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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

22.07.21

Em vez de descobrimos a careca ao dragão, em vez de descortinar os pequenotes que sob as suas vestes se ocultam numa estatura postiça, estamos aqui a choramingar como meninos sem mãe e a tecer louvores a guilhotinas rombas. O precipício cantante. É preciso encontrar a origem do sofrimento e fazê-lo explodir como um universo.

E não caíamos na tentação de ceder diante da novidade, essa nómada bagatela, esse vulgar pirilampo face ao qual os párocos da pose são contorcionistas exageradamente flexíveis. Crio raízes onde os demais fogem. Diante da escoada piroclástica, não sou senão um projecto de estátua a sonhar com o futuro.

Afastemo-nos, também, das definições que nos emperram as asas.
Num tom acima do comum, mas não tão acima que se possa considerar musical, admitiremos, de forma bastante profética, o fim que nos caiu no colo a estrebuchar qual peixe saído das águas. A razão ganha pernas e centra para o coração da área, um passe humanamente aflito em direcção à cabeça da imaginação.

O receio obrigou as mãos a retroceder, encolheu-as até os domínios do microscópico. Uma fera por natureza, um homem por ficção. Entre uma coisa e outra o teatro.

O cardo fazendo as vezes do coração do deus derrotado. Poesia maldita: carbúnculo à prova de hienas. A íntima vergasta depaupera a pluviosidade da língua. Os porcos dos vindouros hão-de refocilar no lamaçal à cata de ângulos mortos, os quais hão-de guarnecer de mediocridade a obra do escritor. Vimos muitos exemplos de como esfrangalhar o Homem, todavia urge continuar à procura de novidades.

Critério fluído, génio maleável, abutre-fabulista dando voz aos animais apinhados de vermes. O encontrão na morte, um deus ébrio sem pretensão à imortalidade. Suplico-vos, cuspam em todos os meus passos para que a argila da jornada nunca cristalize.

Noite cheia de olhos ferinos, uma vaga de panteras abatendo-se sobre a horda de turistas. Entretanto, meteu-se no negócio dos fardos. À porta do seu mundo, o seguinte aviso: vende-se dor para fora.

Carbúnculo à Prova de Hienas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.03.21

Esperam lucrar com os meus suspiros
o canto retrocede na ave empalhada
menos fricção e esforço, animal agrilhoado
selvajaria dúctil disposta em prateleiras
reflexo distorcido, casa de espelhos,
espectáculo de feira popular, livre-arbítrio
embalsamado, para carteiras abastadas.
Pretendem atordoar-nos com uma saraivada
de promessas, tornar a gaiola tão omnipresente quanto possível.

O voo de laboratório, apetite sussurrado por terceiros,
musas amordaçadas, cadáveres de outros tempos ordenhados,
cadáveres mais ou menos esquisitos, mais ou menos prolixos
enquanto, livremente, se dá o saque do Eu.

Apesar destes versos de apreensão
nada musicais a ilustrar uma época sem arte
as conclusões sobre as sobras foram brandas.
Subestimámos a pilhagem, despimo-nos e rendemo-nos
aos juízos ubíquos. Despedimo-nos do pensamento
para nunca mais regressar, quais Ulisses desmemoriados.
Em todo o caso, não há Ninguém à nossa espera
aqui ou em parte alguma.

Personagem esfarrapado e aos trambolhões
oriundo de uma História com mil e uma versões.

Nascemos com o pescoço picotado
as guilhotinas tombam na região certa
ó esbraguilhado alvo inerme
ao passo que fotografias celebram os gritos adiados
elevando a miséria ao pedestal da arte

um emaranhado de equívocos aziagos, uma constelação de nós
e sangue cifram o sofrimento. Por fora, seres tão felizes
quanto fictícios, manejados com mestria pelo titereiro.

Babam-se no literal com perucas de gigantes
são incapazes de sair da hipnose engrandecedora
eis os Homens do século XXI.

Surdos, calcorreamos um trilho juncado de sonhos e promessas quebradas, qual faquir deste século a cair aos bocados, tudo estala como a quitina dos insectos outrora alados. Graças às miragens, já ninguém morre sozinho agarrado à sua dor.


Que fiz eu realmente para usar tantas máscaras?
Anestesiámos a nosso coração com narrativas enobrecedoras,
o último grito da fantasia — sem perceber o fim em vista.

Estou contente ou envergonhado por sorrir sem vontade?

Segundo Sartre, a voz nasce do risco: quer para nos perdermos, quer para ganharmos o direito de falar na primeira pessoa.

 

A Voz e o Risco, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

29.01.21

Uma mão aflita que fosse de flor em flor. Estabelecida esta primeira confusão, realizado o contrabando dos perfumes, com os quais seríamos repentinamente destruídos nessa viagem ao passado, sobra-nos um punhado de frases derruídas. O presente é um resíduo do passado. A atitude humana em relação ao passado é aliás de uma aterradora complexidade. Labirintamo-nos. Bocas que nos resgataram do pântano da homogeneidade, tal como o gemido daquela que fornica é, a par do grito, a suprema afirmação de vida. No plano do desânimo, podíamos supor que o gemido, os seus repetidos ensaios em dias que não lembram ao diabo, nos quais deslizamos do tédio para o entusiasmo pelo declive do tesão, é tão-somente um ensaio para o grito derradeiro. Eis duas formas lindas de interromper o silêncio, dado que as palavras já não surtem efeito: gemido e grito.

Quando dois corpos se encontram atraídos pela mesma fome, tendem a formar um mundo tumultuoso, no interior do qual geralmente as diferenças hierárquicas entre presa e predador são poucas. Sexo, olhares, gemidos e outras coisas manuseáveis pelo pensamento, caso a mão esteja fria e longe da carne, postas na folha crivada de riscos. Afastados os corpos, ingressamos no império da sede. O que é afinal a poesia? O ofício de erigir um bebedouro.

A língua gatinha onde ontem era lume. A mão, a qual perdeu a sua dignidade ao trocar a carne pela folha, empobrecida por uma primeira atabalhoada tentativa de procurar nas letras aquilo que lhe escapou. Uma mulher numa métrica a pique, musicada pelo coração elegíaco. No plano da utilidade, um acto maravilhosamente risível.

Mulher Posta na Folha, Roberto Gamito

 

 

 


Roberto Gamito

14.12.20

Quando seguimos religiosamente a monogamia no mundo das ideias, desperdiçamos um mundo de possibilidades. No mundo real o tabuleiro é vasto e as peças mutantes. A decisão ponderada nunca se concretiza sem tensão. Não devemos consentir que o mundo descartado nos paralise qual Medusa e nos impeça de avançar, no entanto, se nos embeiçarmos pela ideia e fizermos dela uma espécie de mantra, estaremos, mais cedo que tarde, a afunilar o cérebro.
É vital não dar grande margem de manobra ao ego. O pior que pode suceder é parirmos uma ideia capaz e sentirmo-nos endeusados por ela e daí em diante observarmos o mundo apenas por essa lente. Sem nos darmos conta, o mundo encolherá drasticamente.

Em todo o caso, somos aquilo que fazemos repetidamente. Verdade absoluta que aniquila sem hipótese de desforra aquela frase feita de que podemos criticar o que a pessoa faz e não o que ela é. Uma das maiores mágoas do Homem deve-se ao sentimento de que apenas uma fatia diminuta dos seus talentos é aproveitada. Na maioria dos casos, são talentos hipotéticos, os quais gravitam segundo órbitas excêntricas em torno da nossa cabeça e amiudadas vezes nunca chegam a ver a luz do mundo palpável.

Walt Whitman, poeta americano, pai do verso livre, escreveu, na obra Canto de Mim Mesmo, algo memorável: Sou grande, contenho multidões. Não é uma ideia nova, antes e depois dele há versões para todos os gostos, desde a Bíblia até aos romances de cordel.
Seja como for, no contexto da obra, adquire uma importância singular. Com efeito, estar a braços com a arte é abrir a cabeça e consentir aos espíritos e aos animais que nos habitam uma espécie de consumação.

Somos habitados por diversos animais, como se dentro de nós decorresse um casting permanente e furioso, várias versões de nós mesmos, versões viáveis, inviáveis, uma miríade de formas de atacar o mundo, sendo que cada uma delas é dotada de uma dança única. No entanto, são raras as que se tornam reais, que nos possuem, por assim dizer. A consciência do desperdício de possibilidades carrega um rastro de dor, vivenciada amiúde em silêncio e em sofrimento. Em suma, a dor é a consciência dos destinos que ficaram por realizar. Se acreditarmos nos universos paralelos, em cada um de nós reside a semente do infinito, cada decisão poder-nos-ia conduzir a um novo mundo, a um novo universo, a uma nova dança.

A angústia de que poderia ter sido tudo diferente se tomássemos esta ou aquela decisão, se tivéssemos ouvido este ou aquele talento que suplica para sair, acompanhar-nos-á a vida toda.

Talvez seja útil chamar Adam Smith, filósofo e economista, autor do livro em Riqueza das Nações, ao barulho. A divisão de trabalho, termo por ele parido, está no cerne do aumento de produtividade. O mundo ecléctico de Whitman cedeu lugar ao mundo da especialização.

Para citar Alain de Botton, dedicarmo-nos a um trabalho, de preferência durante a vida inteira, faz todo o sentido económico. Querendo ou não, metamorfoseamo-nos em peças cada vez mais minúsculas de uma máquina cada vez maior. O propósito está fora das cogitações porque, em última instância, não entendemos a razão pela qual labutamos. O absurdo da existência nunca anda muito longe.

Karl Marx, atento leitor de Smith, percebeu o lado benéfico de uma economia especializada, mas pôs ênfase nos bastidores desse processo de desmantelamento mental. À medida que a máquina do capitalismo se aperfeiçoa, a nossa vida torna-se mais monótona; a repetição nauseante acabará por matar os nossos talentos.

Num contraponto feliz à época, n’A Ideologia Alemã, Marx sublinhou a ideia de que os Homens deveriam ter vários trabalhos.
Curioso notar que, nos tempos que correm, houve uma espécie de fusão macabra das duas profecias, a de Smith, há muito concretizada, e a de Marx, mas de uma forma enviesada.
No mundo actual, há quem se desdobre em vários trabalhos, não a caça, a pesca, a pastorícia e a crítica como Marx havia plasmado, mas diversos trabalhos onde o Homem não passa de uma marioneta guionada em que o lado inteligente — sublinharia humano — é altamente desaconselhado.
Perverso perceber como a multiplicidade de trabalhos — trabalhos onde o uso do cérebro é altamente reprimido sob pena de recebermos castigos — nos atrofiou o miolo.

A nossa ocupação é determinante para moldar quem somos. O pescador e o psicólogo olham o mundo de forma distinta. Será que presentemente não passamos de marionetas? E este contínuo tagarelar presente nas redes sociais será que nos pertence ou tem origem nalguma espécie de Homem dos Robertos ou ventríloquo?

Não estamos a ser estúpidos ou ingratos se dissermos que a vida alcançada é-nos amargamente insuficiente. Este pensamento tem o perfume da tristeza. Talvez o artista, o poeta que devíamos perseguir para nos efectivarmos, para usar uma ideia de Agostinho da Silva, tenha sabido disto desde o início. A arte é o único meio para pormos as nossas versões cá fora e quem sabe diminuir a angústia existencial.

Canto de Mim Mesmo, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

16.01.19

Pessoa_chapeu.jpg

 

Acaricio com vagar as palavras com malabarismos aprendidos de véspera, desassossego a carne com pinotes de anca, da boca à cona um trajecto, tradicionalmente lúdico, evitando o catecismo do sentimentalismo barroco, que é como quem diz um gosto de ti insuflado por justificações capazes de diluir qualquer estirpe de tesão, calma, ainda tépido mas não vulcânico, a pichota pneumática escavacando prazerosamente o pesadelo, para gáudio de uma cona faminta, a qual, a espumar-se de alegria, aguardava num dialecto de gemidos o caralho qual povo sul-americano a aguardar o seu deus arcaico, bem sei, dar-te-ei até garatujares com esporra um soneto no sítio mais recôndito do cérebro e um tegumento lácteo te envolver o corpo, os despojos de dois corpos à procura do seu idioma, como manda a doutrina da língua brava, e teço versos — vá, suplico-vos, não sorvam isto de forma literal — do mais contemporâneo modernismo. Um moderno mesmo moderno. Muito haveria a discorrer sobre o que é moderno e as nossas — inumeráveis —falhas em compreendê-lo. Fernando Pessoa fê-lo exemplarmente num dos seus ensaios. Conto com a vossa boa-vontade crítica para fugir a interpretações precipitadas. Será que estamos a ficar cada vez mais burros? É uma pergunta para a qual não consigo encontrar resposta; uma vez que, infelizmente, estou a ficar cada vez mais burro.
 
Cuido de evitar um uso mais fulminante da língua no dia-a-dia, é pouco provável existirem ocasiões para comunicar ao outro: vinha-me, de uma ponta à outra do teu corpo, até ficares enfarpelada com uma samarra de esporra; daí que me tenha refreado um tudo-nada no parágrafo anterior. Contudo, a poesia é território de homens ímpares, de outras mãos, linhagens de homens indomáveis; província na qual a língua é levada às cordas. Se há pessoas que enchem o cu com idealismo importado, macacada ruminada e polida pronta a ser vendida a qualquer papalvo, um idealismo mistificado pelos holofotes do espectáculo e, vamos lá, o acto contínuo de vomitar informação que raras vezes o é, uma vez que os jornalistas se demitiram do seu trabalho e o algoz, incompetente, esqueceu-se de os avisar da sua morte. Bem sei, os tempos são outros, os quádruplos sentidos de um Sterne, e as piruetas poéticas de Walt Witman parecem envergonhar-nos, dada a nossa estatura actual. O afunilamento interpretativo iria trazer, mais dia menos dia, problemas deste quilate. Finda esta achega preambular, é tempo de principiar a crónica propriamente dita.
 
Segundo aquilo que me foi transmitido por um pássaro atento às gordas que encimam as notícias, foram retirados três versos da Ode Triunfal, poema de Álvaro de Campos, o Walt Whitman português, heterónimo de Fernando Pessoa. Se assim é, proponho, já que estamos numa de arrumações da língua, uma mudança no título. Para: Ode triunfal, caso mo permitam, já que não pretendo aporrinhar ninguém. Assim já se digere. Os três versos foram substituídos por linhas a tracejado por conterem — ai meu Deus, que a minha avó nunca veja este texto — linguagem obscena. E que tal adoptar esse procedimento para tudo o que é obsceno? A Internet transformar-se-ia num mundo encantado do tracejado. E que mundo maravilhoso seria.
 
Outros ousaram dizer, há com cada herói, que era uma linguagem explícita. Eu tomei a liberdade de viajar até ao dicionário para conversar com o vocábulo “explícito”. Até à data, significa manifesto, expresso. Motivo suficiente para passar uma tarde à batatada com jornalistas e censores. Se há coisa que a poesia não é — salvo raras excepções, como por exemplo Bukowski — é manifesta. Por regra, cada verso é dotado de uma profundidade que alberga uma fauna cuja diversidade nunca é inteiramente estudada. Em parlapié de bêbedo, em cada verso há uma carrada de bichos. Bichos esses inebriados pelo jogo de luz e de sombras. Catalogar isto como manifesto é vir com o bibe de casa para o trabalho e tentar parecer sério.
 
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas
Não tencionando acicatar a maralha censória, mas cumprindo o meu dever de cronista de pendor humorístico, o que está à nossa frente é uma imagem retirada do carnaval brasileiro, sendo que as putas, sendo brasileiras ou outras, há-as em todos os cantos do mundo, louvado seja Deus; não, não quero denegrir as putas brasileiras, mas também não tenciono desanimar as putas lusas que labutam tão bem ou melhor que as suas irmãs, mas que, por regra, são votadas ao esquecimento. Em suma, um automóvel a abarrotar de gente foliona que, vai-não-vai, há-de descambar numa orgia. E qual é o mal? É melhor isso que encontrarmo-nos todos num funeral.
 
E cujas filhas aos oito anos —e eu acho isto belo e amo-o!—
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

Vamos lá abordar estes dois marotos, antes de vos mandar ao veterinário para tratar dessa raiva. Num cenário real, um episódio concreto, isso mereceria a nossa maior vaga de indignação, nada mais humano, tal o episódio em questão. Porém, estamos em terrenos poéticos, onde, mesmo que chovam dedos em riste, a espumar de não-pode-ser-assim, a palavra não pode ser suprimida. A palavra não se verga diante de ninguém. A língua não é vassala de ninguém. A poesia é o último reduto para a língua se descobrir. Chega, apesar de taralhouco, sei que não posso dar mais trela a este assunto. Estamos a ficar todos tantãs e eu acho isto belo e amo-o!
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