos numa arena de gladiadores singular. A piada presta-se a isso, o habitat ideal para disparatarmos, coordenadas onde pomos a nossa cólera em obra, dado que tanto o indignado como o humorista são da família dos caguinchas. Então, como se o wrestling tivesse tido um filho com o Woody Allen, simulam-se cabeçadas e pontapés e andamos às voltas sem ninguém ir verdadeiramente ao tapete. Uma luta interminável destituída de KO. Ninguém vai ao tapete com um pedido de desculpas. Eis outra forma de luta, enquanto os fanáticos do linchamento simulam pedradas, a vítima teórica simula um carrossel de desculpas. É um ensaio vertiginoso de desculpas, dado que nenhum serve verdadeiramente, nenhuma tentativa alcança a perfeição ambicionada pelo carrasco. Recomendo: espectáculo único para quem está de fora.

Essa atitude contagia um bom número de aspirantes a humoristas, espectadores, e qualquer animal com bigode, os quais, por princípio, se desculpam face a qualquer manifestação de espírito fanfarrão. Desculpa, argumento1; desculpa, argumento2; desculpa, argumento 3; assim até ao infinito. Descendentes de Walt Whitman e Nuno Markl, pais da anáfora medrosa.

Mas regressemos ao RAP para abanarmos a mão ao som desse tema que é a imbecilidade. A este, a turba fanática escrutina-o a cada piada como se fosse um principiante suspeito (manifestações desta empáfia há em qualquer esquina: analfabetos a criticar Melville, gajos que nunca pousaram os olhos num livro a opinar sobre Wallace Stevens, cegos a comentar as cores de Cézanne, e surdos a corrigir Beethoven — esta última não sem razão), os que aprenderam a lucrar com os linchamentos dos humoristas adormecem com o apito nos beiços para soprá-lo ao primeiro falhanço, desejando-o até. O clima é tão tenso que o humorista semeia vírgulas à Teixeira de Pascoaes entre o sujeito e o predicado. A ilegalidade não necessita de existir, basta ser imaginada. Figura deslumbrante esta: o rezingão que não cessa de fantasiar. É preciso ver, filhos de Polifemo, contado ninguém acredita.

Matou-se a piada e com sorte o humorista. Graças a deus temos o fanático das comédias para evitar a cratera da laracha, esse grande asteróide cuspido pelo bobo. Mais uma vez evitou uma catástrofe com o seu ressaibo.

Para dissimular a sua estupidez, plagiou o comportamento de um adepto da bola, a saber: basta apontar defeitos à desgarrada, o fora de jogo pode ser e não ser ao mesmo tempo, a lógica banida, a tão propalada empatia não entra, e remata: “aqui não há quem escreva uma piada de jeito”. Ao manifestar-se constantemente insatisfeito, simula um conhecimento que não possui, e os graus académicos surgem à tona da folha branca — eis a beleza do nosso século. Ao fanático do humor, o qual só se ri das piadas dos portugueses se forem traduzidas posteriormente em inglês ou quando é atraiçoado pela memória e as escreve como se fossem suas — ainda há coisas bonitas neste mundo, tanto se lhe dá se está a ser justo ou injusto, se o humorista levou décadas a obrar milagres, a sacar coelhos da cartola onde os demais foram incapazes. É preciso que as cabeças rolem. E se possível, mais que uma vez. Como é magnífica a eterna sede de sangue!

Fanático e a Comédia

 


Roberto Gamito

07.02.22

O Homem contemporâneo (indivíduo em teoria informado, ponderado, perdoem-me o gracejo, hábil na metamorfose) vê-se, sem surpresa, capturado pelas artimanhas da ganância humana. Que haja jornalistas ou ensaístas a abraçar a imbecilidade de que o Homem é um ser a caminho da bondade é algo com o qual nunca hei-de compactuar. Os períodos de paz são tão-somente um respirar fundo colectivo antes do abismo. Mudamos, quando muito, o aspecto das nossas patifarias, mas no fundo permanecemos iguais, bárbaros até ao tutano. Levantemos o malhete com o qual o juiz profere sentenças e fechemos, de uma vez por todas, o assunto.

Um século novo é sempre um século novo: se não consentirmos a sedução da mentira de que nos serve avançar no tempo? A crueldade é a única coisa que muda ao longo dos séculos: subtiliza-se, torna-se labiríntica. Ao tornarmos a salvação burocrática, a crueldade ganhou ares de invencível. Com a agravante de que, ao subtilizar-se, a crueldade torna-se crónica. Um detalhe: presentemente o algoz não se identifica como algoz mas como amigo. Essa é a beleza deste século.

As religiões determinavam — e ainda determinam em algumas coordenadas — o certo e o errado, não segundo a razão e o senso comum mas segundo um rol de dogmas decididos por homens de indumentárias imaculadas que dizem interpretar correctamente as palavras e a vontade da Luz. Com ou sem Deus, este é o guião: arranjar um manual de normas de molde a facilitar as manobras da casta superior. Perdoem-me o salto: os bancos são viveiros de carrascos engravatados. Escandaliza-me a forma como agrilhoam pessoas a empréstimos intermináveis. Choca-me que tentem impingir-nos que são de confiança quando, durante décadas, não só permitiram o endividamento, como o encorajaram e o fomentaram com um sem-número de créditos. A forma como nos deixamos engodar cegamente só prova que o Dinheiro é mesmo o novo Deus. Além disso, há uma relação de poder assimétrica entre o banco e o enfermo — o cliente. O banco é um rico transformado em instituição: é forte com os fracos e fraco com os fortes.
É vítima ou carrasco consoante o clima económico. Ei-lo actor versátil deste teatro em chamas.

Esvaziadas as carteiras, o cliente transforma-se em ratazana e é despejado. Tanto faz expulsar do seu lar uma velhota de 90 anos que aguarda a última molécula de oxigénio, como uma família com cinco catraios aos guinchos. O pontapé no cu não discrimina pobres. Esvaziados de homens, os sítios deterioram-se, transformam-se em ginásios onde se treina o vandalismo, e são desmantelados de cima a baixo até só restar as paredes. Ou então tornam-se locais de ocupas e sem-abrigo. E se estivermos a pintar erradamente os bancos como maus da fita? E se eles não passam, afinal, de filantropos que querem o nosso bem?

De facto, a família que foi despejada pelo banco por não pagar as prestações, pode regressar como sem-abrigo. Representa uma poupança assinalável para o agregado familiar, incentiva o contacto com outras realidades — é como viajar sem sair do bairro. Não haver electricidade dá oportunidade aos cinco catraios de explorar o mundo antes do advento das redes sociais — o que é sempre salutar. Como é possível enganarmo-nos tanto? Os bancos vêem-nos como um peso e limitam-se a vandalizar-nos as carteiras — errado! São nossos amigos, podemos confiar sem medo.

Em Defesa dos Bancos, Roberto Gamito

 

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