Roberto Gamito
13.09.25
Passado o auge da popularidade, o coro de encómios que tantas línguas seduziu e amestrou, podemos ver, vencido o ruído, as falhas do seu gesto. Que obra, que mediocridade ímpar.
Durante tempo de mais estive a leste das quezílias, mastigando com desdém a rosa dos ventos com um semblante de quem já viu tudo e não sabe o que fazer com a fome. O mundo está nas últimas ou prestes a começar: são coisas de averiguar.
Dou-me conta que os coitos publicitários metidos a despropósito com fins de aumentar a ninhada de seguidores de figuras de porcelana chegam a mim sob a forma de uma procissão de comichões que percorrem sem pudor o meu corpo de lés a lés. As palavras engolidas recalquei-as ao transformá-los em sapos barulhentos. O inconsciente é um grande cortejo de Dioniso.
Vacilando na orla do inferno, afastei o olhar, mitificando o vulcão. A minha queda criaria novas espécies de aves que me acompanhariam até às portas do Orco num canto rente ao humano.
Aqui me têm, mais velho e ocasionalmente engaiolado, aprisionado entre os parênteses dos horários e da eficácia. Sísifo das 9 às 6 e Ícaro em pós-laboral.
Não há cronistas das orgias pagãs. Transcrever a folia é matá-la. A palavra fica de fora. A palavra é para o frio e para o ameno. Em registo infernal só resiste o bicho treinado na escassez. A fartura dilui a selvajaria. Isto na selva. Ao rés deste discurso, uma procissão de anjos a abanicar-se cheia de calores.
As palavras deviam enroscar-se nos gestos até não sabermos onde começam umas e acabam outras. O ar-condicionado da religião cristã achatou-nos o potencial. Mais fogo, mais fogo.
O sonho do bobo: a minha língua dará à luz uma ninhada de regicidas.
Ao fazer-se ao piso do pretenso gigantismo intelectual, ao pedir de empréstimo uma verticalidade surripiada num sem-fim de coordenadas de molde a insuflar o vácuo de canto, um nada que fique no ouvido, roubou a luz às plantas indefesas.
(transcrição de um episódio do podcast Duchamp, disponível no Spotify e afins)
Estou a escrever coisas mais encorpadas no Substack







