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Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.

Fino Recorte

Havia uma frase catita mas que, por razões de força maior, não pôde comparecer. Faz de conta que isto é um blog de comédia.


Roberto Gamito

17.11.23

Não entendo o festival de parangonas à volta dos escândalos políticos: corromper e ser corrompido são actividades que merecem remuneração — é trabalho. 

Ao trocar o modesto Peugeot 106 — não confundir com o opulento Peugeot 106, o qual passa pelas lombas com o vagar de uma princesa — pelos altos voos da corrupção, tudo isso patrocinado pela TAP, e só nos orgulha, dá-nos a conhecer a propensão para o deslize da malta que decidiu enterrar o dinheiro no tuning. Em faltando os recursos vindos de mãos sujas no entanto generosas, contentam-se em fabricar um avião caseiro segundo os altos padrões estéticos da Joana Vasconcelos após uma noite mal dormida. 

Eu, que me sinto mais ignorado que um parecer de um biólogo em altura de escavacar zonas protegidas, sabia, à semelhança do MEC, que o tomate ia acabar. Entrementes, raciona-se ketchup mais à esquerda numa batalha de guiões de fraca qualidade. Ao esburacar a estrada para o futuro, o nosso ex-primeiro ministro revelou o seu lado budista, obrigando os portugueses a concentrarem-se no presente.

Portugal, que nunca foi grande, mergulhou, graças à incerteza política, no mundo quântico. Cada pigarrear é uma bola de pêlo figurada — uma homenagem ao Gato de Schrödinger. Em termos mais provincianos, o político podia socorrer-se de uma verdade absoluta. As coisas pioram com o tempo. A culpa é dele, do Tempo, que é um espatifador omnipresente. 

António Costa fala em abstracto, eu respondo triângulo, círculo, Rothko, Playstation. O que leva ao delírio virgens, gamers e espelhos. 

Pessoas saltam da piada para a ética e de seguida para o plano legal. Aplaudo: eis um belo exemplo de parkour intelectual. 

Empatia, vocábulo que é pau para toda a obra, esteja ela parada ou a correr pelos corredores da burocracia, tornou-se ubíqua. Segundo o entendimento de pessoas precipitadamente entendidas no assunto, pedir desculpa humaniza o homem e o político. Pela lógica, Nuno Markl seria o mais humano de nós todos. Raciocínio ousado. Invejo os politólogos: a sua ingenuidade sobreviveu aos estudos e à vida adulta. Se no caso do Wally o desafio é encontrá-lo, na empatia o desafio é precisamente o contrário. Ofereço um jantar se não a encontrarem no discurso político. 

Noutras coordenadas, que é como quem diz, nos arredores do nosso fado, o grupelho chegano foi brindado com pontapés, empurrões, água, sumos. Em Portugal, chama-se a isto protesto aceso, em África ajuda humanitária. Se houvesse serpentinas, estaríamos no Carnaval de Loulé. 

 

operação influencer


Roberto Gamito

08.11.23

António Costa, ex-primeiro-ministro deste rectângulo desenhado a custo, ao ser derrubado por um comunicado com meia dúzia de linhas, se por um lado deixa a suspeita de simulação de falta, ao prestar homenagem sentida a Neymar, por outro, comprova a fragilidade que os médicos lhe apontavam há muito. O governo apresentava carências vitamínicas no seu discurso, a saber: carência de vitamina A, presente no olhar cada vez mais mortiço de Costa, e de vitamina D, visível no esqueleto que ia perdendo, aos poucos, a sua verticalidade face às crises que aparecem no país como cogumelos. E tudo isto é desculpável: reparem bem nos preços dos alimentos. 

Hoje temos de pensar duas vezes antes de atirar um tomate ao comediante: este tomate vai-me fazer falta na salada. De volta para o bolso, meu útil tomatinho.
Não faltam motivos para o arremesso do tomate. Assim que soou a demissão de Costa, os humoristas foram ao rubro, e, magicamente, apareceu mais um pão na mesa — directamente do inferno que nos espera. Os médicos, professores, jornalistas que se aguentem — melhorias, para já, só para os comediantes.

Ao sair deste reality show que alguns comentadores da queda chamam democracia, António Costa terá dito: “Esta é uma etapa da vida que se encerra e que eu encerro de cabeça erguida”. Daqui para a frente ganharei a vida a fazer presenças em discotecas. Um beijinho a todos os portugueses que votaram em mim. Infelizmente, não foi suficiente para me manter na casa.

Obviamente, a minha função de bobo não é compatível com qualquer suspeição que eu me contento com os factos. Seguem-se, por conseguinte, mais piadas.

Montenegro bebeu de um trago o chá de perpétua roxa e exclamou, num tom eleitoral, aquilo que eu costumo dizer quando uma mulher se despe à minha frente: Estou à altura da exigência deste momento. Vamos ver, diz a mulher…e o país. PCP rejeita as eleições, porém está pronto; Chega, que estará em festa até às próximas, juntamente com a Iniciativa Liberal e o Bloco de Esquerda tencionam plantar urnas em escolas, querem que o país vá a votos e, na mesma tarde, enterrar o ensino português, ao passo que o Livre pisca o olho à oportunidade, um tique que já lhe valeu uma cadeira. O PAN não se pronuncia, está a reflectir sobre a relação entre contagem de carneiros e economia adormecida. 

Num país tornado pátria dos epilépticos, onde já só sabemos estar em convulsão ou a espumar raivosamente, é maravilhoso que as próximas eleições se vejam elevadas a performance onde hienas e abutres populistas dançarão à volta da urna motivada por António Costa. Num país onde medram cleptomaníacos engravatados, é apressado afirmar que Costa deixou herança política. Não obstante a incerteza política, que é como a genérica, mas com mais gráficos, fomos atirados para o cenário de sempre, como se regressámos a mais uma temporada da nossa sitcom favorita, a qual dura desde o tempo da Operação Marquês…de Sade.

Distribuam-se pulseiras electrónicas por todos os portugueses. Presos a mais uma crise, já havia poucas, comenta o Zé Povinho sem força para levantar o braço.
Faça-se o devido elogio. A crise nunca nos abandonou, mesmo em momentos de crise, e é aí que se vêem os amigos.

O Mercado, qual TJI, já fez uma react à situação. Cá vai um trecho no qual o Mercado dialoga com o português típico.

Mercado: A notícia da demissão de António Costa obrigou-me a cair 3%.
Português: Como é cair 3%? Só sei cair 100%.
Mercado: É ficar um nadinha inclinado para a direita. 

Cientificamente falando, comparam-se quedas. A de Sócrates, que se arrasta na justiça por, alegadamente, se recusar a beber cicuta e a de António Costa. Todos os corpos caem à mesma aceleração; está bem, Galileu, mas não custa nada repetir a experiência atirando, desta vez, políticos do alto da Torre de Pisa. Feita a experiência, podemos chegar à inesperada conclusão que quanto mais à esquerda estiver o político, mais depressa cai.

Nada entra em vigor, nem futuro nem nada que faça sorrir o português médio, o qual tem um sentido de humor raro, porra, não se ri com crise nenhuma, seja ela política, económica ou da habitação, tudo isto nos entristece, tudo isto é fado, à excepção do IUC, que se mantém. Óptimas notícias: ainda não é desta que transformo o meu chaço num hostel para ratos. 

Nada pesa na consciência do nosso ex-primeiro, faz sentido, o hidrogénio e o lítio são dois dos três elementos mais leves da tabela periódica, dirá com voz fininha um químico versado em política nacional após inspirar Hélio.

Para já, mantém-se tudo igual, como das outras vezes. O fado mantém inalterado; só os fadistas se revezam.

 

Demissão de António Costa


Roberto Gamito

06.11.23

Não tenho credibilidade para falar de migração de cérebros, nem de gnus, nem tão-pouco de andorinhas, olhem para mim, durante esta pausa humanitária patrocinada pela barbárie, o último grito da hipocrisia antes de o Homem se finar, reparem bem em mim, pobre português de fato de treino puído pelo sedentarismo, sem vocação para o eufemismo, eu que dou um euro pela bica sem uma pinga de retaliação hábil em dar voz aos meus direitos. É pagar e calar e não falar nos direitos humanos. E ainda ter orgulho de ter sido roubado — não nos devemos agarrar a velhas ideias, actualizemo-nos, o roubo faz a economia andar.

O apetite do governo português por cérebro estrangeiro, iguaria de fazer crescer água na boca no canibal mais apolítico, faz as delícias do velho que treinou os maxilares noutra gastronomia, a da escassez. Qual é o engodo certo se o intuito é ludibriar o cérebro? Em tempos idos, adiantaríamos: pipi. Desgraçadamente, o pipi já não é pau para toda a obra —confidenciou-me um ex-bissexual, o que ofende e desprestigia os antigos cultores do pipi e a actual comunidade LGBTQI+.

Ambicionamos fixar miolo estrangeiro, pensa o ventríloquo do governo, uma vez que o do governo está em período sabático até tempo indeterminado, comunicou-me um médico. O miolo nacional, em havendo, uma vez que surgem ensaios por todo o lado que confirmam a sua extinção, reflecte em português e só isso constitui uma desvantagem irreparável. Não obstante as enxertias de termos lá de fora, os tais cuja função é adicionar um ar de contemporaneidade ao mesmo tempo que espatifam a gramática da frase, tornando-a balofa com muletas linguísticas importadas, crazy! Portugal, um país que não produz nada, nem muletas linguísticas. Só o fado pega de estaca nestas tristes terras estéreis. Se querem escavacar a fluidez do discurso, façam-no, mas com prata da casa. Não dou dez anos para o ‘basicamente’, ‘tipo’, ‘mas ya’ e a rainha actual das muletas, ‘imagina’, serem votadas ao esquecimento, abandonadas no sossegado estaleiro da quinquilharia vocabular. 

No futuro, seremos ingleses que adicionam um mero vocábulo português nas frases como quem preenche as quotas da inclusão.
Não nos percamos na amarga realidade. A apetecível cachola nómada, se quer continuar nómada, recusará sempre a fixação. Em suma, será sempre um animal inquieto, desassossegado, ou, se preferirem, o predilecto dos bichos carpinteiros. Numa economia de movimento, em que nada pode parar, caso contrário daríamos conta que o progresso não é senão a maior ilusão de todas, em que nada começa nem nada está, de facto, terminado, não favorece a criação de cérebro sedentário. 

Há cérebro a entrar e há cérebro a sair de Portugal. Como o cérebro mantém o obsoleto costume de se fazer acompanhar pelo resto do corpo, nada podemos comentar quanto ao acréscimo ou decréscimo de qualidade. 

Todavia não seria descabido criar um mercado de transferências durante o qual se comentaria as saídas e as entradas dos miolos com base no seu potencial. Este cérebro, vindo de Inglaterra, dar-nos-á a cura para o cancro; volvidos uns meses, está num banco de uma pastelaria da moda, a escrever um post motivacional para o seu blog; este, grande promessa do cringe mundial, proporcionar-nos-á toneladas de vídeos constrangedores; passadas três semanas já está a cumprir. Nem todos podem ser o Cristiano Ronaldo do pensamento. 

Não obstante os radicais pensadores, os quais afiançam “o cérebro é uma construção social”, basta reparar no sucesso dos YouTubers, é inegável que os números são impressionantes. Numa época em que o comentário ao corpo alheio é desaconselhado, e é assim que a língua murcha, reservamos o espanto e o comentário velhaco para números inesperadamente avantajados. Em 2022, dez mil e oitocentos nómadas digitais de carne e osso resolveram escolher o Porto como secretária em cima da qual vão dedilhar lucrativamente os seus portáteis — o que há-de enfurecer o português de classe médica, o qual, nem sentado nem de pé consegue enriquecer.

Outras seitas de pensamento menos radical garantem-nos:  “a dinastia do pensamento está prestes a acabar, logo o cérebro terá o fado do apêndice”. No máximo, será um bibelot que o homem transportará de um lado para o outro como homenagem a outros tempos. 

Se isto me tira o sono? Não, o motivo das olheiras é outro. Preocupo-me mais com a fixação de boa mama estrangeira e falta de incentivo a que a mama nacional se mantenha onde está, ou, respeitosamente, na minha vila. E mais: se os jovens, dotados de bons corpos esculpidos a ginásio e a proteínas da Prozis, com alegria para dar e vender no Onlyfans, ao irem em busca de melhores condições de vida no estrangeiro, deliciam autóctones de outros países enquanto o português fica refém de uma paisagem pobre em bom e inspirador decote — é isto que me tira o sono, cavalheiros. Espero que o governo português dê condições às mamas nacionais, e, em havendo folga orçamental, ao cérebro português — que nem são dos piores do mercado. 

 

Migração de cérebros nómadas


Roberto Gamito

24.06.21

O jogo do Euro 2020 que opôs Portugal e França relatado segundo o parecer de um taberneiro.

(Segundo a ordem do jogo)

 

Daqui a uns anos, quando já não houver dinheiro físico, o árbitro, em vez de atirar a moeda ao ar, olhará para as subidas e descidas da Bitcoin.

Isto era giro era ver um jogo entre o campeão europeu e o campeão do mundo. 

Fernando Santos está sempre com aquela cara de quem perdeu três filhos na guerra.

Levou pau, mas o árbitro mandou seguir. Momento patrocinado pelo Grindr.

O jogo está tão parado que daqui a pouco temos um foco de dengue.

Renato Sanches trabalha no mercado financeiro. Ora ganha, ora perde...bolas!

Há 15 anos que o Moutinho anda a ensaiar estes remates de fora da área.

Golo da França.
Guarda-redes para um lado, vitória de Portugal para outro.

O Palhinha não pode estar ao pé do William. O William, que é uma tartaruga, pode sufocar.

Segundo golo dos franceses.
Portugal com o golo da França transformou-se numa baleia. Morremos na praia.

Última hora.
A selecção portuguesa está a recrutar treinador. Podem enviar currículo para FernandoSantosÉoCaralho@gmail.com.

Sofrimento e morrer na praia. Não percebo como é que o jogo de Portugal não está a passar na cmtv.

2-2.
Por mim, Cristiano Ronaldo ficava logo na marca de grande penalidade para marcar o terceiro.

O futebol são 11 contra 11 e no fim empata a Alemanha.

Aquando da substituição de Renato Sanches.
A saída de Renato de Sanches foi patrocinada pelos ctt.

Portugal-França segundo o taberneiro

 

 

 


Roberto Gamito

19.06.21

O jogo do Euro 2020 que opôs Portugal e Alemanha relatado segundo o parecer de um bêbado.

(Segundo a ordem do jogo)

 

Não jogamos um caralhinho chinês.

Gosto da defesa portuguesa, não atrapalha ninguém, é amiga do futebol bonito.

Portugal estacionou o triciclo na área de Patrício.

Quer me parecer que o Patrício nem sequer vai ter tempo para coçar os tomates.

Golo de Portugal.
Portugal está com uma eficácia alemã.

Estamos empatados, sofremos. Estamos a perder, sofremos. Estamos a ganhar, sofremos. Só estamos bem a sofrer.

O treinador da Alemanha parece que está sempre a ensaiar o minete, não é? Não pára com a língua.

Após os dois auto-golos de Portugal.
Portugal:
Sorte: Não és tu, sou eu.

A defesa portuguesa está mais confiante que um cão de loiça numa festa de martelos.

A defesa portuguesa dá tanta segurança como uma boneca insuflável no meio de um tiroteio.

Intervalo ou como eu gosto de lhe chamar “encontro entre treinadores de bancada”.

À excepção de Pepe, todos os defesas deviam ser obrigados a vestir um bibe. Parece que ainda não cresceram para o mundo do futebol.

No Twitter, estamos a espezinhar o Semedo porque nos disseram que pisar merda dá sorte.

A esperança de ganhar o jogo escondeu-se atrás do Wally.

Portugal está a mamar mais que uma actriz pornográfica no pico da carreira.

A esperança de ganhar o jogo tem 800 e tal anos e acabou de apanhar COVID-19.

É por jogos destes que Portugal inventou o fado.

Já não estamos em campo a fazer nada. É aproveitar os minutos que faltam e abrir uma rolote de bifanas na área do Patrício.

Tirem os defesas para segurar o 1-7.

Portugal está a fazer cosplay do Sporting de Peseiro.

Os jogadores da Alemanha têm nome de refrigerante de marca branca.

Acho descabido os comentadores estarem a elogiar os jogadores de Portugal com 4 golos na pá. Calem-se, já ninguém acredita.

E se o Diogo Faro for o nosso amuleto da sorte? Apontem um canhão para o estádio e lancem-no.

Ritmo de quem tem de se levantar cedo para ir trabalhar nos correios e não pode correr o risco de contrair uma lesão.

Para Portugal, futebol é aquele jogo que se joga com a bola nos pés e a calculadora nas mãos.

Obrigado, Fernando Santos, já tinha saudades de levar na pá.

portugal-alemanha.jpg

 


Roberto Gamito

17.11.20

Enquanto não formos reduzidos a cinzas, há sempre possibilidade de administrar no outro uma dose cavalar da nossa miséria intelectual. Em tempos idos, o Homem acanhava-se aquando do momento ritual de exibir o seu magro intelecto. Gaguejava, entregava-se a barroquismos a fim de esconder o seu nada, saraivava de elogios o comparsa de diálogo de molde a tornar mais tragável a burrice que havia de lhe brotar dos lábios, ensaiava uma personagem frágil, modesta, à qual necessitaríamos de sacar informação à chapada e a custo, como se tivesse sido vítima de sequestro. Felizmente, os tempos mudaram e a estupidez, animal de mil tentáculos, é imune a obstáculos.
 
Presentemente, há uma necessidade patológica de pôr por escrito aquilo que nos turva o miolo. Onde é que isso nos levará, questiona o lúcido leitor, espécie em vias de extinção. Primeiro, é necessário atravessar esse nevoeiro de testosterona e de buços suados de raiva, a província turva do ressentimento, o que não se afigura tarefa fácil, segundo, é preciso não ser corrompido. É crucial não esquecer que a conversa nos moldes actuais é um ritual de conversão, ao qual é necessário resistir com todas as forças (e mesmo essas por vezes mostram-se insuficientes) cujo fito é transformarmo-nos noutro estúpido, possivelmente até de maior envergadura que aquele que presidiu ao ritual.
 
Nunca cessa de me espantar os cumes da empáfia alcançados pelo estúpido em cima do seu desengonçado todavia célere corcel do ressentimento, ao mesmo tempo que nos tenta seduzir com o evangelho da cólera. Como é que alguém no seu perfeito juízo (perdoem-me, bem sei que o mundo está entregue aos loucos) pode designar medíocre um escritor como Saramago? Quanto cursos, mestrados e doutoramentos é preciso tirar na Universidade dos Sem-Noção para alguém se abalançar em tais baboseiras?
 
A confiança cegante demonstrada por esta estirpe de seres humanos cujas fileiras não param de engrossar causa-me a mais genuína inveja. Tal como Cioran, desprezo a ausência do risco, da loucura e da paixão. Como sabem, o mundo não está para os vacilantes, para aqueles que se movimentam com o fardo das dúvidas às costas. Vivendo num tempo vertiginoso como é o nosso século, a confiança é normalmente o único critério que interessa. É a diferença entre ficar e abandonar, subir e descer, ganhar ou perder, em suma, entre a salvação e a maldição. O não haver tempo para nada elevou a confiança — e a confiança dos animais insuflados pela bazófia — ao Olimpo das características humanas mais desejadas.
 
Mas regressemos ao desnorte que é insultar gigantes à desgarrada, principalmente quando estes não se podem defender.
Quão destruído por dentro tens de estar para afirmar, sem que haja uma base justificativa por detrás, que um vulto como Saramago é medíocre?
Sou contra a violência, excepto em casos em que um engraçado, vindo da viela da pesporrência, se dirige a um vulto como Pessoa ou Saramago com a pergunta: Quem é? Nesse momento, o diálogo extingue-se e em seu lugar devia suceder um arraial de tabefes.
 
Saramago continua vivo, basta verificar a quantidade de ódios que gera aquando de datas comemorativas. Há os malucos da literatura, que leram três livros na diagonal em vida e pensam que são herdeiros de George Steiner, há fanáticos católicos, os quais só não incineram Saramago outra vez porque não dá, há os deturpadores da informação mais que conhecida, a saber: os desaguisados entre ele e o governo da altura, sacando limpidamente que Saramago é o mau da fita, enfim, o rol é interminável e dá-me náuseas. Camões acertou ao pôr inveja como última palavra n’Os Lusíadas. Após a inveja não há nada, só o ponto final.
 

Saramago e o império dos medíocres

 


Roberto Gamito

16.07.18

Fagundes_2.0_Rei do gado_história _.png

 

 

Organizada segundo uma ordem só sua, que outros, na retranca interpretativa, mais fraquinhos de miolo, encafuados em mansardas nas quais transacionam títulos académicos por chouriços, apodavam de caos, Abílio Fagundes, jovem herdeiro do título "rei do gado", coisa que só fora possível devido aos préstimos ululantes de variadíssimas senhoras prenhes de qualidades visuais, donas de coreografias íntimas que nos ficam a pairar para sempre em ambas as cabeças, vá, na cachimónia, para não ajavardar, algumas das quais dignas de figurarem no panteão das putas, a vida era, segundo Fagundes, uma fonte de prodígios, quer em qualidade, quer em qualidade, quer também em qualidade. A quantidade vem por arrasto, como gostava, a espaços, de gracejar. Uma fonte cujo líquido mudava de quando em quando. Ora vinho, ora cerveja, ora água, ora urina, só para dar alguns exemplos.

 

Fagundes era um homem rijo, daqueles que já não se fazem, até porque foi resultado de uma experiência científica clandestina - perdoem-me o pleonasmo - e a equipa de cientistas foi dispersada a toque de porrada e com uma saraivada de chumbo.
À frente do seu tempo, baptizou a sua ferramenta de trabalho como "Desconhecido". Porque carrega as duas coisas que uma mulher mais aprecia num homem: grandeza e mistério.

 

Chilrear que ele não percebia nada do mundo - afirmação cuja magnitude só pode ser equiparada ao disparate de Jesus querer mudar as pessoas com uma farpela de pedinte - é grave e só pode ser atenuada - isto são palavras do próprio Fagundes, não são minhas, sou tão-somente o seu biógrafo - se o abusador, o herege, principalmente se pertencer à casta feminina, sofrer reiteradamente o castigo, não divino, mas satânico, se é que me faço entender.

 

Fagundes tinha um sucesso tão estrondoso com as mulheres, que o seu pénis estava cotado em bolsa. Só para terem uma ideia do bicho do bicho. O pénis de Fagundes era o combustível, o motor, o carro, o condutor e os passageiros da economia do seu país. Era, como direi, um pénis sacro. Ergueram-se, mas de forma mais humilde, cultos à volta do falo de Fagundes, os quais disseminavam os gemidos e os uivos dos senhor. E algum sémen, à revelia do visado.

 

Há uma história apócrifa, contada pelo próprio, que, apesar de ter todos os ingredientes da verosimilhança, me parece inverosímil porque assim o desejo, uma vez que tal estragaria a minha linha de discurso como biógrafo.

 

Disse Fagundes, num tom elevado, próprio dos escolhidos: Certo dia encontrei uma mulher cujo corpo era isento de defeitos e apliquei-lhe, como cavalheiro pejado de qualidades que sou, respiração boca-a-boca, mesmo ela não precisando, coisa que não deu qualquer resultado a não ser uma bela bofetada nas ventas. Cogitei, alcançando um estado de consciência mais elevado que o Nirvana, o chamado Red Hot Chili Peppers: Um tipo como eu, com provas dadas no campeonato da marotice, irrefutavelmente educado, calejado no existencialismo das miudezas da vida, não me lixem, uma pessoa nunca está bem à tona da vida. Está sempre em baixo, a sufocar. Ao facultar-lhe um beijo sentido, um beijo experimentado, estaria a trazê-la para um patamar de uma vida mais plena. Mas pronto, fui mal interpretado.
É o destino dos escolhidos.

 

Ela chamava-se Cátia, ou Andreia, ou Susana, ou Ana, ou Sofia, ou Sónia, ou Inês, ou Mariana, Marisa?, Cláudia, o que consegui decorar mesmo foi cada milímetro do seu corpo.
Sou mau com nomes, mas agora em epidermes não há quem compita comigo, concluiu Fagundes ou o biógrafo.


Roberto Gamito

01.07.18

meme.png

 

 

 

O jogo tem quatro minutos e já o Fernando Santos está irritado como se tivesse descoberto a mulher na cama com o melhor amigo.

 

William Carvalho não é um jogador de futebol, é uma antologia de passes falhados.

 

Não estou nervoso. Hoje fui a uma marisqueira e uma sapateira garantiu-me que íamos ganhar.

 

Chamam a isto uma parte de um jogo de futebol? Ganhem vergonha nas ventas, isto no máximo foi o Uruguai a dar um workshop de como engonhar durante 45 minutos.

 

A minha reacção a esta primeira parte dever ser idêntica à de uma gaja que leva para a cama um gajo visualmente apetitoso e depois descobre que ele é um trambolho no sexo. Estou francamente desiludido. E já nem quero repetir.

 

A defesa portuguesa dá tanta segurança como a polícia na série Luke Cage.

 

Noutra ocasião diria "chupem", "mamem", mas como foi o Pepe, cultor das entradas duras, digo: "Está todo lá dentro!"

 

Isto já não é um jogo de futebol, é uma epopeia. É só cantos.

 

Há um gordo que não consegue concretizar com as mulheres. Sabem qual é o nome desse gordo? Portugal.

 

Fernando Santos já meteu o Quaresma. Está a guardar o trunfo do telefonema para Nossa Senhora de Fátima para os descontos.

 

O Bernardo Silva parecia o professor Snape, do Harry Potter. Muita magia, muita magia mas depois morreu.

 

O Uruguai vai à área de Portugal como um velho rico sai à noite. Sai pouco mas quando sai é sempre para facturar.

 

Acabou. Podemos ir às nossas vidas e arrumar o William Carvalho junto aos bonecos de Subbuteo.

 

Vamos ter calminha e analisar a prestação da seleção portuguesa de forma racional. Só há um culpado: a música do Darkframe.

 

Bem, vou ali bater com os cornos numa rocha até ficar com amnésia. Não vejo necessidade nenhuma em recordar este jogo.

 

 


Roberto Gamito

25.06.18

imagem_blog_2.png

 

 

Moutinho não vai entrar neste jogo. Ou seja, Fernando Santos mantém a estratégia.

 

Se alguma bola entrar e sair da baliza e houver dúvidas podemos recorrer a alguém com mais prática nestas situações de entra e sai que o video-árbitro. O Bruno de Carvalho.

 

Mas isto é um jogo de futebol ou um espectáculo de dança contemporânea?

Estão todos no chão!

 

Mas isto é um jogo de futebol ou é um tributo ao Neymar? Caem todos. 

 

Só não me dispo aqui que é para não pôr ninguém a chorar. Que golaço!

 

Pronto, o Ronaldo já marcou de livre, o Quaresma marcou de trivela. Só falta o Pepe marcar de pontapé de bicicleta e o William de Carvalho começar a correr.

 

O William parece aqueles velhotes que só metem até à segunda mudança com medo de estragar o carro.

 

William Carvalho parece que já só anda à procura de um buraco no relvado para enterrar as chuteiras.

 

Cristiano Ronaldo quer marcar tudo. Os outros parecem groupies, dizem sim a tudo.

 

Acho que o William Carvalho está a fazer progressos. Temos de encarar é isto não como um jogo de futebol mas como uma sessão de fisioterapia. Também não pode ser só falar mal.

 

Isto é o síndrome Caldo Verde que tomou conta do Ronaldo. Vê um chouriço e quer logo molhar a sopa.

 

Fernando Santos tem sempre aquela cara de quem acabou de dar um linguado a um limão.

 

Vou começar a assistir aos jogos de Portugal com o cachecol e uma geleira com um coração extra.

 

 

 

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