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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

13.01.21

Inevitavelmente, aos nossos olhos, o Homem está no mundo como peixe numa margem. Quando muito, estrebucha enquanto se tenta enturmar com os restantes peixes. Os últimos suspiros de um cardume dinamitado. Um estranho ritual onde os desajustados fingem que estão como peixe na água. Os mais esclarecidos, que pertencem a uma espécie à beira da extinção, notarão que o estrebuchamento é o prelúdio da morte. Visto desse prisma, a vida é uma dança repetitiva que não merece o nosso aplauso. Sendo ainda mais crítico, a vida é uma manifestação artística que é levada em ombros pelo apupo.

Dizem os antigos que a morte dá valor à vida. Só nos Homens é que há um animal com a capacidade — e o tempo — para elaborar uma frase dessa índole. No mundo animal, onde a morte fita a sua presa enquanto o animal rumina, não há lugar para reflexões dessa natureza. Nunca um gnu enfezado, um daqueles velhotes, um macho proeminente reformado, fitou uma leoa nas redondezas e cogitou: “A morte espreita, sinto-me valorizado. Haja alguém. Sou vituperado pelos elementos da manada todo o santo dia, pensa o gnu, sou alvo de piadas, sou enxovalhado, em suma, sou esfrangalhado pela crítica maldosa. Não fosse a morte e eu sentir-me-ia um inútil.”

O Homem, que por tradição é mais estúpido que sábio, recebe a notícia da chegada da noite inescapável com tiradas deste género: "A morte avizinha-se, vou escrever um poema". Não era caso para dar uma valente lambada no aedo? O bardo desperdiça-me uma vida na vagabundagem, a carambolar por ruas esconsas como se fosse um gato atrás de uma gata com cio, a estragar o fígado com zurrapas e, ao sentir a morte a morder-lhe os calcanhares, dá-lhe para elaborar arte. Beneficiávamos artisticamente se este maltrapilho levasse um correctivo nas nalgas.

Há que dar o exemplo. Estou desconfiado que foram os poetas a motivar os monólogos de despedida ou qualquer nesga de sabedoria postiça que os moribundos julgam ter. Morram e não macem as pessoas com palavras tristes ou com livros enfadonhos. E mais que isso: não dêem spoilers.

 

Peixe na margem, Roberto Gamito

 

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Roberto Gamito

12.03.16

Estar com fome é o meu prato favorito, logo a seguir à sopa de peixe. Ah bandido, uma ironia! Confesso, causa-me uma certa impressão fitar fiapos de peixe, desfigurado pela cruel prática gastronómica, a boiar no meio da massa. Como se os trechos de massa fossem os destroços de um navio de massa recentemente naufragado e os fiapos de peixe o sobrante dos náufragos. Ou como aqueles riachos onde sucedeu uma catástrofe ambiental e os peixes griparam, adornando o riacho de nenúfares escamosos. Julgo que não seria boa pessoa se tirasse partido de uma tragédia deste caudal. Tirar a barriga da miséria fagocitando um revés faria de mim um monstro. Mas mesmo assim, o que pode um homem adulto de corpulência considerável contra uma mãe de estatura mediana mas campeã regional de esgrima de colher de pau. O sabor, meu Deus, o sabor! Dá a sensação que uma cobra me está a inocular o mais potente veneno no céu da boca e eu a reprimir o guincho, derivado à etiqueta inculcada pela família, tenho de seguir o procedimento milenar, fazer tudo o que está ao meu alcance a fim de não estrebuchar, aquilo que os eruditos baptizaram comer e calar. Entre colheradas numa mistela infinitamente intragável e os acessos de vómito e responder afirmativamente à pergunta da progenitora “Então, a sopa está boa?”, eu, bem, ela está fartinha de saber que eu detesto sopa de peixe, aliás, prefiro estar colado ao sofá a visionar uma maratona de programas da tarde, daqueles onde aparecem figuras de proa como o Nuno Eiró e outras de igual envergadura, sumariamente, um fartote de interesse em escutar durante dias seguidos um programa protagonizado por um remédio para as insónias, tudo é preferível a sopa de peixe, sei lá, até levar com um meteoro no escroto, mas não, lá está a mãe a impingir a sopa de peixe, porque já sabem como são as mães, sempre com a cantilena, ‘isso vai-te fazer bem’, que a minha avó traduz volta e meia por ‘come que isso dá força na verga’ (para a minha avó todas as comidas dão força na verga), e eu, como pessoa crescida, crescido aos trambolhões, com largos anos de experiência no campo da mentira, não consigo dizer que não. Vá de colheradas para a boca do menino. Lutar para acabar o prato, ou pelo menos deixar o menos possível, enquanto luto contra o vómito e tento fazer uma cara que não a de asco enquanto tento meter conversa, faz de mim, não me orgulho disso, um malabarista da hipocrisia. Espero que hoje a minha mãe tenha a decência de me confeccionar um bife com batatas fritas.

 

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