Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

27.09.22

Na rua a temperatura deve rondar os trinta graus; no coração, zero absoluto. Comenta-se que muito em breve ser-nos-á apresentado outro inferno. Isto para não preocupar por aí além as pessoas e os seus prementes afazeres.

Tenho pensado nos meus inimigos e nos seus gumes analfabetos.
Não importa o que faças num sentido ou noutro, comenta um salmão para o outro. Relaxa, pequeno gafanhoto. Isto um dia acaba.

Aqui jaz um poema
de amor
perfumado ou profanado
por gumes famintos
ei-la, a procissão de linhas curtas
escoltando o nome luminoso
em cima do qual
me interrogo
acerca do sentido disto tudo.

Mudas testemunhas do finar das possibilidades.
Nome gravado a bisturi nas costas de Atlas. Mundo por engano embalsamado. Acrescento ao silêncio da catedral o riso dos mortos, e a isso chamamos imaginação pós-moderna.

Deus está morto, a arte morta está. Urge encontrar um emprego para as mãos que não o suicídio. Devemos, antes de tudo, pôr de parte a hipótese de redenção. Reputo a minha mão de cronista do Rei falhado.

O que é sair do anonimato aos 60 anos? Alguém que precisou dos milénios da imaginação para ascender em apneia de uma pirâmide de cadáveres. O desfecho do amor vacina os homens, o álcool enche-os de inacessibilidade — quem diria, afinal podemos ser uma ilha.

O bailarino é despetalado pela morte a cada passo de dança.
Livre-arbítrio, que a razão e os dias fizeram desaparecer.

O que pensas congela a mutação dos estorninhos. Olha como é belo o bando embalsamado a pairar sobre as nossas cabeças franzinas. Eis que assume a sua derradeira forma — a guilhotina emplumada.

Mais inocentemente diríamos, asa emergida da paixão. Perco-me no vasto campo do início de uma relação.

No tempo uma nuvem de morcegos procurava-me.
Uma frase. Outra frase apétala aproxima-se desejosa de contradizer a anterior. Pôr por escrito os debates com os demónios.

Ser espantosamente fraco e simular a queda de Ícaro ao rés de um candeeiro. Os livros que humanizam — para o que havíamos de estar guardados! Quero ir ao fundo, mas esqueci-me da farda de cachalote noutro tempo.
Que nome pôr a encimar esta cicatriz?

O pensamento é provisório e acolhe uma metrópole de falhas.

E nós, domadores acagaçados do imprevisto, munidos com folhas de cálculo, recorrendo a gráficos e tabelas como quem, de joelhos, vê no vazio um companheiro de sofrimento.

Pouco a pouco somos abalroados por uma demolidora certeza: vamos morrer. Saiamos da sombra, Deus, Diabo e Eu, os três montados na mesma vingança. Insuportável trabalho o da memória, o de diluir em tinas de ácido os traumas. Memória, o nosso algoz privado.

Os mosteiros vazios são locais usados pelo nada para engendrar a sua última jogada. Entre dois passos firmes crescem ervas daninhas. Há flores do mal por toda a parte, mas não há poetas entre os sobreviventes.

No fundo não há ninguém, são miragens indistinguíveis
de humanos. Mas o mais absurdo são os precipícios
tornados sinistros túneis de vento
onde ensaiamos o nosso fim vezes sem conta.

Consenti que me tocassem com os seus dedos cheios de vidros e me ensinassem, na pele, passo por passo, a custo, todavia sem medo, a dança da humanidade. Pomares da ignorância espalhados um pouco por toda a parte dentro dos quais podemos observar a flor dos séculos vindouros. Sôbolos rios que vão para a cona da mãe.

Duchamp
esse cabrão-mor
dei-lhe guarida no meu cérebro
desarrumou-me a casa
trocou tudo de sítio

agora ignoro tudo
não sei onde fica o amor e a casa de banho
o sofá e a ideia de salvação.
O poema há-de continuar noutro sítio,
mas a pagar, que um gajo não se alimenta
de aplausos nem de apupos.

No final dos tempos, Deus será rei sem súbditos de um grande império de mármore.

Fundei um inferno caseiro durante a amnésia do anjo. A salvação conduz-nos a um lugar inabitável, sem ninguém.

 

Império de Mármore


Roberto Gamito

18.09.22

No coração dela
quem sabe a morada
derrotado pela vida
de rastos
agarrado de unhas e dentes
ao último sorriso
o homem.
 
Um par de estalos, isso é lá forma de começar seja o que for.
Perto da ermida arruinada, o noitibó inspecciona o teu desespero. Que bico demoníaco vem a ser esse?
 
Fugir do gelo como quem foge ao diabo. Não obstante no início ser sempre melhor, nada melhorará a tua condição de derrotado.
A isso se designa destino.
Tudo há-de recomeçar noutra velocidade
pretextando que já tiveste a tua dose de sorte
tempo para aprender a falhar adultamente.
 
A farpela de bobo com que foste urdindo os posfácios das tragédias assenta-te que nem um casulo. Não podes deixar de reparar que Stańczyk é cada vez mais um retrato do teu desassossego.
 
O palco enfada-te
sonhas cada vez mais com a arena
ó bárbaro reformado pela civilização
sonhas cada vez mais com o sangue
os arquivos inconcluídos da cólera
 
O senhor-cujo-nome-não-cabe-no-poema
matou-se
ao atirar-se para as entrelinhas de um poema
a quem os críticos apodarão de eterno
doravante enjaulado na palavra louco
ainda hoje, caso abram na página certa
vê-lo-ão em queda escoltado
por uma procissão de gritos.
 
O fardo persiste demasiado leve. Urge que o esqueleto desabe
qual explosão meticulosa, tipo edifício outrora magnífico
despedindo-se da sua verticalidade de supetão.
 
Se levada ao extremo, que é como quem diz, às raias do inconcebível, a burocracia é capaz de semear o infinito entre dois passos.
A biografia assoma-se à ponta dos dedos, faz das falangetas janelas. Não me recordo de grande parte da minha vida. Ignoro se fui raptado pelo tempo na infância e devolvido anos mais tarde, velho, rabugento e peludo. Buscávamos nos lábios tresmalhados talvez a intermitente anestesia.
Calma, respirem um pouco, não entrem na odisseia com tanta sede.
 
Repito:
vasculhávamos num mar de lábios
anestesia para o coração
redemoinhos onde a carne
tinha aulas de canto
 
anos depois
a inércia seria um Napoleão
conquistando um por um
os passos ulteriores.
 
Doravante os dias afigurar-se-ão como rituais dedicados à deusa Inércia.
 
Os dentes-de-leão decapitados
pelo sopro inocente da criança
a morte é sempre o desejo
de algo mais, ó suicidas em flor.
 
Já te agrilhoa o exército liliputiano de incertezas. Desejas que esta comédia negra termine.
 
A folha despovoada paralisa-te
qual medusa caseira.
 
Fecha os portões do castelo.
Pendura a farpela de bobo no trono.
Deixa o rei lá fora a ganir
as suas fingidas proezas
que a memória colectiva
há-de carcomer.
 
Sentes o formigueiro de lâminas a percorrer-te o corpo? Ou são antes átomos de esquecimento a colidir nas frágeis aspirações de grandeza, ó meu modesto acelerador de partículas?
 
As metáforas filtradas
pelos razoáveis exegetas
tantos gumes e perfumes
embotados e sem remédio
para que chegassem
às goelas e aos narizes
mais necessitados
sob a forma de animais mansos.
 
Morte para quem dilui a fúria em notas de rodapé.
 
Em todo o caso, a arte — deixem-me respirar, é capaz de demorar, sou asmático — não é o escudo polido de Atena. Seja como for, o que não faltam são Medusas por essas esquinas a petrificar os tomates dos heróis mais espantadiços.
 
Trago a cabeça de Deus na sacola, tenho petrificado legiões de uma assentada. Valeu a pena esperar este tempo todo, o nono círculo só me trouxe coisas boas. De repente, a cidade não nos pertence. Mudaram as pessoas do costume de sítio. Até podia ser uma coreografia de dança contemporânea não estivesse a morte a sondar-nos desde a primeira fila.
 
Cospe para o cadáver divino mais à mão e dá este dia por perdido. Um corpo morto na pista do baile. Coisas que acontecem quando a gente se diverte, diz uma velha.
 
Como me sinto? Estou a trabalhar no centro de areias movediças, evocando a dança da destruição. Garatujo este poema sabendo que vou morrer. Como é que achas que me sinto? Mergulhar na folha é uma viagem sem regresso, uma simulação de inferno.
 
Passaste por mim e não disseste nada. Respondo: sou um neutrino.
 
Enojam-me
os bárbaros
que trocam a arena
pelo catecismo
bobos da corte
com medo de perder a cabeça
mal molham os pés
na margem do inferno.
 
Vai para dez anos que não frito batatas em casa.
Como-as fora, sempre que posso. À parte isto, continuo sem sonhos.
 
Mas querem algo mais ao rés da carne, não é? Não seja por isso.
 
Falámos durante a noite inteira numa língua animalesca, uma que não domino, o amor. Confessou-lhe: querida fêmea, sou analfabeto no capítulo das intensidades, se quiseres saber mais, dou-te o número do meu terapeuta. Ele tem os meus espinhos documentados como deve ser.
Em todo o caso, ela prosseguiu, qual necromante diante do cadáver com o fito de o resgatar ao reino dos mortos.
 
Nada disto tem importância. Seja qual for o mês sugerido pelo calendário, o tempo das colheitas já passou.
 
As avarias do tesão
que as cometas
com ou sem mentiras
com o pau enfarpelado
de bobo da corte.
 
Mas só tenho dois guizos na cabeça, falta-me um, pensará o leitor. Esse rigor será a tua desgraça, digo-te eu.
Mas nem só de foda e amor vive um homem. Segurem-se.
 
Uma das amigas de escola morreu faz vinte anos, recordo-me da sua cara dotada de uma tristeza cinematográfica. Naquela altura ainda não se falava de depressão.
 
Pensaste ter arranjado forma de exorcizar
o demónio perene da depressão
graças aos beijos de uma paixão inesperada.
Coisas de putos, coisas de coração analfabeto.
 
Neste circo
onde palhaços e ursos se revezam
nos números de ilusionismo
da economia global
corte no pessoal
dois terços de mulher afadigam-se
fazem o trabalho de uma inteira.
 
O terço que falta tornou-se descrente nos holofotes.
 
O espectáculo tem de continuar. Cai o pano.
 

robertogamito_whale_made_of_wires_larger_than_a_ho


Roberto Gamito

21.12.21

Continuando na senda do episódio do ano passado, os melhores livros que li durante 2020, decidi levar a cabo a edição de 2021. Eis uma lista sumária de alguns dos melhores que li durante este ano. Cada livro é acompanhado de um breve comentário. Foi um ano pautado pelos Contos e pelo Ensaio. E muitas releituras, daí que a poesia, o género que é mais querido, não tenha tantos representantes como em anos pretéritos. Ao terminar o episódio, dei-me conta que me esqueci de alguns vultos. Só para citar dois, A Era do Capitalismo da Vigilância de Shoshana Zuboff e Confabulário de Juan José Arreola. 

Túnel de Vento, Roberto Gamito

Túnel de Vento é simultaneamente um podcast e um erro.
Há improviso, humor, lamirés sobre literatura e poesia e, de longe em longe, javardice de elevado quilate.
De Roberto Gamito e suas vozes.

Espero que gostem do episódio. 

Podem acompanhar o Túnel de vento nas plataformas habituais: Soundcloud, Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts

 

 


Roberto Gamito

11.12.21

a verticalidade — a ficção suprema

1*bU9viDjqFzvXcJCsgeCTLQ.jpeg

 

a verticalidade — a ficção suprema
é sempre a mesma estranheza estremunhada
a interpretação soluçante e com isso a condenação

Continua aqui: Medium

 

este poema não é a música a que tu chamas casa

1*X0se8THc8RjK6ESD2aUznQ.jpeg

este poema não é a música a que tu chamas casa
é um bárbaro ganhando estatura entre o amor e a morte
é o cavalo-súmula de todas as corridas escarnecendo das apostas

Continua aqui: Medium

 


Roberto Gamito

04.11.21

Luís Carmelo, Tertúlia de Mentirosos

Luís Carmelo. Escritor.

Deambulámos por uma enormidade de temas, a saber: livros e livros diluídos, o leitor é um animal em vias de extinção?, verticalidade dinamitada e horizontalidade pós-moderna, Gnaisse, clássicos e livros novos, metáfora e o salto, pensamento nómada, o jornalismo e as redes sociais, um mundo sem memória nem futuro, literatura portuguesa e o humor, o humor envelhece mal?, universalidade e a tentação de responder à própria época, experiências da intensidade.

Podem ouvir o episódio aqui ou noutra plataforma de podcast.

 


Roberto Gamito

02.11.21

Inspirado na frase de Shiki, poeta japonês, mestre em haikus e em tankas, resolvi aquecer as unhas garatujando uns humildes poemas breves. Citemos, então, a frase: “Sinto a dor e vejo a beleza”.

A ideia da beleza apesar da dor interessa-me muito. A dor, grande ou minúscula, não deve ser capaz de nos cegar. Caso contrário está tudo perdido.


1.
a criança
abriu os braços
e o mundo expandiu-se

2.
na boca um começo
no começo uma vida
na vida a guilhotina

3.
por entre os pinheiros
o vento apresenta-me
os caminhos inéditos

4.
a rã no tanque
a imaginação e de supetão
o cachalote nadando nele

5.
o cio dos gatos
rasga o silêncio nocturno
em mil e um bocados

6.
uma mão
uma só mão
deita abaixo os muros

7.
velha de joelhos
deus surdo
vida inalterada

8.
há uma ponte
mas o cavalo
não se fia em metáforas

9.
da ponte
avisto um muro —
suicídio

10.
pouco peixe no rio
fome duradoura
tornado atulhado de achigãs

11.
que dimensão
tem o amor
num poema tão breve?

12.
mão a laborar
argila desconfiada
busto desfeito

13.
a brisa sopra
todavia é o tornado
que habita o pensamento

14.
o mundo sempre de costas
quando olhas para ele —
não despertas qualquer interesse!

15.
a Primavera chega
e na mesma tarde
os corvos crocitam

16.
cala-se o poeta
todos regressam a casa
sem palavras

17.
esmago mosquitos
contra as folhas
do tratado de paz

18.
fracasso —
uma cama gigante
para um

19.
livros de guerra no chão
e eu no seio deles
a dormir a sesta

20.
herói sazonal
vitória momentânea
guerra duradoura

21.
escrevo
na companhia
dos dias abortados

22.
competindo pela minha atenção
pardal e criança
ambos aos saltinhos

23.
o poeta sazonal
agarrado à Primavera —
que desilusão!

24.
a sombra
inspirada na sombra da casa
à sombra do poema

25.
paixão recente
nova luz
a entrar pela janela

26.
o mundo antigo
é fresco
para quem se demora

27.
o vento
é uma ave
incapturável

28.
sem necessidade de magia
o poema de amor
pôs a mulher a flutuar

29.
sou acordado
pelo ontem
e adormeço sentado

30.
quando a depressão
foi exorcizada
a vida já lá não estava

Dor e a Beleza, Roberto Gamito

 

 


Roberto Gamito

21.10.21

A pastelaria oferece-nos um lote bastante farto de seres humanos. Há uma miríade de velhotas, pequenitos animais encaracolados pelo reumatismo, desde as galhofeiras, as perdigueiras da marotice aptas a desencantar nabos das frases mais insípidas, passando pelas escancaradamente atiradiças, as curiosas como crianças, as quais não descansam enquanto não perguntarem o nome de todos os bolos, apesar de comerem sempre o mesmo, típico deste animal cujos hábitos são leis divinas, até mesmo velhas rezingonas e aspirantes a carpideiras cujo ofício é ensaiar o fadinho quando a alegria vai à casa de banho, enfim, animais hospitaleiros no tocante à tragédia. Acrescente-se casais quedos e calados, quiçá um par de homens-estátua reformado a recordar os bons velhos tempos. Tal cena põe-me alerta para algo que o Homem enquanto parte integrante de um casal descura: devemos falar apenas o necessário sob pena de esgotarmos as palavras. O diálogo deve ser racionado como ração no pino da guerra.

Calma, ainda não acabei de pintar o quadro. Há os velhos bêbedos que saltam de cadela em cadela com a agilidade de ginasta asiático, o velho que confunde sapatarias com pastelarias, a velho surdo que vê em cada palavra semiouvida uma oportunidade de trocadilho, o velho cuja religião é a mini e a bifana às 8 da matina e por aí vai. Apontemos os nossos humildes holofotes para o velhote ébrio. É comum vê-lo indignar-se: os jovens hoje em dia estão sempre agarrados ao telemóvel, exclama ele agarrado à sua fiel cerveja. Mas as coisas não se encaminham só por si, para sermos francos, é necessário suplicar aos neurónios horas extra a troco de migalhas de esferovite, que é como quem diz, coisa nenhuma.

Ater-me ao lote de personagens anteriormente descrito é insuficiente para apodar o texto de crónica. É em momentos como estes em que os minutos viram séculos e o pensamento tenta criar ligações onde nunca houve pontes. Passando em revista o cardápio de personagens, equaciono qual deles me sairá na rifa num futuro próximo. Dito de outro modo, se a vida é um filme, qual destes personagens será o meu papel daqui a uns anos, quando o cabelo branco conquistar por completo a minha cabeça?

Oscar Wilde, um pândego de cu travesso a quem deu para escrever coisas engraçadas, apontaria algo desconcertante e memorável sobre estas questiúnculas que ocupam o meu miolo enfezado.

Eis-me biólogo versado em faunas de pastelaria. Eis a velha com os olhos a fagulhar diante dos bolos. Se querem ver uma velha feliz, atirem-lhe bolos. Se querem ver uma velha infeliz, digam-lhe que o seu bolo predilecto acabou.
Não há muito tempo vi uma velhota envelhecer vinte anos após saber que o último pastel de nata havia sido vendido há cinco minutos. A cena puxou-me para terrenos literários. Recordei-me do célebre trecho de Ricardo III, peça de William Shakespeare:
“Um cavalo! Um cavalo! A minha coroa por um cavalo!” Sendo que, neste caso, seria “Um pastel de nata! Um pastel de nata! A minha coroa (aliás, a minha permanente) por um pastel de nata!” Riam-se, mas não olhem para os preços praticados, caso contrário darão conta que a inflação esvaziou a hipérbole.

A ausência do pitéu adocicado — e falamos nós de humanidade e empatia! — traumatiza a velha a ponto de a pôr a chorar, episódio que a velha carpideira não vê com bons olhos — detesta concorrência. Não é fácil viver a velhice sem bolos — coitadinhas das que padecem de diabetes.

Biólogo de velhas

 


Roberto Gamito

22.07.21

Em vez de descobrimos a careca ao dragão, em vez de descortinar os pequenotes que sob as suas vestes se ocultam numa estatura postiça, estamos aqui a choramingar como meninos sem mãe e a tecer louvores a guilhotinas rombas. O precipício cantante. É preciso encontrar a origem do sofrimento e fazê-lo explodir como um universo.

E não caíamos na tentação de ceder diante da novidade, essa nómada bagatela, esse vulgar pirilampo face ao qual os párocos da pose são contorcionistas exageradamente flexíveis. Crio raízes onde os demais fogem. Diante da escoada piroclástica, não sou senão um projecto de estátua a sonhar com o futuro.

Afastemo-nos, também, das definições que nos emperram as asas.
Num tom acima do comum, mas não tão acima que se possa considerar musical, admitiremos, de forma bastante profética, o fim que nos caiu no colo a estrebuchar qual peixe saído das águas. A razão ganha pernas e centra para o coração da área, um passe humanamente aflito em direcção à cabeça da imaginação.

O receio obrigou as mãos a retroceder, encolheu-as até os domínios do microscópico. Uma fera por natureza, um homem por ficção. Entre uma coisa e outra o teatro.

O cardo fazendo as vezes do coração do deus derrotado. Poesia maldita: carbúnculo à prova de hienas. A íntima vergasta depaupera a pluviosidade da língua. Os porcos dos vindouros hão-de refocilar no lamaçal à cata de ângulos mortos, os quais hão-de guarnecer de mediocridade a obra do escritor. Vimos muitos exemplos de como esfrangalhar o Homem, todavia urge continuar à procura de novidades.

Critério fluído, génio maleável, abutre-fabulista dando voz aos animais apinhados de vermes. O encontrão na morte, um deus ébrio sem pretensão à imortalidade. Suplico-vos, cuspam em todos os meus passos para que a argila da jornada nunca cristalize.

Noite cheia de olhos ferinos, uma vaga de panteras abatendo-se sobre a horda de turistas. Entretanto, meteu-se no negócio dos fardos. À porta do seu mundo, o seguinte aviso: vende-se dor para fora.

Carbúnculo à Prova de Hienas, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

04.03.21

Esperam lucrar com os meus suspiros
o canto retrocede na ave empalhada
menos fricção e esforço, animal agrilhoado
selvajaria dúctil disposta em prateleiras
reflexo distorcido, casa de espelhos,
espectáculo de feira popular, livre-arbítrio
embalsamado, para carteiras abastadas.
Pretendem atordoar-nos com uma saraivada
de promessas, tornar a gaiola tão omnipresente quanto possível.

O voo de laboratório, apetite sussurrado por terceiros,
musas amordaçadas, cadáveres de outros tempos ordenhados,
cadáveres mais ou menos esquisitos, mais ou menos prolixos
enquanto, livremente, se dá o saque do Eu.

Apesar destes versos de apreensão
nada musicais a ilustrar uma época sem arte
as conclusões sobre as sobras foram brandas.
Subestimámos a pilhagem, despimo-nos e rendemo-nos
aos juízos ubíquos. Despedimo-nos do pensamento
para nunca mais regressar, quais Ulisses desmemoriados.
Em todo o caso, não há Ninguém à nossa espera
aqui ou em parte alguma.

Personagem esfarrapado e aos trambolhões
oriundo de uma História com mil e uma versões.

Nascemos com o pescoço picotado
as guilhotinas tombam na região certa
ó esbraguilhado alvo inerme
ao passo que fotografias celebram os gritos adiados
elevando a miséria ao pedestal da arte

um emaranhado de equívocos aziagos, uma constelação de nós
e sangue cifram o sofrimento. Por fora, seres tão felizes
quanto fictícios, manejados com mestria pelo titereiro.

Babam-se no literal com perucas de gigantes
são incapazes de sair da hipnose engrandecedora
eis os Homens do século XXI.

Surdos, calcorreamos um trilho juncado de sonhos e promessas quebradas, qual faquir deste século a cair aos bocados, tudo estala como a quitina dos insectos outrora alados. Graças às miragens, já ninguém morre sozinho agarrado à sua dor.


Que fiz eu realmente para usar tantas máscaras?
Anestesiámos a nosso coração com narrativas enobrecedoras,
o último grito da fantasia — sem perceber o fim em vista.

Estou contente ou envergonhado por sorrir sem vontade?

Segundo Sartre, a voz nasce do risco: quer para nos perdermos, quer para ganharmos o direito de falar na primeira pessoa.

 

A Voz e o Risco, Roberto Gamito

 


Roberto Gamito

29.01.21

Uma mão aflita que fosse de flor em flor. Estabelecida esta primeira confusão, realizado o contrabando dos perfumes, com os quais seríamos repentinamente destruídos nessa viagem ao passado, sobra-nos um punhado de frases derruídas. O presente é um resíduo do passado. A atitude humana em relação ao passado é aliás de uma aterradora complexidade. Labirintamo-nos. Bocas que nos resgataram do pântano da homogeneidade, tal como o gemido daquela que fornica é, a par do grito, a suprema afirmação de vida. No plano do desânimo, podíamos supor que o gemido, os seus repetidos ensaios em dias que não lembram ao diabo, nos quais deslizamos do tédio para o entusiasmo pelo declive do tesão, é tão-somente um ensaio para o grito derradeiro. Eis duas formas lindas de interromper o silêncio, dado que as palavras já não surtem efeito: gemido e grito.

Quando dois corpos se encontram atraídos pela mesma fome, tendem a formar um mundo tumultuoso, no interior do qual geralmente as diferenças hierárquicas entre presa e predador são poucas. Sexo, olhares, gemidos e outras coisas manuseáveis pelo pensamento, caso a mão esteja fria e longe da carne, postas na folha crivada de riscos. Afastados os corpos, ingressamos no império da sede. O que é afinal a poesia? O ofício de erigir um bebedouro.

A língua gatinha onde ontem era lume. A mão, a qual perdeu a sua dignidade ao trocar a carne pela folha, empobrecida por uma primeira atabalhoada tentativa de procurar nas letras aquilo que lhe escapou. Uma mulher numa métrica a pique, musicada pelo coração elegíaco. No plano da utilidade, um acto maravilhosamente risível.

Mulher Posta na Folha, Roberto Gamito

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D

subscrever feeds

Sigam-me

Partilhem o blog